Carlos Nelson!

RODRIGO BISCHOFF BELLI * **

Parecia mesmo uma premonição. Antes de dormir, na noite de quarta-feira, dia 19 de setembro de 2012, conferindo pela última vez postagens de amigos meus nas redes sociais, deparei-me com um vídeo de Carlos Nelson Coutinho. Tratava-se de uma fala que levava o título Gramsci e a Comuna de Paris. Ciente do frágil estado de saúde de Carlos Nelson, qualquer referência solta, que não fosse precedida de um debate, o mínimo que fosse, justificando a inserção das contribuições do intelectual que trouxe ao debate acadêmico e militante brasileiro as contribuições revolucionárias de György Lukács e Antonio Gramsci, parecia soar como uma espécie de homenagem póstuma. Como das outras vezes, não era o caso. Entretanto, ao acordar pela manhã do dia seguinte, me deparo com mais um vídeo de Carlos Nelson, desta vez de outro amigo, e mais uma vez aquela sensação premonitória surgia, agravada, decerto, pelo acontecimento da noite anterior. Desta vez, infelizmente, a referência era seguida da triste notícia: o velho camarada tinha encerrado seu ciclo.

Não convivi com Carlos Nelson, por isso minha tristeza não tem, creio eu, a mesma magnitude da de seus camaradas mais próximos. No entanto, isso não impede que eu experimente uma sensação dolorida com sua morte. Conheci Carlos Nelson por seus textos, antes de pessoalmente. Por isso, se eu possuo alguma intimidade com sua pessoa, ela está presente de maneira muito mais decisiva no campo das ideias do que no campo afetivo. Se os mais chegados o tomavam por Carlito, a mim cabia reconhecê-lo por Carlos Nelson. Mas não qualquer Carlos Nelson. Para mim, a pronúncia do seu nome não poderia ser feita em qualquer tom de voz senão num portentoso brado, tal qual aquele proferido por Nicolas Tertulian, certa vez num evento[1], o qual tive a oportunidade de presenciar.

Se não me engano, tratava-se de uma mesa que discutia a questão do complexo da política dentro das análises de Lukács. Há um debate tremendo sobre a questão, com relação ao caráter da política na conformação do chamado ser social na obra lukacsiana. Enquanto o grosso dos teóricos defende o caráter negativo e, portanto, superável desse complexo a partir da abolição da organização das formações sociais baseadas na estrutura de classes sociais, Carlos Nelson defendia a ideia de que esse ponto não era de todo claro na exposição do marxista húngaro, o que o levou a desenvolver, baseado em Gramsci, uma leitura mais positiva do complexo da política.[2] Não cabe aqui discorrer sobre a questão, sobre quem estaria mais próximo da compreensão objetivamente expressa por Lukács e, mais ainda, sobre sua validade contraposta à realidade. O importante, no momento, é destacar que no debate daquele evento, na mesa em que Coutinho estava, ele retoma sua argumentação da positividade da política, provocando a indignação de todos aqueles inclinados a concordar com a posição de Lessa. Entre eles estava Tertulian. Tremendo estudioso de Lukács, romeno de trejeitos italianos, inclusive na língua utilizada para se comunicar, Tertulian, que estava na plenária, pede a palavra e abre um tremendo diálogo com Carlos Nelson, retomando as argumentações mais conhecidas do debate. Inflexível, Carlos Nelson discorda a todo o momento, a ponto de deixar Tertulian completamente indignado, levando-o, num ato de desaprovação da postura de seu amigo Carlito, a bradar: CARLOS NELSON!

Carlos Nelson Coutinho (1943-2012)

Para mim, esta exclamação tertuliana resumia bem a particularidade de sua figura. Era um brado que misturava desaprovação e ternura, indignação e respeito, uma mistura de sentimentos que costumamos expressar apenas para as pessoas mais queridas. Não sei se sou capaz de citar qualquer autor marxista tão envolvido em polêmicas e, ao mesmo tempo, tão respeitado quanto Carlos Nelson. Pode ser desnecessário lembrar, mas dentro do marxismo, e na esquerda como um todo, divergências dos mais variados tipos costumam acabar em atitudes sectárias. Carlos Nelson era exceção. Seja se questionavam sua leitura sobre o complexo da atividade política na constituição do ser social, seja no questionamento de suas leituras sobre a prática transformadora da realidade como uma atividade de reformismo revolucionário, seja com a estranheza em sua persistente recusa em retomar e reconhecer as consequências práticas de sua análise sobre o estruturalismo e suas implicações dentro do marxismo, nada, absolutamente nada parecia abalar a admiração de todos por sua figura[3]. Isto porque, mesmo com divergências, era impossível negar a sagacidade pela qual trazia ao plano da reflexão os problemas da realidade e para os quais não se eximia de qualquer resposta, sempre mantendo suas convicções, sem sequer esbarrar em posturas dogmáticas. Carlos Nelson era, sem dúvida, aquilo que poderíamos chamar de um marxista impenitente.

Em tempos como o nosso, quando a irrazão encontra terreno fértil para se propagar, as lições de um marxista impenitente são mais do que valiosas. Irracionalidade que encontra vazão na reencarnação do fantasma do fascismo e também no chamado pensamento pós-moderno, que representa uma fase nova da negação da barbárie, fruto da mais profunda crise do capital, e que, infelizmente, incorporou-se profundamente no pensamento da esquerda.

Ao analisar a questão do estruturalismo, seus antecedentes e suas consequências dentro e fora do marxismo, em sua obra O estruturalismo e a miséria da razão, Carlos Nelson afirma a necessidade de consolidação do marxismo como uma postura militante que não se deixa entregar pelas insinuações da razão destruída, próprias ao caráter reacionário da burguesia, nem quanto a uma razão miserável, que tenta em vão forjar uma prática sobre a realidade supostamente desatrelada dos interesses de classe, e que na verdade só faz conservar os elementos retrógrados da cultura humana. Tamanho descaso com a razão apenas reforça o caráter alienante de nossa formação social limitada pela lógica do capital, reprodutora de um sem-número de fetiches.

Neste sentido, cabe aqui retomarmos o legado deixado pela impenitência marxista de Carlos Nelson, reabrindo um novo ciclo de sua existência, mesmo depois de sua morte. Não, não se trata de nenhum fenômeno fantasmagórico ou fantástico, trata-se apenas de fazer valer a força material das ideias. Certa vez, Leandro Konder escreveu que

Em 7 de março de 1933, o ex-deputado Antonio Gramsci, cassado e posto na prisão pelo regime fascista de Benito Mussolini, teve uma crise, caiu no chão de sua cela, vomitando sangue. Outros presos foram autorizados pelos guardas a dar-lhe assistência. Gramsci delirava, com febre alta, e falava em dialeto sardo; dizia que a tese da imortalidade da alma não era absurda e podia ser interpretada em termos materialistas como a capacidade que o indivíduo tem de perdurar, através de suas ações e de suas ideias, na história da humanidade.[4]

Façamos, então, valer a tese materialista do camarada sardo, que tamanha influência teve na vida de Carlos Nelson, mesmo depois de sua morte. Lutemos contra a irrazão! Combatamos a razão miserável! Insurjamos por uma práxis revolucionária que reabilite a Humanidade sobre a estrutura e sobre o indivíduo! Ousemos, tal como fez Carlos Nelson Coutinho, para que sua impenitência não tenha sido em vão, pois que sua causa é a causa de toda a humanidade! Por isso, não há outra palavra de ordem em um momento como este:

Carlos Nelson Coutinho, PRESENTE!


* RODRIGO BISCHOFF BELLI é Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina e membro do Espaço Marx – Maringá

** Um texto feito em tão pouco tempo costuma ser marcado por equívocos de todos os tipos, mesmo textos pequenos e singelos do qual este é um exemplo. Devo agradecer a ajuda de Cássius Marcelus Brito pela presteza da leitura de um esboço em um período tão curto e pelas correções que lhe garantiram uma redação mais clara.

[1] Se tratava de mais uma edição do evento Teoria e política do socialismo, organizado pelos camaradas da Unesp de Marília, e que naquele ano de 2009, era dedicado ao pensamento de György Lukács.

[2] Sobre o posicionamento de Carlos Nelson, ver: COUTINHO, Carlos Nelson. “Lukács, a ontologia e a politica” In Marxismo e política: a dualidade de poderes e outros ensaios. – São Paulo : Cortez, 1994, pp. 143-160. Sobre o dos outros autores, conferir um trabalho recente de Sergio Lessa e Ivo Tonet que retoma o viés ontológico de Marx resgatado por Lukács: LESSA, Sergio & TONET, Ivo. Introdução à filosofia de Marx. – São Paulo : Expressão Popular, 2008.

[3] Sobre a questão da política, ver referência já indicada na nota 2; sobre a questão do reformismo revolucionário, ver COUTINHO, Carlos Nelson. “A dualidade de poderes: Estado e revolução no pensamento marxista” In Marxismo e política: a dualidade de poderes e outros ensaios. – São Paulo : Cortez, 1994, pp. 13-69; & “A democracia como valor universal” In SILVEIRA, Ênio et al. Encontros com a civilização brasileira. – Rio de Janeiro : Civilização Brasileira, 1979, v. 9, pp. 33-47; sobre a questão do estruturalismo, ver COUTINHO, Carlos Nelson. O estruturalismo e a miséria da razão. – 2ª ed. – São Paulo : Expressão Popular, 2010.

[4] KONDER, Leandro. O marxismo na batalha das ideias. – 2 ª ed. – Expressão Popular : São Paulo, 2009, p. 47.

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