O Pecado da Carne

ANTONIO OZAÍ DA SILVA*

“Em um bairro ultra-ortodoxo de Jerusalém, de nome Meah Shearim, vive Aaron Fleishman (Zohar Strauss), pai de quatro filhos e administrador do negócio da família, um açougue kosher, herdado depois da morte de seu pai. O mundo observador das regras de Aaron se transforma completamente com a chegada do jovem estudante Ezri (o belo galã da TV Ran Danker). Ambos começam a passar tempo juntos, e por períodos cada vez maiores, levando Aaron a ser imediatamente discriminado em sua comunidade. Confrontado pelo rabi Vaisben (Tzahi Grad), Aaron declara que se sentia morto antes de conhecer Ezri. Mas a reação forte e violenta de moradores locais força o jovem a tomar uma decisão. O roteiro de Merav Doster explora com sinceridade os impasses de comportamento dos personagens” (da sinopse) *

Moralismo é controle social. O moralismo é excludente, mas fortalece – imagino – a identidade de quem o encarna. Produz certezas, gera segurança. Não é necessariamente positivo. O moralismo religioso talvez seja o mais perigoso, pois tende à intolerância e ao fundamentalismo.

É preciso compreender, mas isto não significa aceitar. A moral é parte dos valores dos indivíduos que vivem em sociedade. Na verdade, a ordem social não se sustenta apenas pela ameaça das leis civis e do braço repressor do Estado. A moral cumpre um papel fundamental no sentido de evitar a desagregação social. Não é por acaso que autores como Alexis de Tocqueville e Stuart Mill analisaram e se preocuparam com a tirania da maioria. A moral social pode ser tão tirânica quanto o Estado. E, ainda mais, quando encontra guarida na política, ou seja, quando é normatizada e transformada em lei. Os Estados Teocráticos ilustram-no bem.

“Por que Deus criou o desejo?”, pergunta o Aaron. Ele próprio responde: “Para a purificação da alma”. A sua teoria é que o pecado é um desafio e evitá-lo é uma missão. Pois que, segundo ele: “Deus não fez criações falhas, a “falha” não existe”. E, portanto: “O desafio de um homem deve ser superar ele mesmo”. Se o desejo carnal induz ao pecado, a culpa é da criatura e não do Criador que a criou enquanto um ser desejante. Pobre criatura, dividida entre a carne e a alma, o desejo e a salvação. No torvelinho das suas emoções e sentimentos, da contradição entre a realização e anulação do desejo, ele/ela precisa superar o que lhe é inerente à condição humana. Sua crença e o medo da condenação exigem a auto-repressão. Sua alma dilacera-se, mas, como expressa o personagem do filme, é necessário que vença o desafio. E se não tiver forças o suficiente? O desenlace tende a ser trágico!

A fala de Aaron significa atribuir ao indivíduo a responsabilidade para superar o pecado da carne, em outras palavras, reprimir o desejo, “superar-se”. Eis a sua missão. O desejo é visto como uma espécie de doença, impureza da alma, que deve ser “curada”, “purificada”. O Apóstolo Paulo, também ele um atormentado pelas ações e palavras que proferiu antes da sua conversão, tem muito a dizer sobre isto.

O tema central de O Pecado da Carne me fez lembrar outro filme: Orações para Bobby. Também neste, a homossexualidade é caracterizada enquanto um pecado abominável e é concebida pela mãe, e os religiosos que ela segue, como uma espécie de doença da alma. Ela acreditava, portanto, na possibilidade de “cura” – e há quem aposte nesta tese. Assim, na sua forma de ver, bastava apenas que o filho orasse, se apegasse a Deus e se esforçar-se para afastar de si o pecado e retomar o caminho da retidão. Enfim, superar-se, curar-se. Meu Deus!

O moralismo faz sofrer porque seu fundamento é o sentimento de culpa, o qual impõe a necessidade de repressão externa e interna. Mas, como a sociedade pode sobreviver sem a moral? Como se manter intacta sem o autocontrole, a auto-repressão? É possível uma sociedade para além do bem e do mal?

O filme Pecado da Carne mostra que a homossexualidade é uma condição humana, não se restringe à cultura dita ocidental. Se não sabemos do homossexualismo em ambientes culturais islâmicos e judaicos é, simplesmente, pelo fato de que a repressão política (Estado) e social (moral-religiosa) tornam impossível assumir. É um decreto de morte! Nestas condições, a necessidade da auto-repressão se impõe.

No filme há a “patrulha da moral” a ameaçar e perseguir Aaron. Eles se veem como os “guardiões da moral”, imaginam-se a serviço de Deus, da religião e pela proteção das crianças. Sempre estão prontos para agir, não importam os meios nem as conseqüências. O fim é o “bem”, portanto, todos os meios estão justificados a priori. **

O pensamento que fundamenta atitudes moralistas é dicotômico e maniqueísta: bem X mal; puro X impuro; santo X pecador; paraíso X inferno. Os nazistas souberam traduzir este dualismo maniqueísta em práticas inesquecíveis. Mas, quem define o que é o “bem” e o “mal”? Ora, quem tem o poder para tal. “Bem” e “Mal” não existem por si, mas sim por uma construção histórica, cultural, religiosa, econômica e política. Em todas as sociedades e culturas, das mais antigas à moderna, definiu-se um padrão de moral. Eis o cimento que sustenta a estrutura delas.

Não obstante, as sociedades são dinâmicas, seus alicerces podem ser abalados e a moral antiga destruída. A nova estrutura social, porém, precisará de uma nova moral que cimente as novas relações sociais. A moral social é inerentemente conservadora, pois se fundamenta nos costumes e na tradição. Mas, por sua dinamicidade, encontra-se em permanente tensão com os novos modos e concepções que a desafia nos contextos históricos peculiares. Assim, ela nem sempre é negativa. É possível, portanto, imaginarmos a possibilidade de uma nova moral que supere o moralismo maniqueísta, aceite e respeite a diversidade sexual humana.

Última observação. Vemos no filme que o judaísmo exclui as mulheres. Aliás, não é privilégio do monoteísmo judaico. As religiões, em maior ou menor grau, excluem as mulheres e reservam para elas papéis e funções subalternas. O poder nas religiões é masculino! É da dominação masculina que se trata. Isto me lembra de outro filme: A fonte das mulheres (La source des femmes). Muito interessante! Vale a pena assisti-lo, assim como os demais citados acima. Mas é apenas uma sugestão!

FICHA TÉCNICA

Título no Brasil: O Pecado da Carne
Título em inglês: Eyes Wide Open
Título original: Einayim Petukhoth
Gênero: Drama
Diretor: Haim Tabakman
Duração: 91 minutos
Ano de lançamento: 2009
País de Origem: Israel


* ANTONIO OZAÍ DA SILVA é professor de Ciência Política e Sociologia do Departamento de Ciências Sociais, Universidade Estadual de Maringá (DCS/UEM)

* Sinopse disponível em http://www.makingoff.org/forum/index.php?showtopic=23675&st

** Essa patrulha moral me remete ao relato de Azar Nafisi, em Lendo Lolita em Teerã: memórias de uma resistência literária (RJ: Edições BestBolso, 2009). Esta autora mostra como o fundamentalismo religioso é opressor das mentes e corpos. A propósito, sugiro o filme Persepolis (França, 2007, 95 min. Direção: Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud).

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3 comentários sobre “O Pecado da Carne

  1. Excelente texto crítico. Não vi este filme ainda, O Pecado da Carne, mas assisti ao filme ” Orações para Bob”, excelente por sinal. O uso da religião como forma de controle, inclusão e exclusão.

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