Estranhos no Paraíso

ribeiro-fabioFÁBIO VIANA RIBEIRO*

Em meados dos anos oitenta, em alguns poucos cinemas do país, entrava em cartaz “Estranhos no Paraíso”, de Jim Jarmusch. Um filme do cinema independente americano, em preto e branco, exibido todos os dias, em todas as sessões do (possivelmente agora inexistente) Savassi Cineclube de Belo Horizonte. Apesar da chatura e afetação dos frequentadores do lugar, e também da história meio estranha de um único filme em cartaz o mês inteiro, apesar disso, resolvi assistir. Uma grande e sábia decisão. A lembrança do filme, em tela grande, permanece até hoje. No folder, à época, “Estranhos no Paraíso” era indicado no original: “Stranger than Paradise”. Numa época em que os cinemas e cineclubes, fora dos shopping centers, estavam deixando de existir.

STP A

Em certo sentido, “Estranhos no Paraíso” era o filme autobiográfico da geração que o assistia. E que compreendia, já naqueles dias, o quanto as vidas, banais e sem muito sentido dos personagens, tinham de parecido com suas próprias vidas. Para as quais, ao contrário da geração dos que “lutaram contra a ditadura”, ou a favor e contra tantas outras coisas, seria preciso carregar o peso de um mundo cada vez mais desprovido de ilusões. Essa sensação, de estranhamento no mundo, aparentemente impossível de ser dita em palavras, estava lá, resumida num filme altamente emblemático sobre figuras meio perdidas; perdidas a ponto de não fazerem de sua inadaptação ao paraíso americano motivo de “crítica social militante”, mas, tão somente e como fazem as crianças, que não entendendo o mundo que as cerca, simplesmente o vivem.

Recentemente assisti “Estranhos no Paraíso” com um amigo. E percebi que, ainda hoje, é um filme bastante incomum. Não pelos motivos que tornam incomuns, atualmente, filmes dinamarqueses, cada vez mais preocupados em chocar o público e fazer voltar os holofotes para seus diretores… “Estranhos no Paraíso” é incomum por outros motivos: um ótimo roteiro, personagens perfeitamente criados, uma maneira de filmar muitíssimo particular e em preto e branco, diálogos e humor bastante peculiares, trilha sonora quase inexistente, usando praticamente uma única música, etc. Do ponto de vista de um fã de filmes hollywoodianos, ver “Estranhos no Paraíso” é uma experiência desconcertante, onde nada parece estar no lugar certo: não, não haverá nenhum romance; sim, a paisagem americana é tão triste e melancólica quanto a vida dos personagens; o perturbador uso  de câmera fixa produz um resultado muito preciso na ideia geral do filme, assim como os diálogos, propositalmente banais e quebrados.

Apesar de reunir elementos tão incomumente reunidos num mesmo filme, o resultado final de “Estranhos no Paraíso” é o de uma pequena obra prima. Entre a expectativa de, por um lado, encontrar nele algo de parecido com outros filmes americanos e, por outro, de tentar decifrar-lhe “sentidos ocultos”, é comum que a descoberta do porquê de “Estranhos no Paraíso” ser um filme tão interessante só se realize ao ser assistido uma segunda vez. Ou, como foi minha experiência, relembrando nos dias seguintes o próprio filme; para só então, e aos poucos, perceber qual era a ideia.

STP B

Conta-se que o diretor Jim Jarmusch, vendo-se impedido de pagar o músico Screamin’ Jay Hawkins pelo uso de “I put a spell on you”, cujos direitos haviam sido comprados por uma gravadora, terminou indo atrás do mesmo e dando um jeito de lhe pagar pelo uso do material. Screamin’ Jay Hawkins vivia, à época, num trailer semi abandonado. Como em outros de seus filmes (“Down by Law” – com Tom Waits, “Dead Man” e “Year of the Horse” – com Neil Young) “Estranhos no Paraíso” é um filme dirigido por alguém que gosta de música. A personagem principal do filme ouve à exaustão “I put a spell on you”, indiferente às reclamações de seu primo, que lhe pede para ouvir alguma outra coisa. E talvez seja melhor compreendido por quem goste de música.

STP C

Como acontece às vezes, a tradução do título no Brasil conseguiu ser mais fiel à ideia do filme que o próprio título original. Perdidos no paraíso americano, um americano nascido na Hungria, seu amigo e a prima recém chegada de Budapest. Aos seus olhos, tudo que os cerca não é o que deveria ser, apesar de estarem exatamente lá, no paraíso. As ruas não são tão bonitas, o vestido soa ridículo, o lago, encoberto pela neve, não pode ser visto; o trabalho na lanchonete entedia, a trapaça no jogo não funciona, o amor platônico não consegue se materializar em palavras. E, quando finalmente a sorte aparece, estavam cada qual num lugar diferente daquele onde ela os esperava…

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Ficha Técnica

Título Original: Stranger than Paradise
Gênero: Drama
Direção: Jim Jarmusch
Duração: 89 minutos
Ano: 1984.
País de Origem: Estados Unidos


* FÁBIO VIANA RIBEIRO é professor adjunto da Universidade Estadual de Maringá (Departamento de Ciências Sociais) e doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).

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3 comentários sobre “Estranhos no Paraíso

  1. Fábio, esclarecedor o texto, fui aluno de ciências sociais, agora estou no cinema, me senti bem lendo tua análise, muito obrigado.

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