A dor absoluta

FÁBIO VIANA RIBEIRO*

Talvez seja possível especular que, apesar da simplicidade do roteiro, nem mesmo o diretor de Ponette imaginava ir tão longe e tão profundamente no quase insondável mundo dos sentimentos de uma criança.

Num plano convencional, não são poucos os grandes filmes que retrataram o universo infantil. Em geral foram feitos, até onde vai meu conhecimento, de forma “traduzida”; de um modo tal que o mundo da infância é sempre a idéia que os adultos têm a respeito da infância. Talvez seja o caso de se pensar que o que existe de verdadeiramente profundo e insondável no mundo de uma criança, é a parte que permanece absolutamente insondável aos adultos, como umas dessas regiões dos oceanos onde ninguém jamais esteve. Talvez por isso, sempre achei incrível – no sentido exato da palavra, de quase não ser possível acreditar – ver fotos de figuras como Stalin, Hitler ou Mao Tsé Tung quando tinham quatro, três, cinco anos de idade. Nenhuma psicanálise, nenhuma dúvida a respeito de qualquer determinação infantil em suas personalidades. Apenas a constatação de como eram frágeis, e que como qualquer criança, viviam num mundo tão distante dos adultos que os cercavam quanto, mais tarde, passaram a viver dos mortais submetidos ao seu poder.

Cena do filme

O argumento de “Ponette” é simples: uma menina de quatro ou cinco anos de idade perde a mãe num acidente de automóvel. Como uma criança de quatro ou cinco anos de idade poderia entender a morte? A grande proeza do filme reside em terem conseguido captar o desesperado sentimento de abandono, captado na perfeita representação da jovem atriz. E num tal grau que muito se discutiu sobre como foi possível chegar a tanto com uma atriz tão jovem. Entre outras especulações, conta-se que foi dito a mesma, durante as gravações, que sua mãe estava gravemente doente.

Algumas das cenas do filme lembram “O enigma de Kaspar Hauser”, de Werner Herzog. Comum aos dois filmes, duas crianças (no caso de Kaspar Hauser, por assim dizer existindo sob o corpo de um adulto) que se descobrem de um momento para outro perdidas num mundo que não podem compreender. Para Ponette, resta seu pai, sua tia e a jovem auxiliar da creche onde é deixada por alguns dias. E as outras crianças, talvez as únicas que poderiam compreendê-la; mas que, como crianças, quase não sabem como fazê-lo. Poucas vezes a literatura e o cinema conseguiram descer ao abismo que envolve a dor pela perda da pessoa amada; aquela que dava sentido ao mundo para aquele que ficou. Mas, nesses casos – como talvez no mais denso de todos, “O morro dos ventos uivantes”, de Emily Brontë – os sentimentos de solidão, desespero e dor são vividos por adultos.

Os sentimentos dos adultos talvez sejam sempre “imperfeitos” pelo fato de serem sempre mediados pelo resultado de suas experiências no mundo. Sabemos o que significa nosso próprio sofrimento; sabemos que com o tempo deixará de existir, que podemos “modificá-lo” transformando-o em autocomiseração ou, eventualmente, que serviços e eventuais vantagens derivam de nossa condição. Uma criança não pode fazer isso, por não possuir conhecimento suficiente e desconhecer o uso dessas habilidades. Experimentam uma dor que é absoluta. No caso de “Ponette”, é espantosa a capacidade do filme em captar essa condição: a tristeza pela morte da mãe e as tentativas feitas pela criança de reencontrá-la; à noite antes de adormecer, usando fórmulas mágicas, sozinha no campo, no cemitério onde a enterraram…

As cenas finais de Ponette se constituem talvez, na parte mais enigmática do filme. De alguma forma a vida teria de continuar para Ponette. “De alguma forma” inclui, inclusive, “de alguma forma não continuar”, como em tantos casos em que a vida da parte que sobreviveu termina sendo como que paralisada desde aquele instante. Ou, entre os adultos, nos frequentes casos de casais que após terem vivido décadas juntos, o viúvo ou a viúva morre pouco tempo depois da morte de sua esposa ou marido. Ao final da história, Ponette decide continuar sua vida. Do ponto de vista de um psicólogo, a explicação da cena seria quase que banal. Mas talvez, esteja muito longe de sê-lo, se tivermos a capacidade de ir além de nossa habitual racionalidade de adultos.

É quase automática, após assistir o filme, a curiosidade a respeito do modo como o mesmo foi feito, sobre o diretor e os atores. Boa parte das cenas acontecem entre crianças, que nos créditos finais – com exceção da atriz Victoire Thivisol – são apresentadas com seus próprios nomes; e que não são, naturalmente, atores profissionais. Chama a atenção a trágica morte, anos mais tarde, da atriz Marie Trintignant, que faz no filme o papel da mãe de Ponette. Marie Trintignant, que era mãe de quatro filhos, e filha do ator francês Jean-Louis Trintignant, morreu em consequência de ter sido violentamente agredida num quarto de hotel por seu então namorado, o cantor Bertrand Cantat.

Ficha Técnica

Título Original: Ponette
Gênero: Drama
Direção: Roland Suso Richter
Duração: 97 minutos
Ano: 1996.
País de Origem: França


* FÁBIO VIANA RIBEIRO é professor adjunto da Universidade Estadual de Maringá (Departamento de Ciências Sociais) e Doutorem Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).

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4 comentários sobre “A dor absoluta

  1. Caro Abrahão,

    É do Schopenhauer (um grande especialista no assunto…) a observação de que a diferença entre a felicidade e a dor é enorme: para sermos felizes dependemos de uma quantidade razoável de coisas, muitas delas fora de nosso controle; por outro lado, para sermos infelizes, basta ficarmos parados que certamente o seremos (por meio da solidão, fome, sede, etc). De fato, como você disse, a dor é democrática.

    Mas concordo que a natureza foi, pelo menos no aspecto que observou, mais generosa com as crianças do que com os adultos. Entre estes, uma simples frase ou um esquecimento pode dar motivo ao rompimento de uma amizade. Por outro lado, qualquer um que observe duas crianças de pouca idade brincando, notará como “ficam de bem” rapidamente, seja dos pais que lhes deram “um torra” ou do amigo que lhes deu um empurrão.

    Um abraço e obrigado pelo comentário!

    Fábio.

  2. Caro Raymundo,

    Apenas acrescentaria um ou dois detalhes ao seu comentário. Penso que seja “tecnicamente” impossível educar uma criança sem qualquer tipo de repressão. Na verdade seria melhor separarmos o que de fato poderia ser considerado “repressão” daquilo que é contingente a qualquer processo de socialização (e que na infância é feito basicamente via educação). Forçar uma criança canhota a escrever com a mão direita é um exemplo de repressão. Mas, se pensarmos bem, outras tantas coisas, hábitos, modos de pensar, etc, que são transmitidos às crianças significam “formatar um pensamento, uma conduta, etc”. Ou seja, em algum grau, mesmo que leve, significam algum tipo de repressão. Não é possível deixar (ou até seria, mas com consequências desastrosas…) ao critério de uma criança, avaliar se é bom ou mau matar outra pessoa; deixar ao seu critério aprender a língua portuguesa quando existem tantos outros idiomas, etc. Nenhum educador ou pai (nem eu nem você, por exemplo) é indiferente ao que está explicando ou tentando ensinar: esforçamo-nos para que nossos filhos ou alunos entendam o que estamos dizendo de um modo determinado, e não de qualquer modo. Nesse sentido, existe sempre um quociente “repressor” em todo processo de educação e socialização. Toda a dificuldade reside em separar a “repressão” boa, da “repressão” ruim… Lembra a frase do Decartes sobre o bom senso: todo mundo acha que o tem em quantidade suficiente…

    Mas, obrigado pela leitura e pelos comentários. E fico contente por ter se sentido motivado a ver o filme; esse era o objetivo principal do texto!

    Abraço,

    Fábio.

  3. A dor é democrática. Todos em algum momento de suas vidas a recebem de graça , mesmo não querendo.
    A dor de uma criança provavelmente é mais intensa e real do que a dor adulta. a criança recebe a dor como impacto, traumático por ser uma coisa inevitável e inexplicável. A criança não sabe interpretar racionalmente a dor, faltam-lhe reflexões adultas , mas, como não tem adquirido ainda o conhecimento, vivem intensamente a dor em suas vidas.
    E o que é belo é que quando ao raiar do dia, ela já não se lembra mais dessa dor intensa. A natureza fez o milagre da vida vencer a dor.

  4. Fábio. Sua resenha me instigou assitir este filme, Ponette. Realmente, vários filmes usam crianças e tentam forjar seu universo mas com o olhar de adultos. O grande Alain, pensador que influenciou muitos educadores até a déc. de 70, chamava a atenção para o “povo criança”, pq ele via entre elas uma cultura própria, com linguagem, bricadeiras, simbolismos, rituais, etc próprios desse povo, que, na maioria das vezes é incompreendido pelos adultos. A repressão dos adultos de antigamente e de hoje, ainda existe, em nome da educação. Veja por exemplo, a alegria com que as crianças brincam com a escatologia (meleca, pum, coco, xixi..), elas curtem essa coisas demasiadamente humanas, mas reprimidas pelos adultos.
    Mas como na atualidade está “desaparecendo a infância” (Neil Postman), porque elas estão migrando – ou sendo pressionadas – para viver o mundo dos adultos, muito cedo, ou pelo menos para o mundo da adolescencia, não sabemos como está se configurando a infancia nesta época líquida ou hipermoderna.
    Outra observação imporante que voce faz é sobre o luto de uma criança. Neste caso, muitos psicanalistas e psicoterapeutas estudam essa situação. Tanto o luto da perda da mãe, pai, irmão, como o luto de um bichinho de estimação. (Nesta revista, publiquei um ensaio sobre “Se o bichinho morrer” e até fui ridicularizado por gente que “perdeu a ternura” na luta política. Ah, ainda, existe o luto da separação dos pais, aliás muito frequente hoje em dia. O belo filme iraniano, “A separação”, mostra a situação de uma adolescente diante da separação dos pais…Mas há outros filmes que tratam mais a fundo sobre este tipo de luto da criança ou de adolescentes. Raymundo.

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