Boneca inflável: o filme

limaRAYMUNDO DE LIMA*

Ambientados na cultura japonesa, os filmes A viagem de Chihiro, Dolls, A partida, Sonata de Tóquio, Depois da Vida, provoca-nos uma reflexão sobre o vazio existencial de nossa época. Não são enredos elaborados com propósito psicanalítico ou forjados na filosofia existencialista (que podemos reconhecer em “Viver”, de Kurosawa), mas sim, há neles algo do budismo e do xintoísmo, quando enfoca o sentido da vida, morte, trabalho, solidão, ética, sexuação, os valores da pós-modernidade, os eternos conflitos demasiadamente humanos etc.

Particularmente, fiquei impactado – e gratificado – ao assistir “Boneca Inflável” (Air Doll), de 2009, do diretor japonês Hirokazu Koreeda, no auditório Helio Moreira, na Prefeitura de Maringá (Projeto Um Outro Olhar, coordenado por Paulo Campagnollo, com patrocínio de O DIÁRIO, UEM, Secretaria de Cultura; sábados, 20hs. Aliás, Paulo Campagnollo, um expert em cinema, conseguiu formar um público com um “outro olhar”, para ver, pensar e conversar sobre filmes geralmente fora do circuito comercial). Aproveito o momento para recomendar ao leitor assistir “A partida”, “Sonata de Tóquio” e “Dolls”, já disponíveis em DVD.

O primeiro é recomendado aos que fogem pensar sobre a finitude da vida e o depois dela, e aos resistentes ou covardes para fazer auto-análise dos laços afetivo-emocionais que fundaram sua personalidade; o segundo, é interessante para compararmos a dinâmica da família ocidental e de uma família japonesa contemporânea, cujo pai perde o emprego (e o respeito dos filhos) em tempos globalizantes. E “Dolls”, baseado numa fábula japonesa, é sobre a impossibilidade da relação amorosa ou o amor eterno impossível.

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Air Doll

Para quem imagina “Boneca Inflável” um filme pornô, se decepciona, pois se trata de uma fábula sobre a vida solitária que se leva nas grandes cidades[1]. Para assistir este filme, é preciso superar a atitude moralista, a insensibilidade e o risinho preconceituoso quando se fala sobre bonecas e bonecos infláveis. Afinal, num mundo onde os vínculos humanos autênticos se tornam sem valor[2] ou descartáveis, por que não ter uma boneca inflável em casa? Ou um boneco inflável, macho, dependendo das tendências? Não apenas para fazer aquilo, mas para simplesmente resolver uma situação-limítrofe[3] da solidão própria das grandes cidades. Solidão principalmente dos deprimidos, das pessoas com defeito físico ou doença, ou os que vivem a condição de idoso[4], sem ter alguém pra conversar, e até sem sair de casa por meses ou anos. Portanto, esta alternativa extrema – relacionar com uma boneca inflável – serve inclusive para os “normais”, como faz o jovem solitário do filme: garçom de uma lanchonete, que adquire uma boneca de plástico com preço acessível, e, curiosamente, lhe dá o mesmo nome de uma antiga namorada “Nozomí”.

Na falta de um ser humano de carne e osso para companhia, por que não alguém de plástico ou silicone? Pelo menos esta solução narcisista onipotencial é plenamente viável nas sociedades liberal-permissivas. Se não proporciona felicidade, pelo menos evita o desespero da solidão. Mas escolher tal companhia artificial seria proibido ou mal-visto nas sociedades dirigidas pelo fundamentalismo religioso ou laico-moralista. Como o solitário rapaz do filme vive na sociedade [japonesa] contemporânea bem marcada pelo fascínio da tecnologia e reduzido à ética do trabalho, sua convivência com “Nozomi” é uma solução para sua solidão e carência afetiva e sexual; daí ele cuidar muito bem dela: dá-lhe banho, perfume, leva-a para passear, conversa muito com ela [monologa], e, também faz aquilo para que as bonecas infláveis são fabricadas. (Há um outro filme, comédia sem profundidade psico-filosófica,”A Garota Ideal”, cujo protagonista se apaixona pela boneca).

Acontece que “Nozomí” foi fabricada com um coraçãozinho; condição especial que a faz ganhar vida, começa andando pela casa, olha com curiosidade as coisas, depois sai pelas ruas, e até passa a trabalhar numa locadora de filmes. Seu colega de trabalho a leva pra passear de moto, ver o mar, comer fora, coisas que as mulheres – até as infláveis – adoram fazer. E “Nozomí” termina se apaixonando pelo enigmático rapaz, obviamente longe dos olhos do seu dono. Mas, obviamente, sua intenção não ser infiel.

Todos os personagens do filme sentem-se vazios, solitários e carentes de um simples ‘bom dia’, ‘como vai?’, ou de um toque no corpo. O filme nos causa a sensação de que principalmente numa metrópole estamos condenados a perder ou enfraquecer os vínculos demasiadamente humanos. Como bem observa Zygmunt Bauman (2006; PALLARES-BURKE, 2003): queremos manter alguns laços com as pessoas, mas estes devem se manter frouxos.

Este modo precário de viver se constitui no ethos da vida pós-moderna: devemos aprender ficar resignados com vínculos humanos utilitários, superficiais, ou subviver sem-vínculos com os humanos. Um bichinho[5] de estimação também é uma alternativa a desumanização do nosso tempo. Porque a vida ‘liquida’ nos conduz às relações conforme o recipiente de convivência, isto é, tendem serem instrumentais, ou um faz-de-conta que temos “amizade” com vizinhos, alunos, colegas de trabalho, motorista de ônibus. Almas anãs vivem satisfeitas com este tipo de auto-engano. Num mundo “sem coração” (sic), resta ficar restrito as relações familiares como refúgio de sobrevivência existencial e social. Acontece que hoje não podemos contar com os vínculos familiares “autênticos”, porque a família também está sitiada (LASCH, 1991).

Dentro e fora da família, um laço apertado nos obriga a certas ações de responsabilidade pelo outro, que julgamos “demais”. Também não queremos suportar a sensação de sufocamento de uma amizade ou amor incondicional “até que a morte nos separe”.

No filme Air Doll há um velhinho, sentado num banco público, filosofa: a vida das grandes cidades produz cada vez mais gente vazia e carente. Ou seja, cada vez mais esvaziados de vínculos sociais e carentes de afeto e troca de ideias, possivelmente estamos perdendo o sentido de humanidade. Como ainda somos seres que demandam um mínimo de amor, resta-nos adquirir um bichinho de estimação ou comprar uma boneca inflável ou de silicone.

Fora do filme: o mercado

Depois de assistir ao filme e de acompanhar os comentários, a curiosidade me levou à internet. Encontrei farta publicidade sobre as bonecas infláveis e apenas uma resenha sobre o filme. As indústrias chamam este ramo de “Mercado do sexo solitário”.

Há uma nova geração de bonecas infláveis que imitam mulheres belas de carne e osso, a base de silicone. A boneca mais avançada é a Real Doll (ver no YouTube), custa 14 mil reais, possui 100 sensores espalhados pelo corpo, 30 apenas nas zonas erógenas, sua pele é feita de silicone cuja semelhança com a pele humana é próximo de 100%, geralmente são inspiradas em atrizes famosas[6]. Mas existem bonecas menos caras, útil para conversar, mas  inconveniente para abraços e sexuação, porque a fricção causa barulho no plástico, a temperatura da pele é fria, enfim, pode frustrar o usuário. A maioria oferece os três orifícios mais importantes na relação sexual: vagina, ânus e boca. A boneca Real Doll até vem com senhas que impossibilitam o seu uso por pessoas não autorizadas. Seria um cinto de castidade eletrônico. Como diz aquela publicidade “isso é que é tecnologia”!

As melhores bonecas são programadas para várias posições; pode-se vesti-la de enfermeira, bailarina, garçonete, colegial, personagens dos desenhos japoneses, enfim, ao gosto do dono e das tendências fetichistas. Pode-se optar pela cor da pele e do batom, tipo de rosto e de cabelos, tamanho dos seios, altura, cabelos no sexo ou não, tamanho e cor das unhas, entre outras configurações. Alguns manuais de uso alertam que as bonecas infláveis, mesmo as caras, não realizam “todas” as exigências fantasísticas do dono. Porque todas ficam paradonas. Mas este detalhe não é motivo de queixa para os homens conservadores e prontos para descarregar sua libido, e também para os que reclamam das bonecas de carne e osso muito falantes, resistentes e exigentes. Apesar do risco de a boneca ganhar vida própria, o/a leitor/a interessado/a pode procurar um/a boneco/a com “coraçãozinho”. Afinal, a  tecnologia vem fazendo milagres! A vantagem de uma boneca com “coraçãozinho” é ter além de sexo, uma possibilidade de relação amorosa genuína somado ao imprevisível.

A publicidade enumera inúmeras vantagens da boneca inflável: 1) ela está sempre disponível, inclusive para intimidades (pesquisa aponta que mais de 70% das mulheres acima de 40 não tem desejo sexual, logo, a boneca é uma alternativa para os homens sexualmente ativos); 2) não é necessário gastar muita saliva antes do ato; 3) ela nunca diz “tô com dor de cabeça”; nunca exige discutir a relação; 4) sai mais barato que uma namorada, que precisa de presentes, levar pra jantar, garantia de casamento; 5) a boneca de um único dono não transmite doenças sexualmente transmissíveis; 6) não fica menstruada; 7) não engravida; 8) não sofre de TPM e efeitos indesejáveis; 9) não tem grilos sobre celulite, obesidade ou magreza depois de se despir; 10) aceita qualquer dono, mesmo com defeito físico, feiúra, timidez crônica, alta ansiedade na hora “h” que eleva o risco de fracasso. Ou seja, são muitas as vantagens e possibilidades.

Fica uma pergunta aos estudiosos da lei: ter uma boneca inflável configura infidelidade?

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Ficha Técnica
Título: Boneca inflável
Título em inglês: Air Doll
Título original: Kûki ningyô
Gênero: Drama / Fantasia
Direção: Hirokazu Koreeda
País de origem: Japão
Ano: 2009
Duração: 125 min.

Obs.: o propósito do autor deste ensaio não é comercial, mas sim, levantar o problema, instigar à pesquisa, reflexão e debate. Parafraseando Beto Guedes, sobre o amor, penso que qualquer assunto de pesquisa vale a pena realizar. Porque, segundo Carl Sagan (1996, p.45), “não existem  questões proibidas na ciência, assuntos delicados demais para ser examinados, verdades sagradas. Essa abertura para novas idéias [novos assuntos na pesquisas científicas] combinada com o mais rigoroso exame cético de todas as ideias, separa o joio do trigo… A diversidade e o debate são valorizados [na ciência]”. Contudo, investigar um assunto como este na sociologia, antropologia ou psicologia, entre outras áreas do conhecimento, é preciso esforço pessoal para zerar preconceitos, moralismo e o dogmatismo.

Referências

BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.

CAMPAGNOLLO, Paulo. Coração para a boneca. Disponível em: http://maringa.odiario.com/dmais/noticia/387713/coracao-para-a-boneca/

KERBS, R. A ética no pós-modernismo. Disponível em: http://dialogue.adventist.org/articles/14_2_kerbs_p.htm

LASCH, Christopher. Refúgio num mundo sem coração. A família: santuário ou instituição sitiada? Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991.

LIMA, R. “E se o bichinho morrer”. Revista Espaço Acadêmico, n.30, nov./2003. Disponível em: http://www.espacoacademico.com.br/030/30elima.htm

LIMA, R. “Os sem-vínculos autênticos”. Revista Espaço Acadêmico, no. 111, Agosto/2010. Disponível em: http://www.periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/10804

MORTA DE 8 ANOS EM CASA. Reportagem e entrevistas na SIC-TV. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=72JWTk7N2pM. Também ver: http://www.youtube.com/watch?v=ewf8JHqH_5Q&NR=1 Tb. Notícia semelhante no Brasil: http://www.youtube.com/watch?v=atEzKtQts60&feature=related

PALLARES-BURKE, M.L. “A sociedade líquida”. Entrevista com Bauman. Folha de S. Paulo, 19/10, 2003.

SAGAN, Carl. O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.


* RAYMUNDO DE LIMA é Doutor em Educação (USP) e Professor do Departamento de Fundamentos da Educação (DFE/UEM). Publicado originalmente na REA, nº 119, abril de 2011, disponível em http://www.periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/13085/6860

[1] Ler resenha “Coração para a boneca”. Disponível em: http://maringa.odiario.com/dmais/noticia/387713/coracao-para-a-boneca/

[2] Ler LIMA, Raymundo. “Os sem-vínculos autênticos”, publicado em 2010. Disponível em: http://www.periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/10804

[3] Um dos 33 sobreviventes do acidente na mina chilena, Mario Sepúlveda, em entrevista disse que alguém teria pensado em enviar bonecas infláveis, “mas desistiriam porque a cultura chilena é muito puritana. Provavelmente iriam pensar: ‘Como pode, aqueles homens presos no buraco e querendo boneca inflável? Se fosse em qualquer país desenvolvido da Europa, teriam mandado, sem problema’”, disse. (Veja, 23.02.2011).

[4] Uma senhora foi encontrada morta depois de oito anos, em seu apartamento, em Lisboa, Portugal. Os vizinhos não sabiam. A televisão portuguesa desencadeou um debate sobre a solidão naquele país, e revela que um número significativo de idosos vivem sozinhos em seus apartamentos ou casas, por meses e até anos. Impedidos por algumas doenças da locomoção, alguns disseram não ir as ruas por anos. Outros, após receber alta nos hospitais, se recusam voltar para suas residências porque pelos menos este ambiente tem um mínimo de sociabilidade que ele necessita. Não é preciso reconhecer que vivemos num mundo em que os mais novos, por diversos motivos, deixam seus velhos entregues a sua própria sorte. Ver notícia em Portugal com comentário do sociólogo António Barreto, sem seguida uma mesa-redonda e noticia parecida no Brasil: http://www.youtube.com/watch?v=72JWTk7N2pM

http://www.youtube.com/watch?v=ewf8JHqH_5Q&NR=1

http://www.youtube.com/watch?v=atEzKtQts60&feature=related

[5] Ler: LIMA, R. “E se o bichinho morrer”. Revista Espaço Acadêmico, nov./2003. Disponível em: http://www.espacoacademico.com.br/030/30elima.htm

[6] No momento que escrevo este ensaio (abril/2011) uma empresa fabricante de produtos eróticos acaba de lançar uma boneca inflável inspirada na cantora Miley Cyrus, a ser comercializada por apenas US$ 25. Bem acessível. “Ela vai falar no seu microfone”, divulga a publicidade. A cantora processou na justiça a empresa. <http://www.band.com.br/entretenimento/celebridades/conteudo.asp?ID=100000414721>

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3 comentários sobre “Boneca inflável: o filme

  1. Fábio, concordo ser patético ser traído por uma boneca inflável. Mas e o contrário? Isto é, caracteriza traição manter relações com uma boneca inflável? Seria um ato imoral ou uma alternativa justa para quem vive sozinho ou se vê impossibilitado de relação com gente? Afinal, vivemos hoje uma paradoxo: nunca encontramos tanta gente p/dia (multidão), mas tb aumenta significativamente o número de sozinhos no mundo. Na Suécia, 60% vivem sozinhos em seus domicílios; em Nova York, metade dos adultos é de solteiros e ex casados. O filme resenhado se passa no Japão, que não tenho dados sobre os solitários, mas eu projeto tb aumento de solitários por lá. Então, adquirir e se relacionar com uma boneca inflável ou de silicone pode ser uma alternativa justa e emergencial. E não mal faz a sociedade, pq é um assunto privado e inocente. Não sei se pode existir amor entre ser humano e uma boneca/o, mesmo assim acho que “qualquer forma de amar vale a pena” (como diz a música). Abração. Raymundo.

  2. Caro Raymundo,

    Muito interessante o seu texto! Mas vejo que nem mesmo você conseguiu resistir ao humor da história… Convenhamos, ser traído por uma boneca inflável é das coisas mais patéticas que se pode imaginar.
    Talvez a expressão seja essa mesma, “patético”. Existem outras vertentes dessa modalidade. As tais casas de chá, em alguns países língua inglesa, em que banheiros públicos são utilizados para sexo impessoal. Mas também bichos de estimação. Ao contrário de “pessoas reais”, bichos de estimação são “controláveis”. E no primeiro caso, quando se reduz o relacionamento com o outro a uma dimensão exclusivamente sexual, o máximo que se pode conseguir em termos de “não envolvimento” e “otimização” da relação custo/benefício são mesmo os banheiros públicos. Ou bonecas infláveis.
    Possivelmente viveremos para ver muitos casos, por aqui mesmo, como o da senhora portuguesa que morreu sem ninguém dar falta. Isso considerando o crescente aumento em determinados ambientes (no meio acadêmico, por motivos que dariam outro artigo…) das tais “famílias de um só membro”. O futuro é promissor, para esses casos, tanto para bonecas infláveis quanto para “cuidadores”.
    Parafraseando o antigo primeiro ministro, a instituição família ainda continua funcionando melhor que suas alternativas. Além dos hipotéticos motivos ideológicos que a sustentam, existem também motivos puramente práticos…

    Grande abraço!

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