Stalingrado

ribeiro-fabioFÁBIO VIANA RIBEIRO*

Até que ponto podemos ter a medida do sofrimento alheio? Em certo sentido, nesse mesmo momento em que escrevo este texto, qualquer lugar do mundo será sempre um longo desfile de pessoas que carregam consigo, incomunicáveis, seus dramas particulares. Com sorte, alguns de nós poderemos encontrar algum alívio ao dividirmos nosso próprio sofrimento com as pessoas que amamos e que sabemos nos amar. Mas não é preciso muito esforço para imaginarmos o quanto resta de sofrimento no mundo, das tragédias particulares e coletivas sobre os quais nunca e nada se saberá; que o pior de todas as coisas e de todas as vidas jamais será conhecido. Certa vez um amigo chamou minha atenção sobre o mau gosto de se dar a um bar o nome de Tsunami. Possivelmente a ideia do proprietário era a de chamar a atenção para seu estabelecimento; um bar “arrasador” ou coisa do tipo. Observei que tragédias como a que o nome do bar se referia simplesmente não poderiam ser jamais concebidas, em toda a sua dor, por uma única pessoa. Sabemos que a morte de 200 pessoas é pior que a morte de 20 pessoas, ou que a destruição de dezenas de cidades é pior que um pequeno abalo sísmico. Mas apenas sabemos; o que é muito diferente de dizer que sentimos o que isso significa. A morte de um irmão, de um amigo ou de um filho pode nos levar a sentir que uma parte do mundo acabou para sempre. Mas seria impossível sentirmos isso multiplicado por milhares de vezes. Simplesmente não conseguimos sentir tanto. Ou, se o conseguíssemos, enlouqueceríamos.

STALINGRADO A

O absurdo da guerra, sempre maior para os que dela participam que para aqueles que apenas pensam sobre sua falta de sentido, frequentemente resultou em bons filmes. Por motivos óbvios e em sua imensa maioria, sobre os conflitos nos quais os Estados Unidos estiveram envolvidos no século passado. Só recentemente filmes de outras nacionalidades, incrivelmente bem produzidos, tornaram possível alcançar outras dimensões de acontecimentos já descritos. É nesse sentido que “Stalingrado” poderia ser considerado um dos melhores filmes de guerra já feitos até hoje. E isso, mesmo sendo, ou principalmente por ser, um filme bastante comum, sem atores famosos, sem nenhum experimentalismo narrativo, esteticamente convencional, etc. Por mera coincidência, comemorou-se na Rússia, este mês, o 70º aniversário da vitória soviética na batalha de Stalingrado; cidade que atualmente no mapa se chama Volgogrado[1].

Como tantos outros filmes com características de documentário, o filme é bem melhor compreendido caso quem o assista possua algum conhecimento sobre o significado da batalha de Stalingrado[2]. Os números assustadores do conflito são mostrados ao final do filme[3], ao passo que as condições e o desespero dos que lutaram são seu próprio assunto.

STALINGRADO B

Um batalhão da SS que havia participado da campanha da África é deslocado para a frente de Stalingrado, lá chegando em 1942. Via de regra, os membros das SS que lutavam como soldados recebiam treinamento bem superior aos quadros regulares do exército alemão e, ao contrário do que frequentemente se imagina, lutavam de acordo com uma disciplina e códigos de guerra que simplesmente não existiam na lógica de puro extermínio que os nazistas adotaram na frente oriental. Numa das cenas mais impactantes do filme percebem isso ao entrarem na cidade e verem o tratamento dado aos prisioneiros russos. Todo o restante do filme vem a ser uma sequência precisa e representativa daquilo que, a julgar pelos muitos relatos existentes sobre o assunto, foram os seis meses de luta na cidade: o desprezo dos respectivos comandos pelas vidas dos soldados, remanescentes da população civil que ainda viviam na cidade, o frio (que chegaria a atingir naquele ano 50 graus negativos), a fome, a condição dos feridos, o desespero dos últimos sobreviventes a serem retirados de avião, os dramas pessoais dos protagonistas… Em outra cena, já conscientes de que a batalha estava perdida, um diálogo desesperado:

– No que está pensando?

– Não estou. Se começar a pensar você fica louco. (…) Você tem uma chave na sua orelha. Vire-a e você pára de pensar.

– Desculpe.

– Fique feliz que ainda possa chorar.

Apesar dos alemães terem chegado a dominar 9/10 da cidade, de discursos pela vitória terem sido feitos na Alemanha por ocasião da tomada da prefeitura pelos nazistas, a um custo humano assombroso[4] os soviéticos conseguiram resistir e, ao final, cercar todo o VI Exército alemão e seus aliados. Somando os mortos de ambos os lados, por volta de um milhão de pessoas morreram em Stalingrado, entre agosto de 1942 e fevereiro de 1943.

Stalingrado mudou efetivamente o curso da guerra. Ao contrário do que sugerem os filmes americanos, o conflito não foi decido na Europa nem muito menos a partir do Dia D. Em 1944 a derrota dos nazistas já era mais que certa. Alemães e soviéticos sabiam que a sorte da guerra estava sendo decidida em Stalingrado: o mundo “deixaria de respirar” esperando pelo desfecho dos acontecimentos na frente oriental, teria dito Hitler. Em “A rosa do povo”, escrito em pleno conflito, Carlos Drummond de Andrade escreve um poema[5] saudando a vitória dos russos na batalha. Nas edições posteriores do livro, escreveria sobre seu equívoco em acreditar que a vitória do Exército Vermelho sobre os nazistas significaria a vitória da liberdade sobre a opressão[6]. A cena final, sem nenhum diálogo e tendo como fundo uma comovente e trágica música militar, mostra com clareza a ideia do filme sobre a guerra. Assim como o frio, que entorpece o corpo, os extremos do sofrimento humano parecem como que não permitir que sejam pensados como de fato são – do contrário talvez jamais permitiríamos que existissem –, mas apenas como espectros que assombram nossos sonhos de um mundo melhor.

Stalingrad_film

Ficha técnica
Título original: Stalingrad.
Elenco: Dominique Horwitz, Obergefreiter Fritz Reiser, Thomas Kretschmann e Jochen Nickel.
Direção: Joseph Vilsmaier.
Ano: 1993.
País: Alemanha/Suécia
Duração: 134 minutos


* FÁBIO VIANA RIBEIRO é  professor adjunto da Universidade Estadual de Maringá (Departamento de Ciências Sociais) e doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).

[1] O que em muitos outros casos não seria senão exemplo de mais uma declaração oficial, formal e vazia, as palavras do atual vice-primeiro-ministro russo Dmitry Rogozin, se constituem num comentário contundente e verdadeiro: “Eu vi cidades da Europa que foram praticamente intocadas pela guerra, países que se renderam aos inimigos mais poderosos antes mesmo de a guerra ser declarada. Mas não somos assim. Nossos avós, nossos pais, nossa geração mais velha, nossos grandes líderes, lutaram aqui por cada prédio, por cada rua.”

[2] Por exemplo, o melhor livro escrito sobre o assunto, “Stalingrado”, de Antony Beevor. De forma complementar, “Stalingrado”, de Geoffrey Jukes e o documentário “Stalingrado”, produzido pela Broadview TV e distribuído em dvd no Brasil pela editora Abril na coleção “Aventuras na história”.

[3] Um dos mais assustadores números mostrados talvez seja o número de soldados que, feitos prisioneiros pelos soviéticos, voltariam à Alemanha nos anos 50: dos mais de 260.000 soldados alemães, 91.000 se renderam em 1943, ao final da batalha; levados à União Soviética como prisioneiros de guerra, apenas 6.000 retornaram mais tarde com vida à Alemanha. Filmado por ordem de Stalin, a chegada dos remanescentes do VI Exército alemão a Moscou é tão ou mais assustador que o próprio filme.

[4] Ficou famosa a frase do general russo, Vassili Chuikov, ao perceber que os soviéticos só conseguiriam deter o avanço nazista e ganhar tempo ao custo do envio ininterrupto de milhares de soldados para a cidade: “tempo é sangue”.

[5] “Carta a Stalingrado”: “Stalingrado, miserável monte de escombros, entretanto resplandecente! As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e silêncio. Débeis em face do teu pavoroso poder,  mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios não profanados, as pobres e prudentes cidades, outrora gloriosas, entregues sem luta, aprendem contigo o gesto de fogo. Também elas podem esperar”.

[6] “(…) obra que que, de certa forma, reflete um “tempo”, não só individual mas coletivo no país e no mundo. Escrito durante os anos cruciais da II Guerrra Mundial, as preocupações reinantes são identificadas em muitos de seus poemas, através da consciência e do modo pessoal de ser de quem os escreveu. Algumas ilusões feneceram, mas o sentimento moral é o mesmo.”

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4 comentários sobre “Stalingrado

  1. Francisco,
    Excelente texto, porém quando você inclui a França como um dos países “inteiramente arrasados” creio incorrer em grande injustição com aqueles que não retrocederam ao primeiro tiro.
    Cordialíssimas saudações.

  2. Caro Francisco,

    Obrigado pela leitura! E pelos comentários; mesmo discordando de alguns deles e concordando com outros.

    O assunto é longo… Do ponto de vista militar, longuíssimo. Além dos motivos que menciona, outros: a escolha que os nazistas fizeram em não militarizar toda a economia e sociedade alemã do período, tendo em vista imaginarem que, se garantissem um certo padrão de consumo e conforto à população, continuariam recebendo seu apoio para a guerra. Os soviéticos fizeram exatamente o contrário. Ao que parece, acertadamente. Na área militar propriamente dita, o pragmatismo soviético demonstrou inúmeras vezes ser mais eficiente que as muitas qualidades das forças alemãs: por exemplo, ao invés de construírem dezenas de modelos de tanques como fazia o exército alemão (alguns deles verdadeiros elefantes brancos…), optaram por construir em massa poucos modele e principalmente um, extremamente eficiente (T-34); produzindo-o, nessas condições, aos milhares. Algumas cenas de “Stalingrado” mostram isso, quando um soldado alemão se alegra ao pegar uma arma soviética, que ao contrário das alemãs, “não emperra”.
    Seja como for, meu texto teve, naturalmente, objetivo de discutir mais o filme, e questões de ordem humanitária ali presentes, que aspectos de natureza militar propriamente.

    PS: mas, mesmo percebendo que é um estudioso do tema, discordo que “Stalingrado” não tenha sido a batalha decisiva da guerra. Assim como discordo do sentido decisivo dado ao desembarque aliado na Normandia.
    Depois de Stalingrado, os alemães não realizariam nenhum outro ataque; apenas o tentaram (e não conseguiram) em Kursk. Ou na frente ocidental, nas Ardennas. Por outro lado, se a questão for levada ao pé da letra, seria o caso de dizer que a batalha decisiva foi a de Berlim…

    Continuando… E lendo agora seus argumentos de que a Alemanha se reergueu como potência após a guerra, ao contrário da URSS, que tem uma das histórias mais trágicas (principalmente do ponto de vista de seu povo…) do planeta. Concordo totalmente. Uma grande ironia da história. Lembrando-me da frase de Hitler, quando Berlim já estava praticamente nas mãos dos russos e demonstrando desprezo pelos que já pensavam no futuro, após a derrota: “os alemães que sobreviverem não serão dignos de terem continuado vivos; os verdadeiros alemães terão morrido”. Seja como for, foram eles, os sobreviventes, que fizeram da Alemanha a potência a que se refere.

    Um abraço e obrigado!

  3. Sem querer polemizar, mas a História não permite frases finais sobre aspectos que ainda estão sendo estudados, haja vista que, invariavelmente, ela é escrita pelos vencedores!
    Dito isso, não se pode discutir que Stalingrado não teve a sua importância na derrota alemã, tanto pelo moral abatido das tropas quanto pelo número de mortos, além de Von Paulus ter sido o primeiro Marechal de Campo alemão que se rendera em batalha!
    No entanto, alguns estudiosos e historiadores, atribuem a derrota do exército alemão com base em outras questões, surpreendentemente não em derrotas, mas às vitórias que os nazistas tinham nas mãos e não as concretizaram!
    Desta forma, a intenção de querer pinçar uma batalha das inúmeras importantes que caracterizaram a Segunda Guerra Mundial é temerário, principalmente quando a causa da derrota alemã foi um leque de situações as mais variadas, desde a inabilidade de Hitler com seus generais em termos estratégicos e táticos na condução do maior conflito da História da Humanidade, até a presença poderosa americana no auxílio inicialmente em materiais para, a partir de dezembro de 1941, após a invasão japonesa em Pear Harbor, os Estados Unidos participarem efetivamente com suas Forças Armadas no Pacífico e, a partir de 1943, na Europa. Igualmente a condição econômica dos alemães em termos de materiais à construção de armamentos e fabricação de alimentos às tropas em combate, além da confecção de uniformes, combustível e logística, afora os vários atentados que Hitler sofreu durante a Guerra.
    Se a quantidade de mortos na Batalha de Stalingrado foi a maior durante a Guerra, não menos importante foi a invasão da Normandia que, independente da derrota alemã para os russos, foi de fundamental importância à derrota total dos alemães em menos de um ano, caso contrário, mesmo com Stalingrado sendo contabilizada como uma derrota que inegavelmente determinou o início da queda alemã, a Segunda Guerra não teria terminado em maio de 1945 no Continente Europeu e, sim, bem mais adiante.
    A Segunda Guerra Mundial exige que seja abordada mediante acontecimentos que lhe foram dando contornos não só de tragédia – a maior da História da Humanidade -, mas de mudanças radicais no Planeta de ordem social e econômica.
    O conflito não se deteve apenas em derrotas ou vitórias dos exércitos que lutaram por posições e territórios, a ponto de os principais países envolvidos antes grandes impérios começarem a perder suas colônias, influências e importâncias no contexto mundial (França e Inglaterra, principalmente), e surgindo novas forças internacionais (Estados Unidos e Rússia).
    Desta forma, é verdade que Stalingrado foi o início da derrota alemã na guerra, mas não foi a batalha decisiva, e isto precisa ser registrado com base em fatos históricos e não apenas opinativo.
    O importante nesta questão é que esta Guerra ainda se mantém em discussão (positiva), permanece nas nossas mentes e motiva que continuemos a ler e estudar as suas causas e consequências com repercussões até os dias de hoje, 68 anos após o seu término ou 74 do seu início!
    A Segunda Guerra Mundial deixou números impressionantes sobre a destruição e mortes por ela ocasionada.
    Países arrasados inteiramente, Alemanha, Japão, França, Inglaterra, Rússia, Polônia, Itália…
    Dezenas de milhões de mortos; milhões de desaparecidos (desintegrados por bombas, queda de aviões, afundamento de navios, mortos que ficaram pelo caminho nos combates, retiradas e avanços, pessoas que a neve e o barro das estradas soterraram, gente morta em Campos de Prisioneiros que jamais foram encontradas, armadilhas, minas terrestres…).
    Alguns desses dados obrigatoriamente determinam que reflitamos a respeito:
    Os alemães perderam sete milhões de vidas, entre soldados e civis;
    Os russos, que somente lutaram em seu território, perderam vinte milhões de habitantes, entre soldados e civis(quero me basear somente nesses dois países por conta da Batalha de Stalingrado).
    Pois a Alemanha perdeu a guerra.
    Os russos a venceram.
    A Rússia contabilizou treze milhões de almas mortas a mais que os alemães; dividiu o território germânico, criando a Alemanha Oriental; disputou com os Estados Unidos o domínio do mundo(os dois literalmente maiores beneficiados na Segunda Guerra) entre Capitalismo e Comunismo; enquanto a Alemanha era auxiliada pelo Plano Marschall, a Rússia não aceitou que os países que estivessem sob seu controle recebessem qualquer ajuda americana; Rússia, Armênia, Azerbaidjão, Belarus, Estônia, Geórgia, Cazaquistão, Quirguistão, Lituânia, Letônia, Moldávia, Tadjiquistão, Turcomenistão, Ucrânia, Uzbequistão e os estados satélites Alemanha Oriental, Polônia, Checoslováquia, Hungria, Bulgária e Romênia, compunham a Cortina de Ferro, aprisionadas ao modelo comunista.
    Em 1989, o regime comunista determinou a falência da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, e houve a queda do muro de Berlim que dividia a Alemanha.
    Hoje, a Alemanha é o país mais rico da Europa; a Rússia, apesar de tentar o modelo chinês abrindo o país para investimentos está sob o comando da máfia, distanciando-se do seu maior inimigo na Segunda Guerra Mundial em desenvolvimento e progresso tanto do país quanto do povo.
    A Alemanha perdeu a guerra, é verdade.
    Os russos a venceram, repito.
    Após 68 anos do término do conflito que vitimou dezenas de milhões de seres humanos e outro tanto em animais (cavalos, principalmente), um prejuízo absolutamente incalculável em materiais, a Alemanha está bem. O império russo desmoronou.
    A Alemanha, depois da guerra, primou pela democracia; os russos continuaram na sua ditadura cruel contra o seu próprio povo, aniquilando, por ordem de Stálin, o carniceiro, mais vinte milhões!
    Quem é o vencedor legítimo atualmente?
    A Rússia, que se desintegrou e levou consigo a extinção do comunismo?
    Ou, a Alemanha, uma das economias mais fortes do planeta?
    Afinal das contas, o maior inimigo vencido foi o alemão, que sobreviveu e tem excelente qualidade de vida ou o comunismo, que ruiu e, a Mãe Russa, jamais se reergueu sem poder contar com a exploração dos países que anexou à força?
    Posso citar Cuba e Coréia do Norte como exemplos ainda vivos do comunismo?
    Ou não posso mencionar os países ricos que adotam a democracia?
    Quem perdeu efetivamente a Segunda Guerra Mundial?
    Stalingrado foi a batalha decisiva em quê?!

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