Casinha pequenina e contadores de historias

machado-reginaREGINA M. A. MACHADO*

Cheguei no jornal com o artigo para apresentar ao chefe da redação. Ele começou a ler e parou no primeiro ponto/parágrafo.

– “ Tem um escritor que…”  Ô Maia, verbo ter usado como impessoal???? Isso é erro crasso, minha filha.

O que num cara mais jovem seria uma grosseira condescendência machista, no velho jornalista é mero condicionamento sociocultural, não é nada de pessoal. Nem pisquei, só pensei “minha filha é a vovozinha”, impávida, e ele continuou:

– Nem pensar em publicar uma barbaridade dessas. E alias, não se diz “cheguei no”, mas “cheguei ao”!

Continuei olhando para ele, esperando esgotar o jorro oratório que os meus “erros” sempre provocavam, já que o chefe é meu velho conhecido e é boa gente, apesar de acreditar que as leis decretadas pela academia descendem diretamente das Tábuas celestiais. Quando ele acabou, ataquei:

– Meu caro redator, não é erro coisa nenhuma, e essa regra é pura bobagem, se aplicada aqui.

– Mas como?? Mas que pretensao!… Bom, mais uma enormidade que você vem despejar aqui… e já sei que vou ter que escutar, senão você não sossega. Vai, desembucha.

– É simples: a regra enunciada por você tem todo sentido na prosódia portuguesa lá da terrinha, em “Portugal meu avozinho”, onde o artigo a e a terceira pessoa do singular do indicativo presente do verbo haver, , não se confundem, por serem pronunciados diferentemente. O que absolutamente não é o caso para nosotros botocudos.

– Mas o contexto…

– Justamente, o contexto. É com o dito contexto que lhe provo, olhos nos olhos, que essa regra é inaplicável por aqui. Imagine a situação seguinte: você está na casinha, fazendo as suas necessidades, e alguém bate na porta. O que é que você responde?

– Há gente!

– Pois é, mas o infeliz que aguarda a vez vai entender é “A gente…”. E, como ele está com pressa, a situação pode se tornar irritante, e você levar umas boas taponas quando sair, por ter criado um suspense fora de hora e não ter dado o desfecho. Enquanto que se você deixar de ser besta e falar normalmente, como se tem o direito de esperar sobretudo em tal situação, ele vai entender perfeitamente. “Tem gente” é a única formula adequada à nossa maneira de falar. Convencido?

– Humm, o argumento é de peso. Mas ainda prefiro que o dito bata à porta… eu respondo mais depressa. E o artigo, é sobre o que? Dê um resumo, vamos ver.

– Pois é, tem esse escritor holandês que, pelo nome, eu pensava que era indiano, Cees Nooteboom, que num livro chamado “Chuva vermelha” conta os verões que durante quarenta anos ele e a mulher passaram em Minorca, numa casa alugada, velhíssima e precária; conta do gato, das histórias do carteiro, da falta d’água, enfim, de detalhes do cotidiano. E sabe contar, é uma delicia sentir o dia passar, participar dos dramas da vizinhança, sentir o vento e pisar na areia… Uma hora lá, alguém diz que as coisas só têm gosto se, além de vividas, forem contadas. Ou se, para serem entendidas e apreciadas, as coisas têm que ser contadas. Ou, ainda, que é preciso partilhar com alguém as coisas que nos emocionam, nos aborrecem, nos fazem viver. Em suma, se viver é preciso, contar é fundamental para viver a vida.

E logo depois de ler esse livro, encontrei umas notas antigas, sobre a personagem de uma velha alcoviteira, numa peça de Fernando Rojas, escritor do século XV espanhol, editada anonimamente pela primeira vez em 1499. Daí por diante, foi o livro espanhol mais difundido depois do Quichote. A peça, ou romance, existem discordâncias, é compridíssima, só li uns trechos, e achei um onde a velha Celestina diz … “ que los bienes, si no son comunicados no son bienes. Ganemos todos, partamos todos, holguemos todos”.

Não é uma maravilha? Não apenas como filosofia de vida, mas como motivação fundamental da ficção e talvez até da poesia. Contar é fundamental. Mas contar é também encantar, enfeitiçar, pegar pela mão e levar para o outro lado do espelho. Alias, é uma pena que em português não dê para fazer o que fez o tradutor do alemão na reedição francesa da obra completa de Walter Benjamin. O título antigo de um ensaio célebre, “O narrador”, denominação enferrujada e endurecida pelo uso acadêmico, esse tradutor explica que preferiu substituir por “Le conteur” e que infelizmente a gente não pode usar assim tão sucintamente em português, pois “contador” remete imediatamente a “conta, contabilidade” e não a “conto”. Pena…

– Se esse é o resumo, o artigo então vai pesar uma tonelada! Não sei não, veja se consegue redigir uma coisa leve, palatável…

– Com um pouquinho de sustância, pelo menos?

– É, pouquinho, mas tipo sobremesa, não precisa uma feijoada completa.

E la fui eu com o artigo impresso para tentar aliviar a barra. Ia ser dificil. O tal narrador ou contador de histórias me fascina e é bom dizer logo porque: ele remete imediatamente ao encantamento que ressoa no peito de qualquer pessoa ao ouvir um bom causo começado por “Foi um dia”… ou um conto de fadas por “Era uma vez”… Ele diz, entre outras coisas, que a experiência transmitida de boca é a fonte de todos os relatos, e veja o que diz Machado de Assis, numa crônica de 15 de março de 1877:

E repare o leitor como a língua é engenhosa. Um contador de histórias é justamente o contrário de historiador, não sendo um historiador, afinal de contas, mais do que um contador de histórias. Por que essa diferença? Simples, leitor, nada mais simples. O historiador foi inventado por ti, homem culto, letrado, humanista; o contador de histórias foi inventado pelo povo, que nunca leu Tito Lívio, e entende que contar histórias é só fantasiar.”


* REGINA M. A. MACHADO mora na França ha mais de vinte anos e é pesquisadora em literatura brasileira do século XIX, interessada sobretudo em releituras atuais de José de Alencar.

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4 comentários sobre “Casinha pequenina e contadores de historias

  1. Lia, obrigada pelo comentario e pela divulgaçao aos seus amigos. Graças aos contadores de historias, perpetua-se essa herança que vem de longe, dos indios, dos negros, dos europeus e, no cruzamento da nossa mestiçagem cultural e étnica, das mucamas, das pagens, dos tropeiros em volta da fogueira… de tanta gente e de tanta encantaçao a que eles dao voz e ouvidos.
    Sugestao: vejam no “O tronco do ipê” (Alencar) a maneira como Tia Chica da vida à lenda da Mae d’Agua. “Foi um dia…”. Tradiçao nao falta…

  2. Sim..a contação de histórias..vai muito além…dos finitos limites da linguagem culta.Amei o seu texto…e irei compartilhá-lo com amigos contadores d e histórias…que certamente o adorarão.abraço carinhoso pr ati

  3. Cristiane,
    Topar com uma alencariana domingo de manha nas vésperas de Natal é um verdadeiro presente!
    Obrigada por sua leitura e comentario e, sim, gostaria de continuar a conversa sobre Alencar; fico por aqui com um “até a proxima” e um abraço.

  4. Regina, amei o seu escrito. A sensibilidade, a clareza, a irreverência, a abertura para outras leituras possíveis além das que nos são impostas. Tenho tb uma vontade de fazer uma releitura da obra do José de Alencar. Já faz um tempo pesquiso sobre o Ceará. Atualmente estou escrevendo sobre o Ensino da Filosofia no Ceará e tenho planos de fazer ouras leituras das coisas daqui.
    Caso queira trocar figurinhas, entre em contado para “contarmos” coisas uma para a outra.
    Abraço fraterno,
    Cristiane Maria Marinho

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