Bom dia, noite

FÁBIO VIANA RIBEIRO*

É possível que aqueles que têm hoje entre 40 e 50 anos de idade lembrem-se da notícia de um sequestro que, durante muitas semanas, no agora longínquo ano de 1978, era assunto constante dos noticiários da televisão.

O sequestro do ex primeiro ministro italiano Aldo Moro foi, no final dos anos70, a ação mais radical das Brigadas Vermelhas; grupo político italiano de extrema esquerda que, naquele momento, tentava impedir uma aliança entre o Partido Comunista Italiano (considerado “reformista”) e o Partido Democrata Cristão (do qual Aldo Moro era líder).

Para os padrões atuais, um acontecimento bastante improvável. Aldo Moro, que havia ocupado o cargo de primeiro ministro por cinco vezes e à época era professor de direito, foi sequestrado em Roma e mantido em cativeiro durante quase dois meses sem que os serviços de segurança italianos conseguissem localizá-lo. Em parte por conta desses detalhes, até hoje especula-se a respeito da existência de acordos entre os atores políticos indiretamente envolvidos e o desfecho do caso. Mesmo considerando que os muito ativos grupos de guerrilha urbana dos anos 70 (muitos deles inspirados nas ações dos Tupamaros uruguaios) já haviam adquirido, ao final da década, uma considerável “competência técnica” para operações como a do sequestro de Aldo Moro.

“Bom dia, noite”, é um filme adequadamente tardio sobre os acontecimentos do período. Não apenas pelo distanciamento crítico que resulta do passar dos anos, mas também por ter sido dirigido por Marco Bellocchio, um diretor de esquerda que em outros filmes já havia criticado incisivamente o sistema político italiano. Ao contrário do vertiginoso ritmo de outro filme sobre um contexto semelhante (“O grupo Baader Meinhof”, de Uli Edel), a maior parte das cenas de “Bom dia, noite” transcorre no claustrofóbico ambiente do cativeiro. E mesmo em cenas externas, a sensação é a mesma, de se estar preso às insustentáveis razões políticas defendidas pelo sequestradores. Em relação às quais, subentende-se, os mesmos se apegam com tanto mais força quanto mais frágeis parecem se mostrar. Poucas vezes a enigmática “The great gig in the sky”, usada na trilha sonora do filme, sugeriu tanto.

É possível que a sensação de isolamento do grupo, não apenas no sentido físico, mas também no de haverem perdido contato com a realidade e sido abandonados por seus pares em meio a uma situação sobre a qual não possuíam mais controle, tenha sido intencionalmente construída pelo diretor. Apesar de nada de muito explícito ser dito, o absurdo e o equívoco de suas crenças parece ir vagarosamente ocupando todos os espaços da situação. Numa das cenas, a crença ingênua e delirante de que as massas haviam finalmente compreendido o sentido da luta e começavam a agir; em outras, e mais reveladoras, os diálogos entre o próprio Aldo Moro e os sequestradores.

Tanto quanto outras perguntas, a óbvia dúvida sobre a validade de se usar inocentes na luta contra o sistema apresenta-se diluída no filme. Talvez, como resposta óbvia, mas igualmente dispersa: a de que o grande problema na alternativa “sacrifício de inocentes por um objetivo justo” é o de sempre ser possível uma “reinterpretação” daquilo que se entende como “objetivo justo”. Claro, de 1978 até o presente os partidários dessa estratégia (descrita em suas mais sombrias dimensões em obras como “Os possessos”, de Dostoievski) sofisticaram seus métodos e ampliaram os limites daquilo que poderia ser entendido como “sacrifício”, “inocentes” ou justiça de objetivos. Como, num exemplo terminal, o episódio do sequestro em 2004 de uma escola inteira, com mais de mil crianças e seus professores, por rebeldes tchetchenos na cidade de Beslan.

Não por acaso atualmente (o que não significa dizer que tais lógicas não existissem no passado…), suspeita-se cada vez mais da ação de grupos que, em função do desequilíbrio de forças a que estão submetidos, recorrem ao expediente do terrorismo. Um problema que parece ser mais de natureza estrutural que relacionado à uma correta “avaliação da conjuntura” onde a ação deverá se desenvolver. Em outras palavras, na medida em que tais grupos escolhem “fechar” suas decisões em um grupo que estará, a partir daí, encarregado de “interpretar corretamente a realidade”, abre-se a possibilidade de inúmeras combinações políticas, considerando as quantas alternativas que podem parecer “razoáveis” ao grupo dirigente. Nesse sentido, é perturbadora a observação feita por um analista da área, notando que, agindo em parceria com qualquer grupo de ação clandestino existem sempre um ou dois serviços secretos oficiais.

Seja como for, as ações que terminaram com o sequestro e morte de Aldo Moro nunca foram claramente esclarecidas. E talvez nunca venham a sê-lo, por maiores que sejam as suspeitas de que tanto as Brigadas Vermelhas quanto o próprio Aldo Moro tenham sido utilizados em função das disputas pelo poder dentro e fora da Itália. Sob essa ótica, soa curiosa a observação de um amigo, à época lamentando (antecipadamente) o fato de que o filme corria o risco de ser mais um daqueles casos de antigos militantes de esquerda (posição do próprio diretor Marco Bellocchio) que, passados os anos, resolvem fazer seu mea culpa. Penso hoje que talvez o filme seja de fato isso; o que seria outra de suas qualidades.

Ficha Técnica
Título Original: Buongiorno, notte
Gênero: Drama
Direção: Marco Bellocchio
Duração: 102 minutos
Ano: 2003.
País de Origem: Itália

 


* FÁBIO VIANA RIBEIRO é professor adjunto da Universidade Estadual de Maringá (Departamento de Ciências Sociais) e Doutorem Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).

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