Entre dois mundos

FÁBIO VIANA RIBEIRO*

Caso fosse feita uma lista dos melhores e mais conhecidos filmes esquecidos dos últimos tempos, “Uma cruz à beira do abismo”, com a atriz Audrey Hepburn, certamente estaria incluído. Mesmo entre os muitos e bons filmes da atriz, raramente o mesmo é lembrado. Como algumas vezes acontece (ainda que o contrário seja muito mais frequente), o título de “Uma cruz à beira do abismo” teve no Brasil uma tradução que é muito mais significativa que o original. Não se trata apenas, como sugere o original, “The nun’s story”, da história de uma freira. A tradução do título reproduz com uma imagem a profunda busca na fé, de uma pessoa atormentada pela ideia de como poderia viver esse sentimento. Esse é um ponto importante para compreender bem o filme: não se trata de um questionamento da fé ou da própria instituição que representa essa fé. Ao contrário, tudo gira em torno do conflito interior vivido pela personagem, que busca, entre a humildade e o desespero, a resposta para o problema de como viver a fé num mundo que, como acontece com todos nós, apenas em parte pode ser compreendido. Como se estivesse à beira de um abismo.

Audrey Hepburn

É também mais um desses casos em que o filme terminou sendo mais conhecido que o livro em que se baseou. Poucos anos antes do filme, “The nun’s story”, de Kathryn Hulme, havia sido um grande sucesso na literatura. A ponto de ter sua tradução quase simultânea no Brasil em 1956, com o título “Entre dois mundos”. O filme “Uma cruz à beira do abismo” seria produzido em 1959. Tanto quanto a autora do livro, a atriz Audrey Hepburn conheceu Gabrielle Van den Mal – a personagem principal do filme e do livro, e que de fato existiu na vida real – para efeito de composição da personagem que iria interpretar no filme. A interpretação é tão perfeita que muitos não percebem que é a própria Audrey Hepburn quem representa o papel de Irmã Luke (ainda que o fato de usar um hábito durante quase todo o filme de fato dificulte um pouco essa identificação…).

Audrey Hepburn e Peter Finch

Apesar de suas duas horas e meia de duração, em nenhum momento tem-se a sensação de “Uma cruz à beira do abismo” ser um filme longo. A produção é excelente, tanto quanto as interpretações de Audrey Hepburn e Peter Finch. Como uma espécie de “versão leiga” da freira interpretada por Audrey Hepburn no filme, este último faz o papel de um médico, atormentado talvez por dúvidas semelhantes aos da religiosa que o auxilia (Gabrielle Van den Mal era também enfermeira). Apesar de seu ceticismo pragmático, e em contraste com a fé incondicional de sua auxiliar, é ele quem melhor compreende as profundas dúvidas da personagem; inclusive por serem em parte suas próprias dúvidas. Como curiosidade, Peter Finch faria, anos mais tarde, o papel principal no belíssimo “Horizonte perdido” – com a não menos bela trilha sonora de Burt Bacharach.

Trata-se, sobretudo, de um filme perturbador. E que fácil e falsamente poderia ser reduzido a um ou dois raciocínios. Não se trata simplesmente da “história de uma freira”, nem tampouco de uma crítica ao rigor de determinadas ordens religiosas; ainda que a facilidade oferecida por essas interpretações as façam comuns. Nesse sentido, a tradução do título do livro no Brasil foi também mais significativa que o original: “Entre dois mundos” sugere uma escolha que se assemelha às escolhas que todos nós, de um modo ou de outro, somos obrigados a um dia fazer. Como na perturbadora observação feita por Dostoievski: “só existe uma única ideia suprema sobre a terra: a existência ou não de Deus; todas as outras ideias pelas quais os homens vivem não passam de sua extensão”.

Algumas dúvidas, relacionadas ao roteiro, permanecem na memória de quem assiste “Uma cruz à beira do abismo” – mas talvez seja o caso de pensar que essas dúvidas combinam com a própria ideia do filme. Mais importante que isso, vem ser o percurso feito pela personagem; tudo o que vive, aquilo que vê, o modo como vê aquilo que a cerca. E o desejo de materialização de sua fé, na forma de amor aos seus semelhantes. Poucas vezes o cinema conseguiu alcançar com tanta sensibilidade o profundo sentido da fé católica. A cena final, muito pouco holywoodiana, deixa no espectador uma indescritível sensação de abandono e vazio. Não existem palavras nas últimas cenas, e parece também não existirem palavras para descrever a sensação que se tem ao final da história.

Ficha Técnica
Título original: “The nun’s story”
Elenco: Audrey Hepburn, Peter Finch, Dame Edith Evans
Direção: Fred Zinneman
Ano: 1959
País: Estados Unidos
Duração: 149 minutos


* Fábio Viana Ribeiro é professor adjunto da Universidade Estadual de Maringá (Departamento de Ciências Sociais) e doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).

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11 comentários sobre “Entre dois mundos

  1. Olá Fábio! Estou catalogando o livro “Entre dois mundos” e encontrei sua resenha, gostei tanto que vou rever o filme.

    Feliz 2017 para você e sua família! Estamos aguardando vocês aqui no Caraça.

    Abraço,

    Vera

  2. Nossa uma cruz à beira de um abismo é um filme muito lindo é o filme q Audrey mais gostou de fazer acho q foi esse filme q inspirou Audrey Hepburn a ajudar a Unicef

  3. Cara Revista Espaço Acadêmico,

    As passagens do filme a que se refere causaram certa sensação à época. E são particularmente interessantes, do ponto de vista sociológico. Meu raciocínio pode parecer meio desconcertante, mas acredito que as características de uma ‘instituição total’ como um convento, podem facilmente ser encontradas, em muitos de seus aspectos, em outras instituições seculares. É da natureza de toda e qualquer instituição, “formatar”, “moldar”, “definir”, etc, a personalidade dos que a elas se dispõem a pertencer. Desde organizações formais, como partidos políticos ou organizações militares, até grupos informais como professores universitários ou comunidades de usuários de drogas.

    Penso que muitas dessas ordens religiosas são lugares nos quais seus membros encontram – quando conscientes do que estão buscando… – uma tranquilidade que só raramente ocorre encontrarmos entre os que, como nós, vivem “no mundo”. Entre outros motivos, por terem de lidar com um número muito menor de contradições como as que encontramos em nosso dia a dia. Entre outros motivos…

    O que acho interessante no filme é o fato de não ser feito um julgamento superficial sobre a validade ou não da escolha feita pela personagem, ou posterior renúncia. O problema, como tentei demonstrar na resenha, é bem outro. Ela, a personagem principal, encontra no convento outra noviça que parece-lhe ter aquilo – vocação – que ela própria não possuía (situação que, por incrível que pareça, lembra-me muito a carta que Alfredo Sirkis escreve para Carlos Lamarca, anunciando sua saída da guerrilha); enquanto o médico, segue atormentado por problemas que, no fundo, talvez sejam semelhantes. Creio que os minutos finais do filme são talvez os mais significativos e perturbadores minutos de silêncio de um filme holywoodiano.

    Obrigado novamente pela leitura! E um grande abraço!

    Fábio.

  4. Caro Silver Account,

    Até onde sei, Todd Solondz nasceu em 1959. E que é o ano de lançamento do filme “Uma cruz à beira do abismo”. Suspeito que seu comentário não tenha sido escrito para esta resenha!

    Abraço,

    Fábio.

  5. Fábio,

    boa noite.
    Seu texto me inspirou a ver o filme.
    Confesso que a certa altura pensei em parar, pois parecia-me insuportável ver o que as exigências da ordem religiosa causavam e a submissão e anulação individual. Mas, resisti. Obrigado.

    Abraços e tudo de bom,

  6. Todd Solondz é norte americano, produtor de filmes independentes, um ser satírico mas igualmente realista. Em seus trabalhos busca apresentar a decadência da sociedade americana à margem de clichês e sensacionalismo. Seu humor ácido e teor crítico o permitem expôr a realidade concreta dos sujeitos que observa mediante a aposta de que é possível provocar reflexão naquele que o assiste. Assim, valores familiares, intolerância sexual, ilusões religiosas e políticas são temas frequentemente abordados em seus filmes.

  7. Obrigado, Maria Heloísa. O filme, em dvd, é bem fácil de achar. Aqui em Maringá geralmente está à venda nas Lojas Americanas, por incrível que pareça. Deve ser mais fácil ainda nas locadoras. Já o livro é meio raro em sebos; e novo não existe. Mas não na internet: no site “estantevirtual” existem algumas dezenas à venda. Mas todos ediçõ
    es de 1956 a 1959. A da editora Agir é a melhor.

  8. Fiquei profundamente interessada em assistir o filme! Adorei o texto. Como procedo para consegui-lo nas duas versões?

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