Superman: da necessidade do Redentor (Parte II)

ALEXANDER MARTINS VIANNA*

“Mesmo que cresça como humano, você não será como eles. Eles podem ser um grande povo, Kal-El. Eles desejam sê-lo. Somente falta a eles a luz para mostrar o caminho. Por esta razão e, acima de tudo, por sua capacidade para o bem, enviei você para eles, meu único filho… A sua liderança pode despertar as pessoas para a sua própria capacidade de aprimoramento moral, [mas]o coração humano ainda está sujeito a artifícios monstruosos…” (Voz de Jor-El, envolta em aura musical sagrada, na forma de lembrança para Kal-El)

Como já apontei no primeiro post, não houve interesse em Bryan Singer (n.1965) de estabelecer no filme Superman – O Retorno qualquer correlação com os arcos de história e, portanto, com o público consumidor das produções da DC Comics para HQs e animações da década de 1990 ou dos anos 2000, mas em continuar a história para cinema de Richard Donner (n.1930), o que talvez explique a quebra de expectativa do público mais jovem e o seu fracasso de arrecadação: custou US$270 milhões, mas arrecadou US$391 milhões, segundo a Box Office Mojo**. Malgrado a baixa arrecadação, do ponto de vista da linguagem cinematográfica e de seu arcabouço referencial literário, o filme de Singer é de grande qualidade.

Neste segundo post, poderemos perceber isso ao explorar ainda mais a presença de traços da vida pessoal de Singer na forma de conceber o retorno do redentor, identificando: os motivos literários da adoção de órfãos extraordinários, o tema da pós-moderna sagrada família, as chaves protestantes humanistas liberais do tema da redenção pelas obras e da reponsabilidade comunitária, assim como, o tema cristológico do “filho oculto”.

Como a história de Singer explora a ideia do retorno do redentor, há uma questão a resolver: tornar plausível o motivo (pessoal) de Kal-El ter se evadido dos dramas terrenos durante cinco anos. Daí, Singer incorpora à sua psique o drama pessoal do órfão que quer conhecer melhor as suas origens, conferindo-lhe o ímpeto pessoal de buscar algum traço de permanência ou sobrevivência de sua civilização avançada, de modo a resolver a sua solidão por sentir-se como o único de sua espécie. Somente este ímpeto da busca de um futuro enquanto espécie/civilização daria plausibilidade ao fato de Kal-El ter abandonado a Terra por cinco anos e, ao mesmo tempo, conecta este ponto inicial da trama com o tema do “filho oculto”.

O desprendimento de Kal-El das matérias terrenas para evadir-se em sua busca pela origem não se tratou de uma mera jornada por conhecimento sobre um mundo perdido, já que a biblioteca de cristais legada por seus pais biológicos na Fortaleza da Solidão já havia fornecido um vasto testemunho de seu mundo perdido. O seu ímpeto de desprendimento ou evasão das coisas terrenas estava vinculado a um desejo por continuidade, centrado na possibilidade de construir para si uma eternidade enquanto espécie/civilização.

No entanto, a trama de Singer propõe uma ancoragem emocional para Kal-El que o associa ao emblema cinematográfico do órfão norte-americano adotado que se frustra ao buscar avidamente a possibilidade de contato com o lastro original de sua singular e insondável biogênese, para somente então descobrir que seu futuro está no próprio mundo que o adotou, mas que faz recair sobre ele enorme expectativa em nome de tal adoção.

O filme também repete a tópica temática de que quanto maior for o poder, maior deve ser a responsabilidade. Como já vimos no primeiro post, esta moral fundadora tem se repetido em vários filmes de super-herói dos contextos George W. Bush e Barack Obama, pois se trata de uma chamada à reponsabilidade das grandes potências mundiais e das grandes corporações capitalistas que, a exemplo de Lex Luthor, pretendem manter um superpoder prometeico (tecnológico e econômico) com pouca ancoragem em responsabilidades comunitárias.

Nas tramas de Superman que surgem desde 2000 (vide o seriado Smallville), há a exploração permanente do paradoxo de sua existência funcional para a Terra, intensificando o drama da adoção, já que boa parte de sua energia é usada para combater problemas que, de uma forma ou de outra, foram involuntariamente trazidos ou intensificados por sua presença no mundo que o adotou, a ponto de criar o questionamento a respeito de sua real utilidade ou funcionalidade para este mundo, ou seja, se realmente vale a pena manter a adoção.

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A história de Singer faz com que o dilema do filho adotado se misture com diferentes motivos literários bíblicos da história de Cristo – o filho adotado do “Bom José”. Entre as várias expressões dramáticas de motivos literários da vida de Cristo no filme de Singer, destaco neste post uma que é de particular inovação dentro da tradição literária ou cinematográfica de figuração de histórias de Superman: o tema do filho do ente excepcional que permanece oculto sob uma fragilidade temporária (Jason, uma criança asmática de cinco anos de idade), até que uma situação fortuita de stress emocional desperta a sua verdadeira potência biogênica.

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Vale lembrar que este motivo já havia sido explorado por Bryan Singer, Michael Dougherty e Dan Harris em X-Men (2000) e X-Men 2 (2003), tendo como exemplo emblemático o passado de Magneto como sobrevivente do exterminismo nazista. Na trama gênica dos X-Men, tal como no mistério biogênico de Jason, é o pai o único responsável pela transmissão da mutação genética que confere poderes extraordinários. No entanto, na trama de Superman de Singer, o motivo literário da mutação genética se mistura ao motivo bíblico da divina concepção de Cristo.

Afinal, Kal-El (“o filho das estrelas”) é o ente superior de um mundo insondável que engravida Lois Lane (emblema da mulher moderna independente de profissão liberal, que tenta conciliar sua carreira e o papel de mãe responsável) e, portanto, concebe um ente excepcional paradoxal, um mestiço de “Céu” e “Terra”. Como o “Ceú” está envolto em arcana para a mente humana, tal como a concepção de Cristo em Maria, a natureza aparente do filho excepcional é necessariamente terrena, pois foi feito neste e para o uso sacrificial deste mundo. Penso que isso possa explicar o fato de Singer ter escalado um ator-mirim mais parecido com Lois do que com Kal-El – inclusive o corte de cabelo confere ao menino uma aura mais “feminina”.

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A escolha de um menino mais parecido com Lois Lane não apenas funciona dramaticamente para sustentar o tema do mistério do “filho oculto” e da verdadeira natureza de sua concepção, mas também segue, a meu ver, uma tradição iconográfica que representa Cristo como fisicamente semelhante a Maria. Além disso, a própria concepção em si do filho está envolta numa arcana de milagre, pois, afinal, Kal-El e Lois são tão “geneticamente distantes” quanto Deus e Maria.

Mais elementos sobre a questão do “filho oculto” evoluem no filme até se chegar ao tema da sagrada família: enquanto permanecer oculto para a sua própria segurança e maturação, vivendo sob os efeitos civis e jurídicos deste mundo, Jason estará sob a guarda da mãe e de um “pai adotivo”, “um bom José”, Richard White, que é noivo de Lois Lane. Ao final do filme, quando Kal-El está hospitalizado, Richard sugere, com espírito caridoso resignado, que Lois deveria estar no hospital com Superman. Nesta sequência, depois do enquadramento cênico do desenho-emblema de Jason, o enquadramento da saída triunfal de Lois e Richard (com Jason nos braços) do Planeta Diário para ir ao encontro do redentor no hospital é o zênite da expressão dramática da sagrada família no filme.

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Deste modo, Singer concebe, nos termos dos embates culturais atuais nos EUA, um motivo bíblico de sagrada família pós-moderna que alimenta e protege o novo ente excecional, ou a “boa nova”, até o momento de sua revelação para o mundo. Aliás, o nome Jason não é gratuito, pois remete ao clássico Jasão, filho de Zeus com uma mortal, dramaticamente compatível com motivo bíblico do mistério da concepção de Cristo e, ao mesmo tempo, menos óbvio para manter o suspense sobre a sua paternidade do que se fosse chamado de Christian, Emmanuel, Moses, Joshua, Adam, etc.

Ao longo do filme, o próprio ente superior Kal-El adquire diferentes conotações bíblicas, pois funciona simultaneamente: (1) como um Adão de um “mundo perdido para sempre”, (2) como o próprio Cristo redentor e (3) como o Deus evangélico que restaura a promessa de salvação por meio da encarnação do seu “Verbo”, ou seja, a presença e continuidade do ente excepcional (e de sua promessa) neste mundo, evitando que se torne definitivamente decadente. Portanto, o filho mestiço de Kal-El representa a esperança ou promessa de um futuro para este mundo, já que prova para o próprio Kal-El que não está mais sozinho, que haverá continuidade entre o velho testemunho de seu mundo perdido – personificado no filme por um Jor-El de aura mosaica – e uma nova possibilidade de futuro e de transmissão de legado, personificadas em Jason.

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No entanto, este não é o único motivo literário ou tema bíblico periférico presente no filme. O afastamento de Kal-El para o nada (o deserto cósmico) durante cinco anos torna-se a preparação para o seu retorno como ente messiânico salvacionista, em analogia com a preparação de Cristo como Agnus Dei no deserto. Aliás, é eloquente o fato de o filme de Singer figurar um personagem pouco interessado em permanecer em sua Fortaleza de Solidão, lugar tão enfatizado nos filmes de Richard Donner – que representou a sua versão pessoal de deserto preparatório e/ou útero protetor/ restaurador do uso dos poderes extraordinários que serviram para Kal-El tomar consciência do seu inevitável e excepcional fardo missionário civilizador. Na trama de Singer, entretanto, não é a Fortaleza que salva Kal-El de sofrer a morte violenta de uma trama de vingança de Lex Luthor, mas a predisposição ao amor sacrificial/caritas da “sagrada família” de seu filho, ou seja, os guardiões da “boa nova”.

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Depois de passar pelo seu “deserto”, o Kal-El de Singer percebe que não há nada em seu passado a se apegar (somente o velho testemunho condensado no legado moral de Jor-El) e retorna à Terra para então descobrir, ao final da trama, que tem um futuro/continuidade na forma de Jason. No entanto, este sentimento de continuidade refunda, paradoxalmente, o tema da “solidão sacrificial” do Superman: para ser deste mundo, o seu filho será criado pelos terrenos Lois e Richard, projetando para o futuro o momento em que o pai excepcional será revelado ao filho para que este possa receber o seu legado civilizacional superior e a responsabilidade de ser, tal como seu pai, um poder extraordinário comunitariamente responsável, uma “luz que mostra o caminho” para o aprimoramento moral da humanidade.

Superman – O Retorno
Título original: Superman Returns
Lançamento: 2006
Início da Filmagem: Novembro de 2005
Início do projeto: Julho de 2004
Direção: Bryan Singer
Roteiro: Michael Dougherty e Dan Harris
Atores: Brandon Routh; Kate Bosworth; Kevin Spacey
Locações da Filmagem: Austrália
Produtora: Warner Bros.


* ALEXANDER MARTINS VIANNA é Professor de História Moderna e Contemporânea do Departamento de História da UFRRJ.

** O filme de Singer não deu prejuízo, embora o lucro não tenha sido surpreendente quando comparado com X-Men (2000), cujo orçamento total foi de US$ 75 milhões e a arrecadação total foi de US$ 296,3 milhões; ou com X-Men 2 (2003), cujo orçamento total foi de US$ 110 milhões e a arrecadação total foi de US$ 407,7 milhões. Os dois primeiros filmes da saga dos X-men tiveram uma média aproximada de arrecadação de 4:1 em relação ao valor dos custos de produção, enquanto Superman – Retorno teve 3:2.

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7 comentários sobre “Superman: da necessidade do Redentor (Parte II)

  1. Prezado professor Alexandre
    É um prazer imenso ler seus textos. Parabéns!!!!! Compreender as chaves que abrem à compreensão a maneira da sociedade americana se auto-referenciar, por meio do cinema, é muito importante!!!!!!. Seus textos cumprem esse papel.
    Obrigada

  2. Cara Angela,
    Saudações cordiais!
    Trata-se da tese do filme, não minha.
    Eu analiso as chaves por meio das quais o filme apresenta a tese da “necessidade do salvador”. Saber como o filme propõe expressão dramática para um tema tão caro para a cultura protestante dos EUA é importante, pois o filme tenta convencer por meio da emoção – uma emoção cheia de motivos cristológicos.
    Atenciosamente,
    Alexander

  3. Convido os leitores a explorar as imagens como evidências de meu argumento. O sítio possibilita que elas sejam vistas separadamente, como slide, o que permite ler melhor as suas legendas. Basta clicar sobre elas…

    Alexander Martins Vianna
    DHIST-UFRRJ

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