Nunca mais super-heróis

ZULEIKA DE PAULA BUENO*

Aqueles que, como eu, estão próximos dos 40 anos, devem se lembrar de um livrinho que correu de mão em mão em meados dos anos 80. Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva, foi uma leitura obrigatória para essa geração. Ele chegou às livrarias em 1982, editado pela Brasiliense, na coleção Cantadas Literárias, uma série de livros de autores brasileiros e estrangeiros voltada exclusivamente para o público jovem.

Autobiografia, com uma forte tendência ao romance de formação, Feliz Ano Velho  oferecia ao leitor uma identificação com as experiências de crescimento e os anos de  educação relatados pelo protagonista até o trágico evento que o deixou imobilizado. Numa tarde do mês de dezembro de 1979, ao mergulhar numa lagoa, Marcelo Rubens Paiva se chocou contra uma pedra, ferindo uma de suas vértebras e tornando-se paraplégico. Um ano após o acidente, o rapaz, então com 21 anos, passou a escrever suas memórias e as suas inquietações diante de sua nova condição. O relato, aos moldes dos best-sellers norte-americanos, também ganhou adaptação para o cinema. Nas telas, Marcelo virou Mário, o rapaz que projetava sobre um quadro branco pendurado de fronte a sua cama as lembranças, temores e esperanças de um jovem que se depara com uma nova condição, trágica e inesperada. Houve os que identificaram nessa condição particular do protagonista a metáfora de impotência e imobilidade de toda uma geração marcada pela repressão e o autoritarismo dos anos de ditadura. O filme articulava narrativamente o tempo passado e presente e reproduzia a projeção dos espectadores com a história.

Apostando nesse mecanismo de projeção e identificação, a produtora de Feliz Ano Velho, a Tatu Filmes, juntamente com a Embrafilme, promoveu no cine Gazeta, juntamente com o jornal Folha de S. Paulo, o pré-lançamento da fita, seguido de um debate com 10 jovens convidados a exporem  suas opiniões e sensações  a respeito das situações vividas pelo protagonista. Três dias após o lançamento oficial do filme, o roteiro do filme foi lançado na décima edição da Bienal Internacional do Livro, na capital paulistana, com direito à sessão de autógrafos do diretor e roteirista Roberto Gervitz, além da presença de Marcelo Rubens Paiva, do ator Marcos Breda (o protagonista) e do produtor Cláudio Kahns. O livro por si só já era um fenômeno que o roteiro somente veio completar. A simples publicação desse tipo de material já foi um fato importante em um país onde não havia a tradição deste tipo de impressão.

As estratégias de lançamento dos filmes mostraram-se cada vez mais apuradas e integradas à uma nova “era do marketing” do cinema brasileiro (e mundial). A estréia de Feliz Ano Velho foi marcada para o dia 27 de agosto de 1988 e integrada a um esquema promocional conduzido pelo Jornal do Brasil, A Rádio Cidade e a Art Films que exibiam o filme gratuitamente já a partir do dia 22 de agosto para estudantes maiores de 14 anos. Para isso bastava que as direções das escolas ou os próprios grêmios estudantis reservassem seus lugares com antecedência. Ao final de cada sessão, os estudantes poderiam ainda participar de um concurso de frases sobre o filme, concorrendo à publicação no Caderno B do jornal, rádio-gravadores, ingressos para os cinemas da rede Art além de camisetas e brindes da Editora Brasiliense, publicadora do livro de Rubens Paiva. Quatro semanas após seu lançamento, o filme listava entre as maiores bilheterias da semana, conforme apontava o Jornal do Brasil. Em cartaz em apenas uma sala, no Rio de Janeiro, o filme alcançou o quarto lugar dos filmes mais vistos na primeira semana de setembro de 1988.

Antes de virar filme, a história tinha sido levada aos palcos, com semelhante sucesso, dirigida por Paulo Betti e trazendo o ator Marcos Frota como o personagem Mário e recebendo a premiação de melhor produção e direção do ano pela Apetesp. A peça procurou criar um esquema promocional alternativo, circulando principalmente entre os universitários. Em 1986, na Unicamp ela foi representada juntamente com um show do grupo Legião Urbana, reunindo um público de 6 mil pessoas no campus. “Este encontrou se repetiu no carioca Teatro João Caetano, diante de 15 mil pessoas, e na danceteria paulistana Radar Tantã”, descreveu o jornalista Guilherme Bryan.

No caso das produções brasileiras, o cinema acompanhava o sucesso da indústria editorial. As estratégias de promoção dos filmes se assemelhavam muito ao que a indústria do livro também já passara a integrar: debates envolvendo produtores e público, organização de festas e eventos de lançamento. Enquanto o cinema aproveitava as estratégias de marketing elaboradas pela indústria do livro, as editoras se beneficiam do cinema como meio promocional. As adaptações impulsionavam reedições e novas tiragens.

Os mais românticos, que talvez se lembrem do livro e do filme como objetos sagrados de uma adolescência perdida, podem estremecer ao se depararem com essa eficiente operação mercadológica que transformou Feliz Ano Velho num fenômeno sócio-afetivo para tantos leitores e espectadores. Os menos puristas, como eu, reconhecem as tramas do mercado, mas não desqualificam a autenticidade emocional dessas experiências.

Num momento tão marcado por um imaginário juvenil construído por mocinhos, bandidos e vampiros, recuperar os relatos desse jovem real e imperfeito (como Marcelo ou Mário) já não expressa os sentimentos de impotência ou imobilidade como foi sentido 30 anos atrás. Pelo contrário, traz uma sensação de vivacidade e esperança, quase um respiro e alívio num mundo tão assombrado por super-heróis.


* ZULEIKA DE PAULA BUENO é professora dos cursos de Ciências Sociais e Comunicação e Multimeios da Universidade Estadual de Maringá e Doutora em Multimeios pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

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