Nenhum a menos: tornar-se professora – Uma pedagogia dentrofora da escola

ARISTÓTELES BERINO***

 

Como experiência especificamente humana,
a educação é uma forma de intervenção no mundo.
Paulo Freire (Pedagogia da Autonomia)

Wei

Em uma escola primária, na aldeia Shuiquan, zona rural da China, professor Gao precisa se afastar por um mês das suas atividades. Uma professora substituta ficará com a turma no período. Mas ao recepcionar a substituta recrutada pelo prefeito, o experiente professor logo desconfia das suas capacidades. Com treze anos e sem ter terminado o ginásio, professor Gao não acredita que Wei reúna as condições necessárias para lecionar na turma multisseriada (alunos da pré-escola à 3ª série) que receberá. Quando pergunta o que ela saber fazer, sua resposta é: “cantar”. Quando tenta demonstrar a única canção que sabe, não consegue fazer direito. Gao pergunta, então, se ela “sabe copiar lições”. Wei responde afirmativamente. Sem alternativa, Gao faz uma recomendação que ela deverá, no entanto, prioritariamente observar: “nenhum a menos”. Com a evasão que frequentemente diminui o número de alunos da turma, professor Gao é enfático na necessidade de impedir que mais um aluno, dos atuais vinte e oito, seja perdido. Diante das dificuldades já sentidas que terá a professora Wei de ensinar, existe, então, a declaração da meta em que ela não poderá falhar: “nenhum a menos”.

Wei inicia seu trabalho com a turma de forma tímida e vacilante. Sequer é reconhecida como “professora” por todos. Nem por ela mesma, parece. Quando o prefeito chega à escola, após a partida do professor, para apresentar a professora substituta para a turma, encontra Wei sentada na entrada da sala de aula, enquanto seus alunos brincam no terreno diante do prédio. Ele repreende: “Por que está sentada aí? (…) E a aula? Você está aqui para ensinar!” O prefeito chama os alunos e entra na sala. Chama também a professora: “Professora Wei, entre. Entre! Você é a professora, entre! Entre de uma vez!”. Wei fica na porta, sem jeito para entrar, vacilante sobre o que fazer. Passados 15’ de filme, o que assistimos é uma jovem tornada professora substituta em uma escola onde se espera dela os supostos saberes e posturas que a fazem “professora”, enquanto ela mesma parece distante das exigências institucionais – atenta apenas ao pagamento prometido, que ela deseja ver garantido.

Zhang Huike

Quando o prefeito apresenta a professora substituta à turma, pede aos alunos: “digam professora Wei”. Um dos alunos, Zhang Huike, recusa-se a chamá-la de professora, afirmando que “ela é só a irmã de Wei Chunzhi”. O menino continuará desafiando a competência da professora substituta. Uma colega reclama que Zhang Huike está fazendo bagunça e Wei apenas diz, “não posso fazer nada”. A menina reclama: “Mas você é a professora”. O diálogo continua, com a professora reafirmando não poder “fazer nada” e a menina insiste que deveria saber fazer porque é a “professora”. Então, primeiro pelo professor Gao, depois pela turma, as capacidades de Wei e a sua própria identidade como professora são questionadas. Inclusive, não há aparentemente qualquer gesto seu de afirmação, de superação.

Zhang Huike, em outro gesto de desobediência, sai correndo da sala de aula e a professora Wei o persegue. Quando consegue alcançá-lo, ele diz que precisa “fazer xixi”.

A cena da perseguição é uma imagem especular da situação vivida por Wei. Jovem e com muita energia, Zhang Huike “corre” da professora. Quando ela parece já ter alcançado seu aluno, ele a “dribla”, para mais uma vez fugir. Quando finalmente Wei coloca as mãos nele, uma desculpa apropriada é oferecida para “justificar” a situação, para conter ou tornar injusta a ira da professora. A imagem, podemos dizer, pensa o que a professora Wei está passando. O que se pede de um professor – no Brasil e até na China – é que não deixe o aluno “escapar”. Ser “professora” é administrar a previsão do que deve ser “ensinado”, passar a “lição” que deve ser aprendida. Mas a imagem de Zhang Huike, provocante, exibe que o aluno, normalmente, de algum modo, escapa.

Em Nenhum a menos, “escapar da professora” será abordado em uma dimensão mais trágica do que os frequentes “dribles” da sala de aula.

Logo o especial pedido do Professor Gao – “nenhum a menos” – será posto à prova. Dois homens procuram por uma menina, aluna da escola, que corre 10 km diariamente. Com apoio do prefeito, ela será transferida para outra escola, onde poderá treinar e virar atleta. Wei simplesmente esconde a garota, para não ver a turma diminuir. Não consegue. Ao ver a menina partir em um carro, corre atrás. Todos no veículo ficam impressionados com a tenacidade da professora substituta. Diante da obsessão de Wei, comenta o prefeito: “Hoje manter as crianças na escola é mais difícil do que ensinar”. Fala que abre uma perspectiva de discussão sobre o próprio imperativo do “ensino” e de ser “professora”, como realizações sumárias, absolutas. Existe um continente muito amplo de vida (e imagens) que não pode ser resumido à “sala de aula”, que precisa ser levado em conta, visto. É o que vai acontecer no filme, com uma impactante mudança de cenário.

No planeta que é escola da aldeia, todos os acontecimentos graves parecem provocados especialmente pela presença agitada de Zhang Huike. Agora é a vez de vermos Zhang Huike girar no universo agitado da cidade.

Em uma manhã, ao realizar a chamada, Wei é informada da ausência de Zhang Huike: “seus pais o levaram embora”. Wei vai, então, até sua casa e descobre que o garoto foi para a cidade, com crianças de outras aldeias, para procurar trabalho, com a família endividada, vivendo precariamente.

O que poderá fazer a professora Wei para não perder seu aluno?

A aventura pedagógica

Zhang Huike está na cidade e mais um aluno deixa a escola. A jovem professora substituta está obstinada com a recomendação do professor Gao: nenhum a menos. Wei iniciará uma mobilização para conseguir reaver seu aluno. Se ele está na cidade, irá até ele para trazê-lo de volta. Mas precisa de dinheiro para as passagens. Empenho que transformará sua atuação como professora. Wei desenvolverá competências que ainda não havia conseguido desempenhar. No entanto, capacidades de ensinar que vão sendo tecidas na rede de gestos e desejos para que Zhang Huike seja encontrado e retorne. Não se trata de uma prática essencializada, separada de outros envolvimentos educativos. A aventura pedagógica de Wei dependerá da organização de saberes, mas só será cumprida através de uma determinação que caminhará com aspectos geralmente associados às ações formais e práticas do ensino, no entanto, interessadas em cumprir um resultado mais implicado com o conjunto da existência humana: o destino de cada um, seu lugar na cidade, seu lugar na vida.

Wei procura o prefeito, pedindo ajuda para trazer novamente Zhang Huike para a escola. Escuta sobre as impossibilidades, sobre a falta de dinheiro e que deveria deixar isso de lado. É, então, na sala de aula que a professora discutirá com seus alunos como deverá fazer para conseguir ir até a cidade, atrás de Zhang Huike. Conversam sobre o preço da passagem e o necessário para ir e voltar. Pela primeira vez Wei deixa de copiar as lições no quadro ou propor canções monótonas para seus alunos e acontece uma participação criativa, pensante e prática a respeito de um problema. Contas são feitas e os resultados checados, revistos, avaliados. Aos 40’ do filme, Wei agora é “professora”. A turma está envolvida e ela no comando, perguntando, analisando. É o interesse pelo retorno – pela existência – de Zhang Huike que provoca essa chacoalhada no seu ensino. Competências: algumas Wei já possuía. As tessituras de conhecimentos em rede já eram elaboradas por ela. Faltava vê-los melhor em ação.

Uma menina na turma conta sobre uma olaria próxima que remunera pelo trabalho de carregar tijolos. Wei decide, então, levar a turma, com a finalidade de arrecadar o dinheiro necessário. Há uma inegável ingenuidade na atitude de Wei. Mas não importa, não são as carências da professora substituta que devem ser vistas, mas sua vontade. O trabalho solidário com seus alunos não tem o resultado exatamente esperado, mas o chefe no local resolve apoiar a iniciativa da professora, com o valor que Wei diz precisar. Seu empenho, para conseguir o dinheiro para o retorno de Zhang Huike, já pode ser visto também como “educação”, o que parecia não ser capaz de realizar. Ao levar a turma para trabalhar na olaria, ao sair da sala de aula, suas articulações com as crianças aumentam, assim como as possibilidades do seu ensino. Novas situações se desdobram em episódios originais, em novas vivências e aprendizagens – que a própria realidade do cinema abre como pedagogia da imagem para quem assiste também.

Duas latinhas de coca-cola

Wei e seus alunos entram em um estabelecimento comercial. Lá resolvem beber coca-cola. Pelos cálculos de Wei (cálculos equivocados, vamos ver depois), é possível comprar duas latinhas do refrigerante. “É pouco pra todo mundo/ Cada um toma um golinho/(…) Deixem a professora tomar”. Há uma cena, entre as primeiras com a professora Wei em sala de aula, em que todos os alunos parecem dispersos, cada um envolvido apenas em sua própria ação de evasão da escola. Agora, bem o contrário, a latinha de coca-cola corre de mão em mão. E alguém pede para a professora não ser esquecida. A atenção está relacionada a um interesse comum: nenhum a menos. Wei é contratada como professora substituta em troca de um pagamento que constitui sua grande preocupação no início. Sua relação com a turma reelabora seu interesse pelo dinheiro. No começo do filme ela corre atrás da garantia que seu trabalho será remunerado. Depois, passa a perseguir o dinheiro para trazer Zhang Huike de volta. Com a suposta sobra de dinheiro, ele servirá para uma partilha: duas latas de coca-cola para todos.

Olhando os créditos do filme, há uma interessante informação sobre os atores e seus personagens. Wei Minzhi, Zhang Huike, e Gao não são atores profissionais. São, de fato, estudantes e professor. E mais, os nomes utilizados no filme são seus nomes verdadeiros. Entendemos que foram decisões que incidem sobre a realização estética do filme. Não vamos especular se a atuação seria diferente com atores de verdade. A narrativa do filme tem um movimento que amalgama uma visão mais ampliada das circunstâncias vividas pelas pessoas com uma compreensão mais personalizada de como cada indivíduo reúne saberes e realiza suas capacidades. Uma nota no final do filme diz: “A pobreza tira mais de um milhão de crianças da escola todo ano na China”. Não é a suposta incapacidade da professora substituta que tira Zhang Huike da escola. Mas Wei deverá percorrer um peculiar caminho para desabrochar como professora. Ao dar aos personagens seus nomes reais, o filme propõe um tato que será marcante na dramatização da vida nas escolas, sem se desviar do universo social e cultural do cotidiano e dos currículos praticados. A viagem da professora até a cidade permitirá uma avaliação mais aguda da escola da aldeia, através de uma vista da concentração da riqueza no processo de modernização da China. E isso acontece ao mesmo tempo em que a personagem/atriz vive uma exploração da existência que colabora para uma narrativa tocante, nos atingindo e modificando também, mesmo tão distante do seu país.

“Professora Wei”

Ao chegar à estação de trem, Wei descobre que não tem o dinheiro suficiente para a passagem. Precisa de muito mais. Volta para a sala de aula. Diante da questão que precisa ser examinada e ações cometidas, a sala de aula da professora substituta é lugar de discussão, tessitura de conhecimentos e de solidariedades, sem as quais não existe “ensino” ou “educação”. O prefeito olha pela janela da classe e diz: “Essa substituta não é ruim. Ensina até matemática”. Embora “sem recursos”, a escola da aldeia tem potências, que são animadas na tela do cinema e na fantasia de quem assiste. É a potência do cinema também pensando a escola. A determinação de Wei, com a mensagem “nenhum a menos” na sua cabeça, não é mais a sua obstinação pessoal do início do filme. Ocorreu um deslocamento. Na sala de aula, transformou-se em uma vontade partilhada, com atitudes éticas instituídas no grupo. Uma menina propõe que Wei entre no ônibus sem pagar. “E se me pegarem?”. Recebe como resposta: “Não vão pegar! A gente vai com você”. Pegam, sim. Mas se não está sozinha, seguirá pela estrada, até que uma carona a deixe na cidade.

A cidade é um deserto para Zhang Huike e a professora Wei. Contam, aqui e ali, com a atenção e o cuidado providencial de alguma pessoa que não fica indiferente à presença deslocada dos dois. Wei é entrevistada em um programa de televisão chamado “China Hoje”, com a esperança de que, ao dirigir-se a um público muito amplo, poderia ter a sua mensagem escutada por Zhang Huike: “Onde você está? Já procurei em todo o lugar. Estou tão preocupada! Por que você não volta?”. Wei chora copiosamente, enquanto olha para a câmera. Em uma transmissão do programa Zhang Huike é reconhecido. Ao ouvir sua professora, também se comove e chora. Nem sempre são as palavras que vão representar o comum, entre aqueles que, juntos, aprendem e ensinam. O repertório humano da educação é muito maior que seus objetos e suas práticas classificadas como pedagógicos. Aqui, no encontro entre Wei e Zhang Huike, proporcionado pela comunicação e a tecnologia, é através das lágrimas que virtualmente se tocam. Para a dedicada e delicada procura de Wei por Zhang Huike não existe limite. E o coração do menino arredio também é um enorme mar navegável. Não é apenas o “mar revoltoso” que no início do filme parecia impedir o contato entre eles.

O mesmo programa de televisão que colaborou com a professora Wei para que Zhang Huike fosse encontrado faz uma reportagem sobre o retorno de ambos para a aldeia. Um veículo da emissora faz a viagem e nele o menino é entrevistado. “Você gostou da cidade?”. Ele responde: “Sim”. “O que ela tem de bom?” “A cidade é bonita e próspera. Muito melhor do que o campo”, diz Zhang Huike. A entrevistadora prossegue: “O que mais impressionou você?”. A imagem do seu rosto parece refletir as dificuldades vividas e, então, responde: “Que tive de mendigar comida. Sempre vou me lembrar disso”. Sua resposta encerra uma ambivalência de quem se impressionou com o brilho da cidade, mas conheceu o contraste da luz. Conhecimentos não são linhas retas. O “aprender” acontece através de variantes que uma concepção dura do que é o ensino procura, muitas vezes, evitar. No entanto, dentrofora[1] da escola costumamos vacilar com os nossos saberes, provisórios que são. O que não significa dizer que uma indeterminação sempre perdura, que a educação “não chega a lugar algum”. Wei trouxe Zhang Huike de volta. Na última cena do filme, alunos e a professora substituta estão na sala de aula e cada um deverá escrever uma palavra no quadro. Zhang Huike, com sua audácia característica, pergunta se pode escrever duas. Ele escreve: “Professora Wei”. A professora substituta não é “professora” porque o prefeito disse, mas porque ela “sabe”.

Ficha Técnica:

Título: Nenhum a menos

Título original: Not One Less
Ano: 1998
País de origem: China
Direção: Yimou Zhang
Roteiro: Shi Xiangsheng
Fotografia: Hou Yong
Elenco: Minzhi Wei, Zhang Huike, Tian Zhenda, Gao Enman, Sun Zhimei.


* Este artigo contém material que foi originalmente escrito para o texto intitulado Nenhum a menos: tramas entre educação e ensino em um encontro do currículo com o cinema, produzido em co-autoria com a Profª. Conceição Soares (ProPEd-UERJ), para o GT Currículo da 35ª. Reunião Anual da ANPED, que acontecerá em outubro de 2012.

** ARISTÓTELES BERINO é Professor Adjunto da UFRRJ, onde coordena o Programa de Pós-graduação em “Educação, contextos contemporâneos e demandas populares”. Participante do GRPESQ “Currículos, redes educativas e imagens” e do GRPESQ “Estudos Culturais em Educação e Arte”.

[1] Termo que encontrei utilizado pela primeira vez pela Profª. Nilda Alves (ProPEd-UERJ)

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16 comentários sobre “Nenhum a menos: tornar-se professora – Uma pedagogia dentrofora da escola

  1. Lindo texto científico. O final mesmo é cinematográfico, uma análise que encanta e nos penetra: A professora substituta não é “professora” porque o prefeito disse, mas porque ela “sabe” – Hiran Pinel

  2. Um dos mais belos filmes que já assisti. Além da história ser muito real, ela trata de algo muito incomum nos nossos dias: a questão do importar-se com o outro, de doação em serviço em favor do próximo. A garota que faz o papel principal, dá um show de interpretação.
    Esse filme pode ser muito utilizado com fins educativos, tanto em Escolas como em comunidades que precisa de um apoio por parte da sociedade, para pais, professores e líderes comprometidos com a educação e com a cidadania. Amei o filme e compartilho sempre que possível. Precisamos resgatar esses valores.
    Ednalva Oliveira (Aracaju / Se)

  3. Boa tarde caro amigo Aristóteles Berino, venho por meio desta lhe fazer um pedido sobre o desenvolvimento do filme Nenhum a Menos, se possível me envie os questionário, do filme para me aplicar no ATPCs, se isso for possível estarei fazendo um trabalho com esse filme, lhe seu resumo e adorei…meu nome e Joares Tavora, professor mediador da cidade de Matão.

  4. amei o filme, mas infelizmente nossa realidade é outra, porém temos que permanecer MOTIVADOS e o filme é um exemplo fantastico….

  5. Célia Linhares,

    Fico muito contente com a sua leitura e com os comentários. Obrigado.

    Aristóteles

  6. Aristóteles
    Sua narrativa é poética, é pedagógica, envolvendo teorizações e experiências políticas do professorado que, como nos “Sertões” do mestre Guimarães,estão em toda parte. Por isso, ela toca nos movimentos intensos da educação escolar e nas potências, as vezes, desconsideradas que vão se insurgindo nos desafios educacionais. Parabéns!

  7. Caro Alexander,

    Agradeço a leitura do meu texto, assim como seus generosos comentários.

    Agora que começamos a prestar atenção nos carros feitos nas China, há também o cinema deles para olhar.

    Obrigado e um grande abraço,

    Aristóteles

  8. O filme chinês “NENHUM A MENOS”, em si mesmo, é tocante e brilhante, mas muito mais tocante e brilhante são as redes de questões e temas que o prof. Aristóteles Berino inventaria do filme e tece a partir do filme para uma reflexão sobre os fazeres da educação no Brasil em situações extremas de vulnerabilidade social que excluem alunos e professores da escola, ao mesmo tempo em que nos lembra, no espírito de Freire e Vigotsky, que há habilidades e talentos afetivos e cognitivos que transcendem o muro institucional da escola, em relação aos quais a instituição escolar não pode ser indiferente. Espero que a pressa dos leitores “virtuais” não impeça uma atenção reflexiva, estética e sensível a este ensaio.

    Para os mais apressados, em todo caso, vai um “digest reading” do ensaio para que percebam a sua beleza e riqueza em reflexão:
    “Hoje manter as crianças na escola é mais difícil do que ensinar”. Existe um continente muito amplo de vida (e imagens) que não pode ser resumido à “sala de aula”, que precisa ser levado em conta, visto. É o que vai acontecer no filme, com uma impactante mudança de cenário.”
    “Conversam sobre o preço da passagem e o necessário para ir e voltar. Pela primeira vez Wei deixa de copiar as lições no quadro ou propor canções monótonas para seus alunos e acontece uma participação criativa, pensante e prática a respeito de um problema.”
    “Aos 40’ do filme, Wei agora é “professora”. A turma está envolvida e ela no comando, perguntando, analisando. É o interesse pelo retorno – pela existência – de Zhang Huike que provoca essa chacoalhada no seu ensino. Competências: algumas Wei já possuía. As tessituras de conhecimentos em rede já eram elaboradas por ela. Faltava vê-los melhor em ação.”
    “Wei é contratada como professora substituta em troca de um pagamento que constitui sua grande preocupação no início. Sua relação com a turma reelabora seu interesse pelo dinheiro. No começo do filme ela corre atrás da garantia que seu trabalho será remunerado. Depois, passa a perseguir o dinheiro para trazer Zhang Huike de volta. Com a suposta sobra de dinheiro, ele servirá para uma partilha: duas latas de coca-cola para todos.”
    “A viagem da professora até a cidade permitirá uma avaliação mais aguda da escola da aldeia, através de uma vista da concentração da riqueza no processo de modernização da China. E isso acontece ao mesmo tempo em que a personagem/atriz vive uma exploração da existência que colabora para uma narrativa tocante, nos atingindo e modificando também, mesmo tão distante do seu país.”
    “Ao chegar à estação de trem, Wei descobre que não tem o dinheiro suficiente para a passagem. Precisa de muito mais. Volta para a sala de aula. Diante da questão que precisa ser examinada e ações cometidas, a sala de aula da professora substituta é lugar de discussão, tessitura de conhecimentos e de solidariedades, sem as quais não existe “ensino” ou “educação”.”
    “O repertório humano da educação é muito maior que seus objetos e suas práticas classificadas como pedagógicos. Aqui, no encontro entre Wei e Zhang Huike, proporcionado pela comunicação e a tecnologia, é através das lágrimas que virtualmente se tocam.”

  9. […] Em uma escola primária, na aldeia Shuiquan, zona rural da China, professor Gao precisa se afastar por um mês das suas atividades. Uma professora substituta ficará com a turma no período. Mas ao recepcionar a substituta recrutada pelo prefeito, o experiente professor logo desconfia das suas capacidades. Com treze anos e sem ter terminado o ginásio, professor Gao não acredita que Wei reúna as condições necessárias para lecionar na turma multisseriada (alunos da pré-escola à 3ª série) que receberá… LEIA NA ÍNTEGRA: https://espacoacademico.wordpress.com/2012/09/19/nenhum-a-menos-tornar-se-professora-uma-pedagogia-de… […]

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