Superman: da necessidade do Redentor (Parte IV)

ALEXANDER MARTINS VIANNA*

“Mesmo que cresça como humano, você não será como eles. Eles podem ser um grande povo, Kal-El. Eles desejam sê-lo. Somente falta a eles a luz para mostrar o caminho. Por esta razão e, acima de tudo, por sua capacidade para o bem, enviei você para eles, meu único filho… A sua liderança pode despertar as pessoas para a sua própria capacidade de aprimoramento moral, [mas]o coração humano ainda está sujeito a artifícios monstruosos…” (Voz de Jor-El, envolta em aura musical sagrada, na forma de lembrança para Kal-El)

No filme Superman – O Retorno, de Bryan Singer (n.1965), o fato de a tese moral do filme ser a “necessidade do redentor” poderia, como temos visto desde o primeiro post, explorar diversos motivos bíblicos em torno da figura salvacionista de Cristo. Até o terceiro post, analisei motivos bíblicos periféricos e suas conexões com motivos da literatura clássica. Agora, gostaria de analisar o que considero ser o motivo bíblico central presente na figuração de Kal-El como redentor no filme de Singer: a “Paixão de Cristo”, segundo João 19:31-37.

Considero este motivo central no filme porque identifico a sua cuidadosa preparação por meio de recursos iconográficas e performáticas que progressivamente evocam a sua lembrança afetiva no espectador do filme. No entanto, esse tema é desenvolvido em meio a uma trama de conspiração centrada em Lex Luthor que, em larga medida, segue a tradição temática da novela “The Spear of Destiny”(1973), do britânico Trevor Ravenscroft (1921-1989), que teve nos EUA, desde a década de 1980, diversas adaptações e variações temáticas para filmes, HQs, seriados e novelas para TV.

A novela “The Spear of Destiny” tem uma trama que é ambientada na II Guerra Mundial (1939-1945). O seu mote central é o fato de Hitler buscar avidamente a Lança do Destino por acreditar que poderia lhe dar poderes ilimitados para suplantar as forças aliadas. A novela foi pensada quase trinta anos depois do fim da II Guerra Mundial, quando “Hitler” já era um emblema literário da pop culture para figurar um indivíduo diabólico em busca de poder ilimitado para conseguir o domínio mundial e suplantar as democracias ocidentais. Portanto, no universo das novelas e contos fantásticos anglo-saxões, Hitler tornou-se a figuração literária e dramática de uma força diabólica (antítese) a ser suplantada pelas forças do bem (tese), por mais engenhosa e exuberante que pudesse se mostrar.

O ponto de conexão entre Singer e Ravenscroft é o significado do mal que deve ser necessariamente derrotado: a busca do poder ilimitado por um indivíduo diabólico que poderia colocar em risco o modo de vida centrado na responsabilidade comunitária e na democracia. Portanto, o que interessava a Singer era associar a Luthor os mesmos motivos e caracterizações dramáticas de vilania, conspiração diabólica, cobiça, sede de poder e ameaça à democracia que a novela de Ravenscroft associava à figuração diabólica e conspirativa de Hitler.

Contudo, o tema da lança do destino no filme de Singer não é evocado como a busca por um artefato do passado que poderia conceder poder ilimitado a um conspirador diabólico porque foi banhado no sangue de Cristo. No filme de Singer, a lança do destino é uma metáfora sutil: em vez de ser um artefato mágico e misterioso do passado que é buscado avidamente por um poder diabólico do presente, é algo fortuitamente produzido no presente por Lex Luthor a partir de um detrito lanciforme de meteoro de kriptonita, com o qual vai perfurar o pulmão direito do redentor hodierno, Superman. O filme vai sugerindo tal tema gradativamente, em imagem, música e performance, ou seja, não há expressão verbal para o mesmo, mas sim uma evocação alegórica de sua presença, cuja expressão dramática ganha plenitude quando ocorre o derradeiro confronto entre Luthor e Kal-El.

O tema da lança do centurião que é cravada no pulmão direito de Cristo – evocado iconograficamente e performaticamente, mas não textualmente ou verbalmente ao longo do filme de Singer –, segue uma tradição de representação da “Paixão de Cristo” em artes visuais que tem tentado, desde o século VI pelo menos, criar soluções imagéticas para a descrição de João 19:31-37.

O desenho de lança que tem sido mais recorrentemente representado em filmes norte-americanos e em HQs desde a década de 1980 está baseado na peça existente no acervo de arte joalheira do Museu Imperial de Viena, ou seja, o mesmo artefato que é utilizado como mote da trama da novela The Spear of Destiny. Com a ampla veiculação e adaptação da trama ou motivos centrais da novela de Ravenscroft em filmes, novelas e HQs nos EUA, o artefato existente no Museu Imperial de Viena serviu, desde então, de modelo imagético ou imagem-canônica para diversas adaptações visuais deste tema nos diferentes nichos de novelas e HQs de contos fantásticos. Considerando isso, entendo que Singer explora metaforicamente este modelo imagético, seja dentro do filme, seja em suas imagens publicitárias, para figurar Kal-El como um ente superior sacrificial à luz da tradição de representação nas artes visuais da passagem bíblica de João 19:31-37.

No entanto, não há sentido em evocar a presença da “Paixão de Cristo” de João 19:31-37 se o filme também não propuser uma finalidade moral para a sua expressão dramática. A sua finalidade, por excelência, é provocar o despertar da consciência para a reforma moral. Daí, é interessante considerar o lugar dramático de Kitty Kowalsky no filme, pois Singer usa várias vezes o seu rosto como demarcador cênico de incômodo moral quando percebe a dimensão altamente destrutiva dos planos de poder e vingança de Lex Luthor.

Na literatura anglo-saxã, Kitty é uma forma de apelido para Catherine, que evoca o emblema moral do gato ou gata, ou seja, aquele ser que transita entre o civilizado (bem/divino) e o selvagem (mal/diabólico), significando um caráter traiçoeiro, ambíguo, imprevisível e difícil de domar. Não por acaso, é revestido de particular significado o fato de ter sido ela que retira de Luthor o controle sobre os cristais: ela finge que os deixa cair acidentalmente para fora do helicóptero no momento que tentavam fugir do “novo continente” quando Kal-El começou a erguê-lo para arremessá-lo para fora da Terra.

Antes de isso acontecer, há outra função dramática para Kitty Kowalsky: ser plateia da alegoria de “Paixão de Cristo” concebido por Singer na figuração cênica do confronto mortal entre Kal-El e Lex Luthor. Dramaticamente, Kitty representa, dentro do filme, a expectativa ideal do que deveria ser o comportamento do espectador, fora do filme, que teve a sua consciência despertada pela performance de sofrimento, constância moral e exemplo máximo de doação do redentor.

Ao funcionar como plateia da alegoria de “Paixão de Cristo” de Singer, Kitty Kowalsky torna-se a síntese máxima da tese moral de que o redentor Kal-El é necessário, pois, se sua liderança moral e exemplo sacrificial como novo Cristo é capaz de provocar comiseração e reforma da consciência em um ser tão pouco meritoso quanto Kitty, isso provaria enfaticamente para o espectador do filme que o redentor é necessário para provocar o aprimoramento moral da humanidade, como se fosse a luz e o alimento que fazem germinar as sementes éticas da graça neste mundo.

Desde a aterrisagem de Kal-El até a descoberta tardia de sua intoxicação com a radiação de kriptonita no continente de Luthor – que é o avesso moral arquitetônico (escuro, tempestuoso e diabólico) da Fortaleza da Solidão (clara, plácida e divina) –, Singer prepara uma sequência cênica que tem os demarcadores alegóricos centrais que evocam a presença do tema da “Paixão de Cristo”, desde a “via crucis” até a “ressurreição”: a presença da tempestade como demarcador (hu)moral do mal; a tortura provocada pelos capangas, caracterizados cenicamente como “centuriões romanos”; a queda de joelho de Kal-El; a queda com o rosto ao chão, enquanto sofre o espancamento e humilhação dos centuriões; a “morte cruciforme”, demarcada cenicamente pela estocada com a “lança do destino” no pulmão direito; o “sepultamento”, quando cai no oceano; a “resgate/ressurreição” providencial, quando Lois Lane retira o pedaço maior da lança de seu corpo.

Uma vez retirada a “lança do destino” de seu pulmão direito, Kal-El consegue recuperar parcialmente as forças, voando para além da tempestade (alegoria do mal diabólico) até alcançar a luz do Sol (alegoria do bem divino). Ao conceber a cena em que Kal-El se banha na luz solar para recuperar plenamente as suas forças, Singer configurou um enquadramento cruciforme do corpo de Kal-El, sugerindo o seu acolhimento pela “luz divina”, semelhante às representações iconográficas do tema bíblico da ressurreição de Cristo em pinturas e iluminuras desde a Idade Média. Com isso, o ciclo performático que o define como Agnus Dei é completado.

Depois de recuperar as suas forças, Kal-El retorna do céu e começa o seu novo ciclo sacrificial de salvação do mundo: conter os efeitos do uso diabólico dos cristais por Lex Luthor. Para tanto, penetra no inferno (subsolo magmático da Terra) e usa toda a sua força solar-divina para erguer o continente do mal e arremessá-lo para longe da Terra. Como o continente é feito de kriptonita, isso exaure as suas forças e, então, mais uma vez, Singer confere expressão dramática ao tema do sacrifício redentor de Cristo: quando percebe que a Terra está salva, Kal-El desfalece, sendo seu corpo (com o manto vermelho sagrado sacrificial como fundo) enquadrado em pose cruciforme. Em seguida, começa uma trajetória descendente em direção ao planeta Terra, como se fosse uma estrela cadente, ou alegoria de estrela-guia. Emblematicamente, cai numa zona da fictícia Metrópolis que lembra o Central Park de Nova York – ou seja, a cidade mais cosmopolita e multirracial dos EUA.

A partir deste evento, o filme cria um suspense: “Superman está morto?”. Na verdade, o seu último esforço salvacionista fez com que entrasse em estado de coma profundo. Contudo, há uma chance de recuperação depois que um médico retirou um último fragmento de kriptonita de seu corpo, mas a recuperação do coma somente ocorre depois da visita de Lois e Jason. A cena deste encontro no hospital é construída com uma proposital ambiguidade: Afinal, Kal-El despertou do coma por que Lois falou, secretamente em seu ouvido, que Jason é seu filho, ou pelo efeito do beijo carinhoso de Jason, já que o beijo amoroso de Lois não surtiu efeito?

Como vimos no segundo post, na sequência cênica que evolui desde o hospital até Kal-El aparecer no quarto de Jason, há a expressão dramática da continuidade do legado civilizacional do ente excepcional superior e da sua missão de liderança moral para a humanidade.

SUPERMAN – O RETORNO
Título original: SUPERMAN RETURNS
Lançamento: 2006
Início da Filmagem: Novembro de 2005
Início do projeto: Julho de 2004
Direção: Bryan Singer
Roteiro: Michael Dougherty e Dan Harris
Atores: Brandon Routh; Kate Bosworth; Kevin Spacey
Locações da Filmagem: Austrália
Produtora: Warner Bros


*ALEXANDER MARTINS VIANNA é Professor de História Moderna e Contemporânea do Departamento de História da UFRRJ.

Anúncios

4 comentários sobre “Superman: da necessidade do Redentor (Parte IV)

  1. Caríssimo Alexander Martins Vianna,

    Poderia aqui, citar varios trechos que me surpreenderam, mas, vou tomar caminhos diferentes.

    A combinação entre Historia e Cinema, ao tom de suas teclas, outrora, bem usadas, lhe caiu muito bem. Você faz participação em outros espaços digitais, ou escreves apenas aqui? Cheguei ao seu conhecimento por teres me mandado uma mensagem com uma chamada, nos conhecemos de algum outro lugar?

    facebook/feliperabelo
    Ficarei feliz que entre em contato comigo.
    Satisfação.

  2. Caro Ozaí,
    Saudações cordiais!

    Diferentemente dos posts anteriores, o leitor não consegue – pelo menos não estou conseguindo – acessar as imagens como slides, pois não estão ativas como links. Com isso, o leitor fica sem acesso à explicação inscrita na imagem, que é parte do indiciamento da fonte para a análise proposta. Se possível, veja, por favor, se é possível as imagens tornarem-se acessíveis ao leitor, tal como nos posts anteriores.

    Abraços e tudo de bom,
    Alexander

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s