Olhos nos olhos do desenhista Rugendas: música e afeto na família escrava

LUIZ A. GIANI*

Alguém lhe diz que a falta de afeto na família “tem um nome: falta de dinheiro”, o que comumente é interpretado como resultado do fracasso da distribuição da riqueza. Por outro lado, você ouve um psicanalista afirmar que “não se pode ignorar o indivíduo, que não se pode jogar a culpa só na sociedade”. Então, você encontra nessas duas posições motivação suficiente para voltar à velha questão, ainda muito problemática, das relações entre indivíduo e sociedade.

Depois do projeto “fome zero”, a nação está se mobilizando para um novo projeto, em 2005, desta vez destinado a zerar a falta de afeto na família.

Falar sobre a presença do afeto na família leva-nos a associações com a atenção, cuidados, carinhos, agrados e variadas formas de apoio e relacionamento prazeroso presentes nas rodas de música, dança e demais artes, além de todo tipo de brincadeiras, jogos, rezas, festas, refeições, etc., etc.

Hoje, já é farta a literatura que enfatiza a alegria dos escravos e seus descendentes, no Brasil. A esta cultura africana dionisíaca contrapõe-se a civilização européia e cristã que, há vários séculos, vem recebendo críticas históricas sobre suas características castradoras, de sofrimento, dor e culpa. Para dar eficácia a seus objetivos, os “civilizados” cristãos inventaram mecanismos disciplinares e repressivos fundados na alegada existência do diabo, do pecado mortal e da pena capital, o inferno eterno. Sabe-se que as idéias e ideologias adquirem força material, dominando, subjugando, amordaçando a própria sociedade que as inventou. Livrar-se delas é tarefa extremamente difícil para o indivíduo. Quando os indivíduos o conseguem é porque já se constituíram condições sociais favoráveis, independentemente, em grande parte, da própria vontade dos indivíduos.

Entre os críticos da formação social brasileira, o editorialista Ênio Silveira (Editora Civilização Brasileira) relata que no programa da peça “Orfeu da Conceição” (“Orfeu negro”), encenada em 1956, o poeta Vinicius de Moraes “tornou bem claro que sua peça constituía, antes de mais nada, homenagem ao negro brasileiro. Homenagem à sensibilidade artística de uma raça eminentemente plástica, no sentido de que, através de ritmos, cores e formas, sempre conseguiu – na liberdade e no cativeiro – demonstrar genuína alegra de viver, adaptando-se às mais estranhas e por vezes odiosas condições…”

A filosofia, por ser invenção da sociedade grega, parece ter ficado muito restrita à Europa e suas colônias. A história da África é exclusiva ou predominantemente oral, até recentemente, o que impossibilita o amplo acesso ao pensamento dos antigos sábios africanos. Neste caso, os olhos da cidadania, hoje, voltam-se freqüentemente para os olhos dos brancos europeus, especialmente os viajantes, como Rugendas. Na observação de Sérgio Milliet (tradutor de obra de Rugendas), os conceitos de Jean Jacques Rousseau estavam ligados às concepções filantrópicas, em oposição aos interesses escravagistas. O humanismo de Rugendas tem ligações com Rousseau (no entanto, que condições teriam levado Rousseau, apesar de seu imenso humanismo teórico, a não assumir seus filhos, entregando-os na roda?). Os romances de Rousseau são obras primas da preocupação em torno da educação com música e afeto, entre outros recursos do coração.

Integrando a expedição científica enviada pela Rússia ao Brasil, para a qual fora contratado como desenhista, Rugendas (João Maurício Rugendas, Augsburgo: 1802; Weilheim: 1858) não se restringiu à arte do desenho em torno da música e dos afetos, entre outros aspectos e costumes, dos africanos escravizados (Rugendas abandonou a expedição, viajando por conta própria). Ele também filosofou sobre o que via e ouvia, enquanto desenhava “Batuque”, “Lundu”, “Jogo da capoeira”, “Festa de Nossa Senhora do Rosário, Padroeira dos Negros” e “Habitação de negros”, entre dezenas de outros quadros. O admirador dos quadros de Rugendas pode, assim, usufruir da rara oportunidade estética de juntar à sua subjetividade – a do olhar do espectador – a subjetividade do criador, qual seja, a do olhar do próprio Rugendas.

Para citar pelo menos uma fala dos afro-descendentes sobre a sua própria história, recorremos a Alaor Gregório de Oliveira (presidente da Associação União e Consciência Negra, de Maringá) e Valdeir Gomes de Souza (Assessor Municipal de Promoção da Igualdade Racial, de Maringá). Em um trabalho acadêmico, para o Curso de Especialização em Ciências Sociais, “Reflexões sobre as relações interétnicas e a questão racial no Brasil”, do Departamento de Ciências Sociais, da Universidade Estadual de Maringá, eles reafirmam que “a principal marca do modo de ser brasileiro deixada pelos negros é, sem dúvida, a alegria. Uma alegria que persiste mesmo diante das grandes e reconhecidas desigualdades sociais que excluem grande parte de nossa população, justamente onde encontram-se inseridos os negros e descendentes. Os negros escravizados, mesmo diante das formas cruéis de vida, dos castigos físicos e morais impostos, apesar de tudo isso, encontravam momentos para extravasar na música, na dança e nos folguedos uma alegria incompreendida pela lógica do colonizador”. Trata-se de um tempo de prazer subordinado e, ao mesmo tempo, contraposto ao tempo de trabalho escravo.

Pode-se afirmar que a aguçada sensibilidade de Rugendas o fez perceber a contradição entre o prazer e o trabalho explorado. Música, afeto e dança estão em contradição com o trabalho escravo, tal como ele captou, em um nível de percepção bem acima dos homens letrados de seu tempo. Diz ele, no capítulo “Usos e costumes dos negros”, da Viagem pitoresca através do Brasil, obra editada em Paris, 1835:

Dir-se-ia que após os trabalhos do dia, os mais bulhentos prazeres produzem sobre o negro o mesmo efeito que o repouso. À noite, é raro encontrarem-se escravos reunidos que não estejam animados por cantos e danças; dificilmente se acredita que tenham executado, durante o dia, os mais duros trabalhos, e não conseguimos nos persuadir de que são escravos que temos diante dos olhos (Rugendas. Viagem pitoresca através do Brasil)

E hoje, “abolida” a escravidão, o que acontece? Uma corrente sociológica insiste em afirmar que o lazer é uma função do tempo livre. E mais: que a sociedade moderna atual é a sociedade do lazer. Contra a tônica positivista desta concepção, uma das correntes marxistas prefere entender que, enquanto houver trabalho explorado, o tempo da música, afeto e dança é tempo liberado (e não livre) do trabalho, tempo destinado a recuperar as forças de trabalho exploradas. Não existe, assim, tempo livre nas sociedades em que o trabalho é trabalho explorado, sob uma nova forma, a capitalista. Esta levou o poeta Cazuza a cantar que “enquanto houver burguesia não haverá poesia”.

O prazer da música, do afeto, da dança, não se contrapõe ao trabalho, quando a formação social é a da comuna, proprietária do seu próprio trabalho e seus produtos. Assim, pode-se arar, plantar, colher, caçar, etc., no mesmo espírito com que se canta e dança, sem a opressão inerente ao trabalho explorado. Trabalho e prazer estão em harmonia, confundem-se, não se separam.

O olhar de Rugendas sobre a contradição entre o prazer e o trabalho vale para os dias de hoje? Fica para você, leitor, a conclusão. Em tempos de escravidão, o prazer contrapõe-se a trabalho escravo. Hoje, a música, o afeto, a dança e o carinho da família contrapõem-se a quê, quando a maioria da população já está excluída do trabalho? Como se resolve a química entre, de um lado, Orfeu, Dioniso, os afetos, e, de outro lado, a exclusão do trabalho – modo de ser da chamada “razão instrumental” (meios destinados a atingir com racionalidade os fins impostos pela lógica do capital) – que atinge um número imenso e cada vez maior de famílias? Um bilhão de famintos, no planeta: bem maior que esta é a cifra de todos os excluídos. Como parte desse quadro, a família atual é conseqüência e não fator, à semelhança da família escrava.


* LUIZ A. GIANI é Professor da Universidade Estadual de Maringá e Doutor em História pela História pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Campus de Assis). Ministra a disciplina Teoria Crítica da Sociedade, no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais – Mestrado, da Universidade Estadual de Maringá. Publicado na REA nº 44, janeiro de 2005, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/044/44cgiani.htm

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2 comentários sobre “Olhos nos olhos do desenhista Rugendas: música e afeto na família escrava

  1. Caro Luiz A. Giani, certamente em razão da minha ignorãncia considerei este comentário uma salada de frutas a respeito da educação de filhos. A começar com a crítica à falta de distribuição de riquezas como uma das causas da falta de amor na família!
    Eu pensava que essa falta de afeto se devesse à irresponsabilidade de um casal que botou filho no mundo sem condições.
    Em consequência, aquela criança não foi bem-vinda, será um estorvo, dificultará mais ainda a sobrevivência de seus genitores.
    Ela será criada com esse estigma, de inconveniente!
    Esqueceste que o ser humano é movido a desejos e, o principal, o sexual.
    Assim que a Maria pariu um rebento em um ambiente com dificuldades de mantê-lo ou ela já está prenha de outro filho com o companheiro ou com outro homem; igualmente do lado do macho de merda (não vou pedir perdão pela palavra empregada, pois ela traduz para mim o que é um homem que não se responsabiliza pelos filhos que traz a este plano) que, inconsequentemente, engravida a sua mulher ou tem com outra mais uma criança!
    Não é um círculo vicioso, não, mas criminoso!
    Não há amor nessas relações, a não ser uma função biológica.
    Da mesma forma, se os escravos deixaram essa impressão de cãnticos, rodas, diversão, danças, após trabalho estafante, que surpreendeu Rugendas, ele não nos informa o futuro daquela menina ou menino nascido escravo. Bom, não precisaria mesmo.
    Se feliz à noite com seus pais descansando, certamente de dia um tormento só, independente da sua idade.
    Por outro lado, omitiu as barbáries que os senhores de escravos cometiam com meninas em tenra idade, estupros, sujeição, venda desses seres humanos para outros escravistas, ocasionando a dor de uma perda irreparável naquela família de escravos.
    Olha, professor Luiz, não foram mencionadas as palavras amor, condição que deve prevalecer na criação de filhos e, responsabilidade, o compromisso dos pais para aqueles que trouxeram a este planeta.
    Somente atividades lúdicas não irão compor uma futura pessoa equilibrada, que tanto possa receber quanto dar amor, que contribua para a solidez de uma família, cuja condição material precisa ser levada em conta, sim, sob pena de se tornar dependente da caridade alheia.
    Ora, esperar por auxílio o casal que tem filhos, que não os tenha, simples!
    Nenhum regime político ou sistema financeiro pode ser responsabilizado por isso.
    Podemos atribuir culpa aos governos e à sociedade quando esses não se preocupam em proporcionar aos mais necessitados uma forma de planejamento familiar, aí, sim!
    Quando permitem a intromissão INDEVIDA de religiões nesta questão, esquecendo-se por completo que o bebê não mereceria nascer sem condições materiais e emocionais dos que o geraram.
    Ou não se pode estabelecer direitos para quem não nasceu ainda, portanto, não sofreu, a não ser depois de vindo ao mundo e condenado a sofrer?!
    Uma terrível contradição, então, dos que se arvoram defensores dos direitos humanos?!
    E os deveres?
    Não podem ser antecipados na forma de se projetar o nascimento de filhos naquela união entre a Maria e João que não possuem os pressupostos à geração de uma criança?
    É preciso que eles a tenham para depois um séquito ou ongs oportunistas se aproveitarem dessa circunstãncia e saírem lucrando ou berrando a plenos pulmões que o culpado é o capitalismo?!
    No comunismo não tem pobres?!
    Não se passa fome em Cuba, Coréia do Norte, China, mesmo tendo aberto sua economia, Rússia, igualmente um capitalismo capenga que se viu obrigada a adotar porque seu regime falira justamente pela falta de comida à população?!
    Faz-se mister encontrar-se novos culpados à miséria humana.
    Eu encontrei os meus:
    A nossa irresponsabilidade ou desamor, como preferirem.
    Mas criar filhos, sustentá-los, educá-los, formá-los, requer dos pais muito mais que atenção ou atividades domésticas, exige, antes de mais nada, que AMEM o filho, que se esmerem na busca de condições para mantê-lo, que sirvam de exemplo através de seus comportamentos e atitudes, razão pela qual esse envolvimento não é para qualquer homem ou mulher que simplesmente desejam ter uma criança, mas que estejam devidamente preparados física e psicologicamente, e que tenham a segurança em seus trabalhos para proporcionar um ambiente onde impere alimentos na mesa, e não à esperança de que naquele dia uma alma caridosa irá fazer isso, mesmo que haja dança, jogos, rodas, cânticos, trabalho e prazer, até a barriga roncar de fome ou constatar que o seu pai fugiu ou a mãe mora com outro ou, a família, que um dia saberá que existe mas, para ele, jamais esteve formada porque seus pais não agiram como deviam!
    Considero as observações de Rugendas um simples apanhado de uma situação, algo ocasional, sem maiores pretensões, a começar que o exemplo utilizado para demonstrar alegria foi extraído da página mais dolorosa da nossa história, a escravatura!

  2. Oi, meu querido amigo Luis Antonio Giani:

    Fico contente em ler, aqui, mais um ótimo texto seu. Gostaria de lembrar um fato a que poucos dão importância, mas que é extremamente relevante para se aprofundar mais na análise que você faz. O fato: os Senhores, proprietários dos escravos, estimulavam a dança e o batuque dos escravos. O Lundu e o Batuque eram estimulados e festejados pelos donos dos escravos, porque nessas danças os negros e as negras praticavam a umbigada: o toque e o roçar de umbigos, golpeando barriga contra barriga. Isso ganhava pouco a pouco ares de lascívia, estimulando os apetites sexuais. Os Senhores sabiam que esse passo da dança lhes garantia a fabricação de novos escravozinhos.
    Pena é você ter chamado Cazuza de poeta. Ora! Aquele “verso” dele, que você cita, nada mais é que uma vazia frase de efeito, boa para vender discos para a pequena burguesia. Esta, e não só o proletariado e a aristocracia, sempre produziu, sim, muito boa poesia.
    Abraço,
    Jorge Antunes
    Brasília, DF

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