O cinema que não ousa dizer seu nome

FÁBIO VIANA RIBEIRO*

“O cinema que não ousa dizer seu nome” era o título – se não me falha a memória – de uma antiga mostra de filmes gays exibida nos anos 80 em Belo Horizonte; e que, por sua vez, aludia à frase de Oscar Wilde, sobre mais ou menos o mesmo assunto. Mas isso não vem ao caso. A questão é que as centenas de milhares de filmes já feitos no mundo poderiam ser simploriamente divididas em três categorias: clássicos totais (eternamente comentados, reproduzidos, vendidos, etc.), clássicos cult (eternamente comentados, reproduzidos, vendidos, etc. – com a diferença de o serem por um público infinitamente menor e profundamente orgulhoso de ser menor, e… todos os outros. Esta última, como é possível imaginar, guarda as maiores surpresas; tanto no bom quanto no mau sentido da palavra.

Nem sempre foi assim, mas, desde algumas décadas, o problema de não se conhecer coisas realmente interessantes no cinema (e também na literatura, na música, nas artes plásticas, etc.) tem a ver não tanto com a dificuldade de acesso ao que foi produzido, mas, principalmente, com a quantidade de filmes que são produzidos. Para tanto, teríamos de viver não mais a média atual de 70 ou 80 anos, mas 250 ou 380 anos. Ou, ser possível a instalação de uma memória externa em nosso cérebro.

Seja como for, a ideia aqui defendida é a de que a categoria “todos os outros’” guarda o maior número de filmes interessantes já produzidos. Na imensa maioria dos casos, claro, morreremos sem ter visto ou mesmo ouvido falar a respeito de qualquer um deles. E os que teremos visto, em 99% dos casos, o serão por obra do acaso (considerando o papel que os formadores de opinião, publicações especializadas, sites, etc., exercem no sentido de direcionar nossa atenção para os filmes habituais). Eis o ponto.

Há muitos anos atrás, comprei um livro chamado “História de pobres amantes”. Foi publicado uma única vez no Brasil pela editora Abril, na coleção “Clássicos Modernos”. Comprei-o atraído pelo título, que me pareceu legal, pelo estado de conservação e pelo preço (estava à venda num sebo). Por coincidência, o dono do sebo comentou que já o havia lido e que, surpreendentemente era muito bom! E de fato trata-se de um livro muito bom – pelo menos na minha opinião e na do antigo dono do sebo. Mas, independente disso, a tendência é que “História de pobres amantes”, do Vasco Pratolini, da coleção “Clássicos Modernos”, continue vivendo sua modesta vida de livro comum, cuja presença só é tolerada nos sebos pelo fato de ter sido incluído numa coleção com títulos mais conhecidos, ter sido encadernado em capa dura, etc. Aliás, menos sorte teve “Carolina”, do Theodor Dreiser. E menos ainda, por motivos óbvios, outros tantos que sequer foram publicados.

No caso do cinema, minha preferência na imensa categoria “todos os outros” recai sobre os filmes estilo “sessão da tarde”. Ela mesma, a infame sessão de filmes da mais comercial e sinistra emissora de televisão do país. No futuro, possivelmente quando passar dos 70, minha atenção poderá se voltar para o novo cinema queniano ou filmes de vanguarda da Letônia; mas, no presente momento e no passado recente, o mais à mão são mesmo os filmes estilo “sessão da tarde”. Detalhe: refiro-me ao estilo, e não necessariamente ao horário ou à emissora. Filmes aparentemente bobos (e quase sempre, de fato bobos), com muitos lugares comuns, atores meio comuns, ideias comuns e, claro, feito para o público comum. É nessa última categoria em que me incluo.

Entre os melhores filmes “sessão da tarde” que conheço está “Quicksilver”, que no Brasil ganhou o duvidoso título “Quicksilver – O Prazer de Ganhar”. Apesar de estar longe de ser um filme outsider ou qualquer coisa do tipo – Kevin Bacon é ator principal, trilha sonora de Roger Daltrey, etc. – é o típico filme bem mais interessante que a efemeridade do estilo “sessão da tarde” permite suspeitar.

Só por ter trocado carros por bicicletas, na condição de “equipamento básico” do herói, “Quicksilver” já merece atenção. Um pouco por isso, sempre suspeitei que a produção do filme tenha contado com o apoio do sindicato dos fabricantes de bicicletas dos EUA; mas isso, em matéria de cinema americano é “parte da paisagem” e pouco alteraria a avaliação que faço. Algumas cenas com bicicletas são realmente fabulosas, incluindo três ou quatro extremamente fabulosas. Não bastasse isso, o enredo é interessante; e de algum modo semelhante aos livros comentados, “História de pobres amantes” e “Carolina” – daí talvez a lembrança. Basicamente o filme fala sobre pessoas comuns, que vivem suas vidas comuns sem grandes sonhos ou possibilidades de terem grandes sonhos. No mais ambicioso e realista dos casos, um dos personagens sonha em ter um carrinho de cachorro quente. E suas vidas de trabalho, num serviço de encomendas de Nova York que usa bicicletas ao invés de carros.

Em certo sentido, o mundo das pessoas que só entram como figurantes em outros filmes. Aliás, talvez seja por isso que o personagem principal é um jovem e bem sucedido investidor da Bolsa de Valores que, falido, resolve largar tudo. Até que um dia, andando na rua, vê numa vitrine uma bicicleta à venda. Ainda que o filme não tenha nenhuma proposta de militância – seja em termos “pró-bike” ou alguma vertente “inclusivista” – as cenas que derivam da nova identidade do personagem – de investidor bem sucedido na Bolsa de Valores a entregador de encomendas – são ótimas e sugestivas. Talvez, para a maioria das pessoas, seja mais fácil entender que uma pessoa tenha mudado de sexo de um dia para o outro do que compreender que alguém possa deixar de lado todas as suas chances de ganhar muito dinheiro e decidido viver de um trabalho sem qualquer prestígio social. Uma das boas cenas do filme são justamente as conversas do ex-investidor bem sucedido com seu pai e com o antigo amigo e sócio. Possivelmente a associação de histórias não passou nem perto da imaginação do diretor do filme, mas, pensando bem, não foi por outro motivo que São Francisco de Assis ficou conhecido em sua época como “o bobo de Deus” por aqueles que não conseguiam acreditar que o filho de uma família tão rica pudesse largar tudo para viver com os pobres. Algumas décadas de vida e algumas centenas de filmes me levam a crer, tristemente, que boa parte das pessoas que conheço definiriam qualquer um que fizesse o mesmo hoje como sendo isso: um bobo.

Ficha Técnica
Título Original: Quicksilver
Gênero: Drama
Direção: Thomas Michael Donnelly
Duração: 105 minutos
Ano: 1986
País de Origem: Estados Unidos



* FÁBIO VIANA RIBEIRO é professor adjunto da Universidade Estadual de Maringá (Departamento de Ciências Sociais) e Doutorem Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).

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6 comentários sobre “O cinema que não ousa dizer seu nome

  1. Salve, Alexander!
    Obrigado pela leitura e pelo desenvolvimento da ideia do artigo! A lista que você inclui ao final de suas observações é das melhores!
    Grande abraço!
    Fábio.

  2. Caro Fabio,
    Saudações cordiais!
    Gostei muito do humor inteligente de seu ensaio e, permita-me, ir um pouco além do que você trata e como trata. Considerando a autonomia intelectual e os campos institucionais do conhecimento, não devemos efetivamente tomar como grandezas dadas e inquestionáveis aquilo que um grupo intangível de doutos (ou supostos) definiu como clássico ou cult – e, portanto, digno de atenção e seleção entre milhares de produções anuais externas ao mercado norte-americano. Afinal, é a nossa atenção e como olhamos que dignifica um artefato cultural, torna-o relevante. Então, “QuickSilver” pode ser um ótimo entretenimento, mas também um bom objeto de discussão, desde que tenhamos perguntas pertinentes para o mesmo.
    Você percebe, por exemplo, algo importante: um filme que tem vários personagens distópicos, suburbanos (no sentido norte-americano) e não-excepcionais (“pessoas comuns”) como protagonistas, tendo como foco um “tubarãozinho Yuppie” falido que é colocado diante da possibilidade de “regate ou redenção moral” pelo contato com tais pessoas e seu “mundo insignificante”. A bicicleta prata, por exemplo, é a metonímia moral-social opositiva do consumismo yuppie, representado pelo Porsche e/ou a Ferrari (vermelhos), signos do status da jovem geração “winner” do capitalismo financeiro especulativo pós-industrial, lucrando horrores com a recessão da década de 1980 e criando desemprego com a liquidação de empresas fordistas. Então, o falido é uma forma moral de representar que o protagonista experimenta o próprio veneno que destilara enquanto era “economicamente viável” nos “jogos dos negócios” e, portanto, demonstra uma escolha moral de trama de regate e redenção opositiva ao “Yuppie way of life”.
    Há vários filmes da recessão anos ’80 que seguem este padrão moral de caracterização de personagens nos EUA. Portanto, mesmo sem seguir a estética dos filmes de “consciência social” – intelectualmente/moralmente mais aceitáveis pelos nossos colegas das ciências sociais e da crítica das artes –, “QuickSilver” é um testemunho, índice ou amostragem de época bastante interessante que condensa e representa diversas questões de tipologia social, moral, religiosa e literária do repertório cultural liberal-protestante dos EUA frete à crise do “american way of life” dos “Trinta anos Gloriosos”.
    Enfim, nosso olhar/pergunta dignifica ou torna relevante o artefato (livro ou filme), retira-o do esquecimento ou purgação moral-estética de nossos pares doutos, seleciona-o entre vários milhares que não teremos tempo vital para acompanhar. Então, que nossas perguntas tornem, portanto, “clássicas” pérolas do cinema da recessão como “Blade Runner”, “Exterminador do Futuro”, “Chuck – Brinquedo Assassino”, “Curtindo a Vida Adoidado”, “Uma linda Mulher”, “Flash Dance”, “Dirty Dance”, “Baby Boom” e – por que não? – “QuickSilver”, sem mais pedir desculpas, sarcásticas ou não, aos “almofadinhas reguladores do bom gosto”.
    Abraços e tudo de bom,
    Alexander

  3. Grande o artigo, o humor, a linguagem… ah, e o tema, claro. Talvez o essencial se encontre nesta frase: “Em certo sentido, o mundo das pessoas que só entram como figurantes em outros filmes.”Ando pensando que esse mundo de “detras da cortina” é o unico que vale a pena conhecer de perto.
    Parabéns.

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