Um método perigoso

ANTONIO OZAÍ DA SILVA*

Um método perigoso (A Dangerous Method) inspira-se no livro A most dangerous method, de John Kerr, adaptado para o cinema por Christopher Hampton, roteirista consagrado com o Oscar de Melhor Roteiro do filme Ligações Perigosas. Antes de A Dangerous Method, Hampton adaptou o livro de John Kerr para os palcos na peça The Talking Cure.

É um filme recente e há várias resenhas críticas disponíveis na internet escritas por críticos e especialistas. Não é o meu caso, não sou crítico de cinema e pouco sei sobre psicanálise. Sou muito mais um diletante, cuja curiosidade foi aguçada pelo filme (por exemplo, despertou-me o desejo de ler as biografias de Freud e Jung e a obra citada acima). Não obstante, destaco três aspectos que considero principais. Primeiro, o fato de Um método perigoso mostrar, nos limites da arte cinematográfica, as tensas relações entre os ícones da psicanálise, Sigmund Freud (Vigo Mortensen) e Carl Gustav Jung (Michael Fassbender). Os diálogos, correspondências, etc., deixam claras as divergências entre Freud e Jung e os motivos que os levam à ruptura. O segundo aspecto, mas não menos importante, diz respeito ao envolvimento emocional e sexual de Jung com a sua paciente Sabina Spielrein (Keira Knightley), o que levanta uma questão ética. Por fim, e relacionado ao anterior, se refere ao adultério. Carl Gustav Jung era casado com a rica Emma Rauschenbach Jung, com quem teve cinco filhos. Aliás, o famoso médico-psiquiatra foi duplamente reincidente ao relacionar-se com outra paciente, a jovem Toni Wolff.

Estes aspectos revelam o principal mérito do filme. Um método perigoso faz com que os deuses do Olimpo desçam à terra e assumam a condição humana, demasiadamente humana. Os grandes homens e mulheres que se notabilizam na história da humanidade por seus feitos, teorias, etc., são humanos condicionados por sua época, seres imperfeitos e inseguros. Para além das aparências, status, etc., somos humanamente semelhantes. Mesmo os gênios e renomados cientistas que se colocam como objetivo desvendar os mistérios da mente humana tem, enquanto indivíduos, semelhanças com os mais simples dos humanos. Os personagens míticos da psicanálise são humanizados e suas contradições e sentimentos expostos.

Freud, em 1914, escreveu o artigo Observações sobre o amor transferencial, publicado em 1915. Neste, o pai da psicanálise examina o envolvimento emocional entre psiquiatra e paciente. Trata-se de uma provocação deliberada àquele que um dia Freud admirou e imaginou-o como o seu herdeiro. O “método perigoso” revela-se no escrito freudiano, ou seja, o relacionamento de Jung com a sua paciente. Eticamente condenável, no mínimo polêmica, esta relação amorosa expõe a fragilidade humana diante dos seus instintos naturais fundamentais e as pulsões da paixão. Antes de condenar, é necessário tentar compreender. E é muito, muito difícil, entender o humano. Portanto, é muito mais fácil condená-lo.

Se, do ponto de vista ético, é repreensível o envolvimento emocional em casos no qual o profissional exerce autoridade, a questão é complexa, pois embora expresse uma relação de poder é também um relacionamento humano. E as relações humanas envolvem mais do que a racionalidade. A julgar pelo filme, por exemplo, Jung é seduzido pela jovem e atraente Sabina. Claro, pode-se argumentar que ele, a partir da posição que ocupa na relação, teria a obrigação de racionalmente resistir e afastar qualquer possibilidade de envolvimento emocional. Não apenas por se tratar da sua paciente, mas também por negar um dos valores essenciais da moral predominante: a monogamia. O fato é que ele se rende aos encantos de Sabina e, embora dividido entre o amor à esposa, os sagrados valores da família monogâmica e a relação extraconjugal, nega-se a se reprimir. É evidente que sua decisão acarreta consequências, mas agir conforme o padrão normal não o isentaria de efeitos emocionais. Quando o ser humano está diante de circunstâncias deste tipo não sai emocionalmente ileso. Viver é perigoso!

A ruptura entre os fundadores da psicanálise talvez expresse um confronto de egos. Tomando como base o filme – e sempre fica a incógnita sobre até que ponto este é fiel aos fatos históricos – parece que Freud não admite críticas e questionamento da sua autoridade. Por outro lado, ele mostra-se preocupado em resguardar sua teoria das influências junguianas, tidas por ele como negativas. É o legado histórico que está em jogo.

A tensão entre Freud e Jung, a relação deles com Sabina, dividida entre o amor e as perspectivas profissionais, e o relacionamento extraconjugal Jung-Sabina, aparecem como os aspectos centrais. Contudo, o filme explora um tema que se tornaria predominante com a ascensão de Hitler ao poder, a diferença entre arianos e judeus. Há uma cena na qual Freud conversa com Sabina e ressalta o fato de ambos terem ascendência judaica, contrapondo-se aos arianos. Freud e Sabina seriam vítimas do nazismo: Ele viu-se obrigado a exilar-se em Londres (não foi permitido que suas quatro irmãs deixassem Viena, Áustria) e Sabina foi fuzilada pelos soldados nazistas, junto com suas duas filhas (Renata e Ewa), em 1942, na sua cidade natal, Rostov. Jung faleceu em 1961 e se tornaria um dos maiores psiquiatras do mundo, comparável ao seu mentor e pai simbólico.

À sua maneira, o filme Um método perigoso é mais uma demonstração das emoções que dilaceram a alma, destroem amizades e vínculos intelectuais promissores e questionam as verdades e valores que acreditamos. Quem o assiste tende a concentrar a atenção sobre a tensa relação entre Freud e Jung e, simultaneamente, ao papel de Sabina enquanto paciente e amante de Jung, mas também enquanto a promissora estudante que se revelaria uma das primeiras psicanalistas na história. Freud e Jung são personagens históricos simbólicos e a atuação de Vigo Mortensen (Freud) e Michael Fassbender (Jung) é convincente e elogiosa.

A personagem Sabina Spielrein e o desempenho da atriz Keira Knightley são dignos de admiração. Em meio a dois gigantes, é ela quem desponta, demonstra ousadia, coragem e capacidade de enfrentar as situações adversas e superá-las. Sabina Spielrein destrói as convenções morais, se impõe perante o poder masculino e patriarcal e ensina lições aos seus grandes mestres e tutores. E, no entanto, ela é humana, demasiada humana. Suas atitudes revelam destemor, mas também sofrimentos e traumas psicológicos presentes desde a infância. É a sua história que torna o filme ainda mais interessante. Ela é uma dessas raras mulheres que desafiam os valores da sua época. Freud e Jung devem ter aprendido algo com ela! O filme aponta caminhos a serem explorados. Um deles é conhecer, de maneira mais aprofundada, a biografia dessa admirável mulher: Sabina Spielrein.

Ficha Técnica
Título: Um método perigoso
Título original: A Dangerous Method
Direção: David Cronenberg
País: Reino Unido, Alemanha, Canadá e Suiça
Ano: 2011
Duração: 99 min.


* ANTONIO OZAÍ DA SILVA é docente do Departamento de Ciências Sociais, Universidade Estadual de Maringá (DCS/UEM). Blog: http://antoniozai.wordpress.com Email: aosilva@uem.br

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6 comentários sobre “Um método perigoso

  1. Prof. Ozaí,
    Para além das sinalizações que o camarada Raymundo aponta… em minhas poucas e humildes palavras, desconhecedoras da psicanálise e da biografia dessas três vidas, apenas digo que o que mais me chamou a atenção neste filme é o modo como Jung resolveu o seu drama amoroso. Uma atitude totalmente liderada pelo MEDO, mas com explicações racionais que o fizeram manter em pé. Estou longe de querer justificar, ou dizer se Jung agiu corretamente em sua vida… O fato é que a frase final do filme diz tudo: “Às vezes as pessoas têm que fazer algo imperdoável só para continuar vivendo…”

  2. Para bem resenhar, talento há em nosso amigo Ozaí, que atrai atenção para a filigrana do filme. Para resenhar a resenha, talento há em Raymundo Lima, que atrai para o ensaio de Ozaí mais informação, o que demonstra que o ensaio cumpriu o objetivo de criar interesse e discussão, ampliação de horizonte… Parabéns para ambos!…

  3. Professor,
    Gostei muito da sua resenha a qual tive acesso via o reblog do Beto Bertagna a 24 quadros.
    O Senhor não se ateve à ‘estrada principal’, indo por ‘trilhas’ adjacentes, o que tornou o filme mais atraente, aos meus olhos. (Já li o livro do J.Kerr)
    Há uns 2 dias assistindo a uma entrevista de Alejandro Jodorowsky (falada num espanhol muito rápido, mas legendada em inglês) onde ele responde, entre outras coisas, sobre Freud (matar o pai) e descreve a reação de Jung ao saber da morte do seu “Pai Honorário” (Freud):”Que maravilha! Que maravilha!”
    Eu apesar de já ter sido permitida folhear o “Livro Vermelho” (oi!?): Fiquei chocada!

    Caso interesse:http://youtu.be/B95y1uX3x18

    E como diria Obelix batendo na cabeça: “Esses [o nome do povo ] são uns loucos” Pisc*
    Grata, Norma

  4. Caro Ozai. Para quem não se considera “resenhista”, o seu texto diferencia positivamente dos demais sobre o filme; e para quem se considera um “diletante”, sua linha de exposição do mesmo até joga luz sobre uma parte do complexo relacionamento entre Freud e Jung.
    Felizmente, voce não caiu no erro de considerar Jung “discípulo” de Freud, porque realmente nunca foi. Também voce não caiu na tentação que atravessa os sociólogos made in Lenin-Stalin, que consideram a psicanálise “burguesa”, mas sim um tratamento na linha clínica-científica para forjar sentidos sobre os transtornos mentais ou psíquicos. Muito embora os psicanalistas (freudianos) e psicoterapeutas analíticos (junguianos) sejam “demasiadamente humanos” é imperioso que o profissional faça análise de sua contratrânsferencia e busque supervisão dos casos clínicos com outro profissional mais gabaritado; estes dois dispositivos criados pela psicanálise contribuem para que os atos clínicos sejam mais acertados para tratar os pacientes. Isto vale dizer, que o psicanalista não pode atender alguns pacientes que revelam as dificuldades históricas e recalcadas do próprio psicanalista. Portanto, se Jung tinha um ponto-cego e surdo que esbarrava na inteligência e sensualidade de Sabina, ele deveria reconhecer sua incapacidade para fazer contrato terapeutico com ela. Mas, parece que Jung não respeitava estes limites.

    Permita-me fazer três sinalizações sobre o seu texto:
    (a) faltou considerar que além do livro “A most dangerous method”, de John Kerr, adaptado para o cinema por Christopher Hampton, certamente ele se baseou noutro livro “Diário de uma secreta simetria”, do italiano Aldo Carotenutto, possivelmente este foi o primeiro que rastreou a trajetória da Sabina e questionou que ela teria sido o pivô da ruptura entre Freud e Jung. O filme “Jornada da alma” parece que foi baseado neste livro. Aos leitores interessados, vale a pena confrontar ambos os filmes.

    (b) Outro ponto que faltou considerar, quando voce se refere a Toni Woff, esta era a secretária do Jung, que a considerava sua “musa inspiradora”. Em “Um mundo transparente”, o escritor Morris West ficciona esta situação complicada entre os dois. Durante as entrevistas com seu biógrafo, Jung teria demonstado interesse de ser exposto sua boa perfomance de amante, afinal, por cerca de 40 anos ele teria mantido uma relação à três (Jung, Emma e Sabina) cujo vértice era ele.

    (c) Outro ponto interessante, Sabina Spielrein e Vera Schmidt, são consideradas duas russas pioneiras da psicanálise, portanto, no período soviético, pois elas voltaram para este país em 1923, e fundaram uma escola ou jardim-escola influenciadas pela psicanálise. Mas esta escola, chamada “Berçário branco”, foi fechada três anos depois por determinação do camarada Stalin. Curiosidade: parece que um filho de Stalin [Vassili] teria sido antes matriculado pelo pai, para ser aluno ou paciente nesta escola-clínica.

    No mais, parabéns pela resenha, que estimula a gente a ver o filme “Um método perigoso”. Raymundo.

    • Raymundo,

      boa tarde.
      Meu sincero muito obrigado por ler, comentar e pelas sinalizações.
      Seu comentário é instigante e esclarecedor, uma contribuição importante.
      Por falar nisto, a coluna ENSAIOS SOBRE CINEMA permanece aberta à sua contribuição como autor.

      Abraços e tudo de bom,

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