Homens e deuses

FÁBIO VIANA RIBEIRO*

 

“A fé é o fundamento da esperança, é uma certeza a respeito do que não se vê. Foi ela que fez a glória dos nossos antepassados. Pela fé reconhecemos que o mundo foi formado pela palavra de Deus e que as coisas visíveis se originaram do invisível.”
Hebreus 11,1-3
.

Na noite do dia 26 de março de 1996, sete monges do mosteiro trapista de Tibhirine, na Argélia, foram sequestrados por milicianos do GIA (Grupo Islâmico Armado). No contexto, de um lado o governo corrupto que cancelou as eleições de 1991 e colocou na ilegalidade grupos de oposição, e de outro, grupos armados islâmicos que optaram pela via do terrorismo. Entre ambos, e vivendo como sempre viveram na cordilheira do Atlas, nove monges trapistas[1].

“Homens e deuses” descreve os acontecimentos que antecederam o sequestro e que terminariam com a decapitação dos sete monges, em maio de 1996. Não se trata de um filme de entretenimento ou mesmo interessado em discutir o problema político argelino. Talvez esteja mais próximo daquilo que o público acostumado ao cinema americano chame de “um filme muito lento”. E ainda que o seja, é também um filme belíssimo; nem tanto pelas imagens, mas principalmente por muitas de suas cenas e diálogos. Talvez em nossa memória e experiência pessoais exista um modo de ver o mundo – e também ver alguns filmes – que nos impede de perceber significados tão profundos quanto os que são sugeridos pelo filme. Como em outros casos, de grandes filmes que nos deixam profundamente perturbados, as imagens e cenas mais comoventes de “Homens e deuses” retornam alguns dias depois de as termos visto.

Desde o Natal de 1993 que os monges de Tibhirine sabiam que poderiam ser mortos. Mesmo tendo sido encorajados pelo abade geral da Ordem a deixarem o país e recebido oferecimento de proteção militar do governo argelino, preferiram ficar. De certa forma, o próprio filme gira em torno dessa renúncia, que ao mesmo tempo significa uma aceitação profunda da fé que professavam, do amor pelas pessoas da região, do lugar que escolheram para viver essas escolhas até o fim de seus dias. Inexistindo ainda, na escolha que fizeram, qualquer intenção de se transformarem em mártires, por saberem perfeitamente a extravagância que existiria num desejo de serem mártires. Assim, o filme conta a história de uma escolha e de um desfecho que todos já sabem. Antes do fim, muitos deles pensam em sair, sentem medo, discutem sobre o que deveriam fazer. Sentem que perderam sua fé, novamente a buscam onde já não possuem esperanças de reencontrá-la, e a reencontram quando já se imaginavam cansados demais.

Segundo alguns relatos[2], o filme reproduz com enorme fidelidade a rotina do mosteiro e os próprios acontecimentos. Entre outros recursos, cartas escritas pelos monges durante o período serviram de referência para a construção do roteiro. Talvez o próprio título do filme ilustre a angustiante escolha que tinham diante de si, entre sua fé e a quase certeza de que morreriam e, ao mesmo tempo, seu amor à vida. Uma escolha que seria muito mais fácil de ser feita se fossem “deuses”, perfeitos em suas convicções e em sua fé. Como homens, que tão somente pretendiam estarem mais próximos de Deus, a escolha que fizeram implicava medo, dúvidas e desespero. Certamente reside aí a grandeza de seus atos; de em sua condição de homens, limitados e imperfeitos, terem aceitado integralmente a escolha que fizeram.

Ainda que frequentemente “Homens e deuses” seja interpretado como uma espécie de denúncia contra a intolerância, as questões colocadas ao longo de suas mais de duas horas de duração vão bem além. Possibilidade que parece ser sugerida durante todo o filme. Em vários e belos momentos, seus personagens tentam explicar, com ou sem palavras, aquilo que os move e justifica seu afastamento do mundo exterior. Numa das cenas mais significativas, sem qualquer diálogo, bebem vinho e dividem sua felicidade por estarem juntos, mesmo sabendo que, muito provavelmente, irão morrer. Trata-se, de certa forma, como dirão muitos, de um despropósito, de uma luta contra a própria natureza humana. Em certo sentido sim, considerando a luta que a maioria dos indivíduos trava “a favor da natureza”, tentando juntar para si mesmos o quanto podem de bens, conforto e riqueza. Mas talvez seja o caso de pensarmos sobre isso como sendo de fato um problema maior que os outros, e do quanto nossos próprios sentidos e nossa imperfeita natureza podem nos enganar.


Ficha Técnica
Título Original: Des hommes et des dieux
Gênero: Drama
Direção: Xavier Beauvois
Duração: 122 minutos
Ano: 2010
País de Origem: França


* FÁBIO VIANA RIBEIRO é professor adjunto da Universidade Estadual de Maringá (Departamento de Ciências Sociais) e Doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).

[1]O termo “trapista” é usado para designar os que pertencem a Ordem dos Cistercienses Reformados de EstritaObservância (OCSO), ordem monástica católica que deriva de uma das reformas do ramo beneditino.

[2] Umas dessas observações é de Dom Bernardo Bonowitz, abade do Mosteiro Trapista de Nossa Senhora do Novo Mundo, localizado em Campo do Tenente, a menos de 100 km de Curitiba. Dom Bernardo conheceu pessoalmente Dom Christian de Chergé, prior do Mosteiro Trapista de Tibhirine.

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2 comentários sobre “Homens e deuses

  1. Caro Jonas,

    Obrigado pela leitura do texto. Em palavras, você percebeu um aspecto da história que eu não havia me dado inteiramente conta: “…o filme capta uma situação em que todas as máscaras são desnecessárias, sobrando somente aquilo que é mais transparente nos monges”. Tristemente a vida nos oferece um número bem maior de situações para usarmos diversos tipos de máscaras que para assumirmos nossa próprias convicções.

    Um grande abraço!

    Fábio.

  2. Professor Fábio, agradou-me muito ler a sua resenha sobre este filme. De fato, é um filme que toca na interioridade humana, que consegue expor a difícil decisão pela coerência com os valores e bens que ao longo da vida vão compondo a nossa maneira de olhar o mundo e que trazem algum sentido para as nossas práticas cotidianas. Penso que o filme capta uma situação em que todas as máscaras são desnecessárias, sobrando somente aquilo que é mais transparente nos monges.

    Um abraço,
    Jonas

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