Bullitt

FÁBIO VIANA RIBEIRO*

Não raro, alguns filmes tornam-se tão famosos por algum aspecto particular que, mesmo possuindo outros tantos méritos, terminam sendo sempre lembrados por uma única e mesma cena, acontecimento, participação, etc. A lista talvez não seja pequena, mas, de qualquer forma, um dos casos mais emblemáticos que conheço é o de Bullitt.

A famosa sequência de perseguição automobilística de Bullitt é, ainda hoje, considerada por muitos a melhor do gênero. O que não é pouco, levando em conta quantas outras foram feitas depois. Apenas para citar um caso conhecido, a cena análoga em Operação França foi concebida com o assumido propósito de superar a sequência de Bullitt. Na opinião da maioria, sem o conseguir. A alucinada e convincente perseguição pelas ruas de San Francisco, entre um Mustang e um Dodge Charger deve muito de sua perfeição ao ator Steve McQueen, aficionado por automóveis e que não apenas colaborou na montagem da cena como dirigiu, ele mesmo, um dos carros.

Contudo, o filme continua; antes e depois desta incontornável sequência. Em termos de cinema americano (em que pese nisso todas as suas virtudes e vícios…) Bullitt é um filme muitíssimo acima da média, num período em que foram produzidos filmes de altíssimo nível. Talvez, por si só, seja possível perceber o porquê do cinema americano ter conquistado o mundo. E possivelmente essa conquista não se deve apenas ao óbvio poder econômico e ao projeto imperialista dos Estados Unidos. Em Bullitt, boa parte dos típicos elementos do cinema americano estão presentes: o herói, seus auxiliares e sua namorada, o vilão e seus auxiliares, diálogos secos e precisos, cenas de ação e carros. Principalmente o primeiro e os últimos.

Como poucos outros filmes, Bullitt sugere muito a respeito do fascínio exercido pelo automóvel em nossa cultura. Coisas fascinantes não costumam ser coisas razoáveis, nem mesmo úteis ou boas. No caso do automóvel, tal fascínio parece estar ligado ao mundo de coisas extraordinárias que sugere: velocidade, tecnologia envolvida, sensação de domínio, etc. Sua propriedade, quase mágica, de multiplicar nossas capacidades e nossos sentidos. Naturalmente que Bullitt é principalmente um filme para quem gosta de carros; e bem menos para aqueles que não vêem muito sentido nisso. O próprio Steve McQueen, piloto e aficionado por automóveis e cuja biografia o coloca como um típico desajustado da sociedade americana, foi diretamente responsável por isso (e tentaria o feito mais tarde em As 24 horas de Le Mans).

Por sua vez, a figura do oficial de polícia Frank Bullitt é, em parte, a de outros heróis do cinema americano: possui um código particular de conduta, próprio dos que sabem “como as coisas funcionam”, e que apenas não se choca com as regras oficiais do sistema naquilo que possuem de essencial. Saber como o sistema funciona limita suas ações ao possível, ao presente e ao palpável. Mesmo não acreditando completamente na própria polícia ou nas instituições políticas do país, suas convicções particulares o levam a ultrapassar o cômodo lugar que ocupa. O mesmo tipo desencantado e interiormente atormentado que já havia antes sido encarnado por Humphrey Boggart em filmes como Casablanca e Uma aventura na Martinica.

Por menos que a quase totalidade do público limite sua atenção aos quase dez minutos mais conhecidos do filme, os que participaram de sua produção pareciam saber que a própria cena – imaginada para ser algo que nunca havia sido feito antes – seria muito menos significativa se não estivesse relacionada e bem localizada dentro do roteiro. E aí está o problema. O roteiro de Bullitt é tão intrincado que a tendência quase natural de todos que assistem ao filme é a de deixarem de lado maiores tentativas de entender a história. É possível imaginar que, visto em tela grande, o problema tenha sido menor, da mesma forma que, talvez, a leitura do livro de Robert L. Pike, Mute Witness (que na edição brasileira saiu como Bullitt, em função do filme) exija menos atenção e raciocínios que o filme. O realismo buscado em muitas das cenas (filmagens feitas num hospital, com parte dos funcionários atuando como atores, sequências de rua, etc.) encontra paralelo na própria trama. Nela, a ação dos envolvidos é “realisticamente” determinada por interesses e motivações que se deslocam e se modificam ao sabor das oportunidades e das circunstâncias. Alcançando menores ou maiores consequências em função de sua proximidade do poder oficial.

Ficha Técnica
Título Original: Bullitt
Gênero: Policial
Direção: Peter YatesDuração: 113 minutos
Ano: 1968
País de Origem: Estados Unidos.


* FÁBIO VIANA RIBEIRO é professor adjunto da Universidade Estadual de Maringá (Departamento de Ciências Sociais) e doutorem Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).

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