Biografias de Rosa Luxemburgo

ANTONIO OZAÍ DA SILVA*

Rosa Luxemburgo (Róża Luksemburg) nasceu em Zamość (Polonia), em 5 de março de 1870, foi assassinada em Berlim, em 15 de janeiro de 1919, por forças paramilitares (Freikorps), sob o governo social-democrata de Friedrich Ebert e Philipp Scheidemann. Judia, polonesa, comunista, alemã e internacionalista. Numa era em que a palavra social-democracia era sinônimo de revolução e os sociais-democratas eram revolucionários, Rosa Luxemburgo tornou-se dirigente da social-democracia alemã e da Polônia– na época, submetida ao Império Russo – e da Internacional Socialista, a II Internacional.

As imagens, diálogos e falas da personagem principal do filme Rosa Luxemburgo, dirigido por Margarethe von Trotta, nos oferecem um perfil biográfico dessa admirável mulher. É um dos poucos filmes que assisti mais de uma vez e a cada vez que assisto descubro novos detalhes, aprendo sobre a política e, sobretudo, sobre o ser humano. Algumas da cenas, ainda não expressem mais novidades para os meus olhos, novamente me emocionam. Contudo, é um filme! Não é a vida de Rosa Luxemburgo, mas uma representação dela. Mais exatamente, uma seleção de fatos em contextos específicos. Como afirma Elzbieta Ettinger, biógrafa de Rosa Luxemburgo: “Não existem “biografias definitivas”. A biografia é sempre uma seleção e, portanto, o biógrafo é sempre “tendencioso”. [1]

Não obstante, é um filme que não atropela os fatos históricos e, como a biografia de Elzbieta Ettinger (Rosa Luxemburgo: uma vida)[2], nos permite ver outra Rosa Luxemburgo pouco conhecida, não apenas a militante comunista, mas especialmente a mulher em seus aspectos humanos dilemáticos. No filme, por exemplo, é ilustrativa a cena em que um jovem a procura para saber sua opinião a respeito do “casamento burguês”, um dilema que ela própria vive em sua relação de camarada e amante com Leo Jogiches. Com efeito,

“Em muitos aspectos, Luxemburgo foi representativa de sua geração, e em outros foi excepcional. Seu desejo apaixonado de ter um filho, um homem amoroso e uma família, e ao mesmo tempo, de ser líder do movimento socialista internacional, não era comum. Os homens tinham mulheres para cuidar deles, de seus filhos, sua casa e suas finanças, e para ajudá-los em seu trabalho. As mulheres frequentemente sacrificavam sua vida pessoal à causa. Mas não Luxemburgo. Ela não acreditava que as mulheres tivessem, necessariamente, de fazer tais escolhas; acreditava que podiam e deviam ter as duas coisas.”[3]

Os embates político-ideológicos de Rosa Luxemburgo expressam os dilemas dos revolucionários no limiar do século XX. Por outro lado, é preciso não esquecer que é do humano que se trata. Os dilemas políticos não são abstrações políticas e ideológicas, mas materializam-se em opções feitas por homens e mulheres reais, que respiram, amam, sofrem, lutam… Discursos apologéticos ou culpabilizadores apenas mostram que a matéria prima que age na história é humana, demasiado humana. Rosa Luxemburgo, o filme e a biografia escrita, nos faz ver o quanto complexo é o humano e nos aconselha ir além das análises simplistas, dualistas e maniqueístas.

A vida de Rosa Luxemburgo é exemplar, mas requer que não a tomemos por um modelo apologético. Sua riqueza reside precisamente no fato de revelar a complexidade e os paradoxos da condição humana e instigar a reflexão. Neste sentido, as palavras de Elzbieta Ettinger sintetizam bem o significado da vida desta mulher:

“Rosa viveu e amou, foi exuberantemente feliz e infinitamente infeliz, mas sempre esteve viva. Foi dilacerada por sentimentos conflitantes, ora decidida a se livrar do fardo de sua origem judaica, ora repleta de dúvidas e de culpa. Queria ser bondosa com os pais, mas o amor e a admiração patéticos que eles lhes devotavam a embaraçavam e a irritavam. Queria ser bondosa com seus amantes, mas era possessiva e ciumenta. Queria uma revolução, mas tinha horror a derramamento de sangue. Contudo, suportava galantemente as contradições de sua natureza e suas crenças. Sua mente se alçou muito além do presente, enquanto suas próprias necessidades e preferências permaneceram tradicionais. Foi uma mulher de paixão torrencial, o que tornou difícil sua vida pessoal e pública. Mas nunca perdeu a esperança em qualquer desses campos. Conduziu a luta solitária, determinada a viver à sua maneira e a realizar seus sonhos e suas ideias.” [4]

Estes aspectos são visíveis em vários momentos do filme. Não obstante, na biografia de Ettinger, o lado da vida pessoal de Rosa Luxemburgo é muito mais enfatizado do que no filme. Aos interessados em conhecer mais profundamente esta revolucionária, é aconselhável ler Rosa Luxemburgo: uma vida após ver o filme – ou vice-versa – , até mesmo para comparar eventuais versões interpretativas a respeito dos fatos biográficos.

No que diz respeito às idéias e posturas políticas, Rosa Luxemburgo permanece atual. Em muitos aspectos, ela foi profética. Os caminhos e descaminhos da social-democracia – social-patriota e gestora do capital – e do processo revolucionário russo que desembocou no stalinismo, na bolchevização dos partidos e da Internacional Comunista, comprovam-no. Oxalá, assistir ao filme seja um incentivo para a leitura e estudo da sua obra. De qualquer forma, mulheres como Rosa Luxemburgo são raras; homens também!

Ficha Técnica
Título: Rosa Luxemburgo
Direção: Margarethe von Trotta
Elenco: Barbara Sukowa, Daniel Olbrychski, Otto Sander, Adelheid Arndt, Jurgen Holtz, Doris Schade, Hannes Jaenicke
Duração: 122 min.
Ano: 1986
País: Alemanha
Gênero: Drama/Biografia


* ANTONIO OZAÍ DA SILVA é professor de Ciência Política no Departamento de Ciências Sociais, Universidade Estadual de Maringá (DCS/UEM). Blog: http://antoniozai.wordpress.com

[1] ETTINGER, Elzbieta. Rosa Luxemburgo – Uma vida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,1989, p. 15.

[2] Idem. Ainda sobre este perfil mais pessoal de Rosa Luxemburgo, sugiro a leitura da seleção de cartas publicadas na obra organizada por Isabel Loureiro: Rosa Luxemburgo – Cartas, Volume III. São Paulo: Editora da Unesp, 2011; também vale a pena ler o texto publicado na obra de Hannah Arendt, Homens em tempos sombrios (São Paulo: Companhia das Letras, 1988).

[3] Idem, p. 13.

[4] Idem, p.13.

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5 comentários sobre “Biografias de Rosa Luxemburgo

  1. Segundo Gramsci, Trotski e Rosa Luxemburgo na Internacional Comunista mantinha a linha política de revolução permanente e a querra de movimento para o confronto direto. Entendiam que havia no Ocidente um iminente colapso do capitalismo e abertura de uma crise mundial, em termos de um catastrofismo econômico. Por isso a luta deveria ser de ataque frontal. Gramsci, na obra Cadernos do Cárcere, criticou tal postura e sinalizou as derrotas. A Rosa foi um ímpeto de luta e paixão.

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