Sobre a “neutralidade ética” nas Ciências Sociais e a Fundação Ford, com pequena fábula de caráter ilustrativo ou talvez elucidativo

SILVIA BEATRIZ ADOUE*

“O dilema psicológico, político e moral para mim aparece por causa da minha tentativa persistente de enlaçar a Sociologia como ciência, ao socialismo, como movimento político revolucionário […] Não compartilho da idéia refúgio de que a ‘neutralidade científica’ e a ‘condição profissional’ isentam o sociólogo da responsabilidade intelectual e política”. (FERNANDES, 1985: p.15.)

A fábula

A fábula é curta: era uma vez um cientista social “pautado pela neutralidade ética”; ele havia sido presidente de um grande país da América do Sul e tivera enormes dificuldades para traduzir em políticas públicas sua respeitável produção acadêmica. É possível que essa experiência de poder é que o tenha levado a reconhecer, com uma admiração sincera e, digamos, “neutra”, um outro homem “de elevado intelecto”, extremamente habilidoso nas lides de transformar o pensamento científico em estratégias de ação.Só que, para reconhecer o admirado intelectual foi obrigado a desconhecer o genocida. (ARBEX, in Caros Amigos, 2005: p.15)

A fábula propõe um problema – hipótese e corolário

Até aqui a fábula. Não me atrevo a formular, logo de cara, uma moral da história porque a metodologia própria das ciências sociais exigiria uma outra amostragem capaz de permitir um melhor controle das variáveis envolvidas. Mas, mesmo que nossa amostra não suporte resultados conclusivos, podemos, pelo menos, formular uma hipótese: será que o cientista social, quando isola apenas os atributos do “grande acadêmico” e esquece os do “homem de ação”, perde a visibilidade do conjunto? O que é que teria propiciado que o nosso sociólogo-estadista tenha perdido uma capacidade de visão que qualquer militante das lutas sociais seria capaz de preservar?

Impossível recalcar um corolário: se as ciências sociais já não permitem reconhecer um genocida, fazer ciências sociais tornou-se uma mera frivolidade! Mas, considerando que as idéias “eticamente neutras” desse nosso sociólogo podem se transformar em políticas públicas, fazer ciências sociais, mais do que uma atividade inútil, corre o risco de legitimar a própria barbárie!

Da “neutralidade axiológica” à “neutralidade ética”

A principal referência teórica do nosso cientista é, sem dúvida, Max Weber – para quem não cabe ao sociólogo julgar os valores dos grupos sociais que estiver analisando. De fato, a “neutralidade axiológica” foi uma tomada de posição fundamental para retirar as Ciências Sociais do domínio da moral teológica. Ainda assim, Weber não pretendia que o sociólogo devesse eximir-se da responsabilidade ética em relação ao seu lugar de cientista e ao seu trabalho como sociólogo pois é ela que impede a redução do fazer científico ao exercício de uma razão instrumental que se limitasse a valorizar procedimentos eficazes independentemente dos fins aos quais serve (WEBER, 1974). Parece que o sociólogo da nossa fábula, além de nos pedir que esquecêssemos o que escreveu, encarregou-se, também, de esquecer o que ele próprio leu já que, sem dúvida, sua avaliação do homem de “elevado intelecto” só foi possível graças a esse deslizamento conceitual da “neutralidade axiológica” para a “neutralidade ética”, uma astúcia funcional à supervalorização dos procedimentos, independentemente dos fins.

O lento processo ou “a vida é dura”

A fábula inicial talvez seja um dos sinais mais escandalosos desse lento processo de incorporação do campo das Ciências Sociais ao poder no Brasil. Lento e gradual processo graças ao qual uma imensa quantidade de “quadros recrutados” em nome da sua formação em centros de excelência acabou colocando o prestígio obtido na produção científica a serviço da legitimação de políticas públicas que nem sempre eram tradução fiel ou, sequer, má tradução, da sua própria produção acadêmica. Não poucas vezes, os mesmos quadros científicos tornaram-se produtores e gerenciadores dessas políticas públicas.

Se a “Missão Francesa” ajudou a construir a Escola de Sociologia sobre bases teóricas e metodológicas sólidas, segundo a tradição européia, a aposentadoria compulsória “de um grupo prestigioso de docentes e pesquisadores pertencentes à Universidade de São Paulo em 1969” (MICELI, 1995: p.360) produziu uma desestruturação desse mesmo “campo”. No bojo desse processo, a intervenção da Fundação Ford, financiando indivíduos e novas organizações, acabou propiciando um novo reagrupamento do “campo” operando uma outra redistribuição do capital de prestígio científico.

A longo prazo, os quadros intelectuais direta, ou indiretamente, beneficiados pelos financiamentos, e que não participavam das instâncias do poder político, terminaram guindados a cargos governamentais, adquirindo, em circunstâncias particulares, uma participação maior no “campo do poder”. Seu prestígio social no “campo acadêmico” e, dentro deste, no “campo das Ciências Sociais”, terminou dando aos governos por eles constituídos maior estabilidade e brilho num chamado círculo “virtuoso”, ou seja, aquele que ocorre quando um indivíduo carrega seu prestígio, como se fosse um capital “circulante”, de um campo para o outro.

Lembremos que, na América Latina (particularmente no México, Brasil e Argentina) havia uma elite intelectual já constituída que produzira diagnósticos e projetos próprios de desenvolvimento. Nesses países, não se poderia lançar mão da política do apoio aos golpes de Estado senão circunstancialmente e, mesmo assim, colocando em risco a estabilidade das relações de poder e a base social local de sustentação desse mesmo poder. Tornou-se necessário ajudar a constituir uma elite intelectual que ocupasse o lugar de interlocutora e que estivesse “em condições de levar a cabo o trabalho de intermediação entre o saber técnico nas arenas de processamento político-doutrinário das demandas sociais” (MICELI, 1995: p.365). Nesse sentido, a atuação da Fundação Ford coincidia com uma das políticas de Estado dos EUA para a América Latina.

Na sua primeira década de atuação na região, a Fundação Ford concedia bolsas a estudantes latino-americanos para formação universitária nos EUA, ou fazia doações a instituições de pesquisa. Oferecia professores, consultores dos EUA e treinamento naquele país (MICELI, 1995: p. 349). No Brasil, preferiu aproveitar a “capacidade operacional já instalada” (MICELI, 1995: p.362): grupos prestigiados, instituições de excelência, em detrimento de projetos comunitários, o que provocou uma corrida à excelência por parte de outras instituições e disseminou os seus próprios critérios de eficácia empresarial. Nos anos 80, os objetivos foram concentrados

“numa política de pesquisa temática [que] passa a competir em pé de igualdade com os objetivos tradicionais de ‘construção institucionais’ e de montagem de comunidades científicas através de associações nacionais […] tais iniciativas revelam um empenho em identificar nichos estratégicos para investimento onde se pudessem concentrar recursos capazes de alavancar uma área de estudos, pesquisas e treinamento que constituísse, ao mesmo tempo, uma frente de militância e de intervenção tecnicamente competentes nos domínios adequados de política pública. Em outras palavras, essas áreas de Ciência Social aplicada propiciam a conciliação entre metas ‘instrumentais’ e ‘objetivos acadêmicos’, ampliando a própria margem de influência exercida pela Fundação Ford.” (MICELI, 1995: p. 381-382)

Aparentemente, apostando nos quadros da elite já constituída, reforçando os grupos com atuação prestigiada na academia e em instituições preexistentes e, ao mesmo tempo, impondo seus próprios critérios de avaliação, a Fundação Ford agiu como ‘estrutura estruturada e estruturante’ bem sucedida. Conseguiu impor sua própria matriz não apenas a esses grupos e a essas instituições, mas a todo o campo acadêmico (pela propaganda desses critérios de excelência sustentada pelas instituições e pelos bolsistas clientes perante o conjunto do ‘campo’ universitário). É nesse sentido que a Fundação Ford foi eficiente. E foi por meio dessa estratégia que ela interveio na constituição do campo.

O modelo da “missão” de antropólogos

Não posso afastar a imagem renitente daquela exposição de facas e de espelhinhos pendurados num barbante em uma clareira como um investimento a fundo perdido daqueles antropólogos que buscavam interlocutores junto à tribo chucra. Alguns índios aproximam-se da clareira. Desses, uns poucos arriscam pegar as bugigangas e retornam à aldeia com o recém-adquirido prestígio de portadores e propagandistas dos benefícios do contato. Pronto! O conjunto da aldeia mudou! Ninguém mais será o mesmo!

Do mesmo modo que as ‘missões’ antropológicas, no Brasil, a Fundação Ford apostou nas estratégias de longo prazo, recorrendo a investimentos de fundo perdido, e conseguiu obter uma boa colheita de lealdades já que elas não hesitam  passar por cima do rigor intelectual. Até porque a dupla condição de “cientistas” e de “homens de ação” tornou-os beneficiários não apenas do patrocínio das agências de fomento à pesquisa, mas de um outro tipo de agências: aquelas que financiam as políticas públicas por eles elaboradas. Enquanto cientistas, converteram-se em justificadores dessas políticas. Primeiro, sob o pretexto de aproveitar as brechas, as margens de “política social”, que as financiadoras admitem; depois, escancaradamente.

Procedimentos de cooptação

“Talvez até, ele [o intelectual] acabe sendo altamente racional com relação a fins, como diria Max Weber. E o fim vem a ser a preservação e a melhoria de sua própria posição na universidade. […] Todavia, a cooptação não se faz só por aí. […] Há empregos que ainda são mais importantes que aqueles que se podem obter nas universidades. […] Ele fica uma peça da ordem, uma força cultural da ordem e não pode gravitar pelos caminhos da rebelião e da contestação, nas quais acaba tendo muito a perder. […] Ele pulveriza a vida intelectual comprimindo-a entre outras exigências, nascidas das atividades mundanas, do consumo conspícuo e dos fins de semana sedutores. Torna-se, enfim, um pobre diabo.” (FERNANDES, 1978: p. 165.)

Verdade seja dita, a fábula é, pelo menos, ilustrativa. O foco de angústia do nosso cientista social está nos fins não explicitados, mas sistematicamente buscados, pelas agências que patrocinaram sua formação e garantiram o alinhamento: ajudar a construir uma elite intelectual interlocutora “em condições de levar a cabo o trabalho de intermediação entre o saber técnico nas arenas de processamento político-doutrinário das demandas sociais” (MICELI, 1995: p.365).

Retornamos àquela pergunta-problema: por que nosso cientista perdeu essa capacidade de visão que qualquer militante das lutas sociais soube preservar?

Referências

ARBEX, José. “O velho amigo de Henry Kissinger”. In: revista Caros amigos, ano VIII nº 97, abril de 2005, p. 15.

FERNANDES, Florestan. A condição de Sociólogo. São Paulo: Husitec, 1978.

________, A natureza sociológica da Sociologia. São Paulo: Ática, 1980.

MICELI, Sérgio. “A Fundação Ford e os cientistas sociais no Brasil”. In: ________. (org.). História das Ciências Sociais no Brasil (vol. 2). São Paulo: Sumaré, 1995.

WEBER, Max. “O sentido da ‘neutralidade axiológica’ nas Ciências Sociológicas e Econômicas”. In: ________. Sobre a teoria das Ciências Sociais. Lisboa: Presença, 1974. Trad. Carlos G.Brabo.


* SILVIA BEATRIZ ADOUE é Doutora em Letras pela FFLCH-USP (2009), Mestre em Integração da América Latina pelo PROLAM-USP (2001). Leciona na Escola Nacional Florestan Fernandes, é professora doutora na UNESP/Araraquara, parecerista da Revista Acadêmica Multidisciplinar Urutágua (UEM) e da Revista Eletrônica Espaço Acadêmico. Publicado na REA, nº 49, junho de 2005, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/049/49cadoue.htm

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3 comentários sobre “Sobre a “neutralidade ética” nas Ciências Sociais e a Fundação Ford, com pequena fábula de caráter ilustrativo ou talvez elucidativo

  1. […] A principal referência teórica do nosso cientista é, sem dúvida, Max Weber – para quem não cabe ao sociólogo julgar os valores dos grupos sociais que estiver analisando. De fato, a “neutralidade axiológica” foi uma tomada de posição fundamental para retirar as Ciências Sociais do domínio da moral teológica. Ainda assim, Weber não pretendia que o sociólogo devesse eximir-se da responsabilidade ética em relação ao seu lugar de cientista e ao seu trabalho como sociólogo pois é ela que impede a redução do fazer científico ao exercício de uma razão instrumental que se limitasse a valorizar procedimentos eficazes independentemente dos fins aos quais serve (WEBER, 1974)… LEIA NA ÍNTEGRA: https://espacoacademico.wordpress.com/2012/07/07/sobre-a-neutralidade-etica-nas-ciencias-sociais-e-a-… […]

  2. “Por que nosso cientista perdeu essa capacidade de visão que qualquer militante das lutas sociais soube preservar?”

    Acho que a resposta à essa pergunta é que não existe nem neutralidade axiológica nem neutralidade ética. Pode sim haver uma busca disso no exercício intelectual ou braçal, mas ela não é total.

    O ser humano vive a partir de uma visão de mundo – consciente ou não – e sob ela age, pensa, reflete, analisa, escreve, discute, agride, violenta, pacifica. E isso terá fortemente uma base axiológica e ética (se é que dá para separar bem isso…).

    Se os militantes conseguiram preservar algo é porque não estavam na mesma posição do cientista. É simples.

  3. ´Sinto uma enorme dificuldade de síntese na autora q face a minha atual preocupação c as emergencialidades da Humanidade cria-me certa preocupação.
    Será q o problema dos causídicos contaminou os sociólogos e até mm os escritores, buscando na sofisticação valorizar algo q diante das prioridades de sobrevivência poderiam ser simples luxo….SHALOM

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