O tesouro de seu coração

ribeiro-fabioFÁBIO VIANA RIBEIRO*

 

Dentre as várias dezenas de filmes da carreira de John Wayne, só muito raramente alguém se lembrará de “Bravura indômita”, dirigido por Henry Hathaway, como um filme significativo. Quando muito, poderá ser lembrado que foi por este filme, e não por “Rastros de ódio”, que o ator ganhou seu único Oscar; menos por sua atuação em “Bravura indômita” que por uma espécie de reparação e pelo conjunto da obra. Recentemente esse número deve ter diminuído ainda mais, considerando o sucesso de sua refilmagem pelos irmãos Coen, em 2010 (e indicada a uma dezena de Oscars).

Não é preciso dizer que esta última versão é frequentemente considerada muito melhor que a anterior. Quando, simplesmente, não é. Por vários motivos, se os dois filmes forem comparados. Apesar da atuação de Matt Damon[1] e de todas as condições que favorecem uma refilmagem, a versão original de “Bravura indômita” permanece sendo fabulosa; belíssima e universal; ao passo que a versão dos irmãos Coen vem a ser apenas quase todas essas coisas. O que não é pouco.

Apesar das limitações do próprio John Wayne como ator, por ele mesmo reconhecidas, e daquelas outras que derivam do gênero western, “Bravura indômita” é um dos mais belos e universais filmes de sua carreira. Se fossem considerados apenas esses dois aspectos, beleza e universalidade, talvez só perdesse para “Rastros de ódio”. Além da impecável fotografia, poucos westerns indicam tão bem e profundamente, os sentidos mais dramáticos e elevados da condição humana. Porém, e aí reside a grandeza do próprio filme, de forma muito pouco explícita.

Kim Darby
Kim Darby

Apesar de paradoxal, o principal nunca é dito ou claramente demonstrado. Apenas indiretamente é mostrada a enorme dor de uma filha pela morte de seu pai, apenas aos poucos se descobre o porquê de haver tanta grandeza de alma num decadente soldado que lutou do lado errado, e também indiretamente, como dois adultos disputam, quase como crianças, a atenção de uma adolescente que percebem ser mais corajosa que eles próprios. Alguns filmes são grandes exatamente por isso, por dizerem coisas realmente importantes sem usarem tantas palavras ou, como na versão de 2010, tantos recursos cinematográficos. Talvez ainda, por conta das coisas que realmente são mais importantes na vida não poderem ser expressas por meio de simples explicações. Podemos senti-las, menos que compreendê-las.

Como em muitos outros filmes do gênero, mais que o herói, são os amigos do herói quem estão verdadeiramente acima de sua própria condição. O herói é, antes de qualquer coisa, ele mesmo: basta ser o que é para resolver todos os problemas. Já as pessoas comuns – como o sobrinho que parte em busca da prima em “Rastros de ódio”, o advogado que acredita na justiça em “O homem que matou o facínora” ou o garimpeiro desarmado em “O cavaleiro solitário” – tentarão ir além do que podem e contra todas as possibilidades, apenas por acreditarem que o que fazem é única coisa a ser feita. Nisso reside seu heroísmo.

Kim Darby e John Wayne
Kim Darby e John Wayne

Em “Bravura indômita”, a adolescente cujo pai foi assassinado tem contra si o fato de ser quase que apenas uma menina desajeitada num mundo masculino e adulto; tentando ir além do que seria o razoável e o possível. Até que o próprio herói termina reconhecendo o quanto ele e ela eram parecidos; o quanto ela era mais corajosa e capaz de ir muito além em nome de suas próprias convicções. Se ele, por sua vez, havia perdido a guerra, a família, a fé na justiça e até mesmo na bebida, ela provava que ainda seria possível fazer o caminho de volta.

Talvez a diferença mais significativa em relação às duas versões do filme seja o final de ambos. Na versão de 1969, algum tempo depois de encerrada a busca ao que havia matado o pai da adolescente, ambos se reencontram. Nenhum dos dois o diz, mas a cena, bela como poucas, mostra o quanto gostam um do outro. Ela o convida a, quando morrer, que aceite ser sepultado ao lado dela, no cemitério da família. Ele, à maneira dela, não admite que seus dias sejam já tão poucos, e se despede com uma última prova de que ela era, afinal e para ele, alguém muito importante.

bravura indomita

Título original: True Grit.
Elenco: John Wayne, Glen Campbell, Kim Darby.
Direção: Henry Hathaway
Ano: 1969.
País: Estados Unidos
Duração: 133 minutos


* FÁBIO VIANA RIBEIRO é professor adjunto da Universidade Estadual de Maringá (Departamento de Ciências Sociais) e doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).

[1] Na versão de 1969, o personagem de Matt Damon foi interpretado por Glen Campbell, conhecido cantor dos anos 70 e que apenas ocasionalmente trabalhou como ator.

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2 comentários sobre “O tesouro de seu coração

  1. Cara Vera, obrigado pela leitura! E também por seus próprios comentários sobre o filme! Algumas coisas parecem serem mesmo universais, por mais que, algumas vezes, pareçam ser apenas um filme de faroeste. Sim, “Rastros de ódio” é também fabuloso! Minha cena preferida é a final, quando a porta se abre para o deserto e Ethan vai embora; creio que junto com a música, o que diz a música e o próprio título original do filme (“Os que procuram”, talvez no sentido quase transcendental de “buscar”) está a li a principal ideia do filme.

  2. É o comentário mais bem feito, bem escrito, além de sensível e verdadeiro sobre esse grande filme. Concordo plenamente, a versão de 1969 é muito melhor que a de 2010. Ambas são ótimas, pelos grandes atores e a direção. Tomara que o professor Fábio comente também “Rastros de Ódio.” Brilhante o seu comentário. Quem ainda não viu o filme, certamente vai querer vê-lo.A cena do cemitério é a mais bonita do filme. O professor colocou muito bem, que as atuações de John Wayne e Kim Darby estão o máximo e tocam a alma da gente. O belo de se ver um filme, é quando ele “fica” na gente, quando sentimos o filme, quando ele nos comove.Wayne e Darby fazem isso conosco, guiados pelo excelente diretor Henry Hathaway. Já vi duas vezes o filme e ainda quero ver mais vezes. Sentir cada cena. O roteirista e a fotografia também chamam a atenção. Os diálogos são na medida certa, indômitos também. Uma jovem corajosa traz de volta à vida, à ação, um velho herói de guerra. Vale a pena ver este que é um dos clássicos do belo cinema, que quase não existe mais, foi sepultado pelos efeitos especiais e pelos vampiros chatos. Faltam bons roteiristas. Há bons diretores, atores e atrizes. Ainda há esperança para nós, espectadores com alguma massa cinzenta dentro da cabeça.

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