Superman: da necessidade do Redentor (Parte I)

ALEXANDER MARTINS VIANNA*

“Mesmo que cresça como humano, você não será como eles. Eles podem ser um grande povo, Kal-El. Eles desejam sê-lo. Somente falta a eles a luz para mostrar o caminho. Por esta razão e, acima de tudo, por sua capacidade para o bem, enviei você para eles, meu único filho… A sua liderança pode despertar as pessoas para a sua própria capacidade de aprimoramento moral, [mas]o coração humano ainda está sujeito a artifícios monstruosos…” (Voz de Jor-El, envolta em aura musical sagrada, na forma de lembrança para Kal-El)

O foco explorado por Bryan Singer para o drama de Kal-El mantém uma tendência que observamos nos demais filmes de super-heróis de classe média do contexto George W. Bush: a ideia de um ente excepcional sacrificial tensionado entre um projeto de felicidade privada e o fardo/destino de usar seus poderes extraordinários para o bem comunitário. Já demonstramos a presença deste dilema moral na análise do filme Homem-Aranha 2. Para tratar de tema tão complexo em um filme repleto de emblemas morais muito significativos da cultura literária protestante dos EUA, dividirei minha análise em uma sequência de cinco posts, que serão publicados entre fevereiro e junho de 2012 na coluna ENSAIOS SOBRE CINEMA do blog da Revista Espaço Acadêmico.

Neste primeiro post, inicio com a exposição de uma breve biografia do diretor Bryan Singer para, partindo dela, começar a construir um primeiro enfoque de hipótese contextual para a minha análise a respeito da presença no filme de temas e tópicas políticas e culturais dos anos 2000, tratadas a partir do repertório literário clássico e bíblico, mas numa ancoragem cultural própria da vertente liberal-humanista de protestantismo dos EUA, em contraste com as vertentes do fundamentalismo cristão que apoiou o governo George W. Bush.

Bryan Singer (1965- )

Bryan Singer nasceu em 17 de setembro de 1965, na cidade de Nova York. Órfão, foi adotado por uma família judia de New Jersey. A mãe foi ativista pela causa do meio-ambiente e seu pai era um alto executivo. Criado em família judia liberal, Singer não teve uma educação familiar religiosa. No entanto, a sua educação escolar esteve marcada por sua passagem em centros de excelência de forte tradição liberal protestante: a escola de ensino médio West Windsor-Plainsboro High School South (Mercer County/New Jersey), a School of Visual Arts (Manhattan/Nova York) e a School of Cinematic Arts da University of Southern California (USC).

Bryan Singer participou do desenvolvimento da história de Superman – O Retorno, repetindo a mesma parceria de trabalho em X-Men (2000, coprodução com Richard Donner) e X-Men 2 (2003) com os jovens roteiristas Michael Dougherty (n.1974) e Dan Harris (n.1979). A razão de eu começar a tratar deste filme a partir do diretor se explica pelo fato de que entendo que há uma relação entre sua trajetória pessoal e a forma como configura os personagens principais, relacionando: as chaves protestantes humanistas liberais do tema da redenção por meio da obra comunitária, o discurso visual da excepcionalidade multicultural/multirracial norte-americana e o tema da ameaça diabólica prometeica do poder econômico e tecnológico ética e socialmente irresponsável.

Singer é abertamente gay e podemos perceber que a sua trajetória familiar e pessoal transparece na grande afinidade demonstrada, em alguns de seus filmes, com a causa das minorias. Aliás, no filme Superman – O Retorno, observamos várias tomadas ou cenas de condensação que justamente valorizam ou veiculam positivamente uma ideia multicultural/multirracial de Metrópolis, igualmente interessada e feliz com o retorno do redentor.

Em 2006, durante a campanha publicitária do filme Superman – O Retorno, ao ser questionado pelo fato de nunca ter lido histórias em quadrinhos sobre Superman, Singer responderia que se identificava com o personagem – ambos eram órfãos adotados – e que o seu projeto de sequência da história do Superman tinha afinidade dramática com os filmes de Richard Donner: Superman (1978) e Superman 2 (1980). Foi destes filmes que ele, ainda jovem, consolidou em sua lembrança um cânone de Superman e de seu drama existencial.

Portanto, Singer deliberadamente desconsiderava a ideia de fazer uma continuidade da trama a partir dos filmes Superman 3 e Superman 4, ou a partir de algum arco mais recente de histórias (em HQs e animação) da DC Comics, embora tivesse o cuidado de preservar os traços centrais da franquia do Superman, reelaborada a partir do drama pessoal do personagem tal como figurado nos filmes de Richard Donner. Não por acaso, as cenas emblemáticas com Jor-El (atuadas originalmente pelo falecido ator Marlon Brando) foram tratadas digitalmente e reintroduzidas no filme de Singer, de modo a estabelecer a conexão emblemática com os filmes de Donner. Aliás, Marlon Brando morreu no mesmo mês em que o projeto do filme Superman – O Retorno foi debatido na produtora Warner Bros: julho de 2004.

Em ambos os filmes de Richard Donner, a trama amorosa entre Clark Kent e Lois Lane se misturava com a responsabilidade maior de combater ameaças globais, o que intensificava o dilema de equilibrar, com segurança para os entes queridos mais próximos, a relação entre responsabilidade comunitária e felicidade na vida privada. Os filmes de Donner e Singer optam por um Kal-El que sacrifica a possibilidade de ter felicidade conjugal para se manter como o “nosso maior protetor”. Daí, não foi difícil para Singer partir dos filmes de Donner para propor o tema do necessário ou providencial “retorno do redentor”.

No entanto, a presença, ausência e nova presença “entre nós” de “nosso maior protetor” formam um conjunto de motivos e temas relacionados ao próprio paradoxo da existência e permanência de Kal-El (“o filho das estrelas”) na Terra. Podemos observar um exemplo marcante de paradoxo no fato de a história de Singer propor um Lex Luthor que produz uma ameaça global por meio do uso diabólico do conhecimento científico e dos meios tecnológicos superiores do mundo estranho/estrangeiro de Kal-El, contidos nos cristais da sua Fortaleza da Solidão.

Portanto, se Kal-El não estivesse entre nós, o artifício de poder de Luthor não seria possível, o que expressa dramaticamente o paradoxo da adoção do superpoder na Terra sem travas éticas, sem o autolimite da consciência ou desprovido de um senso moral de responsabilidade comunitária. Singer representa esta ideia condensando em Luthor o tema literário clássico de Prometeu, isto é, o deus do panteão clássico que rouba o conhecimento velado do fogo (tecnologia) e entrega aos homens. No tema clássico, por ter agido assim, Prometeu é condenado à dor eterna. Luthor se figura conscientemente e cinicamente como Prometeu, posicionando-se moralmente como antítipo de um “deus egoísta que voa em capa vermelha e não divide o seu conhecimento com a humanidade”.

Como um diabólico Prometeu, Lex Luthor torna-se o emblema de um interesse financeiro especulativo e bélico de superpoder, mas sem associar a isso maiores responsabilidades quanto ao bem-estar comunitário e proteção das pessoas. Kal-El não divide o seu poder porque entende que a humanidade dá provas de não estar preparada moralmente para tê-lo, precisando ainda de um longo aprendizado por meio de sua liderança moral (não política, portanto). Por isso, quando descobre que Luthor roubou seus cristais, Kal-El está plenamente consciente de sua responsabilidade como “nosso maior protetor” que deve conter a ameaça global do artifício diabólico prometeico de Luthor.

No início do filme, o gabinete aristocrático da biblioteca de um Lex Luthor parvenus é o antítipo moral, intelectual e social do ambiente de profissionais liberais de classe média do Planeta Diário. Não por acaso, é neste cenário de opulência imperial vitoriana que Luthor desenvolve o seu emblemático diálogo com Kitty Kowalsky, no qual explica a sua tese a respeito da relação entre domínio tecnológico e a história da ascensão e queda dos grandes impérios. Nessa sequência cênica, os detalhes fotográficos, os pendants dramáticos, o cenário geral, o figurino, a música, a performance, a luz, as tomadas e o diálogo estão em perfeita consonância estética para figurar as ideias-chave que serão focos de embate ao longo da trama.

Toda a estética fílmica da sequência cênica no “gabinete de Luthor” é produzida para fomentar a distinção entre, por um lado, a ética sacrificial da responsabilidade pelo bem-estar global e aperfeiçoamento ou resgate moral da humanidade e, por outro lado, a mera dominação especulativa financeira e predatória. Na composição desta sequência cênica, considerando o enquadramento da finalização do diálogo, há uma alusão à China como o grande império atual que não deve agir como um Lex Luthor predatório ou como um superpoder (tecnológico-militar e financeiro) irresponsável. No entanto, o desenvolvimento da trama de Luthor lembra ao espectador que o império doméstico norte-americano também tem seu dever-de-casa: não pode ser exemplo de escândalos financeiros que abalam a confiança da comunidade política em suas instituições e nos valores dos “pais fundadores”.

O projeto do filme de Bryan Singer foi iniciado em julho de 2004, filmado em novembro de 2005 e lançado em 2006, ou seja, a conjuntura em que a mídia norte-americana ficou assolada com o escândalo, envolvendo o gabinete presidencial, da especulação financeira em torno da falência da Enron Corporation, que atuava principalmente no ramo enérgico. Considerando tal conjuntura, a alegoria à China e à sua proximidade com a elite especulativa doméstica (condensada no enquadramento em que Luthor fica diante da estátua chinesa) talvez explique a presença obsedante no filme do vínculo implicativo causal entre o uso maléfico dos cristais (tecnologia avançada) e as quedas perigosas de energia em Metrópolis.

Com certa originalidade, observamos Singer pensar, por um lado, a água como elemento de detonação do poder dos cristais, numa conjuntura de debate sobre os protocolos de Kyoto em que a questão da preservação dos recursos hídricos do planeta não seria apenas parte de agendas ambientalistas, mas um fator estratégico efetivo de expressão e projeção de poder; por outro lado, Singer associa ao poder emergente de Luthor o engenho científico de explorar combinações especiais de recursos minerais como fatores estratégicos para projeção de superpoder. Não por acaso, controlar recursos minerais energéticos são fatores de expressão do poder disputados no mundo pelos dois maiores impérios da atualidade, EUA e China, cujos interesses econômicos e estratégicos se entrelaçam e se chocam ao mesmo tempo.

Superman – O Retorno
Título original: Superman Returns
Lançamento: 2006
Direção: Bryan Singer
Roteiro: Michael Dougherty e Dan Harris
Atores: Brandon Routh; Kate Bosworth; Kevin Spacey
Locações da Filmagem: Austrália
Produtora: Warner Bros.


* ALEXANDER MARTINS VIANNA é Professor de História Moderna e Contemporânea do Departamento de História da UFRRJ.

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6 comentários sobre “Superman: da necessidade do Redentor (Parte I)

  1. Todos os filmes transmitem um tipo de ideia ou valor moral e ético para quem o assiste. Nesses posts sobre o Filme do Superman são fantásticos! Explorou o máximo de informações possiveis contidas no filme. Adorei essa ideia de mostrar cada detalhe do filme e o porque desse detalhe. Fascinante! Muito bom trabalho!

  2. Caro Ozaí,
    Saudações cordiais!
    O trabalho gráfico ficou ótimo.

    Convido os leitores a explorar as imagens como evidências de meu argumento. O sítio possibilita que elas sejam vistas separadamente, como slide, o que permite ler melhor as suas legendas. Basta clicar sobre elas…

    Muito obrigado pela atenção de todos.

    Alexander Martins Vianna
    DHIST-UFRRJ

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