Quem quer ser um milionário? Um olhar do cinema às alternativas dos cotidianos no aprender

ARISTÓTELES BERINO* **

Acho que o cinema exerce certo poder hipnótico sobre os espectadores.
Luis Buñuel (2009, p. 103).

Um dos auxiliares mais importantes para o professor moderno,
todo o mundo o sabe, – é  o cinema.
Cecília Meireles (2001, p. 7)

Fascínio

O que nos faz caminhar até a bilheteria, seguir até a sala escura e depois esperar que as imagens comecem, experimentando o que nos é mostrado por aproximadamente duas horas? O que nos leva tantas vezes ao cinema, repetindo esse acontecimento da infância à velhice, como uma ação praticamente atemporal e planetária? O cinema parece ser tão irresistível quanto sonhar. Não evitamos o cinema, simplesmente somos atraídos para um enredo de formas, cores e sons criado para a nossa perpétua admiração.

Mas não foi sempre assim. Buñuel (2009, p. 51-53) conta que conheceu o cinema em 1908, mas o pai, morto em 1923, provavelmente nunca viu um único filme na vida. Quando Georges Méliès procurou Lumière, um dos inventores do cinema, para adquirir um aparelho foi desencorajado. Para Lumière, diz Jean-Claude Bernadet (2006, p. 11), “mesmo que o público, no início, se divertisse com ele, seria uma novidade breve, logo cansaria”. Não foi o que aconteceu. O cinema terá muitos usos, e perspectivas diversas se abrem para incentivar a sua exibição.

Em uma crônica escrita em 1931, dirá Cecília Meireles (2001, p. 55): “Todas as qualidades de sedução e de persuasão que caracterizam a projeção cinematográfica não podiam deixar de ser bem aproveitadas pelos educadores”. Mas se o cinema vingou, contra muitas expectativas, sua relação com a educação ainda vacila. Um exemplo é o seguinte: se estamos lendo um livro podemos chamar isso de estudar, mas se assistimos a um filme, exceto se isso fizer parte da nossa formação ou atividade profissional na área de cinema e imagens, nunca diríamos que estamos “estudando”. Mas por que não?

Conhecer

Nas escolas, diante de outros artefatos pedagógicos, o cinema nem sempre é visto, na sua alteridade, como parte integrante de uma rede de saberes sobre a sociedade e o homem. Sem pretender negar que o cinema pode mesmo ter múltiplos usos, não há motivos para exibir um filme tão somente como modo de ilustrar um conteúdo reativo ao primado da escrita. Ou seja, mostrar um filme como recurso “didático” para transmitir através de imagens o que está dito e consolidado nos textos escolares ou acadêmicos. É preciso dar uma chance para as próprias imagens. O que elas podem fazer “sozinhas”?

A cena acima é do filme de Danny Boyle, Quem quer ser um milionário? (2008). Um jovem é torturado, quando um policial pergunta para outro, “o que pode um garoto pobre saber?”. Jamal é torturado porque, contrariando o que se espera da sua condição – orfandade e privações – ao participar de um programa da TV indiana consegue vencer diversas etapas respondendo às perguntas que são feitas e está próximo de se tornar um milionário. Entre uma participação e outra no programa, é torturado pela polícia para confessar a fraude que explicaria seu sucesso.

“Eu sabia as respostas”, diz Jamal após recobrar a consciência depois de uma sessão de choque elétrico. As cenas iniciais do filme apresentam imagens contrastantes. Ele aparece iniciando sua participação no programa televisivo e também sendo violentamente agredido pela polícia. As imagens se alternam. A verdade da resposta que dá no programa e a verdade que a polícia quer saber aparecem em imagens que se excluem e, então, atritam. Não há lugar para “saber as respostas” quando um jovem existe nas condições que Jamal vive.

Ver

“Filmes de ficção também pretendem muitas vezes analisar e comentar as sociedades que apresentam”, diz o sociólogo Howard Becker (2009, p. 21). Ou seja, obras de arte também fazem análise social. Partindo desta perspectiva, é possível reconhecer no filme de Danny Boyle uma abordagem a respeito das formas (ignoradas) de ensino e aprendizagem que acontecem muitas vezes longe da escola. Inclusive, há apenas uma situação escolar no filme. Jamal e o irmão Salim, ainda crianças, chegam atrasados à aula e são repreendidos pelo professor. Situação que muito se parece com a verificada na sociedade brasileira: jovens fora das salas de aula no horário escolar.

A rápida figuração da escola no filme corresponde ao lugar apenas relativo que pode representar na vida de tantos indivíduos. Parece necessário, para os que precisam problematizar a educação, explorar mais as situações da vida cotidiana que fazem parte das tessituras de conhecimentos. Mas esta é uma questão que já aparece na literatura pedagógica. Como um filme pode fazer parte das nossas próprias redes de conhecimentos a respeito da educação? Como podem as imagens de Quem quer ser um milionário? fazer parte das nossas próprias redes de conhecimentos?

Jamal precisa responder sobre a seguinte questão: na nota de 100 dólares existe o retrato de qual estadista americano? Sem vacilar, responde, entre as alternativas, “Benjamin Franklin”. Se Jamal não sabe sobre a imagem de Gandhi em uma nota de 1.000 rupias, como poderia saber sobre a figura do estadista americano? A complexidade que envolve esta questão sobre os conhecimentos adquiridos – por que uns e não outros? – é exibida no filme através de três séries de narrativas expostas em trama de imagens que inquire nossa visão sobre os lugares da aprendizagem.

Viver

Uma narrativa é a que mostra Jamal na delegacia, sendo obrigado a contar como poderia saber as respostas às perguntas do programa, depois das torturas que não arrancaram sua “confissão”. Uma fita de VHS com imagens do programa é apresentada para Jamal, em uma TV. A lembrança da cena serve para um policial exigir as explicações sobre o conhecimento das respostas. Em vídeo, é a segunda narrativa. Jamal, então, conta sua história, lembrando episódios da sua vida que explicariam porque realmente sabia as respostas. A memória é a terceira narrativa. São imagens que, juntas, exibem as visibilidades (o que se admite existir) e as invisibilidades (o que não se admite existir) de Jamal

Na cena acima Jamal encontra outro órfão, que foi seu amigo, quando ainda crianças. Jamal procura por uma menina e o garoto cego poderá ajudar. Entrega para o rapaz uma nota de cem dólares. O amigo, através do tato e do olfato identifica o dólar, mas não acredita no valor. Pergunta, então, qual a figura aparece na nota. Jamal descreve a fisionomia. É assim, com a identificação do amigo, que Jamal descobre que se trata de Benjamim Franklin. No programa, Jamal não se lembrará da escola ou de outra prática institucional do aprender. A cena que aparecerá com a resposta é uma recordação juvenil do cotidiano vivido nas ruas da cidade.

Para Ismail Xavier (2008, p. 15), o cinema que “educa” é aquele que questiona o que “sendo um constructo que tem história, é tomado como natureza, dado inquestionável”. Quem quer ser um milionário? provoca uma importante discussão a respeito das redes de conhecimento entre as classes populares (mas não apenas para elas). E faz isso, como é próprio do cinema, com imagens. Aqui os “textos” são secundários. São as imagens que nos fazem entender o que o filme apresenta como uma questão a ser “vista”. Como educadores, precisamos, com nossos alunos, ver mais filmes. Do mesmo modo que, como sonhadores, precisamos de imagens para viver.

Ficha Técnica:

Título: Quem quer ser um milionário?

Título original: Slumdog Millionaire
Ano: 2008
País de origem: Inglaterra
Direção: Danny Boyle
Roteiro: Simon Beaufoy
Elenco original: Dev Patel, Freida Pinto, Madhur Mittal e Anil Kapoor.

 

Referências

BECKER, Howard S. Falando da Sociedade. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2009.

BERNADET, Jean Claude. O que é cinema. 16ª ed. São Paulo: Brasiliense, 2006.

BUÑUEL, Luis. Meu último suspiro. São Paulo: Cosac Naify, 2009.

MEIRELES, Cecília. Crônicas da educação – 4. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Biblioteca Nacional, 2001.  

XAVIER, Ismail. Um cinema que “educa” é um cinema que (nos) faz pensar. Entrevista com Ismail Xavier. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 33, n. 1, p. 13-20, jan/jun. 2008.


* Este artigo é a versão de uma palestra apresentada no C E Alcindo Guanabara, em Guapimirim (RJ), em janeiro de 2012, com o título original A escola no cinema: imagens para conversas entre professores.  Meu interesse pelo filme deve-se à sugestão de uma colega, a Profª Conceição Soares, da UERJ.

** Doutor em Educação (UFF). Professor Adjunto da UFRRJ e do Programa de Pós-Graduação em Educação, Contextos Contemporâneos e Demandas Populares (PPGEduc-UFRRJ). Pesquisador do GRPESQ Estudos Culturais em Educação e Arte, do GRPESQ Currículos, Redes Educativas e Imagens e do LEAFRO (NEAB da UFRRJ).

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13 comentários sobre “Quem quer ser um milionário? Um olhar do cinema às alternativas dos cotidianos no aprender

  1. Angela Maria, obrigado pela leitura e comentário. Sim, concordo. Nem sempre vamos procurar um livro ou um filme para aprender algo. Aqui no Rio há inclusive um evento acadêmico chamado Cinema para aprender e desaprender. Gosto deste “cinema para desaprender”. Abraço, Aristóteles

  2. O ato de ler, assim como o cinema, tem multiplos usos, não só o de estudar.
    Apenas ler um livro não é a mesma coisa que estudar, até porque a essência suprema da literatura transcende a didática, entretanto não somos donos da verdade, assim filmes como este sobre uma realidade social que até pouco tempo se manteve distante do chamado domínio cultural global, presa ás suas tradições equidistantes, traz de maneira excepcional uma constatação irrefutável da universalidade da pobreza e do horror que as desigualdades sociais causam ás mentes verdadeiramente educadas, na escola ou não.

  3. Gostei do filme , como também do seu olhar sensível a cerca do mesmo. Quanto a educação vigente em nosso pais continuamos na luta por uma educação que combata a s desigualdades sociais, tão enraizada, mas são idéias como esta que fazem a diferença para os que acreditam no valor da mesma ou quem sabe: dos que sonham como nós!

  4. O artigo é sublime. Nos faz pensar no quanto a escola é “lugar” de experimentação e troca de diferenças por sujeitos diferentes. Que é esse status que nos permite a liberdade de descontextualizar e recontextualizar todo conhecimento, refundar modelos, permanentemente. No gozo dessa liberdade, o cinema é uma linguagem poética que pode ampliar muito o nosso alcance junto aos nossos alunos.

  5. Luiz Fernando, há inclusive um documentário muito bom, produzido pelo Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Sergipe, chamado Carregadoras de Sonhos. Abraços, Aristóteles

  6. Para além da beleza da mensagem do filme, o texto nos conduz a imagens do contidiano escolar (dentro-fora) e da necessidade de transgressão que a Educação de agora exige. O que é velho no texto, mas que preceisa ser repetido eternamente, é que só é professor aquele que sonha. E sonha o quê? Que a educação, além de um caminho à mudança, é a mudança em si mesma – a ponte de transição. De outra forma, pode ser apenas uma “zona de conforto” daqueles que não sonham mais.

  7. Muito bem observado, prof. Aristóteles. Já não bastasse o filme ser excelente, traz mesmo à tona a questão da experiência de vida a primeiro plano. Parabéns pelo ótimo artigo!

  8. Regina, vou assistir o filme do Luis Alberto Pereira, Tapete Vermelho, que não vi ainda. E vou considerar sua sugestão. Obrigado pelo comentário.

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