Aos prolixos, excluídos e solitários que publicam na rede

WALTER PRAXEDES*

Os prolixos

É difícil percebermos quando nos tornamos prolixos. No dia de sua diplomação o nosso novo presidente até reconheceu que nunca havia falado por apenas cinco minutos. Foi uma exceção.

Escrever também pode tornar-se uma obsessão. Isso ocorre quando as palavras que digitamos e aparecem na tela não fazem concessão e exigem sempre mais. Cobram intermináveis complementações, esclarecimentos, adequações, aquela expressão exata. Muitas vezes tudo isso é desnecessário, pois o leitor vai sempre preencher os brancos do texto que lê com a sua imaginação e o seu discernimento. Mas não, o autor prolixo considera como essencial emendar, fundamentar e ilustrar até que o leitor se canse e descubra a verdade do mouse.

Pela escrita podemos fugir da realidade com o pretexto de investigá-la. É assim que suplantamos os limites do existente. Analisar, descrever, interpretar e explicar se revelam, então, vícios incorrigíveis.

***

Os excluídos

No Brasil dos anos trinta, apenas algumas centenas de escritores publicavam nos jornais e revistas de norte a sul do país. Agora são centenas de milhares de escritores que reclamam o direito de expressão pública.

Tudo indica que a rede será transformada em um veículo perene, uma vez que vem crescendo o número de pessoas que escrevem, enquanto os canais de divulgação mais prestigiosos tendem para a centralização.

Escrever e publicar na Internet faz esquecermos que os veículos mais lidos e tomados a sério estão fechados para a turba de digitadores implacáveis que compomos.

***

Os solitários

Quando publicamos na rede lançamos inúmeras garrafas ao mar com um pedido de socorro. Esta imagem pode ser usual, mas me parece irresistível e apropriada. Desde o instante em que lançamos a primeira garrafa passamos a cultivar a esperança de que alguém a encontre. Isso quase aconteceu comigo quando uma leitora enviou-me uma mensagem instigante: “Li o seu artigo sobre o professor universitário e achei-o muito interessante numa primeira leitura”. Não é fácil se entregar a um desconhecido, reconheço.

Quando compramos um livro, podemos conferir a procedência da obra, a credibilidade da editora, o currículum do autor. Nas grandes editoras os autores são mais conhecidos. Acho impensável um raciocínio do tipo: “Li o livro de Saramago e achei-o muito interessante numa primeira leitura”. Simplesmente confiamos. Podemos ser efusivos, amar ou odiar um texto de um escritor célebre desde a primeira leitura das primeiras linhas. Quanto aos desconhecidos que habitam o mundo virtual é preciso evitar um engano. Nunca se sabe quem está do outro lado da rede.

Mas ocorre também de uma de nossas garrafas virtuais ser encontrada. Então, uma resposta que recebemos e interpretamos como sincera, substitui os leitores anônimos, sem rosto ou opinião que desconhecemos ou que nunca conquistaremos, nos livrando da sensação de esquecimento por algum tempo. Por isso continuamos lançando garrafas ao mar.


* WALTER PRAXEDES é Doutor em Educação (USP), Sociólogo e Professor da Universidade Estadual de Maringá (DCS/UEM). Publicado na REA, nº 20, janeiro de 2003, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/020/20wlap.htm

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7 comentários sobre “Aos prolixos, excluídos e solitários que publicam na rede

  1. Recebi por parte de dois professores uma crítica irônica dizendo que sou muito prolixa….eles pensam que eu iria me sentir ofendida e o real intuito realmente era me rebaixar diante dos demais ouvintes, porém confesso que é uma dos melhores elogios que já recebi e faço questão de continuar sendo prolixa e sempre preservando minhas qualidades para escrever. No que diz respeito à ironia deles, “o tiro saiu pela culatra.”
    Continuarei escrevendo sempre…..mesmo que isso signifique “lançar pérolas aos porcos” para os analfabetos funcionais do mundo universitário atual.

  2. Bela garrafa! Encontrou-me em 2012, após uma longa viagem temporal. A questão dos prolixos é resolvida, nas editoras e na imprensa, pelos editores, que sugerem cortes, adaptações, etc. Na internet, você é seu próprio editor, que tem pena de cada letra digitada, o que inviabiliza o trabalho de edição. Falta o olhar do outro.

  3. Meu caso Walter. Concordo totalmente com o seu texto. Acho que todo escritor lança sua garrafa ao mar esperando que o leitor colha seu escrito, compreenda e dê um retôrno sinalizando que o encontrou. Contudo, a internet abriu portas para tantos escritores e pseudoescritores. Dos escritores, torna-se impossível ler tudo.
    Dos pseudoescritores, ao ler o que escreveram muitas vezes sinto que foi perda de tempo. Parece que o primeiro desejo deles não se dirige para nossa leitura, mas apenas desabafar. O que querem mesmo é fazer sua catarse. Aqui neste espaço de resposta, os leitores são bem educados e inteligentes, mas vemos pela rede muito desabafo, bobeiras, grosserias. E que se escondem em pseudônimos e anonimatos covardes. Acho que o Ozai já escreveu sobre isso.
    Parece também que os solitários enfim encontraram na internet um lugar para o auto-engano: agora tenho centenas de amigos no facebook, tantos me seguem no twitter, etc. Coitados… Abç. Raymundo.

  4. Fico muito em dúvidas quando insisto em escrever ou replicar nos grupos, especialmente sobre política e ideologias. Temo que não exista mais mas queria espaço para nós Brasileiros, pensando e conversando sobre a história e nossos erros, evitássemos de que fossem repetidos. Quando o desânimo bate e me lembro de Borges “tu que me lês, tem certeza de que compreendes a minha escrita?”, me amparo na crença de que firmo minha posição e minhas crenças para meus filhos e os outros filhos de nós todos. Posso estar errado, mas não tenho o direito de me calar.

  5. No instante em que finalizo o meu primeiro guest post e o retenho sem publicar, com dúvidas até sobre a etiqueta pelo uso de links no texto, ler ‘os prolixos’ arremete ao conceito de sincronismo: justo agora! Novas dúvidas emergem.
    Penso um pouco mais sobre o lançar garrafas ao mar em que já nos lançamos como leitores e recorro ao poeta:

    “Navegar é preciso; viver não é preciso.” (Fernando Pessoa) (*)

    (*) Nota de Soares Feitosa: “Navigare necesse; vivere non est necesse” – latim, frase de Pompeu, general romano, 106-48 aC., dita aos marinheiros, amedrontados, que recusavam viajar durante a guerra, cf. Plutarco, in Vida de Pompeu.
    http://www.fpessoa.com.ar/poesias.asp?Poesia=036&Voltar=pesquisa.asp%3Fp=1%26d=ti%26h=to%26q=

  6. Não te conheço, nem você me conhece. Considero a reciproca do que você escreveu verdadeira: seria difícil você se entregar ao que eu poderia replicar.
    Como a energia que eu gastaria para me fazer conhecida e confiável seria muito grande, perco o desejo da troca.
    Tenho me limitado a apenas ler, porque as discussões da rede, na minha avaliação ampliam solidão.

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