“Novos truques pra um cão velho”: um 007 para os novos tempos em Skyfall

gomes-andersonANDERSON GOMES*

Na grandiosa cerimônia de abertura das Olimpíadas de Londres 2012, ocorreu um dos fatos mais inusitados da monarquia britânica: Sua Majestade, a rainha Elizabeth II, chegou ao Estádio Olímpico de forma um tanto unusual – saltando de paraquedas de um helicóptero. Se o fato em si já é bastante curioso, chamou ainda mais atenção o fato da rainha estar acompanhada em sua aventura olímpica por ninguém menos do que o agente 007, James Bond.

Obviamente que se tratou de uma grande brincadeira que marca um das características típicas da identidade britânica: a capacidade dos ingleses respeitarem suas tradições de forma canina, ao mesmo tempo em que podem utilizar de uma ironia peculiar para retratá-las. Essa peculiar parceria entre a octogenária monarca e o agente com licença para matar, por mais divertida e espetaculosa que tenha sido orquestrada, utilizou-se de um evento de escala global como as Olimpíadas para assegurar dois fatos inquestionáveis: primeiro, o maior agente secreto do cinema e da literatura é britânico; em segundo lugar, sendo britânico, ele tem de prestar fidelidade ao Reino Unido, à Coroa e à Rainha.

A chegada de Elizabeth II ao lado de James Bond (na sua mais moderna versão, encarnado por Daniel Craig) para a cerimônia de abertura é sintomática para discutir a razão da longevidade do personagem criado por Ian Fleming. Vinte e três filmes, seis atores, seis bilhões de dólares em bilheteria – a série James Bond no cinema já é praticamente uma instituição. Nada mal para um personagem que era a epítome da Guerra Fria e conseguiu sobreviver a ela. Contudo, qual seria o papel de um agente secreto inglês para o século XXI? Com a nova configuração da ordem mundial, o gradual declínio do poderio inglês e a ascensão de novas tecnologias, qual o papel de um espião mulherengo e munido de traquitanas eletrônicas na proteção da Grã-Bretanha e do mundo?

Essa parece ter sido uma das perguntas-chave na realização do mais recente filme da série, 007 – Operação Skyfall. Depois de uma produção complicada – e quase impossível depois da falência dos estúdios MGM –, o filme foi lançado em outubro de 2012, sendo um imenso sucesso de bilheteria e crítica. Terceiro filme com Daniel Craig no papel de 007 (depois do excelente Cassino Royale e do sofrível Quantum of solace), Skyfall se estabelece a partir de uma abordagem aparentemente contraditória: ao mesmo tempo em que retoma e enfatiza elementos já clássicos da série Bond, desconstrói vários dos aspectos fundamentais das aventuras do agente secreto – o que reforça o caráter tipicamente britânico de fidelidade e ironia com as convenções. No entanto, o que torna Skyfall não apenas um ótimo filme de James Bond mas uma obra essencialmente provocadora é o fato de investigar como as diferentes estruturas de poder necessitam se adaptar e se renovar em meio a um mundo em contemporâneo firmado na lógica da incerteza.

De certa forma, todo filme de 007 é o mesmo. O que muda é a época em que foi produzido e como isso afeta algumas temáticas e o horizonte de expectativa do público. Por isso, determinados elementos são essenciais: as cenas de ação, as bondgirls, os gadgets, as locações exóticas e um vilão megalomaníaco. No entanto, quando o ingrediente principal – o próprio agente 007 – é considerado impróprio para exercer sua função, visto como psicologicamente perturbado, bêbado e velho (em um dado momento, é dito a 007 que a espionagem é “um jogo para homens jovens”), qual a relevância de qualquer outro fator?

Não é à toa que Skyfall começa com a suposta morte de James Bond em uma ação sem sucesso para recuperar um disco com a identidade de vários agentes secretos britânicos. Em uma sequência de abertura repleta de ação (um carro! uma moto! um trem! um trator em um trem!), Bond leva um tiro e cai de uma altura colossal. Porém, como em todo bom drama, quanto mais espetaculosa é a morte, mais admirada é a ressurreição – e essa é apenas uma das várias referências cristãs que permeiam Skyfall, com seu título sobre céus desabando e uma cena chave passada em uma capela.

Ao analisarmos um a um os já citados elementos essenciais em qualquer filme de James Bond, vemos como em Skyfall eles são subvertidos de maneira a provocar a recepção do espectador e também afinar o discurso da obra à incerteza do contexto contemporâneo. As cenas de ação, por exemplo, diferem bastante da obviedade repleta de explosões de filmes desse tipo – cortesia do diretor Sam Mendes (o mais próximo que a série James Bond já teve de um cineasta auteur) e de seu colaborador, o lendário diretor de fotografia Roger Deakins. Este é um dos mais visualmente espetaculares filmes da série.

Um tema particularmente explorado como metáfora é o das sombras – afinal, os agentes secretos têm como função rodar o mundo de forma anônima, realizando ações que os governos preferem não revelar. No entanto, na nova ordem mundial, pós-Guerra Fria e em plena Guerra ao Terror, a figura do agente secreto se torna ameaçada. O personagem Gareth Mallory (Ralph Fiennes), espécie de oficial do governo que tem de lidar com o escândalo da revelação da identidade de espiões britânicos chega a afirmar: “Eles nos consideram idiotas antiquados lutando uma guerra que não conseguirmos entender e provavelmente não vamos vencer. (…) Nós não podemos trabalhar nas sombras. Não existem mais sombras.”

A opinião de Mallory não só é contestada por M (Judi Dench), a chefe do MI-6 (Serviço de Inteligência Britânico), mas também é negada pelo discurso imagético de Skyfall. Especialmente as cenas mais tensas são carregadas desse simbolismo de sombras, em especial a sequência da luta em um arranha-céu em Hong Kong e toda a parte final que acontece no interior da Escócia.

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Outra característica essencial de todo filme da série James Bond é a presença de mulheres sedutoras e cheias de sex appeal – as chamadas bondgirls. No caso de Skyfall, temos uma bondgirl tradicional (i.e. linda, misteriosa, que tem uma morte brutal, mas não antes de Bond a levar pra cama) chamada Severine (Berenice Marlohe), utilizada como joguete pelo excêntrico vilão Silva (Javier Bardem). Há também uma bondgirl de caráter mais oficioso, chamada Eve (Naomie Harris), uma sensual agente de campo do MI-6, que depois acaba preferindo trabalhar nos escritórios do Serviço Secreto – para então se revelar como Moneypenny, uma das mais famosas personagens da série.

Contudo, o grande trunfo de Skyfall consiste em apresentar uma bondgirl que passa longe dos serviços sexuais de James Bond e nem é necessariamente um ícone de beleza: trata-se de M, vivida pela grande dama do teatro Judi Dench. Mesmo sendo a sétima vez em que a atriz vive a personagem M, a toda poderosa do MI-6, é em Skyfall que ela realmente tem um papel-chave na trama, servindo de alegoria para as ansiedades essenciais do herói Bond e do vilão Silva.

Primeiramente, o M da personagem pode ser claramente lido como o de “Mãe” – sendo uma figura de poder mais velha e sábia, que exerce autoridade mas que também confere reconhecimento. Ela serve como figura materna para seu filho “bom” (James Bond) e seu filho “mau” (Silva, um ex-agente renegado). Enquanto o primeiro quer salvá-la, o segundo quer a sua morte, mas ambos lutam por sua aprovação e também questionam, de formas distintas, a autoridade materna. Em certo momento, o próprio Silva afirma, se referindo a M, que “mamãe foi muito má”.

Por outro lado, o M também pode ser o de “Monarca” ou “Majestade”, já que a figura da mulher soberana durante anos, a qual todos obedecem, fornece a possibilidade de uma comparação entre M e a rainha Elizabeth II (e a cerimônia de abertura das Olimpíadas apenas reforça essa leitura). Quando Silva consegue hackear o computador de M, a imagem que aparece é exatamente a da personagem no papel de rainha, tendo o prédio do MI-6 como coroa.

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Essa aproximação entre a personagem de Judi Dench e a rainha da Inglaterra encontra confirmação em falas deliciosamente ambíguas do roteiro, especialmente aquelas proferidas por Javier Bardem como Silva, que diz a James Bond, por exemplo, que este “ainda se agarra a fé que tem por aquela mulher velha”. Ou ainda quando afirma que, pelo menos na ilha onde vive, “não existem velhas senhoras dando ordens.” Essa “velha senhora” ou “mulher velha” seria M ou a rainha? Se considerarmos que Silva vive em uma ilha, como é a Grã-Bretanha, chama atenção o fato de ele mencionar que não precisa obedecer a nenhuma “old lady“.

Um dos mais aguardados momentos em filmes de James Bond é aquele em que se revelam as principais engenhocas eletrônicas – ou gadgets – que vão ser utilizadas pelo agente. Os filmes antigos com Sean Connery e Roger Moore, em especial, dedicavam cenas inteiras à apresentação desses aparelhos, alguns que parecem totalmente absurdos atualmente, como um relógio com raio laser ou telefone acoplado a um barbeador. Em Skyfall, os gadgets (ou a ausência deles) representam a derrocada da alta tecnologia exclusiva para agentes secretos, exatamente porque eles já se encontram acessíveis a qualquer pessoa – inclusive, não aumentam necessariamente a segurança no combate ao terrorismo. O personagem Q (agora interpretado por um jovem ator, Ben Whishaw) que, assim como Moneypenny, retorna à série, deixa isso claro quando James Bond se mostra um tanto desapontado com os gadgets da vez (um transmissor de rádio e uma pistola): “O que você estava esperando? Uma caneta explosiva? Nós não trabalhamos mais assim.”

Esse embate entre o velho e o novo consiste em um dos temas centrais de Skyfall. Na mesma cena em que Q dá a 007 seus “instrumentos de trabalho”, os personagens estão na National Gallery em Londres, observando o quadro The Fighting Temeraire, de JMW Turner, que representa um velho navio de guerra sendo levado para o desmonte.

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Q diz que o quadro sempre o “deixa melancólico” e, de certa forma, o tom adotado pelo diretor Sam Mendes, mesmo em meio a cenas de ação e suspense, é de uma melancolia que surge da necessidade de abandonar o passado e encarar um presente cujas regras são completamente diferentes daquelas da Guerra Fria. Um momento emblemático dessa necessidade de renovação está na cena em que Moneypenny está barbeando James Bond e define a situação em que se encontra o agente secreto: “old dog, new tricks“, ou seja, mesmo um cachorro velho pode aprender truques novos. E, ao final de tudo, essa renovação – ou como ele mesmo diz, “ressurreição” – é assegurada, o que fica claro na última cena do filme, em que outro quadro com navio aparece, porém, ao invés de uma embarcação antiga prestes a ser desmontada, temos várias delas alinhadas para a batalha.

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Todo filme de James Bond tem de ter locações exóticas, refletindo a vida de luxo e aventura que o agente 007 representa. No caso de Skyfall, temos Istambul, Hong Kong e Macau. Porém, essa é a produção de James Bond com a maior quantidade de locações no Reino Unido, já que momentos-chaves da trama acontecem em diversos pontos de Londres (edifício do MI-6, National Gallery, estações de metrô, Whitehall Court) e, em especial, toda a sequência final é passada na Escócia.

Skyfall, na verdade, é uma das mais britânicas aventuras de James Bond, com várias imagens panorâmicas da London Eye, do Big Ben e da Saint Paul’s Cathedral. Além disso, símbolos britânicos têm presença constante: o já citado quadro de Turner, considerado a obra-prima da pintura inglesa, a leitura de parte de um poema de Tennyson, as constantes referências a Winston Churchill. Nenhum deles, porém, chama mais atenção do que a presença da bandeira do Reino Unido. É interessante mencionar pelo menos duas cenas em que ela ganha destaque: a primeira delas é no início do filme, quando M aparece frente a vários caixões cobertos com bandeiras do Reino Unido, onde jazem os funcionários mortos na explosão do MI-6; a segunda cena ocorre ao final do filme, com Bond no alto de um prédio observando várias bandeiras tremulando com o Big Ben ao fundo.

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Nesses dois exemplos, fica latente a noção de morte e redenção, sendo esta associada à identidade britânica, que mantém sua tradição, mas aprende novos “truques”, ou seja, a tradição que perdura justamente porque se renova, mantendo coerência com o oximoro adâmico-cristocêntrico do título do filme: é morrendo que se renasce; ou o ser que se eleva depois de aprender com a queda ou a ruína.

A última característica-chave de filmes de James Bond que Skyfall apresenta, mas também subverte, é a presença de um vilão excêntrico. Nesse caso, o personagem Silva interpretado por Javier Bardem retoma uma tradição de figuras espalhafatosas e afetadas que costumavam habitar os antigos filmes da série. O grande momento de Silva é exatamente a sequência em que aparece pela primeira vez, ao surgir na parte mais longínqua da imagem e, enquanto caminha recitando um longo monólogo sobre sobrevivência, sua imagem vai crescendo até ocupar toda a tela. O personagem representa a antítese perfeita de James Bond, e não apenas por personificar o lado “mau” da espionagem, enquanto 007 seria a sua porção “boa”.

Silva tem uma clara origem latina, que contrasta com a britishness pura de Bond. Em segundo lugar, a elegância discreta de Bond encontra em Silva um contraste chocante, com seu terno branco, blusa colorida e cabelo e sobrancelhas tingidos de um louro de mau gosto. Também chama atenção a atuação afetada e efeminada que Bardem dá ao personagem, o oposto da macheza à toda prova de Bond (que é deliciosamente complicada em uma cena de assédio que já entra para os anais da série).

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No entanto, a maior oposição entre os dois personagens reside na maneira em que eles encaram o tempo: para Bond, se faz necessária uma abordagem clássica e quase nostálgica de seu papel como espião, assim como seu amor pela Grã-Bretanha e por aquela “velha senhora”; para Silva, já não existem fronteiras geográficas ou temporais a não ser aquelas construídas através da rede de computadores, e a manipulação de informações é o principal instrumento de poder.

Na verdade, a todo momento Bond é associado a características mais tradicionais, para não dizer antigas: ele faz a barba com uma navalha, seu único gadget é um rádio, e em toda sequência final do filme há um retorno ao passado (a bordo de um Aston Martin!), quando Bond revisita o lugar onde nasceu. A sua própria identidade britânica, súdito de uma rainha octogenária, parece não ter lugar em uma contemporaneidade tão diversa e fluida. Por outro lado, Silva não precisa obedecer ordens de ninguém (“você pode escolher suas próprias missões”, ele diz), é um especialista em alta tecnologia, tem várias facetas (seu próprio rosto é um disfarce para esconder uma grave deformação) e não pertence a nenhum lugar – pelo contrário, ele reside numa ilha em ruínas, o oposto das Ilhas Britânicas em seu esplendor gótico-medieval.

Assim, se Silva vive literalmente ao redor de ruínas (símbolo máximo da implosão do passado), ele insiste em afirmar que Bond também habita nelas, embora de outra natureza. “Perseguir espiões, que antiquado”, ele afirma. Não há mais lugar para agentes secretos em um mundo em que um hacker pode, de uma localização remota, fazer o MI-6 explodir com o auxílio de uma rede online. Entre o sarcasmo e a pura comédia, o vilão brinca com Bond: “Inglaterra! O Império! MI-6! Você também está vivendo nas ruínas, só não percebeu isso ainda.” Silva é um vilão que pretende matar o seu passado (representado pela figura da mãe-monarca, M), enquanto 007 vai encontrar exatamente no seu passado em Skyfall (a propriedade nas highlands escocesas onde passou a infância) mais do que sua salvação – a sua ressurreição.

Com Skyfall, a série e o personagem James Bond parecem ter localizado um interessante equilíbrio entre o tradicional e o moderno. Em meio a um terreno político contemporâneo que a princípio parece prescindir de agentes secretos de ternos elegantes, a necessidade da existência de um 007 se justifica pela afirmação de uma presença da identidade britânica no imaginário do Ocidente e pelo combate a novas ameaças que brotam a cada momento em um cenário marcado por incertezas. Com “novos truques”, o “cachorro velho” James Bond parece ainda ter muito a oferecer.

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Ficha técnica

007 – Operação Skyfall
Diretor: Sam Mendes
Roteiristas: John Logan, Neal Purvis e Robert Wade
Elenco: Daniel Craig, Javier Bardem, Judi Dench, Naomie Harris, Berenice Marlohe, Ben Whishaw e Ralph Fiennes.
Idioma: Inglês
País: Inglaterra
Duração: 143 minutos.


* ANDERSON GOMES é Professor de Literaturas de Língua Inglesa da UFRRJ. Doutor em Letras pela PUC-Rio, com estudos em teorias contemporâneas da narrativa e análise da imagem técnica.

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5 comentários sobre ““Novos truques pra um cão velho”: um 007 para os novos tempos em Skyfall

  1. Belo artigo! Uma análise muito interessante do filme, sem preconceitos por ser de 007. A crítica já tinha falado bem do filme e seu artigo foi definitivo: amanhã vou assisti-lo! Depois volto para comentar!

  2. Caro Anderson,
    Saudações cordiais!

    Muito bom o seu ensaio, convergindo análise do gênero com percepções literárias e históricas densas e com bom estilo textual. Enfim, um primor. Vou compartilhar já!…

    Abraços,
    Alexander

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