Superman: da necessidade do Redentor (Parte V)

ALEXANDER MARTINS VIANNA*

“Mesmo que cresça como humano, você não será como eles. Eles podem ser um grande povo, Kal-El. Eles desejam sê-lo. Somente falta a eles a luz para mostrar o caminho. Por esta razão e, acima de tudo, por sua capacidade para o bem, enviei você para eles, meu único filho… A sua liderança pode despertar as pessoas para a sua própria capacidade de aprimoramento moral, [mas]o coração humano ainda está sujeito a artifícios monstruosos…” (Voz de Jor-El, envolta em aura musical sagrada, na forma de lembrança para Kal-El)

Desde o meu primeiro post analisando o filme Superman – O Retorno, de Bryan Singer (n.1965), tenho buscado demonstrar a presença no filme de diversos temas: os mitos de Jasão e Prometeu; a adoção de órfãos extraordinários; o bad match, com atualidade temática; a sagrada família, com atualidade sociológica; o “rei oculto”, com atualidade sociológica e temática; o legado mosaico (Jor-El/Kal-El) e a promessa de Cristo (Kal-El/Jason); a “Paixão de Cristo”. Para tratar de temas tão complexos, dividi a minha exposição em cinco posts. Eis agora o quinto e último post, no qual tratarei especificamente da expressão dramática no filme de Singer da tese da necessidade do redentor como um emblema moral para um mundo multicultural/multirracial, demonstrando a sua ancoragem cultural no calvinismo norte-americano de viés humanista liberal e sua crítica indireta à forma de projeção de poder mundial e às bases de apoio (fundamentalistas cristãs) do governo George W. Bush.

Entendo que a tese moral que atravessa a teleologia dramática do filme de Singer é que lideranças morais positivas são necessárias porque inspiram a humanidade a se salvar da destruição por meio do exemplo do espírito sacrificial de responsabilidade comunitária. No entanto, o fato de Kal-El ter se evadido dos dramas da Terra para buscar, frustradamente, indícios de sobrevivência de seu mundo perdido, sem dar maiores avisos às pessoas e, muito particularmente, a Lois Lane, teria provocado uma onda de descrença, a ponto de ela ter ganhado o prêmio Pulitzer com uma reportagem em que afirmava a tese de que o mundo não precisava do Superman. Esta ideia vai sendo apresentada ao espectador aos poucos no começo do filme, pelas lentes de Clark, já que o espectador, tanto quanto Kal-El, não sabe o que aconteceu desde a sua evasão da Terra.

Portanto, a expressão dramática da tese inicial de Lois Lane ocorre ao espectador no mesmo momento em que ocorre para Kal-El, unindo-os na mesma temporalidade de consciência e, portanto, na mesma expectativa de demonstrar que a tese de Lois Lane está errada. Não por acaso, depois de ver a mesa de Lois, é revestido de particular significado moral o fato de Kal-El ter sido providencialmente demandado para salvar a mãe de seu (ainda oculto) filho de um trágico acidente de avião, sendo, ao final, ovacionado por um estádio (e cidade) multicultural/multirracial. Esta seria a primeira aparição pública de Superman depois de cinco anos. Assim, logo de início, o comportamento das massas de Metrópolis demonstra que a tese de Lois Lane não resiste à presença inspiradora do redentor.

No entanto, Lois está pessoalmente ressentida demais para sequer agradecer pelo fato de ter sido salva por Kal-El. Para piorar a sua situação emocional, Perry White insiste que ela deveria tratar da matéria sobre o retorno de Superman, quando ela estaria de fato mais interessada em saber a origem do blecaute que provocou o seu acidente aéreo. Como sabemos, ela atende com resistência ao chefe, mas, paralelamente, faz as investigações sobre o blecaute que a levarão justamente até a mansão e, depois, ao navio de Lex Luthor, colocando a si mesma e Jason em perigo.

Antes de esta situação de perigo acontecer, Lois Lane tem seu encontro com Superman para entrevistá-lo, em que este esclarece as razões de sua evasão, mas que não teria mais razões para deixar a Terra. Este diálogo é dramaticamente expresso para causar a distinção entre Lois Lane (terrena, ressentida, pragmática e descrente) e Kal-El (celestial, amoroso, solidário e crente na capacidade humana de aperfeiçoamento moral pela força de seu exemplo como “luz do caminho”, tal como pensava Jor-El ao enviá-lo para a Terra). A sequência dramática da entrevista é cuidadosamente preparada para representar a vitória moral do argumento de Kal-El.

Ancorado na moral da classe média protestante norte-americana humanista-liberal e anti-Bush, o Superman de Singer protege a comunidade, a liberdade e a propriedade, mas não toma partido na macropolítica dos EUA, ou seja, não se confunde com a geopolítica de nenhum Estado, diferentemente do Superman do contexto da Guerra Fria dos filmes Superman (1978) e Superman 2 (1980) de Richard Donner (n. 1930), que funcionava como um emblema de nacionalismo norte-americano ainda desinvestido de agenda multiculturalista. Tal agenda somente emergiria com força na caracterização da ambiência social-moral de formação dos super-heróis na segunda metade da década de 1980.

Do ponto de vista sociológico, o Superman de Singer guarda muito mais analogia social e moral com o ethos civilizacional do cidadão branco e protestante democrata de classe média suburbana dos anos 2000, que mantém um emprego liberal, é tolerante religiosa e racialmente, além de participar de serviços comunitários voluntários, geralmente organizados pelas igrejas de bairro. Como sabemos, Kal-El teve o aprendizado moral do autolimite, do autoexame periódico da consciência e da responsabilidade comunitária por meio do providencial contato com sua família adotiva em Kansas.

Singer lembra esta origem educacional logo no início do filme, quando Kal-El retorna para os braços piedosos da mãe adotiva – aliás, o enquadramento fotogramático desta cena explora o tema da pietà mariológica –, e por meio de recorrentes flashbacks na primeira parte da história. Como Singer parte do princípio de que esta história é fartamente conhecida, não se preocupa de “contar de novo”, mas de fazer rememorações leves que estabeleçam um vínculo estrutural (mas não especificamente temático ou estético) de continuidade com os filmes Superman (1978) e Superman 2 (1980) de Richard Donner.

Antes de sua jornada pós-adolescente até a Fortaleza da Solidão, o ethos moral salvacionista sacrificial de Kal-El (“o filho das estrelas”) se desenvolve por meio de seu contato com a moral religiosa da vida simples Country de classe média laboriosa de seus pais adotivos, muito centrada no valor de viver do fruto de seu próprio trabalho, na responsabilidade (individual e comunal) de fazer frutificar os dons naturais e da graça neste mundo e na responsabilidade de cuidar da família, dos vizinhos e da comunidade, criando um perfeito contraste moral com o individualismo e o pragmatismo da City, personalizados em sua face diabólica extrema em Lex Luthor.

A tipologia religiosa do redentor que emerge no filme de Singer tem ancoragem cultural num tipo de protestantismo que emergiu nos EUA desde o século XIX, quando houve o avanço de uma perspectiva liberal e humanista que apostava na capacidade de melhoria humana devido ao seu potencial intrínseco de se aperfeiçoar por meio do autocontrole, do sacrifício cívico, do bom exemplo de frugalidade e do trabalho intensivo que trouxesse consequências éticas (santas) para cada ato da vida privada e comunal. Esta cultura protestante de viés liberal e humanista entendia a graça como uma semente que somente germinaria se fosse eticamente cultivada no cotidiano, opondo-se à doutrina teológica da salvação pela graça de Calvino e ao exclusivismo intolerante dos puritanos rigoristas.

Inscrito nessa perspectiva liberal e humanista de cultura protestante, mas agora com agendas políticas, culturais e de gênero características dos anos 2000, o filme de Singer dá expressão dramática ao tema do retorno do redentor, mas o que interessa para ele nesse tema é o seu significado moral: a possibilidade de figurar Superman como um emblema universal de esperança na capacidade humana de aprimoramento moral, independentemente de raça, cor ou etnia. Afinal, se Kal-El tem poderes sobre-humanos de origem insondável para a maioria dos mortais, aprendeu a viver conforme as limitações morais, civis e jurídicas deste mundo. Portanto, não está aqui para ameaçar estados, mas para fazer frutificar no coração de cada pessoa a semente ética de seu exemplo de responsabilidade comunitária.

Para cativar seres inferiores para seu exemplo excepcionalmente superior, Kal-El dá provas permanentes de humildade e solidariedade comunitária, em contraste tipológico com o poder predatório do capitalismo especulativo e socialmente irresponsável de Lex Luthor. Ao mesmo tempo, conforme Cristo, mesmo tendo poderes sobre-humanos, não está livre, neste mundo, de sofrer os efeitos do tempo, do sofrimento (físico e emocional) e da finitude da existência carnal. Sem esta limitação mundana, o motivo bíblico central no filme – a “Paixão de Cristo” – não teria existência dramática ou função moral exemplar.

Por associar o poder celestial/estrelar/solar com a possibilidade de sofrimento (físico e moral) terreno e, no limite, ser atingido pela morte, a condição paradoxal de Kal-El/Christus aumenta o seu apelo como força moral exemplar, que pode despertar, inclusive, a consciência onde menos se espera, tal como observamos, no post anterior, quando estudamos a forma como Singer propõe o despertar da consciência de Kitty Kowalsky por meio de sua singular proposta de expressão dramática do tema da “Paixão de Cristo”.

Enfim, mais do que em qualquer outra versão cinematográfica da história de Kal-El, considero que o filme de Bryan Singer explora deliberadamente motivos literários clássicos e bíblicos, a partir de uma ancoragem na cultura protestante norte-americana humanista-liberal, buscando alcançar uma expressão dramática moralmente cristológica do tema do Superman, mas culturalmente avessa ao fundamentalismo religioso cristão que apoiou o governo George W. Bush.

Como emblema moral do “homem de bem” da “classe média laboriosa” – em contraponto moral aos poderes capitalistas prepotentes, violentos, especulativos, parasitários e socialmente irresponsáveis –, o Superman de Singer é a representação de uma potência planetária efetivamente amada e respeitada porque: (1) se mostra moralmente confiável na autolimitação de seu poder e ação no mundo; (2) é socialmente responsável e avessa ao uso prepotente de superpoderes; (3) apresenta-se como inclusiva de todos os povos, raças e culturas da Terra. Eis, portanto, o antítipo moral cinematográfico do governo fundamentalista cristão de George W. Bush.

SUPERMAN – O RETORNO
Título original: SUPERMAN RETURNS
Lançamento: 2006
Início da Filmagem: Novembro de 2005
Início do projeto: Julho de 2004
Direção: Bryan Singer
Roteiro: Michael Dougherty e Dan Harris
Atores: Brandon Routh; Kate Bosworth; Kevin Spacey
Locações da Filmagem: Austrália
Produtora: Warner Bros.


*ALEXANDER MARTINS VIANNA é Professor de História Moderna e Contemporânea do Departamento de História da UFRRJ.

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7 comentários sobre “Superman: da necessidade do Redentor (Parte V)

  1. Caro Prof. Anderson Gomes,
    Agradeço pela atenção aos meus ensaios. Que fôlego, hein?… Leu todos de uma vez! Que bom que vc falou que gostou do filme. O difícil mesmo é chamar a atenção para o fato de que é a análise que torna relevante um filme considerado “ruim”, fazendo um cruzamento pertinente entre hipóteses contextuais, materialidade e intertextualidade. Se vc gostou, significa que tive êxito na empreitada. Obrigado!…
    Abs e tudo de bom.

  2. Acabei de ler numa tacada os cinco posts. Excelentes! Se tornou moda falar mal desse filme, especialmente pelo insucesso nas bilheterias, mas sou apaixonado por ele desde a primeira vez que vi no cinema. Aliás, Quentin Tarantino também é fã e escreveu um ensaio mítico sobre o filme que até agora só quem viu foi o próprio Bryan Singer. http://blogs.coventrytelegraph.net/thegeekfiles/2009/05/quentin-tarantino-reveals-his.html

    Gostei muito quando vc falou do contraste entre esse filme e os do Richard Donner, especialmente em uma espécie de recusa em tornar o discurso do Superman totalmente norte-americano. Acho que isso fica muito claro (e de forma irônica) quando o Perry White fala que o Superman representa “truth, justice and… all that stuff”, suprimindo o “the American way” do lema clássico do Homem de Aço.

    Parabéns pelos artigos!

  3. Achei bem interessante a sua abordagem professor pois tb acho de enorme relevância discutir os HQs pois eles expressam diversas questões de nossa realidade. E tb porque estdou utilizando HQs para uma discussão oriunda da Ciência Política. Meus parabéns pela iniciativa.

  4. Esta série de ensaios tem tido uma boa recepção de leitores. No entanto, a maioria dos leitores tem deixado suas considerações e questões dispersas em vários nichos do facebook. Assim, perdemos a chance de observar essas considerações em um só lugar: no próprio blog. Dentre as várias opiniões de leitores, uma delas me chamou mais atenção e, por isso, gostaria de compartilhar no setor de comentários do Blog da REA. Trata-se do comentário e questionamento de Natally Menini, aluna do curso de História da UFRRJ, seguido de minhas considerações.
    Comentário de Natally Menini:
    “Excelente artigo! Gostaria de fazer uma pergunta referente a seguinte passagem conclusiva: “Mas o que interessa para ele nesse tema é o seu significado moral: a possibilidade de figurar Superman como um emblema universal de esperança na capa…”. “O ethos civilizacional do cidadão branco e protestante personificado no “redentor” Kal-El pode oferecer algum tipo de equívoco para uma pretendida mensagem de tolerância ou mesmo de igualdade racial?”

    Minha resposta:
    “Há dois pontos centrais a considerar, se entendi bem a sua pergunta: (1) a forma como se pode usar o emblema cristão do redentor centrado na ideia de amor ao próximo (caritas) na cultura protestante norte-americana; (2) o tema da tolerância no cenário do multiculturalismo norte-americano.
    O emblema moral da caritas cristã – personificada no Kal-El de Singer – estende-se da família à comunidade, centrando-se na ideia de que Cristo, como metonímia do bem maior comunal, falou por/para todos – pagãos, judeus, cristãos etc. Por este viés, há a possibilidade de tornar Kal-El/Christus um emblema inclusivo, um antítipo do fundamentalismo cristão e do unilateralismo bushista.
    No entanto, a tolerância não é menos normativa: quem inclui e tolera, inclui e tolera segundo os seus termos – a cultura protestante dos sempre disputados “pais fundadores”. Afinal, o Superman continua vestindo as cores dos EUA – isso é um tema incontornável para o emblema do Superman.
    O tema da tolerância, em si mesmo, encerra ambiguidade, pois pressupõe o tolerante (posição hegemônica da cultura protestante encarnada em determinado entendimento ideal de funcionamento das instituições, vínculos sociais e responsabilidades civis) em face ao tolerado (minoria que tem a concessão de existir em nichos específicos, podendo viver domesticamente a sua diferença, sem abalar a moldura pública e códigos civis e institucionais hegemônicos do tolerante).
    Portanto, não é contraditória a forma como Singer aciona o tema cristológico no emblema de Superman para propor um mundo multicultural inclusivo. Não se trata de um equívoco ou contradição, mas algo plenamente ancorado nos fazeres, entendimentos e embates do multiculturalismo protestante liberal e humanista norte-americano. Nesse sentido, o Superman cristológico de Singer não é um equívoco para o tema da tolerância, mas um exato retrato da mesma em seu viés multiculturalista-humanista-liberal-protestante norte-americano e, portanto, uma arma cultural contra o fundamentalismo cristão bushista.
    Nisso está o brilhantismo do filme de Singer: toma um emblema potencialmente chauvinista de orgulho nacional e transforma numa arma cultural contra o fundamentalismo cristão, inclusive na forma como pensa a condição familiar do filho de Kal-El. No entanto, faz isso inevitavelmente de um lugar cultural e político, visando a alvos específicos…
    O que vc pode se perguntar não é sobre o equívoco da tolerância no Superman de Singer, mas sobre o equívoco do próprio tema da tolerância, independentemente de seu viés. O multiculturalismo do Superman de Singer é apenas um desses vieses, mas não encontrei ainda qualquer viés sobre o tema da tolerância que atenuasse a relação tácita de poder que lhe é constitutiva…
    Minha utopia pessoal é um mundo em que a tolerância não seja mais necessária, em que possamos viver num mundo da pós-tolerância, num mundo em que embates culturais contra diferentes formas de fundamentalismo – tal como o embate do Superman de Singer contra o fundamentalismo cristão do Governo Bush, por exemplo – não sejam mais necessários. Gostaria de viver para ver um mundo sem tolerantes e tolerados…
    Abraços e muito obrigado pelo interesse.”

  5. Parabéns professor Alexandre, gostei muito mesmo da forma diferente, inteligente, de como o filme contextualiza o tema conduta ética e moral, exemplificado nos valores que retratam o verdadeiro amor ao próximo, fazendo uma análise critica, profunda, destes valores nos dias de hoje, traçando um paralelo sobre a conduta do governo Bush e outros, para uma reflexão sobre as consequências na sociedade humana.

  6. Caríssimo professor Alexander,

    Apesar de não ser muito atraída por filmes de super-heróis, não há como negar que suas análises, em suas palavras, do “complexo pático-racional linguístico-imagético sonoro-performático” do cinema são ótimas, pois sempre nos revelam inúmeros pontos de vista e um universo de críticas. Afinal, são seres pensantes que o produzem e que de alguma forma é instrutivo, independente de preferências. Enfim, adorei a análise.

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