Cinema soviético antinazista da II Guerra Mundial: o caso de “Ela lutou pela Pátria”

DIOGO CARVALHO*

A URSS foi o país em que foram travadas as batalhas que mudaram a correlação de forças entre os países do Eixo e os Aliados durante a II Guerra Mundial (1939-1945). A participação soviética nesta guerra pode ter representado uma baixa de 25 milhões entre civis e militares. Além da ação militar, foi de grande vulto a ação ideológica, por meio do cinema, para mobilizar moralmente para a guerra os cidadãos e cidadãs soviéticos. Malgrado a censura estalinista, é importante salientar que houve bastante variedade de abordagens sobre a “grande guerra patriótica” na URSS entre 1942 e 1945. Neste ensaio, vou me deter em um estudo de caso: “Ela lutou pela Pátria” (dir. Fridrich Markovich Ermler[1]), filme produzido em 1942, que reúne algumas das características que singularizam os filmes soviéticos que foram realizados durante os anos do conflito.

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Entre 1941 e 1943, após a invasão alemã, a aviação soviética e tropas da fronteira ocidental foram praticamente destruídas. Diversas cidades importantes, como Kiev, foram perdidas e o colapso de Moscou parecia iminente. Contudo, a resistência soviética foi tenaz e causou grandes baixas ao inimigo, comprometendo o avanço planejado pelos alemães. Para Hitler, a guerra contra a URSS seria ganha em oito semanas: ele se baseava no princípio da “guerra relâmpago” – Blitzkrieg. Contudo, devido às singularidades do enorme território soviético, o avanço não se deu da forma como Hitler tinha imaginado: o rigoroso inverno russo, a lama causada pelo degelo da neve e a resistência dos guerrilheiros soviéticos atrasaram, em muito, os planos de Hitler.

Em 1943, as linhas de abastecimento nazista foram constantemente atacadas pelos partisans. A infantaria alemã já não demonstrava tanta confiança na vitória. Neste contexto, o filme “Ela lutou pela Pátria” serviu como meio oportuno de propaganda para a mobilização e continuidade dos ataques realizados pelos guerrilheiros contra as SS e a Wehrmacht. Este filme refere-se à guerra de extermínio – o que Hitler denominou de Guerra Total, ou seja, ação militar que não fazia distinção entre fatores e atores civis e militares – por meio do drama particular da protagonista Praskóvia, que perde seu marido para a guerra e teve seu filho brutalmente assassinado pelos nazistas perante seus olhos, criando o mote dramático do tema da vingança.

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Uma guerra de extermínio racial não distingue crianças de adultos. No filme, isso é representado pelo desprezo que os alemães destinavam à vida dos soviéticos, em especial, às crianças. A necessidade de unidade moral inquebrantável entre os cidadãos soviéticos contra o invasor nazista é recorrentemente enfatizada na narrativa fílmica. Por isso, o mínimo sinal de deserção da luta, ou de compaixão com o invasor nazista, é combatido até as últimas consequências. Praskóvia Lukyanova deixa isso claro em diversos momentos do filme.

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A questão da não identificação, ou discordância, com o modo de vida soviético também foi encenada, de maneira que isso fosse identificado com a colaboração com o inimigo nazista. Na cena em que Praskóvia fuzila um personagem que queria sair da guerrilha e era muito crítico ao estilo de vida das fazendas coletivas (Kholkóz), fica evidente o elemento propagandístico em relação à coletivização (forçada) de terras na URSS. Durante a guerra, houve um recrudescimento das penalidades aos indivíduos que se aproveitassem da caótica situação bélica para criticar o regime soviético. Por isso, o filme não deixa de dar seu recado para eles.

Por outro lado, o filme não traz evidências explícitas de culto à personalidade de Stalin e valoriza a identidade eslava – contra a germânica – da fronteira ocidental por meio de alusões à igreja ortodoxa. Em uma situação de risco tão grande, o staff soviético não podia manter os mesmos padrões de censura da segunda metade da década de 1930, devendo associar, de forma flexível e estratégica, identidades nacionais e identidade soviética, em vez de abordá-las como pares antitéticos.

Stalin e seus assessores militares sabiam que, em algumas regiões como Ucrânia, as cidades receberam os nazistas como “libertadores”. Porém, com as deportações e o início do extermínio em massa destas populações, a maioria logo percebeu o erro que tinha cometido. Assim, no início do conflito, os filmes soviéticos produzidos sobre/para a fronteira ocidental da guerra deveriam mitigar o interesse ideológico do comunismo com o patriotismo pan-eslavista, destacando traços da cultura eslava como ‘etnia-referência’ (o feminino-emblema da Motherland) em contraposição tipológica ao pangermanismo exterminista dos invasores (o masculino-emblema do “espaço vital” da Vaterland).

Durante os primeiros anos da guerra, a filmografia soviética deu muita ênfase a personagens femininas, tal como vemos em “Ela lutou pela Pátria”. Tratava-se de uma escolha de identificação oportuna para um cenário soviético de guerra em que as mulheres eram maioria na população das zonas ocupadas pelas tropas nazistas. Além disso, a protagonista feminina tornava-se um emblema da firmeza moral e ideológica da “Mãe-Rússia” – termo da propaganda imperial que, no passado, buscava entronizar os imperadores russos como esposos-rei de suas terras/domínios e, portanto, ainda fazia parte do repertório literário dos antigos povos sob domínio imperial russo.

Um tema central na teleologia dramática do filme é a vingança, cujo clímax é a ação de Praskóvia em esmagar o assassino de seu filho: a “Mãe-Rússia” vai à forra contra o infanticida alemão e mostra uma obstinação inquebrável em perseguir e resistir aos nazistas, o que torna inevitável a sua liderança guerrilheira. No entanto, o tema da vingança mitiga o tipo de identidade coletivizante soviética do realismo socialista característico das propagandas do regime estalinista anterior à guerra. Afinal, a mola-mestra da obstinação inquebrável de Praskóvia é um trauma/perda particular, ou seja, trata-se de um filme soviético de guerra estruturado como “drama burguês”: o engajamento em algo coletivo não encontra seu ímpeto fundador na própria ideia de pertencimento ao coletivo soviético, mas num coletivo que se forma por meio da convergência de traumas particulares provocados pelos invasores e personificados na protagonista, que se torna a metonímia das dores particulares que fundam a reação coletiva contra o invasor.

A brutalidade com que os soviéticos trataram os invasores foi tão intensa quanto a que os invasores nazistas dispensaram contra os cidadãos da URSS. Para os soviéticos, se os alemães estavam cometendo todo o tipo de crimes de guerra, era natural que a resistência fosse brutal e impiedosa, uma vez que eram eles que estavam sendo agredidos. Assim, o fato de Praskóvia ser implacável com o inimigo coaduna-se com este tipo de “moral para a guerra” desejado pelo regime de Stalin na fronteira ocidental. Nesse sentido, a sua brutalidade era defensiva e tinha a medida reativa da ofensa sofrida, o que torna o tema da vingança bastante eficaz para o contexto de guerra e objetivos patrióticos do filme. Por isso, o filme é desprovido de lirismo e impressionou negativamente alguns críticos norte-americanos quando foi exibido nos EUA em 1944.

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FICHA TÉCNICA:

Título: “Ela lutou pela Pátria
Ano de produção: 1942
Direção: Fridrich Markovich Ermler (1898-1967)
Local de Produção: Alma-Atá, Cazaquistão, então republica soviética.
Estúdio: Associação Central de Estúdio da Arte e do Cinema (Lenfilm)


* DIOGO CARVALHO é Mestre em Cultura e Sociedade pela UFBA.

[1]Nasceu na Letônia, quando este país fazia parte do Império Russo. De família de operários, Ermler foi obrigado a trabalhar muito cedo para garantir o sustento da família, pois seu pai faleceu quando ele tinha apenas 12 anos. Lutou no Exército Vermelho durante os anos revolucionários. No início da década de 1920, entrou na Escola de Belas Artes de Leningrado, onde estudou para ser ator. Em 1924, passou a trabalhar profissionalmente com cinema no estúdio Sovkinó, na seção de roteiristas. Durante os anos do cinema mudo, foi um excelente diretor, procurando realizar obras de cunho realístico, em que o cotidiano dos habitantes, durante a NEP, foi esmiuçado. Ao longo de sua carreira, ganhou diversos prêmios nacionais e internacionais, dentre os quais: a premiação, em 1946, de melhor roteiro em Cannes por “A Grande Virada” (URSS, 1945).

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