Pather Panchali, de Satyajit Ray: um exercício de estética da fome na cinematografia indiana

VINICIUS BANDERA*

 Pather Panchali 1

Ao nos debruçarmos para comentar Pather Panchali, de Satyajit Ray, vem-nos à memória outro filme de caldo cultural semelhante: Ralé, de Kurosawa. Ambos os filmes retratam um locus degradante, de gente miserável e ao largo do processo civilizatório. Não obstante, há uma diferença intrínseca e substantiva entre os dois: enquanto o filme do cineasta japonês tem como objeto a miséria e a vida dos miseráveis, no sentido de suscitar a atenção para tais males, como ocorre no romance de Dostoievsky que lhe deu origem, o filme do indiano tem como objeto precípuo a estética cinematográfica, aparecendo o meio cultural como pano de fundo. É evidente que Kurosawa, como cineasta-autor, imprimia a seus filmes a sua particular concepção de mundo e de fazer cinema, mas em Ralé  o que se sobressai é o conteúdo, não a forma. Já em Pather Panchali, reiteramos, o conteúdo é um mote para Ray exercitar a sua opção estética, sendo esta a protagonista, amparada em uma linguagem cinematográfica que com ela se coaduna.

Pather Panchali 2

A câmera de Ray exerce a função de uma personagem que se introjeta com um olhar arguto e descritivo, perscrutando, com um ar premeditadamente distanciado, com sutil neutralidade axiológica, os recônditos do cotidiano de uma habitação coletiva, uma espécie de cortiço brasileiro, prenhe de miséria. Insistindo em panorâmicas descritivas, quase sempre a média distância, evitando os closes e os planos de detalhes denunciadores, focalizando os moradores em ações triviais, como conversas de vizinhos, brincadeiras de crianças, Ray se afasta do que poderia ser uma simples denúncia ideologizada, a exemplo do realismo socialista, para compor um filme de singela beleza estética, a qual poderíamos, parafraseando o célebre manifesto glauberiano, denominar estética da fome. No entanto, não o distinguiremos com tal denominação, pois no cinema glauberiano, e em alguns filmes do Cinema Novo, a fome/miséria aparece como estética, mas também, e principalmente, como denúncia, dado o caráter politizador desse movimento cinematográfico, mormente em se tratando de Glauber Rocha. No filme de Ray, a fome é sobejamente estética, ficando, parece-nos, a denúncia a cargo de olhos alheios àquela realidade cultural, provavelmente os nossos olhos ocidentais. Não obstante, se nos opomos a classificá-lo como uma estética da fome de tipo glauberiano, arriscamo-nos a classificá-lo como estética da fome no contexto da cultura indiana, a qual tem uma tradição menos conflituosa do que a ocidental, e até do que de várias outras culturas, no que concerne ao que Marx e o marxismo denominam luta de classes.

Em Canção da Estrada, o naturalismo é enfático, a ponto de um espectador incauto poder ter dificuldade de discernir se as personagens são reais ou atores as representam, fazendo com que o filme pareça um documentário, de tão espontânea que se apresenta a mise en scène. A câmera, distanciada e quase sempre objetiva (raros são os planos subjetivos), busca o máximo possível tornar-se incógnita, através de planos sutis, longos, panorâmicos e lentos. Não há propriamente um enredo, e não causaria espanto se nos fosse dado a saber que também não há um roteiro e que as ações e as poucas falas são improvisadas.

Pather Panchali 3

A fotografia, longe de ser sombria como em Ralé, também é discreta, límpida e distanciada – como o é a câmera –, no que se soma em beleza à beleza da mise en scène. O ambiente miserável se encontra incrustado, a exemplo de um enclave, no seio de uma bela vegetação, no entanto a direção fílmica exime-se de explorar os raios solares penetrando entre as ramagens, o pôr do sol e outros elementos de realce pictórico que viessem a destoar da opção estética  a conduzir o filme.

A trilha sonora também se adéqua a essa opção estética, seguindo a discrição da câmera e da fotografia, sobressaindo-se o silêncio (há grande número de planos mudos) quando não há falas envolvendo as personagens.

Pather Panchali é exemplo de um filme de alto nível artístico e intelectual, unindo o lírico ao prosaico, focalizando um tema de grande apelo denunciador, mas que se dispõe deliberadamente a se conduzir por valores estéticos, em detrimento de valores famélicos, a despeito destes não deixarem de impressionar até mesmos os espectadores menos sensíveis a questões sociais.

 pather posterFicha Técnica

Título original: Pather Panchali.
Título em português brasileiro: Canção da Estrada.
Direção: Satyajit Ray.
Elenco: Kanu Bonerjee, Karuna Banerjee e Chunibala Devi.
País de origem: Índia.
Ano: 1955
Duração: 155 min.


* VINICIUS BANDERA é Pós-doutorando em História Social (USP). Doutorado em Sociologia (UFRJ); Professor universitário. Cineasta; Autor do livro Liberalismo e cientificismo: conflito de paradigmas na proteção/correção de menores na virada do século XIX para o XX (Editora UFRJ, no prelo).

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