Anna, dos seis aos dezoito

FÁBIO VIANA RIBEIRO *

Entre 1980 e 1991, desde que sua filha Anna tinha seis anos, o diretor soviético Nikita Mikhalkov filmou quatro perguntas simples que fazia-lhe todos os anos: o que mais ama? O que odeia mais? O que mais a amedronta? O que você mais quer? Ao longo do tempo, como é natural, as respostas foram se modificando. De início a bruxa; mais tarde, o medo de uma guerra nuclear. De um lado, a pequena criança de seis anos que soletra “Ana Karenina” no banco do jardim. Do outro, a história da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

Na prática, Anna, dos seis aos dezoito”, vem a ser um documentário sobre os últimos anos do regime soviético. Ao longo do filme outras perguntas são implicitamente colocadas: como foi possível sustentar a ideia de uma sociedade que, de fato, nunca existiu? E, mais estranho, como, em pouquíssimo tempo, essa espécie de encenação coletiva deixou de existir?

Apesar de sua forma de documentário, “Anna” é antes de tudo um filme belíssimo. As respostas para a existência e o colapso do império soviético não são dadas por meio das conhecidas críticas ao regime ou complexa análise política. Um país imenso e uma história trágica, onde a experiência do socialismo só foi talvez uma dentre centenas de outras páginas. O pequeno mundo de uma criança, que não se estende além do jardim e das poucas coisas que conhece, contrastando com os ideais de absoluta grandeza, verdade e poder do regime. Num momento, quando o diretor e pai percebe que o sistema já havia se instalado na personalidade da filha, ao vê-la chorar a morte de mais um líder do regime. Mais tarde, quando o regime começava a deixar de existir, o próprio diretor, entrevistado sobre o que estava acontecendo, observa que “nenhuma ideia vale a vida de uma só criança”.

Entre esses dois momentos, a descrição dos últimos anos de vida do regime. A guerra absurda nos confins do Afeganistão e o “contingente limitado dos guerreiros internacionalistas”, o acidente em Chernobyl, as Olimpíadas de Moscou, o esforço inútil de Gorbachev e, após ascensão ao poder de Yeltsin, um novo teatro, encenado com os restos do antigo cenário e alguns dos atores da peça anterior, cancelada às pressas. Numa das imagens mais emblemáticas desses últimos momentos, o já então ex presidente Mikhail Gorbachev percebe, ao anunciar sua renúncia, que não haviam colocado chá em sua xícara.

Como tantos outros lugares do mundo, e não obstante haver cada vez mais e melhores meios de os conhecermos, sabemos muito pouco sobre a Rússia. Um país que durante algumas décadas dividiu com os Estados Unidos a possibilidade de destruírem o mundo caso começassem uma guerra. Mesmo deixando de lado os erros e acertos do regime soviético, é perturbador notar, por meio do filme, aquilo que sempre existiu na Rússia, não obstante as muitas tragédias e a longa história do país. Um imenso amor pela terra, pelo que lá costuma ser chamado de “mãe Rússia”; ao que parece, muito diferente daquilo que no ocidente damos o nome de patriotismo. Não por acaso, após a invasão do país pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, aconteceu de a propaganda de guerra soviética deixar em segundo plano a ideia de uma luta por Stalin e pelo socialismo, para colocar em seu lugar, como principal motivador do esforço dos soldados e de todo o povo, a luta pela pátria.

Tanto quanto seu amor à pátria, a natureza profundamente religiosa do povo russo. Numa das cenas do filme, as mulheres que caminham ajoelhadas para o lugar onde havia um santuário, destruído pelos bolcheviques. Ainda que em seu lugar só tenham deixado as árvores, as últimas testemunhas de uma igreja que não existe mais, e ainda que em outros lugares outras formas de culto tenham sido instituídas, a antiga fé permaneceu. Talvez por isso, contraditoriamente, não tenha sido tão difícil para o regime colocar no lugar de Deus, outros deuses; e outros cultos, outros livros sagrados e outros sentidos para o sofrimento aqui na terra.

Em sua trágica história, não foram os bolcheviques os primeiros a concentrarem quase todo o poder em suas próprias mãos. Antes deles, como se sabe, muitos outros fizeram o mesmo. E depois deles, ainda que sob outra roupagem, outros atualmente o fazem. Talvez seja um grande engano, da parte dos livros que lemos sobre o assunto, imaginar a Rússia como sendo o país dos czares, substituído pelo regime socialista e finalmente um país como tantos outros.

O sentido profundo do que vem a ser a Rússia talvez não tenha mesmo outra forma de encontrar resposta que não seja na protagonista do filme que, ao falar de seu país, “do que mais ama, do que mais odeia, do que mais a amedronta e do que mais quer”, não consegue conter as lágrimas. Nenhuma ideia vale mais que a vida de uma criança.

Título original: Anna: Ot shesti do vosemnadtsati.
Elenco
: Anna Mikhalkova e Nikita Mikhalkov
Direção: Nikita Mikhalkov
Ano: 1993.
País: Rússia
Duração: 95 minutos

Link: http://russiashow.blogspot.com.br/2012/01/ano-de-lancamento-1993.html


* FÁBIO VIANA RIBEIRO é professor adjunto da Universidade Estadual de Maringá (Departamento de Ciências Sociais) e doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).

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2 comentários sobre “Anna, dos seis aos dezoito

  1. Magnífico comentário. Realmente pode-se apreender dele alguns aspectos que nos escapam da realidade Russa. Mas o Dr Fábio muito inteligentemente trouxe-nos uma matéria de valor instrutivo-educativo muito grande. Gostei imenso. E posso garantir-lhe e ao amigo Ozaí que não perco nenhuma postagem neste blog. Obrigado e bom trabalho.

  2. Meu caro Fábio. Muito oportuna a lembrança deste filme-doc de Mikhalkov. Já projetamos este filme na UEM, para professores e alunos, que ficaram meio apáticos e confusos na época (final dos anos 90).
    Como voce aponta bem a grande diferença entre o povo russo e o povo brasileiro: eles tem “Um imenso amor pela terra, pelo que lá costuma ser chamado de “mãe Rússia”; ao que parece, muito diferente daquilo que chamamos no ocidente damos o nome de patriotismo”.
    A ideia do diretor foi original: consultar sua filha desde pequena como se ela fosse um termômetro da realidade do povo-país-governo. E ela se saiu muito bem, fornecendo bom material para o filme-doc. Soube que Mikhalkov teve expessiva participação na crise da transição Gorbachov- Yelstsin. Mas nada sei dele depois. Faltou dizer no seu ensaio que a Rússia hoje está dominada por uma pseudodemocracia, manobrada pelos novos ricos e poderosos, mais a máfia russa que é muito pior do que a máfia italiana, e a “epidemia” evangélica (desde aquela corrente fundamentalista cristã norte-americana até a nossa do bispo Macedo). Não podemos esquece que as moças russas hoje são leitoras e fãs do nosso escritor Paulo Coelho. Ou seja, parece que o socialismo real deixou pouquíssimos frutos na literatura e cultura em geral. Parece que emburreceu ou infatilizou o povo para saber confuzir o seu país em “paizão” no Governo (Putin ou ou outro). Parece que o solo por onde fizeram a experiência socialista ficou arido, aliás já apontado pela Parábola do Semeador proferida por Jesus. Parabéns. Raymundo Lima.

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