Adivinhe quem vem para jantar?

FÁBIO VIANA RIBEIRO*

“…Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?”
Manuel Bandeira

É de Marx a perturbadora observação de que os homens, “justamente quando parecem empenhados em revolucionar-se a si e às coisas, em criar algo que jamais existiu, (…) conjuram ansiosamente em seu auxílio os espíritos do passado, tomando-lhes emprestados os nomes, os gritos de guerra e as roupagens, a fim de representar a nova cena da história do mundo nesse disfarce tradicional e nessa linguagem emprestada”. Da mesma forma é possível imaginar que, em nosso tempo, mesmo as posturas e opiniões desejadas como as mais razoáveis e esclarecidas, não deixam de ser, quase sempre, posturas e opiniões que reproduzem tão somente a maneira que se convencionou pensar sobre determinados assuntos.

“Adivinhe quem vem para jantar?” é um filme surpreendente e atualmente quase esquecido (considerando inclusive os muitos prêmios que recebeu em 1968). Como cinema – produção, técnica, entretenimento… – naquilo em que se especializou o cinema americano, é um filme fabuloso. Mais que isso e principalmente, o fato de ter como tema principal o racismo; e a forma como abordou o tema do racismo. Tudo funciona bem, na medida exata para fazê-lo um filme perfeito e, ao mesmo tempo, capaz de levar quem o assiste a pensar sob o ponto de vista de cada um dos personagens. Muitos pontos de vista, alguns inconclusos, outros não desenvolvidos. Tanto em relação ao tema central – um casamento interracial – quanto em relação a outras diferenças. É o caso de lembrar que à época, nos Estados Unidos, a lei proibia em vários estados o casamento entre negros e brancos. É desse modo que uma jovem branca, filha de pais liberais e de classe média alta, anuncia seu casamento próximo com um médico negro que conhecera há poucos dias atrás. A grande graça do filme reside em não apenas denunciar o racismo, tal como se apresentava à época nos Estados Unidos (e mesmo na Califórnia, numa família ligada ao meio artístico e de orientação política liberal), mas em pensá-lo de uma forma que encontra-se longe de ser linear.

Aparentemente qualquer padrão cultural – ou qualquer outra coisa – pode ser compreendido por mais de um aspecto. No momento em que um problema passa a ser pensado em função de apenas um desses aspectos, está se deixando de falar do problema em suas características efetivas e passando-se ao mundo da idealização ou da má fé. O teste é simples: basta perguntar a qualquer um, que defenda com grande entusiasmo alguma causa, que imperfeições é capaz de apontar nessa causa. Caso a outra parte não consiga se lembrar de qualquer imperfeição relacionada à causa pela qual luta, desista. Muito provavelmente se trata de mais um caso de idealização ou má fé… O mais surpreendente deste teste é descobrir que o número de “fundamentalistas” é bem maior do que o imaginado e encontra-se muito melhor distribuído entre inúmeras esferas sociais do que normalmente imaginamos (e não apenas entre os muçulmanos, que são os que, entre nós, costumam levar a culpa quando o assunto é fundamentalismo…).

“Adivinhe quem vem para jantar?” é um grande filme, exatamente por fazer o oposto disso. A tensão construída é a um só tempo leve e complexa, deixando para quem o assiste o trabalho de tirar muitas das possíveis conclusões. A fórmula encontrada, rara, oscila entre a tensão e a leveza, do tema e dos personagens, a quase alegria e a sempre presente possibilidade de um desfecho amargo, lucidez e idealismo, engajamento e descomprometimento. Em um dos melhores diálogos do filme, o necessariamente conflituoso relacionamento entre pais e filhos:

– Não fale assim comigo! Não tem direito de falar assim. E sabe disso. Sei o que é e o que fez consigo mesmo. Mas me matei de trabalhar para comprar-lhe suas chances. Sabe que distância carreguei aquela sacola dos correios em 30 anos? 120.000 quilômetros. E cortando grama à noite. Para que você pudesse ficar com seus livros. Havia coisas que sua mãe poderia ter tido. Não coisas finas, mas uma droga de um casaco de couro! E vai me dizer que isso não significa nada para você?

– Disse o que tinha para dizer, agora escute. Diz que não quer ensinar a viver minha vida, mas o que está fazendo? Dizendo o que posso ou não posso. Diz que devo-lhe o que fez por mim. Escute aqui: não lhe devo nada. Não fez mais que a sua obrigação em carregar aquela sacola dos correios! Assim como eu farei por meu filho. Mas você não me possui. Não pode me dizer quando e onde saio da linha ou me forçar a viver conforme suas regras. Nem mesmo sabe o que eu sou, pai, quem eu sou, o que sinto, o que eu penso. E, se eu tentasse explicar, você não entenderia. É 30 anos mais velho do que eu. Você e sua geração acreditam que tem de ser como foi para vocês! E só quando tiver morrido é que me livrarei desse peso! Você tem de largar do meu pé!

Papai. Papai. Você é o meu pai. Sou seu filho, amo você. Sempre o amei e sempre o amarei. Mas você pensa em você como um homem de cor. Eu penso em mim como um homem.

Em todos esses casos, e em quaisquer outros também, o fundamento da intolerância e do preconceito parece se fundamentar tão somente no fato do “eles” ser diferente do “nós”. É sobre essa base de oposição, quase primitiva, que as mais delirantes fantasias e os piores tipos de interesses costumam ser erguidos. Eliminar a intolerância e o preconceito implicaria tornar irrelevantes os indicadores da diferença. Como no filme, não se pensar como um homem de cor, mas tão somente como um homem.

No filme, as diversas diferenças entre outros “nós” e outros “eles” se misturam à diferença de raça entre o casal apaixonado. Em cenas paralelas, velhos e jovens, homens e mulheres, negros e negros (a intolerante reação da governanta da casa, negra, que se opõe ao casamento), agnósticos e religiosos (um padre é o melhor amigo da família, que não é religiosa), etc. Caso seja pensado em termos de todas as diferenças que existem entre grupos e indivíduos, a própria existência do mundo social pode parecer um milagre. Que em número cada vez menor as diferenças entre os grupos sociais sejam consideradas relevantes é um sinal de que o mundo se torna, a cada dia, um lugar mais  tolerante. Não por acaso, o filme termina não com uma certeza, mas com a esperança de que a diferença entre o casal termine por um dia não ser mais relevante.

Ficha Técnica

Título Original: Guess who’s Coming to Dinner
Gênero: Drama
Direção: Stanley Kramer
Duração: 103 minutos
Ano: 1967
País de Origem: Estados Unidos


* FÁBIO VIANA RIBEIRO é professor adjunto da Universidade Estadual de Maringá (Departamento de Ciências Sociais) e Doutorem Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).

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