Superman: da necessidade do Redentor (Parte III)

ALEXANDER MARTINS VIANNA*

“Mesmo que cresça como humano, você não será como eles. Eles podem ser um grande povo, Kal-El. Eles desejam sê-lo. Somente falta a eles a luz para mostrar o caminho. Por esta razão e, acima de tudo, por sua capacidade para o bem, enviei você para eles, meu único filho… A sua liderança pode despertar as pessoas para a sua própria capacidade de aprimoramento moral, [mas]o coração humano ainda está sujeito a artifícios monstruosos…” (Voz de Jor-El, envolta em aura musical sagrada, na forma de lembrança para Kal-El)

Como temos observado desde o primeiro post, o filme Superman – O Retorno, de Bryan Singer (n.1965), é rico de motivos literários clássicos e bíblicos, acionados para tratar de temas contemporâneos aos embates culturais, políticos e religiosos nos EUA, particularmente aqueles referidos a concepções de família e a reponsabilidades comunitárias das grandes potências e das elites do capitalismo mundial. Neste terceiro post, pretendo demonstrar como Singer explora o motivo literário do “bad match” (ou “enlace impróprio”) para ressaltar, por antonomásia, o tema da sagrada família; e demonstrar como desenvolve o motivo literário do “rei oculto” para compor a aura redentora protestante de Kal-El.

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A trama inicial do filme dá a entender que, durante os cinco anos em que Kal-El esteve evadido dos dramas terrenos, Lex Luthor conseguiu se livrar da justiça e casar-se com uma milionária muito idosa anglicana. Este ponto inicial da trama é de especial interesse, já que é deste casamento que virão os recursos que possibilitarão Lex Luthor fazer a expedição em busca da Fortaleza da Solidão, quando então poderá criar a sua ameaça diabólica prometeica ao fazer uso nefasto do legado civilizacional de Kal-El contido nos cristais. Não por acaso, a sequência cênica na mansão, que introduz o vilão da história, tem um tratamento estético em perfeita consonância com a tese moral do motivo literário e iconográfico do “bad match”.

O motivo literário e iconográfico cômico do “bad match” tem uma finalidade moral iconoclasta – contra a idolatria erótica ou concupiscência –, servindo para advertir o espectador contra os frutos nefastos para a comunidade política da diabólica e risível inversão da ordem natural oriunda da união luxuriosa de dois seres incompatíveis. Assim, este “passado” de Luthor cria um emblemático contraste moral com a imagem da família nuclear – etariamente equilibrada – que educa e protege Jason, a “boa nova”.

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Por meio de engenhosas sinédoques cênicas, a sequência que representa a entrada do vilão na história começa num ambiente obscuro e fúnebre, mas de suntuosidade vitoriana, com entradas súbitas de luz de relâmpago e som de trovão, além de música característica, que demarcam moral e esteticamente a presença do mal. À medida que as sinédoques dramáticas se abrem, sabemos que se trata de uma cena testamentária, em que a milionária moribunda legará seus pertences somente a Lex Luthor, excluindo os demais parentes, pois foi o único, a seu ver, que não apenas permaneceu “desinteressadamente” com ela, mas também fez com que conhecesse prazeres sexuais únicos em toda a sua vida.

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Como explora a tradição expressiva (literária e iconográfica) do “bad match”, a sequência cênica proposta por Singer para a milionária moribunda tem um inevitável apelo ao riso, adequadamente sugerido pela performance dos atores, confirmando os mesmos motivos morais que encontramos, por exemplo, em quadros da oficina de Lucas Cranach (1472-1553): um homem mais novo (Luthor) controla a “bolsa”(fortuna) da mulher mais velha ludibriada (a milionária anglicana), enquanto é amante de sua “dama de companhia/empregada” (Kitty Kowalski, cujo nome sugere a sua condição felina moralmente ambígua e traiçoeira).

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No quadro da oficina de Lucas Cranach (1472-1553), a senhora, representada muito idosa e rica, apaixona-se por um homem muito mais novo e entrega a sua bolsa (fortuna) para ele, enquanto a presença de sua dama-de-companhia (maid em inglês do século XVI) na cena sugere o flerte às escondidas com o novo “senhor da casa”. No filme de Bryan Singer, Kitty Kowalski, travestida de empregada (maid em inglês atual), é o correspondente cênico-moral da “dama-de-companhia” que mantém caso secreto com o “senhor da casa” enquanto espera a morte da patroa. Na sequência cênica desde a escada até a porta principal da mansão, tal condição é explicitada: ao ser avisada por Luthor de que “está tudo feito”, ou seja, que Luthor é o herdeiro (“controla a bolsa/fortuna”), Kitty retira a tiara de pano da cabeça e joga ao chão o espanador – demarcadores de sua antiga posição social na casa –, pois, agora, a sua posição é de senhora da casa.

No quadro de Cranach, há outro elemento gráfico que observamos se repetir na cena concebida por Singer: sobre a mesa, perto da idosa, há um copo suntuoso preenchido com líquido. Na cena de Singer, o copo é preenchido com água, dentadura e, por fim, a aliança de casamento. Singer utiliza-o como recurso de condensação moral e demarcação cênica para toda aquela situação de cinismo e hipocrisia, além de funcionar esteticamente como pendant dramático. Estética e moralmente, o copo evoca que Luthor, ao longo de cinco anos, agiu como um prostituto, pois houve efetiva – e não imaginativa – consumação carnal entre seres incompatíveis.

No quadro de Cranach, entretanto, a presença do copo com bebida sugere que a idosa rica está sendo embebedada para ser aquecida em luxúria pelo jovem e, assim, perder o controle sobre seus bens, sem que haja necessariamente a consumação carnal entre seres incompatíveis. Portanto, podemos dizer que houve uma atualização temática e iconográfica na cena de representação do “bad match” proposta por Singer, mas mantém a mesma função de emblema moral que denuncia os efeitos nefastos de um enlace impróprio para a comunidade política e para o patrimônio de uma família.

No entanto, se Luthor mantém uma farsa por cinco anos para conseguir sua fortuna e se inserir no mundo social da milionária moribunda, como diferenciar moralmente a sua mentira do fato de Kal-El também fingir uma identidade ou forjar um personagem conveniente para sua inserção social no Planeta Diário (o repórter Clark Kent)? Ora, diferentemente da hipocrisia nefasta contida no tema do “bad match”, o tema da dupla identidade de Kal-El constitui o oximoro da mentira virtuosa, explorada no filme em chave moral positiva, pois evoca o motivo literário do “rei oculto”, que pode ser dramaticamente trabalhado tanto em chave cômica quanto trágica.

No meu entendimento, há na figuração de Kal-El como Clark Kent a exploração da vertente cômica do motivo literário do “rei oculto”, por meio de estereótipos dramáticos recorrentes no cinema norte-americano: enquanto Kal-El é o emblema do poder excepcional e redentor, Clark Kent é o aparentemente pacato, desengonçado, bondoso, ‘nerd de óculos’, tímido, sexualmente pouco atrativo (as roupas e postura possibilitam isso) e medianamente pago repórter do Planeta Diário – um contraste evidente à figuração social e moral do diabólico, rico, mordaz e sexualmente exuberante Lex Luthor.

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Voltado para o público cinéfilo norte-americano, a forma contemporânea de Singer revisitar o motivo literário do “rei oculto” se revela no fato de Kal-El (um ser excepcional) deliberadamente escolher a máscara social-cênica da profissão de repórter, que o mantém oportunamente invisível na multidão de Metrópolis e perante os seus colegas de trabalho, mas, ao mesmo tempo, possibilita manter-se informado sobre o que acontece na cidade e no mundo através da estrutura informacional do Planeta Diário.

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O motivo literário do “rei oculto” representa um ser excepcional que usa um disfarce para poder circular entre pessoas comuns, que lhe são geralmente moral, física e/ou socialmente inferiores, para adquirir a onisciência necessária para agir com justiça em relação àqueles que estão sob sua proteção. Daí, há uma relação evidente entre o motivo literário da busca da onisciência pelo “rei oculto” e o fato de a profissão-disfarce de Kal-El ser aquela de repórter do Planeta Diário. Assim, enquanto permanece em solo, estar como Clark Kent no emblemático ambiente de informação do Planeta Diário é o que possibilita a Kal-El manter-se “onisciente” e oculto ao mesmo tempo.

No entanto, o filme de Singer, buscando mais plausibilidade com os conhecimento atuais da ciência, pensou um outro dispositivo para Kal-El captar informações planetárias para suas ações/missões de salvação: usar a sua superaudição quando flutua, como Superman, na ionosfera da Terra em emblemáticas poses e enquadramentos redentores. Tais poses e enquadramentos, com intensa maquiagem digital, repetiram-se em diversos pôsteres publicitários de 2006.

O filme de Singer foi o primeiro a explorar tal ideia, o que não é gratuita, pois funciona temática e visualmente para a expressão dramática do redentor: toda vez que vemos Kal-El flutuando como Superman nas ondas de rádio da Terra, percebemos que alcança o máximo de seu potencial de onisciência. Embora seja muito veloz, sabemos que não tem o dom divino da multilocalidade, o que significa que ele ouve simultaneamente vários “necessitados”, mas obrigatoriamente tem de escolher quem salvar, ou seja, estabelecer uma ordem de prioridade. Com exceção do caso de Lois Lane – a única pessoa da Terra especialmente protegida por seu “manto sagrado” –, as razões da escolha sobre quem salvar em meio a tantos “necessitados” permanecem insondáveis, tais como as razões ocultas do Deus protestante da graça.

Portanto, tal como um Deus protestante insondável, as escolhas de Kal-El sobre quem salvar não apresentam para o expectador do filme nenhuma relação evidente com o mérito do indivíduo. Aliás, justamente por Kal-El agir assim, a trama de Singer pode se desenvolver: ao se ocupar em salvar Kitty Kowalsky de um acidente de carro planejado por Lex Luthor para distraí-lo de seu assalto ao museu de história natural, Kal-El oferece, involuntariamente, a oportunidade para Luthor roubar a única coisa caída na Terra que poderia ameaçar a sua vida…

SUPERMAN – O RETORNO
Título original: SUPERMAN RETURNS
Lançamento: 2006
Início da Filmagem: Novembro de 2005
Início do projeto: Julho de 2004
Direção: Bryan Singer
Roteiro: Michael Dougherty e Dan Harris
Atores: Brandon Routh; Kate Bosworth; Kevin Spacey
Locações da Filmagem: Austrália
Produtora: Warner Bros.


* Professor de História Moderna e Contemporânea do Departamento de História da UFRRJ.

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