Jeca Tatu e a História dos debaixo

JOSÉ APÓSTOLO NETTO*

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O Jeca Tatu, entre outros, faz parte da galeria das personagens mais populares da cultura brasileira. Consagrado por Monteiro Lobato nas páginas de Velha Praga e Urupês, em 1914, o caipira de barba rala e calcanhares rachados do Vale do Paraíba e do Oeste Paulista caiu, tempos depois, no gosto do povo e hoje serve de referência para dizer das pessoas que denunciam apego pelas coisas da roça.

Muito se falou e ainda se fala do Jeca Tatu. Certamente muito ainda se falará dele. Por ora, falaremos apenas de um dos motivos que levou Monteiro Lobato a se entregar ao estudo do trabalhador rural paulista. A figura do Jeca Tatu em si fica para um próximo artigo.

Um desses motivos foi inclinação intelectual e artística de Lobato para o estudo naturalista dos temas populares em detrimento dos referentes elites. Pendor para o popular que era governado por uma concepção de história e de artista, grosso modo, do tipo “pé-no-chão” e subterrâneo.

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É o tipo de imaginação histórica e artística que podemos depreender da fala do autor em vários momentos da sua vida. Observa ele, em 1911:

“A verdadeira vida dum artista deve ser esta que estou levando – vida de aprendizagem, como a teve o Wilhem Meister de Goethe. Viver todas as vidas – depois pintar a Vida. Uns tempos como pedreiro, outros como carapina, vivendo no meio deles, com o aroma das madeiras morando-nos no nariz, mais os cheiros das telhas e da cal e do reboco, com a unha do polegar da esquerda sempre negra das marteladas em falso. E depois, o mar, uns tempos de mar – e engajado em barco de vela, cantando e apanhando bofetadas tremendas do capitão – um capitão de suiças. E depois, cocheiro de cab em Londres, ou de fiacre em Paris, ou mesmo de tilburi em S. Paulo. Depois, criado, maquinista, guarda -freio da Central, motorneiro da Light, vendedor de frutas no carrinho, e de bilhetes de loteria, e caixeiro, e faroleiro, e camelot, e farol de roleta… Viver as vidas principais ‘vidas coloridas’ e realmente vivas – e só depois então casar. Só assim um homem tornar-se-ia honestamente casavel.” (LOBATO,1959:310-311).

Em carta de 1912, para o seu amigo Rangel, oporá uma história dos bastidores a uma história oficial, deixando clara a sua opção pela primeira:

“O que na Revolução Francesa me interessa é o que os estupidos historiadores à moda classica não contam. Eu quero fatias de vida da epoca, conservadas aqui e ali em memorias, em panfletos de despeitados. Interessa-me o bas-fond da revolução, o formigueiro dos interesses inconfessaveis, a trama secreta dos bastidores, os fios que movimentavam os polichinelos politicos – os subornos. A historia fala no patriotismo de Danton, na virtude de Robespierre, mas o que me interessa conhecer é o apetite de Danton, a ambição de Robespierre.Os grandes homens aparecem infinitamente mais interessantes, mais ‘homens’, quando despidos das falsas atitudes com que os veste a Historia – esse reposteiro…” (LOBATO,1959:314-315).

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Mais do que uma história oficial e dos grandes acontecimentos, Lobato preconizará uma história da “gente miúda”, dos trabalhadores, só possível de ser rastreada através das memórias. Sobre isso, dirá a Rangel, em carta de abril de 1913:

“Parece que ando na idade de ler memorias. Só nelas temos o que é possível de historia verdadeira, com os bas-fond e as cozinhas e copas da humanidade. A historia dos historiadores coroados pelas academias mostra-nos só a sala de visitas dos povos. É um garni uniforme, incolor, tanto na França como na Turquia e Russia. Mas as memorias são a alcova, as anaguas, as chinelas, o pinico, o quarto dos criados, a sala de jantar, a privada, o quintal – a pele quente e nua, ora macia e lisa ora craquenta de lepra – da humanidade com h minusculo, esse oceano de machos e femeas que come, bebe e ama – e supõe que que faz mais alguma coisa além disso.” (LOBATO,1959:340-341).

Em geral, os protagonistas dessas narrativas históricas e ficcionais seriam, em vez de heróis de guerra, governadores e presidentes, os esquecidos sociais. Numa carta de 1911 a Rangel, enfatiza:

“O livro que v. planeja sobre bandidos do sertão, capangas, etc., tambem é dos necessarios. O assunto foi tocado pelo velho Bernardo Guimarães e outros – gente de pouco realismo, e de romantismo em dose maior que o quantum satis. O filão está virtualmente virgem.” (LOBATO,1959:316).

É ancorado nessa atitude e convicção de pensar, decididamente, o universo popular, com o intuito de delegar voz aos silenciados da História, que Lobato irá direcionar o seu olhar para o trabalhador rural do Vale do Paraíba. Estes silenciados cujas causas sociais e econômicas da sua dilaceração humana, o escritor conhecia muito bem, como mostra esse trecho do seu prefácio ao livro “Diretrizes para uma Política Rural e Econômica”, de Paulo Pinto de Carvalho:

“Quem do alto olha para o Brasil vê um complexo sistema de parasitismo em repouso sobre um larguissimo pedestal de escravos andrajoso e roidos de todas as doenças endemicas: o homem rural, o que chamamos o caboclo, o negro da roça, os milhões de seres sem voz que na terra mourejam numa agricultura ainda de indio – queimar e plantar, só, só, só. Sobre a miseria infinita desses desgraçados está acocorada a  nossa ‘civilização’, isto é, o sistema de parasitismo que come, veste-se, mora, e traz a cabeça sob a asa para evitar o conhecimento da realidade.” (LOBATO,1959:54-55).

 

Referências

CAVALHEIRO, Edgar. Monteiro Lobato. Vida e Obra. 2 ed. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1956, 2 vols.

LOBATO, Jose Bento Monteiro. A Barca de Gleyre. v. 1 e 2. São Paulo, Brasiliense, 1959.

______. Prefácios e entrevistas. São Paulo, Brasiliense, 1959.


* JOSÉ APÓSTOLO NETTO é professor universitário, historiador e jornalista. Publicado na REA, nº 26, julho de 2003, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/026/26cnetto.htm

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3 comentários sobre “Jeca Tatu e a História dos debaixo

  1. A Barca de Gleyre é talvez uma das mais intéressantes conversas sobre literatura do século XX. E’ sempre um prazer ver que esses mais de 40 anos de conversa entre Lobato e o amigo Godofredo Rangel continuam sendo uma fonte de référencias e reflexoes sobre literatura e sociedade no Brasil.
    Noto todavia que Lobato nao “consagrou” o Jeca, ele o inventou e batizou, e essa criaçao é fruto do amor e do odio do fazendeiro improvisado por razoes de herança, situaçao que o jovem bacharel suportou e na qual fracassou para sua enorme frustraçao.
    E talvez fosse bom lembrar que ha três “Jecas” que se sucedem na obra de Lobato, o ultimo dos quais ja é fruto de um olhar radicalmente oposto ao do fazendeiro conservador que os leitores do Estadao descobriram em 1914.

  2. Neste artigo o autor dá índices da gênese de Jeca Tatu enquanto personagem representativo do homem do interior rural paulista. Lembremos que a saturação do meio rural em suas precárias condições de vida era latente à época. Lobato, em vez de vitimizar ou caricaturar simplesmente esse homem ao conceber o personagem, prismou um comportamento, criou um personagem factível, integrador das forças sócio-culturais que o impulsionam e o determinam. Daí sua longevivência como representação artística.
    Ele todo é transição. Sua barba meio feita, meio deixada ilustra costume que não é próprio do campo, tampouco da cidade. No cinema, quando Mazaropi o interpreta, seu traje é ora desleixado ora arrumado. Seu olhar era em momentos de criança ingênua, em outros, de matuto experiente das mazelas e golpes a que quase sempre estava sujeito. Seu comportamento nas estórias ou “causos” perfazem a tragetória no sentido do aprendizado diante das armadilhas que o sistema, representado por “estranhos” da cidade, lhe aplicava. Esse aprendizado o impregna. Daí a evolução ao longo do tempo como personagem, de caboclo ingênuo a matuto às vezes ardiloso.
    Enfim, um personagem cuja história na estória (ou vice-versa) sai das páginas e da tela e invade o mundo do homem brasileiro de hoje. Vemos Jeca sentado em um banco de praça com cigarro na boca. Incorporamos Jeca quando nossa tão cantada cordialidade descamba para a malandragem para tudo acabar bem naquele instante. E projetamos, o tempo todo, um Jeca para culpabliizar nossa malemolência e a inefetividade de nossas instituições.

  3. Artigo muito interessante. Monteiro Lobato estava certo. Poucos seriam honestamente casáveis!! Nesta linha de pesquisar os “grandes” homens despidos das falsas atitudes oficiais, seria interessante pesquisar a influência da Rosemary (e seus “bebês”) no governo Lula e da jornalista no do FHC.

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