Mais forte que a vingança

FÁBIO VIANA RIBEIRO*

“Mais forte que a vingança” é o título sob o qual conseguiram, no Brasil, camuflar um dos melhores filmes de faroeste que conheço. Em Portugal preferiram colocar, no lugar do título original, “As brancas montanhas da morte”. Imaginava-se que em 1972, época em que o gênero (filmes de faroeste) ainda sobrevivia bem, o apelo de títulos infames como esses talvez fosse mais eficiente que o original “Jeremiah Johnson”.

Seja como for, os fãs mais ortodoxos de filmes de faroeste que foram ao cinema por aquela época podem ter ficado bastante decepcionados com o que viram, considerando que o próprio filme não justifica o título (nem aqui nem em Portugal), e nem mesmo o filme vem a ser um western tradicional. Apesar de existirem índios, herói, cavalos, soldados e tiros, o principal está no arranjo feito além desses elementos. Diga-se de passagem, o grande feito de qualquer diretor de filmes de faroeste vem a ser conseguir criar uma grande história com tão poucos elementos. E não seria exagero estimar que, dos mais de 20.000 (sim, vinte mil…) filmes de western já produzidos, o número dos realmente bons (em diversos sentidos, inclusive – assim como existem também os ruins, em diversos sentidos) talvez não chegue a 100. Ou menos.

Consta que “Jeremiah Johnson” é, dentre os quais participou, o filme preferido do ator Robert Redford. Não é pouco, considerando que atuou em muitos outros e bons filmes. A história é a de um soldado que volta da guerra civil americana e resolve ir viver nas montanhas rochosas, longe da civilização. Apesar da neve, da escassez de comida, dos índios, dos animais famintos, etc., nas montanhas existia o principal, a possibilidade de estar longe de tudo que havia visto e feito na guerra. Longe do mundo, longe dos outros.

A principal ideia não dita no filme é justamente a dos motivos de sua fuga, de sua obstinação em viver longe de tudo que conhecera até então, no mais distante que pudesse estar nas montanhas. Aparentemente existem coisas que simplesmente não podemos saber, no sentido de suportá-las. Experiências que vão muito além de nossa capacidade de interpretá-las e dar-lhes um sentido, qualquer que seja. Que desejaríamos não saber ou esquecê-las, se pudéssemos. No filme, a mãe enlouquecida com o único filho sobrevivente, após a família ter sido massacrada. O próprio Jeremiah Johnson parece não encontrar outra saída que não seja a de se afastar cada vez mais do que viu e fez na guerra; por menos sentido que faça, do ponto de vista daqueles que deixou para trás, ir viver sozinho nas montanhas é a única saída que lhe parece fazer sentido.

Além do infeliz título, “Jeremiah Johnson” sempre teve, contra si, bons motivos para não ser tão conhecido ou apreciado. Os típicos fãs de filmes de faroeste (e, tecnicamente, “Mais forte que a vingança” é um filme de faroeste) não costumam gostar muito de ver associados, aos já observados elementos básicos do gênero, descrições metafísicas ou existenciais. Da mesma forma, os fãs de filmes autorais ou filmes de arte, também não costumam se sentir atraídos por títulos como o da tradução brasileira. Alguns textos descrevem “Jeremiah Johnson” como refletindo um momento, o das primeiras discussões sobre o problema ecológico nos Estados Unidos. Pode ser. De qualquer forma, há coisas muito mais interessantes no filme. Reduzir a história à condição de “reflexo de um contexto social” pode parecer muito para alguns; e ao mesmo tempo muito pouco para outros.

Existem óbvias relações de “Mais forte que a vingança” com filmes como “Dersu Uzala” (Akira Kurosawa, 1975), “Dead Man” (Jim Jarmush, 1995) ou mesmo “Na natureza selvagem” (Sean Penn, 2007). Com a diferença que “Mais forte que a vingança” é anterior a todos eles; e todos mais conhecidos que ele próprio. Não é o caso de imaginar “em que medida esses filmes se comunicam” (para usar uma expressão muito ao gosto do meio acadêmico atual…). Basta dizer que são semelhantes, no sentido mais profundo do que se pode perceber, e principalmente, do que sentimos aos assisti-los.

Em termos literários e filosóficos, todos estes filmes, e “Mais forte que a vingança” em particular, encontram-se muito próximos das ideias dos transcendentalistas americanos, principalmente Henry David Thoreau e Ralph Waldo Emerson. Lembro-me de um colega de graduação e do movimento estudantil, percebendo meu gosto por esses autores, observar, com certo desprezo, o fato de serem esses autores representantes filosóficos do individualismo americano. Durante anos continuei gostando muito dos escritos de ambos, mesmo na condição de sinistros representantes filosóficos do individualismo americano. E só depois percebi que esse rótulo, desimportante e caricatural, resultava tão somente do hábito de meu antigo colega, de ver o mundo dividido sempre entre duas perspectivas: as que confirmavam suas convicções e a que contrariavam suas convicções. O que parecia-me tão atraente nos escritos de Thoureau era o contrário disso, da necessidade de ultrapassarmos o mundo da racionalidade instrumental, de ser possível alcançar por outros caminhos outros sentidos para a vida. Creio que as montanhas do filme signifiquem isso.

Ficha Técnica
Título original: Jeremiah Johnson.
Elenco: Robert Redford, Delle Bolton, Josh Albee.
Direção: Sidney Pollack
Ano: 1972.
País: Estados Unidos
Duração: 116 minutos


* FÁBIO VIANA RIBEIRO é professor adjunto da Universidade Estadual de Maringá (Departamento de Ciências Sociais) e Doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).

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3 comentários sobre “Mais forte que a vingança

  1. A despeito de enfatizar aspectos considerados heteroxos para um “faroeste”, em nenhum momento se problematiza o caráter conservador do tema do filme: a visão épica da saga de brancos invasores de terra contra índios apresentados de modo superficial e ideológico. Não desfaz o equívoco histórico de perceber os conflitos da colonização da América pelo olhar glorioso ou trágico do branco europeu nas terras ricas da América.

  2. Caro Raymundo,
    Obrigado pela leitura.
    Sim, este western do Sergio Leone é hilário! A trilha do Enio Morricone é fabulosa! E, de fato, mesmo quando o vi, já achei bem esquisitas algumas coisas que entravam lá, meio desencontradas (do ponto de vista histórico).
    Abraço,
    Fábio.

  3. Caro Fábio, Parabéns pela resenha. Há um western que gostaria de incluir nesta lista acima, como um werstern-revolução, algo como western simpático a causa revolucionária marxista: “Quando explode a vingança” do italiano “Giù la testa” (em inglês: A Fistful of Dynamite, Duck, You Sucker ou Once Upon a Time… the Revolution; Também “Era uma vez a Revolução / pt: Aguenta-te, Canalha). Claro, é um filme italiano de 1971, dirigido por Sergio Leone, musica do grande Ennio Morricone.

    A Wikipedia ainda diz: “Há uma referência ao I.R.A., aparecendo a sigla em uma bandeira na mala do irlandês. É apontado como um erro histórico do filme, pois essa entidade foi fundada em 1919, depois do término da revolução mexicana. A sigla correta deveria ser “I.R.B.” (Irish Republican Brotherhood). Outros erros anotados pelos especialistas: uma das metralhadoras usadas é a alemã MG 42, introduzida apenas na Segunda Guerra Mundial; o general Huerta atira com uma pistola Browning HP, lançada em 1935; a motocicleta do irlandês é um modelo de 1928″.

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