Livros e leituras

REGINA M. A. MACHADO*

Da última vez que fui ao Brasil, de férias, comprei montes de livros quase intransportáveis, e além desses também ganhei alguns.

Do Cláudio Giordano, o editor mais idealista dessas terras, ganhei um daqueles livrinhos lindamente editados e sempre salvando alguma coisa preciosa e semi-esquecida, que só ele mesmo para renovar graficamente e trazer de volta aos olhos dos leitores. De outras vezes já tinha ganho minilivros encadernados pela Patrícia, filha dele, que para mim lembravam bonsais, com aquela poesia que têm as miniaturas, capazes de abrir um furo na parede que limita todo olhar, e deixar passar um raio de infinito.

Desta vez, o livrinho traz claramente a marca da Oficina do Livro Rubens Borba de Moraes, que ele manteve durante anos, aquele cuidado, aquele gosto em reproduzir as marcas de amor pelos livros, dele e dos autores que ele edita e dos bibliófilos que o consultam. São trechos das “ficções da memória”, selecionados pelo Cláudio e que refazem um comovente retrato do poeta Da Costa e Silva, a partir do livro escrito pelo filho Alberto, historiador especialista da África, diplomata e também poeta.**

Só depois de ler o livro é que fui procurar as referências do “Pai do menino” – é o titulo dado pelo Cláudio – pois dele apenas tinha vagas lembranças ligadas ao parnasianismo e ao simbolismo, todo aquele período que o Modernismo condenou adolescentemente e necessariamente, mas cuja proibição acho que já dá para transgredir, e começar a levantar uma pontinha da tapeçaria.

Até porque os ícones consagrados na temática modernista, o automóvel, a velocidade, a cidade que cresce vertiginosamente… tornaram-se os monstros que nos asfixiam num emaranhado de oleodutos e auto-estradas, e que agora nos empurram para uma redescoberta que vai ser preciso formatar de novo, de coisas que encantavam o poeta telúrico que descobri nessa colagem de fragmentos tão bem harmonizada no livrinho amarelo.

“Foi o pai que ensinou o menino a olhar os insetos.” Uma vez, em vez de contar como tinha encontrado Lampião, fez um desenho, traços rápidos que iam fazendo aparecer aos olhos encantados do menino “o cangaceiro de pé, a segurar o rifle, as cartucheiras a lhe cruzarem o peito…”. Para o menino, foi um deslumbramento. “O homenzinho parecia mover-se na página branca, à medida que recebia sandálias nos pés, fivela no cinto, anéis nos dedos e no aperto do lenço, estrelas no chapéu e tufos de grama no chão.” Completado o retrato, o pai acrescentou simplesmente que o cangaceiro também fazia versos.

Talvez seja esse o encanto dos retratos ditados pela saudade. Um detalhe, uma luzinha inesperada, uma saudade que se esfuma: “A saudade infeliz de um sol de estio”, como no soneto do pai, citado em epígrafe. “Os dois voltavam para casa pelo mesmo carreiro. Calados e lentos. A repetirem o simples da beleza”.

Essa beleza do simples é o que vai acabar na vida do pai, doente e obrigado a mudar com a família para o Rio de Janeiro. Na cidade grande, o menino se adapta, aprende a dormir em cama. (O que ninguém diz, mas que ultimamente, visto de longe, se me torna cada vez mais evidente, é como a rede é mais fresca do que a cama… detalhe a verificar num estudo antropológico dos ícones indiscutíveis da nossa urbanização?). Para o pai, os passeios já então em ruas asfaltadas, sem ter que distribuir “água e alpiste, sem caminhos com grandes sombras de mangueiras e sem vacarias a cujas cercas arrimar-se”, perderam o gosto. Ambos sentem falta “aos domingos, dos rapazes, com banjo, violão ou cavaquinho, que vinham tocar para o pai ou cantar-lhe versos. Nunca mais apareceram os poetas”…

Seguem-se entrechos da segunda parte das memórias, já no Rio, retrato de época e de poetas ainda jovens e desconhecidos. Retrato também de uma época que ainda tinha rescaldos de um ideal monocrômico, cuja crueza hoje soa apenas estreita. O pai tinha querido ser diplomata, mas foi recusado pelo Barão do Rio Branco, por ser feio – era magro e moreno, o que não correspondia aos ideais arianos do barão, cara de lua cheia em antiga nota de mil.

Não foi este o único achado da viagem, fiz outros, andando entre as estantes da Livraria Cultura no meu incontornável eixo ou peregrinação pela Avenida Paulista, mas quem fala de leitura e quer ser lida, não deve se estender demais…


* REGINA M. A. MACHADO vive fora do Brasil há anos, e como todo estrangeiro sabe, a solidão é boa companhia e faz aumentar a curiosidade e revirar a lua para descobrir-lhe o lado escuro. Um dia voltou à literatura brasileira como numa foto de satélite, mergulhou no foco e, ao se descobrir parte da paisagem revista,começou a escrever como quem coleta indícios para reconstituir velhas pistas perdidas no passar do tempo.

** COSTA e SILVA, Alberto da. Invenção do Desenho : Ficções da Memória. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007.

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