Muito antes de High School Musical

ZULEIKA DE PAULA BUENO*

Em meados do século XX, produtores e diretores de Hollywood se depararam com uma situação por vários deles considerada catastrófica: o declínio do cinema clássico como entretenimento universal. Era o fim de Hollywood tal como se conhecia. A manutenção da lucrativa combinação vertical existente entre companhias produtoras e circuito exibidor fora abalada pelas leis antitrustes impostas pela justiça norte-americana na década de 1940. Aliada a essa reconfiguração estrutural, a consolidação da televisão como novo meio de “diversão para toda a família” questionava a hegemonia dos grandes estúdios.

Onde alguns viam catástrofe, outros enxergaram oportunidade. Foi desta forma que o produtor Sam Katzman percebeu a falência da produção dos grandes estúdios na década de 1940. Experiente produtor de filmes B, o nova-iorquino iniciou sua carreira como aprendiz e assistente de direção na antiga Fox Film Corporation. Ainda na década de 30, Katzman partiu para a produção independente de filmes de baixo orçamento com modesta, mas segura, margem de lucro. Em meados dos anos 40, foi chamado pela Columbia para comandar a produção seriada do estúdio. Motivado pelas pesquisas de opinião encomendadas pela indústria cinematográfica a sociólogos e comunicólogos norte-americanos, – com a finalidade de conhecer de forma mais racionalizada e sistemática o público freqüentador das salas de exibição – Katzman investiu na produção de filmes exclusivamente direcionados para aqueles apontados estatisticamente como os mais cinemeiros: os adolescentes e jovens.

De fato, adolescentes e jovens formavam um grupo social impossível de não ser notado nos Estados Unidos do pós-guerra. Eles estavam em grande número nas ruas, possuíam mais dinheiro que os jovens das gerações passadas e se auto-reconheciam como um grupo social coeso em torno de interesses comuns. A escola, e sobretudo a vida urbana, havia em grande parte proporcionado aos jovens muito mais tempo de convivência entre seus pares do que com a família ou outros grupos sociais ordenados pelo mundo adulto.

Focado nesse grupo, Sam Katzman desenvolveu uma nova concepção de negócios cinematográficos, deslocando do conteúdo para a audiência o foco central da produção. Apostando no lema “seja o primeiro, não o melhor”, Katzman realizou na Colúmbia uma série de quickies – filmes de baixo orçamento e grande velocidade de produção – voltados para o público adolescente: Junior Prom (1946), Freddie Steps Out (1946), High School Hero (1946) e Betty Co-ed (1946), levava para as telas de cinema aventuras que tinham como cenário principal os colégios estadunidenses. Além de ambientes e personagens familiares, o produtor apostava na produção de séries que exploravam exaustivamente os heróis maravilhosos, fantásticos, selvagens ou super humanos como catalizadores da audiência juvenil.


Uma década após ingressar na Columbia, Katzman era um reconhecido produtor do que foi considerado um novo segmento de filmes B: os teenpictures, ou simplesmente teenpics. Embora se promovessem como produtos absolutamente originais, os teenpics causaram grande impacto no mercado norte-americano combinando formas e conteúdos já largamente experimentados pela indústria de cinema. Transitavam entre os mais variados formatos, de musicais a filmes de horror, e articulavam a esses gêneros qualquer assunto emergente, oportuno ou bizarro associado a figuras juvenis, sobretudo aqueles de maior impacto social e emocional: delinqüência juvenil, consumo de drogas, experiências sexuais pré-maritais, tudo isso combinado ao ritmo divulgado pelas rádios estadunidenses como a voz da nova geração: o rock’n’roll.

Em janeiro de 1956, apostando oportunamente no sucesso da canção “Rock Around the Clock”, gravada por Bill Haley and the Comets, Sam Katzman levou às salas mundiais Ao balanço das horas (Fred Sears, Rock Around the Clock, 1956) explorando o rock´n´roll como catalisador da audiência jovem. Mais uma vez, comprovava-se a aguçada visão comercial do produtor para a atração do gosto juvenil.

As fitas explorando o rock’n’roll, verificou Salles Gomes, drenaram para Hollywood “uma parcela das somas astronômicas obtidas pelo comércio da música” (1981, p. 52). Pouco investimento e lucro certo. Era isso o que o novo ritmo representava para os produtores cinematográficos. Ao balanço das horas, por exemplo, trouxe para a Columbia, sua distribuidora, um lucro exorbitante. Se havia ainda alguma resistência no meio cinematográfico em investir de forma mais intensa e sistemática nas produções de rock e no segmento juvenil, com o filme de Katzman ela foi eliminada.

Astros do rock foram, então, simultaneamente projetados como estrelas do cinema. Elvis Presley é um bom exemplo dessa afirmação. Em 1956, ano em que alcançou o topo da concorrida indústria fonográfica norte-americana, Elvis estreou o primeiro de dezenas de filmes nos quais atuaria como atração principal: Ama-me com Ternura (Robert Webb, Love Me Tender). Nos anos seguintes, cada novo álbum de Elvis que chegava às lojas era acompanhado de um novo filme lançado nas salas de cinema.

Essa tendência atingiu não apenas a produção cinematográfica norte-americana, mas se faz sentir em todos os espaços de atuação das grandes gravadoras. Observando o caso brasileiro, é nítida a contemporaneidade da chegada do ritmo às produções cinematográficas nacionais e a ampliação da atuação das grandes gravadoras nesse mercado.

Mas isso já é assunto para um próximo texto.

 

Referências

Doherty, Thomas. Teenagers and Teenpics: the juvenilization of American Movies in the 1950´s. Philadelphia: Temple University Press, 2002.

GOMES, Paulo Emílio Salles. Crítica do Suplemento Literário, vol. I. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.

Schatz, Thomas.O gênio do sistema: a era dos estúdios em Hollywood. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.

TROPIANO, Stephen. Rebels & Chicks: a History of the Hollywood Teen Movie.  New York: Back Stage Books, 2006.


* ZULEIKA DE PAULA BUENO é professora dos cursos de Ciências Sociais e Comunicação e Multimeios da Universidade Estadual de Maringá; Doutora em Multimeios pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

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Um comentário sobre “Muito antes de High School Musical

  1. Simples, sucinto e muito bom na caracterização do surgimento do mercado cultural jovem de consumo do pós-II Guerra Mundial e como, mais especificamente, isso se manifestou no mercado de cinema norte-americano. A fórmula, como percebeu a autora, fez escola e se projeta até hoje, sendo reciclada para novas agendas culturais, de gênero, de padrões de pudor e família, comportamento, códigos corporais, novos ritmos musicais, novos padrões estéticos e novas concepções de jovem e juventude. Para além da história extrafílmica do sistema dos estúdios e produções seriadas (para cinema e/ou TV) visando ao público jovem, já contemplada neste ensaio, gostaria de ver algum ensaio vindouro que analisasse um caso fílmico dos EUA da década de 1940 e/ou 1950, que justamente servisse como amostragem ou estudo de caso da transformação do mercado cultural, da configuração social e dos padrões comportamentais.

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