Não há poesia em Poesia

ELOÉSIO PAULO*

O título é muito perigoso. Poesia pode ser tudo, desde o mais sublime ao mais banal. O que você pensa se o filme ganhou em Cannes o prêmio de melhor roteiro? Ainda mais: o diretor ousa fazer uma fita de mais de duas horas contando a história bem devagarinho, como se fosse lá um Tarkovski. Então, só pode ser muito bom.

O filme é coreano. Sul-coreano, claro, porque a Coreia do Norte há muito regrediu ao paleolítico. Antes de começar a vê-lo, vamos combinar: não entendemos nada de cinema, ou seja, não temos nenhum preconceito. Nada de esperar que seja assim ou assado. Nunca ouvimos falar desse diretor.

Então, começa. Mas é claro que esperamos algo: que em algum aspecto o filme seja sensacional. Porque Cannes não é pouca coisa, não é? E teve aquele crítico famoso que disse ter sido Poesia injustiçado, pois merecia ter ganhado o prêmio de melhor filme.

A protagonista é uma velha conservadinha para os seus 60 e poucos anos. Vive com o neto, um típico adolescente que já resolveu ser inútil antes mesmo que a ocasião se apresente. Um lixo de pessoa, come como um porco enquanto assiste a TV. Não sai de cima do computador o dia inteiro, tem um grupo de amigos tão admiráveis quanto ele.

A certa altura, logo depois de saber que tem o mal de Alzheimer, Mija (este é o nome da vovó) se matricula num curso de poesia. Aí começa a “poesia”. Aí começa a bobagem. Até aí pelos 20 minutos do filme, podia-se esperar que fosse ocorrer algo de bom. Mas o professor de poesia é um perfeito panaca, e o que ele diz sobre o assunto é da banalidade mais abissal.

Não, não existe nenhuma possibilidade de ironia fílmica, intertextual ou qualquer sofisticação do tipo. A ideia de poesia do filme, que será confirmada ao longo de toda a história, é do romantismo mais paulocoelhesco: os poemas vêm do coração, você tem que estar atento para trazê-los ao nível da linguagem. Blá-blá-blá, só que em coreano.

Restaria esperar que os poemas ditos e escritos no filme fossem melhores que a teoria em que se baseiam. Nada. Pura baboseira sentimentalóide. Ocorre que o título do filme é Poesia, lembra-se?

Vamos, então, pensar a respeito do roteiro. Afinal foi ele que ganhou um dos mais prestigiados prêmios do cinema. Mija sofre o desgosto de saber que o neto não é, como parece, um vegetal: está envolvido no estupro sistemático (seja lá o que isso for) de uma garota. Ele e os tais colegas estupravam a menina com frequência, no laboratório de ciências da escola, até que ela se suicidou jogando-se no rio.

Perguntinha elementar: por que a garota continuou indo ao laboratório?

Mas Mija está muito preocupada com suas aulas de poesia, nas quais o professor continua dizendo as maiores banalidades, que ela toma como lições profundas. Aparecem os pais dos outros estupradores juvenis, que envolvem Mija numa tentativa de subornar a mãe da menina morta para evitar escândalo. Como um zumbi, Mija deixa-se conduzir nessa rede sórdida, procurando no entanto encontrar a poesia nas árvores, no vento e em outros recantos da ingenuidade sentimentalóide. Será que o romantismo aguado só chegou à Coreia do Sul no século XXI, depois da pós-modernidade tecnológica?

Como um zumbi, Mija se prostitui com a finalidade de chantagear o velho estropiado (os sintomas são de AVC) de que cuida como um misto de enfermeira e empregada doméstica. Ah, talvez nos tenhamos esquecido de dizer que Mija é muito elegante para uma doméstica…

Para não perder a anáfora: como um zumbi, ela entrega aos zelosos pais dos adolescentes estupradores o dinheiro do suborno; como um zumbi, vê afinal seu neto ser levado por um policial, aparentemente tendo sido feito bode expiatório por ser o único dos garotos criminosos que não tinha um pai rico. Enquanto isso ocorre, Mija joga peteca com o outro detetive. Reparem: ela não pergunta por que estão levando seu neto.

Se Machado de Assis julgava inverossímil a Luísa de O primo Basílio, imagine o que diria dessa personagem coreana. O drama é absurdo pelo próprio fato de não haver drama. Mija não tem nenhuma profundidade, é incapaz de indignar-se ou de desesperar-se. Seu choro parece descolado do restante de seu comportamento, assim como do suicídio da protagonista, que é o gran finale da película.

Talvez alguns críticos (os quais não tenham visto, por exemplo, Amores perros ou Antes da chuva) tenham achado um grande recurso narrativo a menina suicida aparecer na cena final em lugar de Mija. A garota contempla o rio onde se jogara e onde a outra agora vai jogar-se. Isso não tem nada de novo nem novo nem original.

Sabem o que sobrou? O pensamento de que o roteiro seria bom se se concentrasse, como por exemplo Lola, de Fassbinder, na frustração do protagonista por ter sido logrado, feito de trouxa à custa de princípios morais que lhe eram muito caros. Mas nem isso ocorre com Mija, um boneco vazio e incapaz de qualquer sentimento profundo,  por isso mesmo incapaz de poesia. O poema que ela escreve antes de morrer é outra sequência de obviedades, daquelas que a gente recebe todo dia pela internet de algum idiota piamente fiado em que tais platitudes poderiam ter saído, por exemplo, da cabeça de Jorge Luís Borges.

Fazendo um esforço a mais, como diria o Marquês de Sade: talvez a mensagem do filme seja que, se alguém resolve ser poeta, vai administrar muito mal sua vida pessoal. Mas isso também Mija já vinha fazendo, ao permitir que seu neto (antes da poesia, o rapaz era razão de sua vida) se transformasse naquele suíno de olhos puxados.

Um lembrete: o problema de esquecer-se das palavras, sintoma do mal de Alzheimer, foi esquecido pelo roteirista na segunda metade do filme.

Sabe o que mais? Poesiaé um filme muito fraco em todos os sentidos. Se nenhum crítico disse isso, talvez porque seja difícil contrariar a opinião dominante, fica dito aqui por quem não entende nada de cinema. E, no entanto, já vimos tantos filmes lindos…

 

Ficha técnica

Nome: Poesia
Nome Original: Shi
Origem: Coréia do Sul
Ano de produção: 2010
Gênero: Drama
Duração: 139 min
Direção: Lee Chang-dong
Elenco: Jeong-hie Yun, Nae-sang Ahn, Da-wit Lee


* ELOÉISO PAULO é professor de Literatura na Universidade Federal de Alfenas (MG) e autor do livro Os 10 pecados de Paulo Coelho (Editora Horizonte)

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15 comentários sobre “Não há poesia em Poesia

  1. Sinceramente, fui obrigado a assistir este filme na faculdade, e é um saco! não percam seu tempo.

  2. Caro blogueiro,
    Tenho pena de você que, acreditando redigir uma “crítica” bem fundamentada (aliás, qual a função da crítica senão a de consolo aos que são incapazes de uma produção artística honesta?), apelou apenas para argumentos de autoridade (risível sua insistência em apontar grandes nomes da literatura e cinema como Borges e Tarkovski, como se não fosse nenhum clichê abusar de nomes carregados de pompa intelectual para ludibriar o leitor), para o desprezo do romantismo, aliás, outro clichê da pretensa e hermética intelectualidade contemporânea (“paulocoelhesco”? Como é simples elaborar uma crítica, basta selecionar uma figura menosprezada, substantivá-la e qualificar desta forma o objeto da crítica). Pergunto ao caro blogueiro do “espaçoacademico”, que, conforme se pode auferir de suas palavras, entende muitíssimo de cinema, o que seria então a poesia? Rigor da técnica, a flor incólume de Bilac, alexandrinamente sofisticada e privilégio de poucos? Por acaso já ousou refletir acerca da necessidade da arte, se a técnica já nos provém o palpável? Talvez, douto senhor, se existe tal ramificação, há uma diferença na essência e no propósito de cada coisa. A técnica nos presta ao físico, a arte nos serve ao espírito. Portanto, não subestime a poesia, creditando aos grandes e eloquentes nomes. Não elitize o que é de domínio humano. Basta a elitização do conhecimento, que vocês acadêmicos, fazem. Alias, compreendo sua crítica, é difícil para alguém tão encerrado nos dogmas do academicismo pensar com sensibilidade e ter a inocencia desatada de preconceitos da protagonista, abordada de forma tao sutil, para receber uma produção artística qualquer. Talvez seja o aspecto implícito principal do filme que tenha sido negligenciado pela sua lente ultraespecialista e altiva – a da importância da inocência para a poesia. Embora eu acredite que uma filosofia livre não adentre no caixotinho viciado de um acadêmico, insisto: há que possuir sensibilidade, honestidade e inocência para ver poeticamente. Infelizmente nenhuma destas características alguém que taxa tudo de “sentimentalóide” e “baboseira” possui. Não há poesia em ‘Poesia’ ou não há poesia em você?

  3. Vi o filme “Poesia” e gostei. Daí ser perigosa à critica que influencia o leitor ingênuo ver ou não determinado filme. (Fiquei com pena das comentaristas Ana Cristina e da Regina, que, após ler sua crítica, desistiram de ver este belo filme Poesia). Geralmente gostamos de um filme quando nos identificamos com uma personagem ou um fragmento da narrativa, uma cena, a ideologia subjacente, etc. Por exemplo, para gostar do filme francês “Amor” é preciso ter passado dos 50 anos. E para fazê-lo só um diretor acima dos 60, amadurecido na temática, poderia bem realizar a obra. (Michael Haneke concordou com a entrevistadora). Jovens que vão assistir este filme (Amor) no cinema logo se levantam, porque acham o filme chato. Eles gostam de filmes de massa, que não instiga o pensamento. Ouso dizer que para assistir “Amor”, “Poesia” ou “Boneca inflável” (ver resenha no blog) é preciso estar numa fase da vida cujos sentimentos superam o pensamento crítico e preconceituoso. É preciso estar com espírito desarmado no mínimo para assistir este filme: desarmado de pré-conceitos sobre o estilo “sentimentalóide” que o resenhista desqualifica o filme Poesia. Aprendi a desconfiar de críticas que na verdade usam de “achincalhe” e slogans contra uma obra ou autor. Lamento, mas é preciso INVESTIR em MAIS E MELHOR ANÁLISE e evitar frases que grafiticam a galera preconceituosa: “isso é baboseira”, “bobagem”, “paulocoelhismo”etc. Escrevendo assim, o resenhista ou ensaísta no mínimo“desconvida o leitor a ver o filme em nome de uma suposta regra de bom gosto continua sendo, para mim, um desserviço da crítica, pois não quer o diálogo corrosivo crítico, mas somente aplausos para seus vitupérios “doutos”. Sinopse crítica não é propriamente análise crítica. Vc se restringiu à primeira, e fez o filme desaparecer em seu argumento para que coubesse numa “boa” tópica derrogatória. Isso também me parece bem passadinho…” (observa Alexander Martins Vianna). Concordo.

    Lembrando a velha frase de Pessoa: cada pessoa vê o filme com o tamanho de sua alma. Para filmes como é o Poesia, Amor, Boneca Inflável, e tantos outros ‘sentimentalóides’, “dramalhões”, cheio de clichês, etc e tal, é preciso estar com a ALMA em sintonia mais com os sentimentos do que com a razão crítica-achincalhe. Lamento muiito! (Conferir ensaio: LIMA, Raymundo. O que é ser crítico? Disponível em: http://www.espacoacademico.com.br/084/84lima.htm)

  4. Baixei este filme há, aproximadamente, 3 meses, ainda não assisti, mas pretendo, o mais rápido que puder, deletá-lo…AHAHAHAHHAH….Depois desta crítica percebi que a chance deste filme me desagradar é de 99 em 100 chances…AHAHAHAHAHHA…Ainda bem que não me dei o luxo de comprá-lo! Parabéns pela crítica, Eloésio!
    Estava sentindo falta das suas palavras, falta de pensar!
    Abraços

  5. Chego com atraso de uma semana à leitura da critica de Eloésio Paulo, que através de uma sinopse bem feita tinha me dado uma paradoxal vontade de ver esse filme, vontade esta desfeita pelo video incluso no post.
    Muito engraçado esse efeito atravessado, a critica que valoriza e a propaganda que desengana, ao nos mostrar o apelo sentimental de imagens e sons ao lado mais vulgar de nossos bons sentimentos.
    Mas a discussao suscitada também esta interessante, apesar do mau humor do “critico da critica” Alexander.
    Bom artigo e boa leitura.
    Em tempo: este quadradinho chato (“Follow “blog…”) que ocupa espaço na tela nao poderia ser pelo menos menor?

  6. Prezado prof. Eloésio,
    Não vou mais falar da importância de tornar relevante a análise de um filme, mesmo que “ruim” – principalmente de um filme que vc diz não querer conhecer o contexto de produção. Contudo, penso que a análise formal não precisa ser feita a despeito da contextual – até mesmo para não se confundir escolhas para determinados fins com incompetência nas escolhas de um diretor ou roteirista. Por isso, aprecio a discussão de “materialidade textual” de McKenzie e, no interior do campo da História Social da Cultural, trago-a para análise do cinema.
    Se a análise formal não se serve de conhecimento contextual – considerando que um filme é também som, imagem e performance, escalação de elenco, cenário, figurino, caracterização, etc, além do texto verbal –, como poder medir a diferença entre a incompetência de usar uma forma e o deboche no sentido de uso de tal forma?… No caso da edição de som, por exemplo, a sua introdução – particularmente a artificial – pode ter um efeito de ironizar algo apresentado com ar sério, assim como a sua deliberada ausência em determinadas circunstâncias. Um fundo de cena pode ter o mesmo propósito.
    Um filme não é somente o enredo verbal. Na URSS, durante o curto período inicial do “degelo”, filmes que, segundo o gosto mais requintado cult ocidental do momento, poderiam ser encarados como “sentimentalistas” cheios de “clichês”, eram a manifestação deliberada de um “grito” contra os heróis altruístas patrióticos (sem nuanças, ambiguidade e interior sentimental) das formas e sentidos fílmicos do cinema sob censura stalinista, programados nos planos quinquenais entre 1934 e 1953.
    Quando pensamos casos extremos como estes, a relação entre escolhas de forma e contextos de escolhas confere relevância ao sentido almejado com um “clichê”. Por isso, somente bombardear um filme porque não cumpre determinada nuança de gosto de uma “corte reguladora de críticos” não é suficiente para mim, não me motiva escrever e me enfada de ler. Eis o fundamento de minha ironia falstaffiana com esta linhagem de crítica.
    Assim, a minha provocação vai muito mais na direção de uma cobrança por uma forma de análise que penso que vc tem competência de fazer, se não para um filme que vc não goste, para um filme que vc goste, pois isso tornaria a escrita, pelo menos, prazerosa e mais provocativa para vc e seu leitor. Na análise do filme que vc não gostou – e talvez por isso mesmo –, senti falta dos outros elementos formais do filme. Não que vc tivesse de falar deles em seu ensaio – pois isso tornaria o ensaio longo demais para o blog –, mas não senti a presença de tais elementos no resultado de sua análise.
    Portanto, as minhas considerações falstaffianas não põem em cheque o brilhantismo ou a capacidade do prof. Eloésio, alegados por Patrícia Oliveira. Sou muito ocupado e também gosto de fruir um bom dia de sol, particularmente num domingo. Então, eu não perderia meu tempo com um interlocutor que não considerasse merecedor de minha atenção. Se me disponho a usar meu tempo para escrever a alguém, estou valorizando este alguém com um tempo que poderia estar focado em outro autor, livro, filme ou pessoa. Então, como consequência lógica deste argumento, não considero o prof. Eloésio menos brilhante ou menos competente somente porque foi submetido a uma crítica – a meu ver – pertinente.
    Pessoas brilhantes não acertam sempre e não são brilhantes em todas as tentativas – seria muito opressivo criar para alguém este tipo de roteiro… Por isso, como espaço tentativo de ensaio – desculpem-me este truísmo –, o blog “Ensaios sobre Cinema” da REA é um recanto virtual saudavelmente iconoclasta e penso que o prof. Eloésio não gostaria de ser um ídolo intocável, pois, com o tempo, como Narcísio, somente acharia um espelho mortal para suas qualidades…
    Um escritor merece mais. O desafio crítico de um desconhecido pode ser um belo elogio, paradoxalmente iconoclasta, a um autor!… O desafio crítico pode ajudar o autor a não temer ser tentativo, a desejar ser oportunamente corroído pelo ímpeto da criação que nasce de uma provocação qualificada, mesmo que de um desconhecido.
    Afinal, a ostra não conhece a areia que a incomoda e, mesmo assim, faz dela uma pérola…
    Abraços e tudo de bom,
    Alexander

  7. O seu comentário está aguardando moderação.

    Favor corrigir erro digitação: “Brilhante a crítica do Prof. Eloésio Paulo! Tem gabarito (e muito) para COMENTAR sobre o assunto!”

  8. Brilhante a crítica do Prof. Eloésio Paulo! Tem gabarito (e muito) para comemtar sobre o assunto!

  9. Caro Alexander,

    Muito apurados o seu vocabulário e a sua retórica, mas não tenho a intenção de ser crítico de cinema e muito menos a de induzir pessoas a ver filmes que considero ruins. Meu artigo, como deixei claro, pode ser considerado “profissional” apenas no que diz respeito à ideia de poesia – assunto que estudo há mais de 30 anos. Quanto à cinematografia, ele não passa do protesto de alguém que comprou um DVD supondo o filme ao menos razoável, já que premiado em um dos principais eventos da sétima arte. Escrevi porque em casos assim não há como apelar para o Código de Defesa do Consumidor, pois a mídia propriamente dita funcionava muito bem, o estojo estava perfeito e o invólucro plástico, intacto. Um código de defesa da estética talvez seja muito necessário no Brasil atual, mas com certeza resultaria em patrulhas ideológicas fascistoides. O possível espectador tem o direito de escolher, como você, se minha opinião é relevante e fundamentada ou não. O blog tem o direito de me publicar ou não. Enfim, todos estamos democraticamente exercendo nossos direitos e, por não falar nisso, minha vontade de conhecer qualquer das duas Coreias é praticamente zero.
    Se você posa falstaffianamente de “bobo”, é um direito seu. Gosto mais de Hamlet. Não me cobre, pois, a entrega de uma mercadoria que não vendi a ninguém. No fundo, acho que ambos pertencemos ao bloco “do eu sozinho”, no meu caso com as implicações existenciais do cacófato – por sinal, um modo de estar no mundo que passa pelo mais legítimo romantismo (não o cacófato propriamente dito, claro), aquele que com dois séculos de atraso e homeopaticamente diluído parece ser o tema da película em questão.
    Boa sorte em tudo e mil desculpas, mas não terei tempo para continuar nosso fertilíssimo (o mérito é todo seu) diálogo. Está um lindo sábado de sol aqui no Suil de Minas, e na próxima semana tenho vários outros textos inúteis para escrever, destinados a leitores potencialmente interessados em crítica gengiskhaniana.

  10. Senti falta do bom humor… Em que momento a tópica foi perdida?… Gosto de boas análises de filmes, sejam estas para filmes “bons” ou “ruins”, pois é a análise que torna o filme relevante ao alçá-lo como objeto. Veja o ensaio “O cinema que não ousa dizer seu nome” para entende melhor o meu ponto de vista, pois foi a análise proposta por Fabio Vianna Ribeiro que tornou o filme escolhido por ele relevante – e despertou minha curiosidade sobre o filme que ele chamou de “filme de sessão da tarde”. Nesse sentido, achei o ensaio de Fabio seminal, mas não o seu, que faz Terra arrasada de um filme sobre e para uma sociedade que vc não parece conhecer!…
    A sua sinopse crítica acaba sendo desnecessariamente sentenciosa: “Leitor, acho o filme ‘X’ ruim. Não assista porque não gostei.” Um leitor mais solidário a vc – e menos interessado em seus gostos – diria: “Crítico, escreve, então, sobre o que você gosta…, já que você não torna relevante a análise do que você não gosta”.
    Gosto da análise que surpreenda, que faça o leitor querer ver o filme, seja este “bom” ou “ruim”. Desconvidar o leitor a ver o filme em nome de uma suposta regra de bom gosto continua sendo, para mim, um desserviço da crítica, pois não quer o diálogo corrosivo crítico, mas somente aplausos para seus vitupérios “doutos”. Sinopse crítica não é propriamente análise crítica. Vc se restringiu à primeira, e fez o filme desaparecer em seu argumento para que coubesse numa “boa” tópica derrogatória. Isso também me parece bem passadinho…

    Então, vamos inventar uma tópica velha, ou retomar uma tópica nova, e esquecer da tópica de sempre: o paradoxo da(o) crítica(o)!…
    Sorria, isso não é um deboche!… Ops!… Um paradoxo!…

    Sorria, pois Falstaff não gosta de guerra ou honras propedêuticas…
    Sou apenas bobo, artificial e natural, sem plano predefinido…

    Abraços e tudo de bom,
    Alexander

  11. Caro Alexandre, por uma questão simples de lógica, seu comentário é ainda mais desnecessário que a crítica. Se a crítica é inútil, mais ainda o será a crítica da crítica, não acha? E, caso você não saiba, essa questão da “virgindade teórica” é bem anterior ao seu nascimento e à própria invenção do cinema.

    Caro Fábio, muito obrigado por seu bem-humorado e inteligente comentário. Escrevo para isso: dialogar com desconhecidos que valha a pena conhecer.

  12. Penso que o maior desafio não é dizer que um filme “ruim” é ruim (premiado ou não), pois isso é apenas trocar um regulador do “bom tom” (aqueles que o premiaram) por outro (do crítico que se sente ótimo por falar o óbvio sobre o que acha ruim, com ou sem talento no uso do humor, segundo seus gostos pessoais). Não vi muita originalidade nas tópicas de humor tentadas aqui, o que torna esta crítica um espelho apropriado daquilo que critica pelo efeito derrogatórios que gera na expectativa do leitor/audiência. Eu nunca espero a crítica para assistir a um filme. Prefiro perder a inocência por minha conta e risco. Também não escrevo para dizer o que o “pobre e ignorante leitor” deve ou não assistir. Não pretendo ser demiurgo do gosto de ninguém…

    O maior desafio da crítica é tornar a si mesma relevante. E, para ser coerente, gostaria que nenhum leitor deixasse de ver o filme porque o crítico não gostou dele, ou deixar de ler a crítica acima somente porque eu, insignificante leitor crítico, achei esta crítica um desserviço à aventura da descoberta…boa ou ruim…

  13. Muito divertido e instrutivo o artigo! Segundo um amigo meu, uma das funções da crítica é a de indicar ao público coisas que valem ou não a pena serem vistas (ou lidas, ouvidas, etc). E é raro encontrar críticas a filmes ruins, por incrível que pareça. Principalmente filmes ruins premiados! E realmente o filme parece mais um desses, dispensável pelos motivos que o texto indica.
    Apesar de concordar com a observação de que a Coréia do Norte é um lugar bastante exótico (para dizer o mínimo), filmes como “Pulgasari” – http://www.youtube.com/watch?v=uwjzeO8gG8I – do saudoso Kim Jong Il podem ser, a depender do ponto de vista, mais interessantes que “Poesia”. Pensando bem, acho que isso é um problema de filmes feitos em regiões peninsulares, lembrando-me agora dos filmes do Lars von Trier!

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