Amor

ribeiro-fabioFÁBIO VIANA RIBEIRO*

Não é incomum a ideia, mesmo (ou principalmente…) no meio acadêmico, de se tomar o cinema americano como sinônimo de cinema. Existem motivos para isso: num mundo cada vez mais visual, foi principalmente através do cinema que os americanos exportaram sua cultura para todo o resto do mundo. Mais que por meio da literatura e da música, para ficarmos com dois exemplos óbvios. Além das razões econômicas e políticas, que não precisariam ser aqui explicadas, é o caso de considerar que, além desses motivos, tal feito só foi obtido por conta do cinema americano possuir características que, legitimamente, permitiram-lhe alcançar essa condição. Nesse contexto, de quase onipresença da indústria cinematográfica americana, é espantoso que filmes como os produzidos no Irã cheguem a ser relativamente conhecidos em outros países e no Brasil. Não seria preciso qualquer pesquisa formal para constatar a existência de uma pequena lista de coisas desagradáveis, comumente associadas ao Irã: um governo teocrático, uma sociedade patriarcal, um povo oprimido por uma ditadura, obscurantismo, fanatismo, atraso, etc. Certa vez um colega observou espantado a um comentário meu sobre o cinema iraniano ser considerado por alguns críticos o melhor cinema do mundo: “Mas como? O que eles fazem além de ficarem falando bem do aiatolá?”.

A primeira certeza que nos surge quando assistimos a um filme iraniano é a de que não estamos assistindo a um filme americano. Ou a um filme feito em algum outro lugar do mundo que tenha no cinema americano sua grande inspiração. Tudo é muito diferente e perturbadoramente capaz de contradizer nossas certezas sobre o que vem a ser o Irã. Apenas por esse motivo, assistir a um filme iraniano é uma ótima oportunidade para pensarmos sobre coisas que antes ainda não havíamos pensado… Não seria igualmente necessário qualquer pesquisa para constatar que mesmo (ou, mais uma vez, principalmente) no meio acadêmico, apesar de toda a crítica existente à política “estadunidense”, são comuns os sonhos de lá vivermos, de um dia sermos como eles, de termos para nós um pouco daquilo que tanto condenamos. Tão frequente isso quanto raro encontrarmos alguém que sonhe conhecer lugares menos atraentes e menos assemelhados à cultura americana, que se disponha a passar alguns meses em Moçambique ou na Bolívia…

MMA

“M de mãe” não é dos filmes iranianos mais conhecidos; tanto quanto seu diretor, Rasoul Mollagholipour, falecido em 2007. Como de hábito, uma história simples, com pessoas simples, vivendo em um mundo de comovente e desesperada simplicidade. À véspera do nascimento de seu primeiro filho, um casal descobre que são altas as chances do mesmo nascer com graves problemas congênitos. O pai, incapaz de aceitar a situação, força sua esposa a abortar a criança. Mesmo horrorizada com o que vê nas clínicas que procuram, termina por se submeter à vontade do marido; e finalmente, falhando as tentativas, decide que terá o bebê. Encerra sua promissora carreira musical e é abandonada pelo pai de seu filho, que via sua carreira de diplomata comprometida pelo nascimento de uma criança com graves problemas de deficiência. As cenas iniciais são chocantes, sendo que todo o restante do filme se desenvolve em meio ao profundo desolamento daqueles que vivem no duro mundo da subsistência, que só raramente despertará nossa curiosidade ou compaixão por ser justamente isso, um mundo que parece existir apenas parcialmente…

O filme consegue, apesar de tudo, ser poético e belo como poucos. E ao mesmo tempo descrever, como raramente se vê, o sentimento que liga uma mãe ao seu filho. No início o pai tenta explicar à sua esposa o que lhe parecia ser um motivo para impedir o nascimento da criança: um ser que nunca conseguiria ser independente de seus pais; ao passo que sua esposa vai percebendo que, não fossem justamente eles, seus pais (e desde então, apenas ela), ninguém no mundo teria razão para cuidar de seu filho; que, portanto, teria ainda mais motivos e necessidade de amá-lo. Talvez o grande mérito de “M de mãe” seja o de conseguir dizer tanto sobre a natureza incondicional do amor, com elementos tão simples, com uma fórmula que só depois de terminado o filme percebemos ser talvez a única capaz de expressar tanto.

MMB

Em oposição a nossa visão caricatural do país, não são poucas as cenas que contrariam as certezas que adquirimos por meio das agências de notícias; como, por exemplo, a muito relativa condição subalterna das mulheres iranianas. Numa cena, uma amiga do casal esbofeteia o marido no meio da rua, ao perceber que ele havia decidido abandonar a esposa grávida. Mesmo as cenas do cotidiano, que do nosso ponto de vista seriam sempre marcadas pela opressão e pela “vontade dos aiatolás”, pouco se parecem com nossas fantasias a respeito de uma suposta e opressiva vida num país muçulmano. Visto por este ponto de vista, talvez surja uma dúvida óbvia a respeito de nossos próprios ideais de respeito às diferenças e amor à diversidade: quais seriam, efetivamente, nossos limites para aceitar aquilo que não pertence ao nosso mundo e ao conjunto de nossas convicções? Aparentemente, e a julgar pelo uso “politicamente correto” de nossos ideais de tolerância, tendemos muito mais a aceitar e lutar por ideias que, com grande frequência, são tão somente as ideias do grupo a que pertencemos ou, o que vem a ser o mesmo, que correspondam aos interesses dos grupos aos quais pertencemos. O preço a ser pago pela aceitação efetiva do “outro”, daquele que contraria nossos próprios interesses e convicções, é geralmente muito alto para ser espontaneamente pago. Como o próprio filme demonstra, tal desprendimento só faria sentido numa relação de incondicionalidade. Como frequentemente encontramos no amor entre mães e filhos.

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Ficha Técnica

Título Original: Mim mesle madar
Gênero: Drama
Direção: Rasoul Mollagholipour
Duração: 110 minutos
Ano: 2006.
País de Origem: Irã


* FÁBIO VIANA RIBEIRO é professor adjunto da Universidade Estadual de Maringá (Departamento de Ciências Sociais) e Doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).

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6 comentários sobre “Amor

  1. Caro Raymundo,

    Talvez seja caso de dar um esclarecimento que vale tanto para este quanto para outros textos que escrevi aqui. Percebo que muitos os lêem tentando encontrar sempre uma “moral da história”, de que lado estou, etc. Frequentemente em termos políticos; em situações em que tal aspecto simplesmente não era meu foco. Assim como não sou nenhum nostálgico da União Soviética do período stalinista, nem muito menos admirador das conquistas do III Reich, mas tão somente um sociólogo que se interessa por história militar e aspectos sociológicos envolvidos nesses assuntos (por menos comum que isso seja), assim também não acredito que o Irã seja um lugar muito interessante para viver. Em parte por coisas como as que você cita (e que bem podem ser verdadeiras, etc). Em parte por questões nada relacionadas a aspectos políticos. Eu não admiraria menos alguns tantos filmes de faroeste por conta do extermínio de muitas nações indígenas perpetrado pelo governo americano. Existem relações entre as duas coisas; mas existe também a possibilidade de as vermos separadamente. O cinema iraniano usa uma linguagem com a qual não estamos acostumados (e que vale a pena tentarmos entender), assim como o próprio Irã não é apenas uma teocracia governada por Aiatolás malévolos. Aliás, uma sugestão foi dada no próprio texto: ao invés de nos esforçarmos tanto em conhecer culturas e lugares que já conhecemos por meio de tanto cinema e televisão (Europa e Estados Unidos), buscando a todo custo meios para realização de um doutorado ou pós doutorado por aqueles lados, seria mais interessante se a universidade abrisse convênios e financiamentos de estudos em lugares como o Irã, Coréia do Norte, Venezuela, Mongólia, etc. Para os que amam esses lugares, para os que os odeiam e também para aqueles que gostariam de saber mais sobre o que mais existe neles, além daquilo que a Veja e a Caros Amigos costumam escrever.

    Grande abraço,

    Fábio.

  2. Fabio. Em tempo, ainda continua preso no seu domicílio o diretor de cinema iraniano Jafar Panahi. É difícil trabalhar assim, preso em sua própria casa, vigiado pelo regime dos aiatolás, boicotado para fazer filmes, ele que é diretor de cinema. Ele luta para não cair em depressão. Mesmo assim, fez “Cortinas Fechadas”, que trata sobre a proibição de cães como animais de estimação no Iran. Cadê a indignação contra a repressão que existiu no Brasil da ditadura? Raymundo.

  3. Raymundo,
    De fato, coincidiu que o título do texto é também o título desse filme, que ainda há pouco estava em cartaz. Apenas achei, em função daquilo que o filme expressa, “Amor” mais significativo que “M de Mãe” (que me lembra, cômica e involuntariamente, “Disque M para matar”!).
    Tentarei veri o verdeiro “Amor” – deve ser, como diria um conhecido crítico de cinema,”um verdadeiro soco no estômago em nossas convicções”.
    Abraço e obrigado pela leitura!

  4. Luiz Fernando,

    Concordo com você. O cinema iraniano é bom; entre muitos outros bons. Aliás, é difícl e sem sentido tentar aquele que seria “o melhor”. Obrigado pela leitura!

  5. Sim. O cine iraniano é bom. O americano é endinheirado. Não há dúvida. Mas o cine de Bergman ou de Kurosawa é também bom. Inigualável, ainda. Os persas fundaram uma cultura lá no Médio Oriente. Ímpossível pensar além de nossa formação helênica e hebraísta. O cine iraniano, entre outros, vem mostrar que a sétima arte precisa menos dinheiro e mais da estética do Belo. Mas, por favor, o cine iraniano é um entre outros. O alemão, por exemplo, é também excelente. Que bom saber que o american way, quando bom, não dependeu dos dolares que nada significam em si. Para coisas da arte e do viver.

  6. Fábio. Sua resenha sobre este filme iraniano é bem positiva: primeiro porque nos leva a ampliar o horizonte cinematográfico. Mesmo eu que conheço alguns filmes iraniano, incluindo alguns em projetos da univeridade (“A separação”, “Dez”), naõ conheço este filme; segundo, sua resenha abre para novas perspectivas temáricas desenvolvidas pelo cinema iraniano. Isso é muito bom para a cognição e sensibilidade humana.

    Mas, o título de sua resenha me causou um engano: “Amor” tb é título do excelente filme do Michael Haneke, embora austríaco o filme é falado em francês, com atores franceses, ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro de 2013. Destaque para o casal de idosos (na vida real e no filme: Jean-Louis Trintignant e Emmauelle Riva). Emmanuelle Riva foi indicada para o Oscar/2013, pena que não levou a estatueta, mas sim arrebatou o troféu imaginário de ser a mais idosa a ser indicada para um Oscar, com 86 anos. Vale muito a pena ver este filme, mas sinalizo: precisa estar com boa estrutura psicológica para “enfrentar” o assunto abordado. Ou seja, este filme não é diversão, é mergulho na condição de ser idoso em nossa época. \Outro filme do mesmo diretor, cuja linguagem é fora da linha estadunidense é “A fita branca”. Também não é um filme de diversão: http://www.amofilmes.com.br/?p=1303
    Abç. Raymundo.

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