Pela democracia na USP

RICARDO RIBEIRO TERRA*

 

A discussão sobre a democracia na Universidade de São Paulo extrapolou os limites do campus e invadiu os meios de comunicação de massa, estando presente até na campanha eleitoral para a prefeitura de São Paulo.

Para dar um mínimo de consistência à discussão, é necessário esboçar o que seriam as especificidades da democracia na universidade e também pensar aquilo que é próprio ao estado de direito que está se consolidando em uma instituição pública no Brasil de hoje.

O diagnóstico que pretendo apresentar é o seguinte: há um déficit generalizado de legitimidade na USP. Esse déficit teria duas grandes causas, um déficit democrático e a precariedade do “estado de direito”. Em relação a este diagnóstico esboço duas propostas: a ampliação da esfera pública universitária e a elaboração de um novo regimento disciplinar (e a ampliação do código de ética). Acredito ser urgente uma transformação profunda na ação das autoridades universitárias, das associações e dos sindicatos com a construção de uma ampla esfera pública democrática universitária junto com consolidação de autoridades legítimas.

Tendo isso em vista, neste texto tratarei apenas de alguns aspectos da questão democrática na universidade. Não tratarei, por exemplo, dos empecilhos à vida democrática representados pelo desrespeito e não reconhecimento de demandas democráticas relativas à “raça”, gênero e diversidade de orientação sexual; também não tratarei da ampliação e do sentido da inclusão social: vestibular, quotas, moradia estudantil, bolsas sociais, por exemplo, e também não tratarei da situação excepcional da resistência civil legítima.

O fascismo de esquerda pautando os movimentos universitários

A democracia universitária é posta continuamente em xeque por grupelhos fascistas de esquerda. Explico-me de maneira esquemática. Apesar da noção de fascismo estar bastante gasta, pois é usada continuamente sem nenhuma precisão conceitual, apenas para desqualificar o adversário, ela ainda pode ter um significado crítico se for possível utilizá-la com certa clareza. O que entendo aqui por fascismo de esquerda[1] é a postura de certos grupos que consideram a democracia e o estado de direito vigentes no Brasil atual como inexistentes ou como meros instrumentos de dominação da burguesia. De maneira mais ou menos clara, só veem uma saída na revolução que destruiria o direito burguês e o capitalismo. Têm uma visão absolutamente instrumental do direito e, como estratégia, pretendem usar os procedimentos democráticos e jurídicos para destruir a “falsa” democracia existente. A democracia real só se daria no socialismo/comunismo (real?).

A partir desses pressupostos, todos os meios são considerados legítimos e a estratégia básica consiste em buscar radicalizar qualquer movimento que possa aumentar a violência e a intimidação. Se a polícia detém usuários de drogas na universidade, os fascistas de esquerda provocam a polícia visando a criação de um conflito envolvendo o maior número possível de estudantes para, com isso, ampliar o fato. Se há algum movimento de protesto em relação a um tema qualquer, os fascistas de esquerda invadem a reitoria, o prédio da administração da FFLCH ou o CRUSP. Se eles perdem em uma assembleia estudantil, esperam a assembleia terminar e “convocam” outra assembleia em seguida, quando a maioria dos estudantes já foi embora, para, assim, conseguir que suas propostas sejam aprovadas.

O número de fascistas de esquerda na Universidade de São Paulo é pequeno, mas o efeito de suas atividades é bastante grande, pois em certo sentido eles pautam o movimento estudantil, o movimento dos funcionários e até o dos professores. O processo é o seguinte: com suas ações violentas eles criam situações que obrigam as autoridades universitárias a intervir. Então, contra a atuação da reitoria, ocorre a ampliação dos protestos com o envolvimento do movimento estudantil e da ADUSP. Nesse sentido, eles pautam as ações de boa parte dos movimentos universitários e, assim, conseguem ampliar o número de seus militantes.

Para entender esse processo, é necessário ver o comportamento de outros grupos universitários. Primeiro, um conjunto de professores e alunos que, diferentemente dos fascistas de esquerda, não acredita mais na revolução. Poderíamos denominar seus membros “marxistas chorões” ou o “grupo do apocalipse”. Para eles, como se perdeu o momento da revolução, o mundo só pode piorar. Isto os diferencia radicalmente dos fascistas de esquerda. Fazem uma salada curiosa, afirmam que o processo de reificação do capitalismo atual leva à impossibilidade da democracia e que o determinismo econômico mundializado transforma a política em algo irrelevante. Daí vêm as consequências: afirmam que a dominação é total, que vivemos em um estado de sítio, que estamos em um campo de concentração e que a ditadura brasileira não acabou. O que sobra é a performance política, o que leva ao seguinte raciocínio: não importa a justificação política de uma ação. A ocupação da reitoria, por exemplo, pode ser equivocada, mas deve ser apoiada, pois o que importa é a sua performance. É uma espécie de estetização da política, que não é democrática, mas não é propriamente fascista, apesar de se assemelhar aos fascistas de esquerda na ação. Como, para eles, ainda vivemos em uma ditadura, em estado de sítio, o sistema jurídico e político tem apenas valor instrumental. O direito é, dessa forma, usado de maneira oportunista em função da ação.

De outro lado, há um grande número de pessoas a que poderíamos chamar democratas sociais ou socialistas democratas, não importa o nome. Eles estão presentes em todos os lugares, mas não se fazem ouvir porque não há uma esfera pública, um campo de debates na universidade. Voltarei a esse grupo adiante. Finalmente, não pretendo nesse diagnóstico me deter na atuação da direita.

Perda de legitimidade das autoridades universitárias e dos movimentos de professores, alunos e funcionários

Quando o uso repetido da violência se alastrou há muitos anos (durante a reitoria do Professor Marcovitch), as autoridades universitárias agiram com espírito acadêmico e negociaram com paciência. Muitas vezes o reitor teve de despachar fora da reitoria, diversos acordos internacionais foram prejudicados porque os processos estavam no prédio ocupado, a Edusp teve várias de suas atividades prejudicadas já que seus escritórios na antiga reitoria estavam ocupados, alunos foram lesados porque não podiam retirar seus diplomas, roubos e depredações de propriedades públicas foram suportados; tudo em nome do processode democratização e do espírito universitário.

Os fascistas de esquerda nunca quiseram realmente negociar, apenas usam meios ilegais para desgastar a autoridade. Estratégia que é, inclusive, sua forma de sobrevivência, pois garante a ampliação de seus quadros. De certa forma, foram bem sucedidos com os dois reitores seguintes, já que conseguiram corroer a legitimidade das autoridades universitárias. As tentativas de negociação e diálogo por parte da reitoria foram vistas como fraqueza, o que incentivou ainda mais a repetição da violência. A violência só aumentou, não apenas com invasões, mas com piquetes violentos e “cadeiraços”. Com isso, houve uma perda de legitimidade das autoridades universitárias, que já não conseguiam garantir o estado de direito. Afinal, qual a legitimidade de um reitor ou de um diretor de faculdade que não consegue garantir a segurança pessoal e a liberdade acadêmica dos professores e dos alunos que querem ter aulas ou realizar suas pesquisas?

A questão da legitimidade, no entanto, tem sido discutida na universidade de uma maneira completamente diferente da que estou procurando caracterizar. Há um argumento curioso que inverte a ordem causal, atribuindo a origem dos conflitos recentes ao “autoritarismo” da reitoria. Um grupo invade e depreda a reitoria: se o reitor exige a retomada do prédio, ele é considerado autoritário; e a ADUSP, o DCE e o SINTUSP posam de vítimas e, o mais perverso, clamam por democracia. Surge, então, a afirmação delirante de que o déficit de legitimidade da administração universitária poderia ser diminuído pela eleição direta dos dirigentes. Essa é a pretensão de parte do movimento estudantil e, por incrível que pareça, também a de certos professores.

Procura-se, além disso, questionar a legitimidade do atual reitor porque ele foi o segundo da lista elaborada pelo conselho universitário. Ora, acredito que o legislador foi sábio em relação ao processo de escolha dos reitores. A lista tríplice elaborada pelo conselho universitário é o resultado de um complexo processo interno na Universidade de São Paulo. A possibilidade de o governador do Estado poder escolher um dos três candidatos dá maior legitimidade ao reitor, uma vez que o governador acrescenta à escolha interna da universidade a legitimidade de alguém que foi eleito pela maioria da população do estado de São Paulo, que é quem paga os impostos. Querer que a escolha fique no âmbito da universidade é sinal do pior corporativismo. Dizer que o costume é o governador escolher o primeiro da lista é ir contra o acerto da legislação e reforçar o corporativismo. Se for um costume, é um mau costume, um sinal de que o governador teria de ceder ao corporativismo e seria obrigado a escolher o primeiro da lista.

Os partidários da eleição direta para reitor deveriam ver se alguma das melhores universidades do mundo tem esse processo. Verão que nenhuma universidade de padrão mundial escolhe seus dirigentes por eleição direta, pois a universidade não pode ser uma corporação “populista” e demagógica. É possível aperfeiçoar o método de escolha do reitor, mas em outra direção, talvez lançando mão de um comitê de busca. As vantagens de um comitê de buscas são muitas, principalmente por poder enfrentar, de um lado, o corporativismo, e, de outro, certos feudos incrustados no conselho universitário, elemento que também amplia consideravelmente o déficit de legitimidade da instituição. Outra questão relevante nas relações tensas entre autoridades universitárias e movimentos universitários é a dita “criminalização dos movimentos sociais”. Ora, se houvesse de fato criminalização de qualquer movimento social, a democracia seria atingida. Mas o fato de alguém participar de um movimento social não significa que esteja acima de todas as leis. Uma atitude contra o direito, como a agressão a um professor por um funcionário ou aluno não é aceitável só porque o funcionário ou aluno participa de um movimento social ou sindical. É um disparate a ADUSP assinar documentos exigindo a readmissão de um funcionário que foi demitido por agredir um professor. Professores, alunos ou funcionários que invadem prédios públicos, impedem o ir e vir de professores e funcionários e depredam ou furtam pertences de funcionários devem ser processados. Isso não é criminalização de movimentos sociais, é defesa do Estado de direito contra o fascismo de esquerda.

Entretanto, o déficit de legitimidade na universidade não diz respeito apenas ao reitor, mas também aos diretores de faculdades e chefes de departamentos, uma questão a que voltarei adiante. Infelizmente, já faz muito tempo que a ADUSP vem perdendo sua vitalidade e legitimidade, não conseguindo mais aglutinar a comunidade acadêmica para produzir uma reflexão coletiva sobre a universidade e a sociedade. Essa perda de legitimidade da ADUSP é patente, basta ver as repetidas tentativas frustradas de greves, a pouca sintonia com a maioria dos professores, certo rodízio do mesmo grupo de pessoas na diretoria (na última eleição houve, finalmente, alguma renovação), publicações sectárias, em que não há debates com enfrentamento de posições divergentes, baixa participação nas assembleias e na eleição da diretoria da entidade (assembleias com 100 professores, diretoria eleita com pouco mais de 600 votos). Além disso, a ação da ADUSP também tem sido, em grande medida, indiretamente pautada pelas ações dos grupos fascistas de esquerda. Como não consegue propor nada muito relevante por falta de reflexão crítica e liderança, a ADUSP, com raras exceções, apenas reage aos acontecimentos de forma pouco refletida. Geralmente, mesmo que discordando retoricamente dos fascistas de esquerda, esquece rapidamente as divergências para se concentrar junto com eles na resistência contra qualquer política acadêmica propositiva.

A ADUSP deveria estar envolvida na constituição de uma forte esfera pública acadêmica, o que só é possível com a participação dos envolvidos em fóruns eficazes de esclarecimento e confronto democrático. Nesse sentido, é necessário que o dogma das assembleias presenciais seja revisto. Há um bom argumento a favor das assembleias presenciais – o esclarecimento e a formação coletiva da vontade. Alguém pode mudar de posição participando das discussões em uma assembleia. Ora, um fórum eletrônico temático também poderia cumprir essa função, e de maneira talvez mais ampla. Por outro lado, a baixa participação nas assembleias torna clara a limitação de sua legitimidade e tem como resultado que a maioria dos professores não segue as decisões das assembleias. A pretensão da diretoria da ADUSP e dos cem professores que participam das assembleias de ser a vanguarda da USP não pode mais ser levada a sério. A democratização da USP seria fortalecida com a ampliação da esfera pública acadêmica, por meio de discussões e votações através da internet, em tomadas de posição sobre questões relevantes como, por exemplo, greves. A ilusão da autodeclarada vanguarda está impedindo a ampliação do processo de democratização.

Não vou me deter no movimento dos funcionários. Convém apenas ressaltar que o SINTUSP tem a mesma diretoria há décadas e boa parte dela adota essa posição que estou chamando de fascismo de esquerda. Por outro lado, será que não há um regulamento sobre o barulho no campus? O carro de som do SINTUSP pode atrapalhar as aulas e a pesquisa nas bibliotecas sempre que os diretores do SINTUSP desejarem? Não há nisso uma corrosão grave na legitimidade da prefeitura universitária?

O movimento estudantil, por sua vez, sofre um esvaziamento similar ao da ADUSP e acaba sendo pautado, em grande parte, pelos minoritários fascistas de esquerda. Nesses casos, a ampliação do espaço de discussão e decisão pela internet seria um fator de ganhos democráticos.

Dois exemplos de dificuldades no processo de democratização da universidade: a FFLCH e a Faculdade de Direito.

Mudando o ângulo da discussão, gostaria de me referir a duas faculdades que, em certo sentido, têm uma dificuldade oposta. Uma por se julgar o centro da universidade, e a outra por ter dificuldade de se considerar parte da universidade. É evidente que estou fazendo uma caricatura da situação, e muitos professores das duas instituições não se encaixam nela.

A FFCL teve, sem dúvida, uma importante atuação contra a ditadura. A invasão da Maria Antônia e a resistência posterior por parte de muitos professores, alunos e funcionários enobrece a história de nossa universidade. Outro elemento muito importante na historia da faculdade está vinculado à fundação da Universidade de São Paulo, pois a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras assumia, no projeto da nova universidade, a função de célula mater. Seguindo o modelo humboldtiano da universidade de pesquisa, a célula mater era constituída pelas ciências naturais, a matemática, as ciências humanas, filosofia e letras.

Nos anos 1960, entretanto, a célula mater se dividiu em varias instituições: os institutos de matemática, física, química, psicologia e, entre outras, a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Mantendo a metáfora biológica, com a divisão celular, a biologia, a física, a matemática, a química e a psicologia formam hoje a célula mater da universidade com o mesmo direito que a FFLCH, sendo todas provenientes da FFCL.

Tem-se a impressão de que a FFLCH não se estabilizou até hoje. Não há um projeto acadêmico e científico que justifique a atual articulação dos cursos motivos, de tanto em tanto, há um movimento de alguns professores de filosofia e ciências sociais que acham a faculdade muito grande, ingovernável e gostariam de se separar da FFLCH.

A FFLCH, proveniente da divisão da célula mater, teve um papel relevante na luta contra a ditadura, mas tem tido dificuldade no processo de ampliação do estado de direito. Alguns exemplos: frequentemente os espaços estudantis ficam em estado degradado com “festas” não autorizadas; em nenhum dos prédios da faculdade foi possível ter uma lanchonete minimamente aceitável; e, o pior não se consegue nem mesmo garantir um mínimo de segurança para a feira dos livros, que teve de ir para a Poli. A violência estudantil virou algo habitual na faculdade. Nenhuma medida é tomada para proteger a liberdade de ensino dos professores, que são impedidos de dar aulas por piquetes violentos. Os chefes de departamento não estão conseguindo cumprir suas obrigações regimentais, nem os diretores da faculdade estão conseguindo cumprir as suas. Quero deixar claro que não estou criticando os atuais dirigentes que realizam um bom trabalho dentro das limitações que são, em certo sentido, estruturais (eu mesmo como chefe do departamento de filosofia, não consegui fazer nada de diferente dos atuais dirigentes da faculdade e dos departamentos).

A congregação da faculdade, por sua vez, protesta e elabora moções sobre uma gama ampla de temas, mas se omite em casos como o roubo de pertences de funcionários durante a ocupação do prédio da administração por estudantes, deixando para o CTA a tarefa de produzir uma nota tímida de solidariedade aos funcionários furtados por estudantes. Além disso, existem alguns fenômenos curiosos: frequentemente apenas a biblioteca da FFLCH fecha durante as greves.

Em suma, a democratização da faculdade é urgente. A consolidação do estado de direito é esperada.

De outro lado, encontra-se a Faculdade de Direito. É muito significativo o artigo assinado pelo diretor da faculdade contra o reitor e, em certo sentido, contra a universidade. Ser contra uma atitude do reitor é compreensível. O problema é que estava implícita, no artigo, uma postura contra a universidade. Parece que o diretor da faculdade, representando talvez parte significativa dos professores e alunos, se orgulha de a faculdade ter sido fundada de maneira isolada. Daí o orgulho da tradição paulistana de 150 anos na contramão da Universidade, que procura se vincular a uma tradição que remonta ao século XI e que sofreu profunda modificação no século dezenove alemão (não português) com a criação da universidade de pesquisa. Esta postura talvez explique a baixa produtividade em pesquisa da Faculdade do Largo de São Francisco, diferentemente da Faculdade de Medicina e da Poli, que se transformaram e produzem conhecimento, além de formar profissionais. Apesar de também terem sido fundadas antes da USP, essas instituições entraram no espírito universitário da pesquisa porque, sem a sua integração no espírito da universidade humboldtiana não conseguiriam acompanhar nossos tempos.

Ora, sem uma Faculdade de Direito em um ambiente universitário, teremos dificuldades no processo de democratização da universidade. Talvez possamos esperar que a Faculdade de Direito de Ribeirão Preto, que nasceu dentro da Universidade, venha a cumprir esse papel.

Com esses dois exemplos é possível vislumbrar a complexidade de uma instituição grande como a USP.

Propostas: ampliação da esfera pública e regimento disciplinar

Algumas medidas são urgentíssimas, entre elas o estabelecimento de um “regimento disciplinar”. O fortalecimento do estado de direito na universidade exige que um regimento condizente com o processo de democratização seja aplicado com justiça e firmeza. Há um déficit de legitimidade na continuidade da aplicação de decretos com caráter autoritário. Por outro lado, a universidade não pode ficar em um vácuo normativo.

Boa parte da erosão da legitimidade das autoridades universitárias vem da inexistência de um regimento disciplinar atualizado e que possa ser exercido por todas as instâncias acadêmicas. No plano departamental, os chefes de departamentos são impotentes em relação a professores que faltam no dia de suas aulas ou pedem para que monitores dêem suas aulas quando estão ausentes (aula sem a presença do professor é uma aberração, e chamá-la de seminário não muda nada), bem como em relação ao barulho gerado por festas e pela música durante o horário de aula. Ou mesmo fora do horário de aula, mas ao lado da biblioteca.

E os diretores de faculdades? Qual sua legitimidade se não conseguem apoiar os chefes de departamento? Daí a urgência do regimento disciplinar, que esclareça as competências dos chefes de departamento, dos diretores de faculdade e da reitoria na manutenção de condições acadêmicas e tranquilidade para a pesquisa. As festas estudantis constituem um interessante elemento para o diagnóstico da perda de legitimidade dos diretores.

Na FFLCH, por exemplo, é comum os docentes receberem comunicados da diretoria ou dos chefes de departamento declarando que os organizadores de certa festa programada não pediram autorização para sua realização. Em seguida, explicam que os prédios da faculdade só são adequados para atividades didáticas, não oferecendo condições de segurança e higiene necessárias para festas. Daí vem o mais curioso: o documento alerta “as autoridades universitárias sobre os graves problemas que poderão resultar da realização de uma festa no espaço em questão” e, em seguida, responsabiliza os organizadores da festa por possíveis danos ao patrimônio e aos participantes do evento. Ora, se diretores de faculdade e chefes de departamento também são autoridades universitárias, podemos então entender que o comunicado está se referindo à reitoria. Tenho certeza de que, se o reitor tomar alguma providência em relação à referida festa ilegal e ilegítima, a congregação da faculdade tornará pública mais uma de suas curiosas moções denunciando a reitoria. A impotência reiterada dos diretores e chefes de departamento não corrói a democracia na universidade?

A universidade precisa de regras disciplinares claras, que colaborem para o estabelecimento de um “estado de direito” que, por seu turno, favoreça a liberdade acadêmica. Autoridade acadêmica democrática é aquela que consegue agir segundo as leis e regimentos que garantam a liberdade de pesquisa, ensino e extensão. Nisso há uma grande falha da reitoria e do conselho universitário. A ausência de um regimento disciplinar e de um código de ética mais detalhado do que o vigente prejudicam nosso “estado de direito” e a legitimidade das instituições. Não é possível viver em um vácuo jurídico, mas ter que aplicar ordenamentos falhos do tempo da ditadura é lamentável. O conselho universitário é omisso em relação ao regimento disciplinar, tal como o congresso nacional em relação à regulamentação da greve no serviço público.

Para uma universidade democrática é fundamental a consolidação de uma vasta esfera pública em que as diversas posições possam entrar em conflito. A USP é pobre em sua autorreflexão porque não há, atualmente, uma sólida cultura do conflito de ideias. Os fascistas de esquerda têm medo de posições diferentes das suas e não querem debater. Os socialistas democratas e socialdemocratas são tímidos e, talvez influenciados pela realidade dos partidos, não elaboram claramente suas posições. Parece que a lógica partidária, ou seja, o oportunismo eleitoreiro em relação às ideias relativas à religião, aborto, direitos dos homossexuais ou aos direitos femininos, reconhecimento das diferenças e à própria concepção do que seja democracia impedem também a reflexão sobre a universidade. A pobreza atual da reflexão dos intelectuais sobre a universidade é gritante. Nesse sentido, parece que a miséria das propostas e a falta de coerência nas ideias políticas, sociais e culturais, por exemplo, nos acadêmicos candidatos à prefeitura de São Paulo, encontram um espelho na universidade.

A universidade vai muito bem na pesquisa básica e acordou para a inovação e para a tecnologia, mas a autorreflexão crítica vive um momento de pobreza lamentável.

O fortalecimento do conflito democrático é a única saída para a multiplicação de visões e propostas para o seu desenvolvimento. É preciso criar inúmeros fóruns de discussão, e um movimento forte para exigir das associações de professores, alunos e funcionários que as decisões levem em conta a maioria das categorias – sem o golpe das assembléias presenciais, e sim com a deliberação de todos os interessados, seja pela internet ou por plebiscitos. Assim as associações e sindicatos ampliarão sua legitimidade. O conselho universitário deveria, com a máxima urgência, elaborar um regimento disciplinar que pudesse garantir a liberdade universitária, prevendo procedimentos que garantam a defesa dos acusados de infringirem as regras, mas possibilitando que os processos corram rapidamente, chegando-se logo a decisões. Assim os dirigentes universitários e as associações e sindicatos recuperarão sua autoridade e legitimidade, garantindo a liberdade de pesquisa, ensino e extensão, ou seja, a democracia universitária seria ampliada levando-se em conta a sua especificidade.


* RICARDO RIBEIRO TERRA é professor titular do Departamento de Filosofia (USP). Publicado no Informativo da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, nº 69, ago./set.2012. Neste blog com a autorização do autor.

[1] Procuro atualizar o conceito que foi empregado por Habermas nos ásperos debates com Rudi Dutschke. Vale a pena retomar as discussões ocorridas entre professores da Universidade de Frankfurt e os estudantes nos anos 1967 a 1969, ler a correspondência de Adorno com Marcuse e analisar os acontecimentos que levaram Adorno, diretor do Institut für Sozialforschung, a chamar a polícia para desocupar o prédio do Instituto ocupado pelos estudantes. Ver: Kraushaar, Wolfgang Frankfurter Schule und Studentenbewegung. Von der Flaschenpost zum Molotowcocktail 1946 bis 1995. (3 volumes) Hamburg, Rogner & Bernhard bei Zweitausendeins, 1998. Conferir também: Die Linke antwortet Jürgen Habermas. Frankfurt, Europäische Verlagsanstalt, 1968.

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2 comentários sobre “Pela democracia na USP

  1. Quanto à alegada proposta de divisão da FFLCH, um dos motivos do protesto, Samia afirmou não se tratar ainda de algo muito concreto, mas que haviam surgido rumores nesse sentido. A questão já havia sido levantada no primeiro dos debates com os candidatos. Naquela ocasião, o professor Sérgio Adorno afirmou não ter assumido nenhum posicionamento sobre isso, mas que era necessário “garantir a legitimidade do debate” e que uma “proposta como essa tem que poder ser proposta”. Já o professor Coggiola disse defender a unidade da faculdade e ressaltou que não havia aparecido nenhuma manifestação institucional sobre sua divisão.

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