Glosas em torno da eleição para Prefeito de Joinville de 2012: o espectro dohleriano e de seu amigo ínclito

*DAUTO J. DA SILVEIRA **

 

Cada passo do movimento real é mais importante do que uma dúzia de programas… (Karl Marx, 1875)

 

A cidade de Joinville terá mais um industrial como prefeito entre 2013 e 2016 e, com ele, a crítica sistemática terá de acompanhá-lo em virtude da complexa rede de interesses burgueses que se consolidará no seu governo e por se tratar de um momento fundamental para a retomada da radicalidade política da esquerda.[1] O nosso futuro prefeito é a personificação do atraso; é a personificação dos valores da classe dominante e sem “espírito”. O slogan da sua campanha expressa o atraso político que ronda a sua cabeça de “tear manual”, ou seja, quando ele afirma que Joinville será “De Novo Melhor” não entende que o passado não foi o “Reino de Alegria” para todos. O passado de Joinville, mais do que hoje, foi o passado do passado; o lema nega os processos societais produzidos historicamente na sociedade. “De Novo Melhor” é o lábaro de Wife enchanted of Miami de Joinville, em nenhum momento pensa na cidade não alemã-branca-europeizada em que caibam todos.

Dohler se valeu das contradições do quadro político que se arquitetou nestes últimos anos para ser tornar mais um prefeito industrial da cidade. É lícito afirmar que a falta de uma liderança sólida, no seio da esquerda ou da direita, que respondesse por um projeto maior, a estratégia de marketing eleitoreira bem construída no interior do PMDB dando vida a um candidato desacreditado, a demagogia angustiante do candidato Kennedy acerca da sua vitória prematura e a forte campanha midiática explorando o flagelante governo do PT, somado a uma acentuada dose de realismo político às avessas do Carlito Merss, foram determinantes para a vitória do peemedebista.

Para ser honesto com a história, a democracia liberal representativa permite ao eleitor depositar em alguém os rumos das suas condutas políticas; transferindo para outrem assuntos decisivos; na sociedade posta não temos a cultura da efetiva participação política, no máximo a cada quatro anos damos um pulo de pulga nos rumos da sociedade: ação esta traduzida por Rousseau, em pleno século XVIII, como “Alienação Política”. Portanto, no que tange à estratégia demagógica do candidato Udo, a abdicação salarial, tão bem explorada no final da campanha, tornando a remuneração algo “secundário”, diante de tamanha riqueza já adquirida, justificou o voto representativo.

A descrença do eleitorado encontrou um candidato perfeito. Para um industrial, o salário[2] de prefeito torna-se algo menor, diante da olímpica possibilidade de defender os interesses pomposos do grupo que o apóia. Os interesses da classe dominante nunca foram tão bem representados em Joinville. O voluntarismo dohleriano, quase messiânico, em respeito ao qual outras entidades da cidade já puderam sentir o seu sabor, nunca foi tão bem usado. O sentimento político de ajuda do industrial é um sentimento de si e para si, não se afasta de si mesmo. É um sentimento muito cheio de si, inebriado, incapaz de solucionar os grandes problemas da cidade. O sentimento de mudança que gravita a cabeça do nosso futuro prefeito pensa em mudar as coisas sem mudar as suas próprias coisas.

Alguns questionamentos podem ser tecidos acerca disto: O que significa ter um prefeito industrial onde o controle categórico do saldo contábil da sua indústria sempre foi bem vigiado, a sua razão suprema? Onde a apropriação do trabalho alheio, da mais valia do operário, sempre foi o tecido constitucional dos bolsos do seu paletó? São questionamentos que devem ser considerados neste momento histórico.

Udo Dohlermencionou, no seu primeiro dia como prefeito eleito, que vai atenuar a desigualdade de Joinville e para isso conta com a ajuda do povo: “Vamos conclamar a população para amenizar a desigualdade que se construiu especialmente nessa última década” (A.N., 29/10/2012). Resta saber como fará para amenizar a desigualdade: será distribuindo átomos do seu salário abdicado ou distribuindo palavras de incentivo, ecumênicas, meritocráticas para as pessoas? Amenizar a desigualdade está distante do ato de conclamar a população para esta tarefa; atenuar a pobreza é um ato liberal, digno das pretensões políticas do futuro prefeito. A população seguramente espera uma ação radicalmente honesta de alguém que no temor da campanha abdicou do seu salário como pretensão de ser dos pobres.

A ideia do seu cabo eleitoral mais notável era de que Joinville precisava de um prefeito com perfil de gestor. O Senador catarinense pressupõe que o estado de penúria e de problemas de toda ordem da cidade é a expressão de uma fraca gestão municipal; da mesma forma que o nosso futuro prefeito atribuiu ao seu trabalho voluntário a pré-condição para resolver a mesma penúria social. Algo já conhecido na história da Alemanha do século XVIII, especialmente quando o filósofo Arnold Rude atribuía à condição apolítica da sociedade alemã o estado de penúria social, dessa forma, segundo ele, o Rei da Prússia identificava a razão do pauperismo em uma falha da administração e de beneficência, conforme nos mostra o velho Marx em 1844.[3] Contudo, o velho Marx esclarece que já na Inglaterra, país onde se podia falar de uma grande ação política voltada ao pauperismo, sequer a luta contra a má administração deu conta de extirpar o estado de pobreza. Segue ele: “a atual legislação inglesa referente aos pobres data da lei constante do Ato n. 43 do governo de Elizabeth. Em que consistem os meios de que dispõe essa legislação? Na obrigação das paróquias de prover auxílio aos seus trabalhadores pobres, no imposto para os pobres, na beneficência legal. Essa legislação – a beneficência pela via da administração – durou dós séculos” (2010, p. 33, et. seq.). A resposta que o Parlamento inglês deu à Lei dos Pobres foi a seguinte: de início, ao terrível aumento do pauperismo como “falha administrativa”.

Diante da constatação, o Parlamento, ainda tentando sanar o problema, fez uma grande reforma na administração geral que cuidava do pauperismo e chegou à conclusão de que a fonte principal da condição aguda de pauperismo inglês estava na própria Lei dos Pobres: “O próprio meio legal contra a indigência social, a beneficência, favorecia a indigência social”. Enfim, para o Parlamento Inglês (politizado) o pauperismo seria a miséria infligida a si mesmo pelo trabalhador, portanto, nada de prevenção e sim punição como se fora um crime. Por meio da beneficência e de medidas administrativas a Inglaterra tentou acabar com a pobreza, sem, contudo, tocar nos elementos que a produzem; considerou o avanço do pauperismo como conseqüência do imposto inglês para os pobres e não como conseqüência necessária da indústria moderna. “A miséria foi vista como culpa dos miseráveis”.

Podemos afirmar, que não se acaba com o pauperismo com um prefeito de uma gestão de Novo Tipo, ou sequer com experiência oriundas de trabalhos beneficentes: não se supera o pauperismo nos marcos da sociedade posta, sem suprimir o antagonismo de classes que é a sua razão de ser.

Voltando às nossas glosas, podemos afirmar, sem vacilar, que deste quadro eleitoral, o petista Carlito foi quem mais se enfraqueceu na cidade. As urnas mostraram, dentre outras coisas, que o PT das eleições não voltará a governar a cidade se manter a mesma formação ideológica do pacto de classes estabelecida até agora. No terreno da esquerda joinvilense a decepção com o governo do PT causou um certo trauma na militância e nos simpatizantes. Em parte pela incapacidade carlitiana de transformar plenamente a cidade da forma como historicamente havia se organizado (ou se idealizado) no seio do partido, em sintonia com os interesses dos trabalhadores e em parte pelos limites impostos pela democracia dominante. Quando o prefeito do PT chegou ao executivo municipal herdou uma cidade profundamente atolada em um lamaçal de problemas de todas as ordens. Em uma cidade onde os governos anteriores sempre hastearam a mesma bandeira, necessitava-se, por parte do PT, de um governo comprometido com a radicalidade política, ou dito de outra forma, com a ampliação real dos poderes da classe trabalhadora. Foi tudo que o Carlito não fez, preferiu a covardia política. Na política é necessário a radicalidade, é necessário identificar o inimigo: vivemos permanentemente uma luta de classes, não há como negar, ainda que intelectuais de consciência ingênua vociferem por todos cantos que a luta acabou. Se um governo comprometido com os trabalhadores não dava nenhuma estabilidade política ao PT, tampouco o modelo adotado lhe daria.

Mas, não para por aí: se já não bastasse a derrota no primeiro turno, as alianças[4] feitas no segundo turno também foram rechaçadas pelo eleitorado. Curioso que o mesmo candidato que contribuiu com a vitória do PT em 2008, no segundo turno, sofreu com a inexpressividade do atual prefeito. O que esperávamos, contudo, era o recuo imediato do cenário eleitoral e a elaboração de um projeto político responsável que atendesse os interesses dos trabalhadores e de setores historicamente marginalizados, já há muito abandonados pela cúpula do PT. Aos olhos do eleitor à posição do atual mandatário, digna de aplausos, foi um ato de uma possível redenção ao seu mandato talhado pela covardia política e de uma tentativa de debilitar, ainda mais, o suposto governo Kennedy e evitar a expansão do projeto do senador Luís Henrique, uma vez que este se tornou o grande adversário do PT nacional nos últimos anos (portanto, havia também uma preocupação com a eleição nacional de 2014). Por parte do pessedista, homologamente, a aliança simbolizou o ato de um “suicida” em frente ao abismo, ou seja, o recuo à uma nova vida é impensável, a “morte” torna-se inequívoca. Kennedy com sua “boca banguela” engoliu o Carlito e sequer sentiu o gosto amargo do seu “veneno mortal”.

Contudo, é mister sublinhar que há um importante caminho para trilhar neste complexo quadro de contradições, ou melhor, elas existem para ossificar e ampliar a posição da esquerda na cidade. Uma esquerda fragmentada, é bem verdade, com a atual conjuntura política que se constituiu com o desastroso governo do PT, mas que, não obstante, tem muito o que fazer. Talvez o começo seja a (re)organização e tomada de consciência social por parte dos movimentos que representam a verdadeira esquerda da cidade:[5] penso que este papel está a serviço especialmente dos movimentos sociais, dos intelectuais, dos sindicatos combativos, dos comunistas, dos que querem uma outra cidade. Enfim, as condições sociais estão postas.


* Assim que soubemos que Udo Dohler seria o futuro prefeito da cidade a necessidade de escrever sobre o processo eleitoral que o consagrou foi imediata. A nossa intenção foi trazer alguns pontos que determinaram a sua vitória e desconstruir o discurso ideológico e muito bem arquitetado no seio da sua campanha para ludibriar o eleitor menos atento. Acreditar que o industrial possa fazer um governo para o povo, como recorrentemente foi reverberado tanto por ele mesmo, quanto pelo seu mais ilustre cabo eleitoral, é acreditar que sob o manto do capital é possível uma vida digna para todos; é um ato de maldade ou de pura ingenuidade.

** DAUTO J. DA SILVEIRA é Professor de Geopolítica do Curso de Jornalismo da Faculdade Bom Jesus/IELUSC e doutorando em Sociologia pela UFPR

[1] O pleito para prefeito de Joinville de 2012 foi disputado entre cinco candidatos: a) o candidato do Partido Socialismo e Liberdade/PSOL Leonel Camasão; Carlito Mers, candidato do Partido dos Trabalhadores/PT e atual prefeito da cidade; Marcos Tebaldi, candidato do Partido da Social Democracia Brasileira/PSDB e prefeito da cidade em duas oportunidades (de meados de 2002 a 2004, quando assumiu a prefeitura de Joinville depois da renuncia de Luiz Henrique da Silveira para se candidatar ao governo de Santa Catarina. e de 2005 a 2008); Udo Dohler, candidato do Partido do Movimento Democrático Brasileiro/PMDB e Kennedy Nunes, candidato do Partido Social Democrático/PSD, fundado no ano passado, tendo como idealizador e presidente Gilberto Kassab, recebendo filiação de políticos de diversos partidos entre os quais o Democrata, o PP e o PSDB.

[2] Para quem ainda tiver dúvidas sobre a pretensão espúria do nosso prefeito em abdicar do seu salário fazendo crer que está profundamente comprometido com o povo, lembremos da reivindicação, proporcionalmente inversa, do Partido Comunista Alemão ao declarar que em seu governo “não haverá diferença na remuneração dos funcionários públicos, a não ser esta: aqueles com família” (não há necessidade de apresentar as outras, sob o pretexto de dirimir o espectro dohleriano). Ou seja, aos olhos do leitor atento, a abdicação do salário do Dohler torna-se algo inferior, não passa de uma estratégia ideológica, carregada de argúcias teológicas. Se os seus sentimentos com o povo são superiores por que não declarar a cobrança de altos impostos de todas as indústrias de Joinville ou de grandes fortunas e destinar os recursos à supressão das mazelas sociais deixadas pelo próprio desenvolvimento industrial durante a história.

[3] Para quem estiver interessado neste assunto consultar: MARX, Karl; ENGLES, Friedrich. Lutas de Classes na Alemanha. Ed. Boitempo, São Paulo, 2010.

[4] A ampla aliança construída pelo PSD no segundo turno contou com o PT, PP, PR, PCdoB e PRB (os mesmo que apoiaram o petista) e o PSDB de Marcos Tebaldi. A esquerda marxista, tendência interna do PT (cuja figura mais proeminente é o vereador Adilson Mariano) ficou fora da aliança, bem como o PSOL de Leonel Camasão.

[5] Pensamos que uma das condições sobre as quais devemos debruçar-nos é a tarefa do uso sistemático da história e da ciência como forma de superar o conhecimento que muitas vezes apresenta-se acanhado em momentos fundamentais da vida política, entre nós.

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