A vida dos outros

ribeiro-fabioFÁBIO VIANA RIBEIRO*

Parece haver, como característica comum a muitos filmes alemães produzidos nas últimas três décadas, excelência de produção e preocupação com seus temas, menos que quaisquer outros elementos. Esta última característica não é, por exemplo, nem um pouco típica do cinema americano, onde seus assuntos entram quase apenas como pretextos para uma fórmula que pressupõe quase sempre (uma irritante necessidade de) ação, atores que, em sua condição de produtos da indústria cinematográfica, concorrem nos filmes com os próprios personagens que representam, etc. Filmes alemães das últimas décadas não são assim. Incrivelmente bem produzidos, pouco carregados de ação[1] e frequentemente não preocupados com a construção de ídolos, sejam eles atores ou personagens, suas temáticas destoam de muito daquilo que estamos acostumados a ver em outros filmes.

AVDO B

É este o caso de “A vida dos outros”. Apesar de ter ficado mais conhecido como filme político sobre a Alemanha Oriental no período imediatamente anterior à queda do Muro de Berlim, existem nele coisas que o fazem mais que isso. Para apaixonados pela tecnologia desenvolvida no outro lado da Cortina de Ferro, por exemplo, a multidão de Trabants que povoam a história é um deleite à parte. Mas, acima de tudo, “A vida dos outros” é um bom filme e uma boa história. Dificilmente seria por alguém considerado um dos grandes filmes que assistiu na vida; mas também está longe de ser apenas uma interpretação do regime político que existiu na Alemanha Oriental. Os detalhes sobre o funcionamento dos sistemas de vigilância política nesta última são mostrados por meio da vida de um dramaturgo, até então alinhado ao governo, e sua namorada, que de um momento para outro passam a ser objeto de investigação da Stasi, a pedido de um ministro (por sua vez interessado na última).

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Como detalhe curioso, a atriz Martina Gedeck, que em “A vida dos outros” faz o papel de namorada do diretor de teatro Georg Dreyman, faria, em 2008, o papel de Ulrich Meinhof, no filme “O grupo Baader Meinhof”. Ironicamente uma das principais teses políticas da RAF, dita em alguns momentos do filme, era a de que a Alemanha Ocidental havia se transformado num Estado Policial, controlando e reprimindo toda atividade de oposição ao governo. Suzanne Albrecht, membro da segunda geração da RAF e após escapar de ser presa na Alemanha Ocidental, viveu clandestinamente na Alemanha Oriental por muitos anos sob proteção da Stasi (até que, com a queda do Muro de Berlim, teve sua verdadeira identidade descoberta). Ironias do destino à parte, o fato é que os indícios da existência de um Estado Policial na Alemanha Oriental são, como o filme “A vida dos outros” sugere, bem mais convincentes que sua versão ocidental.

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Tão interessantes (e aterradores) quanto os princípios teóricos em que se apoiavam os serviços de segurança do regime na Alemanha Oriental seriam, do ponto de vista sociológico, os métodos práticos de investigação desenvolvidos pela Stasi: técnicas de interrogatório, hierarquia interna, serviços de escuta, etc. A julgar pela descrição do assunto feita no filme e de exaustivos levantamentos que constam em livros como “Cortar o mal pela raíz”[2] (no particularmente assustador capítulo dedicado à descrição dos serviços de controle político da Romênia), é possível especular que nesses lugares, por diversos motivos, entre os quais o fato de serem países secundários no cenário político internacional, desenvolveu-se um sistema de controle político da população incrivelmente eficiente. A estimativa do quanto esse controle seria possível atualmente, com toda a disponibilidade de recursos de informação e internet pode ser um exercício cada vez mais realista que assustador.

Ao contrário de outros filmes do gênero, “A vida dos outros” parece estar mais interessado em contar uma boa história, ambientada no contexto da Alemanha Oriental, que em denunciar os crimes do regime. Como se estes, assim como o regime político que o perpetrou, pela obviedade de suas ações, não necessitassem ser explicados: simplesmente tudo aquilo, de fato, aconteceu. De modo análogo ao que faz inicialmente o dramaturgo do filme, o inventor do fuzil AK-47, Mikhail Kalashnikhov interpreta de forma muito curiosa a União Soviética do período de Stalin (durante o qual sua própria família foi enviada para a Sibéria), observando que o problema do regime soviético era tão somente o de funcionários que executavam mal a ideia do regime[3]. No filme, ao final, reencontrando o ministro que o perseguiu durante a existência da Alemanha Oriental e ouvindo deste o quanto e o modo como sabiam tudo a seu respeito, observa com amarga revolta: “e pensar que este país estava nas mãos de pessoas como você”…

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Título original: Das Leben der Anderen.
Elenco: Ulrich Mühe, Sebastian Koch, Martina Gedeck.
Direção: Florian Henckel von Donnersmarck.
Ano: 2006.
País: Alemanha.
Duração: 137 minutos


* FÁBIO VIANA RIBEIRO é professor adjunto da Universidade Estadual de Maringá (Departamento de Ciências Sociais) e Doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).

[1] A exceção mais notória seria a do vertiginoso filme do diretor Uli Edel, “O grupo Baader Meinhof”, sobre as ações, elas próprias mais que vertiginosas, do grupo de extrema esquerda Fração do Exército Vermelho na Alemanha, durante as décadas de 70 e 80. Por outro lado, confirmam o raciocínio filmes como “O barco” (1981), “Stalingrado” (1993), “A queda” (2004) e o aqui comentado “A vida dos outros” (2006).

[2] COURTOIS, Stepháne. Cortar o mal pela raíz! História e memória do comunismo na Europa. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2006.

[3] KALASHNIKOV, Mikhail. Rajadas da história. Rio de Janeiro, Zahar, 2005.

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Um comentário sobre “A vida dos outros

  1. Boa análise sobre o filme “A vida dos outros”, que, ao contrário dos filmes-ação norte-americanos, os filmes alemães realmente seguem um estilo próprio de suspense nada hitchcockiano. Parece que os filmes alemães ainda são profundamente influenciados pela linguagem do teatro, da literatura e até da pintura.

    O teatralismo do cinema alemão também pode ser visto no filme “A Reunião” (Die Konferenz), um drama do diretor é Nikolaus Stein von Kamienski. 95% do filme acontece com 9 professores, em volta de uma mesa da biblioteca de uma escola, para votar pela “expulsão” ou “permanência” de um aluno que supostamente teria violentado uma colega. Este filme lembra “Doze homens e uma sentença” (que tem duas versões made in EUA), mas é contextualizado na escola. O diretor deve ter exigido muito dos atores, o cuidado de suas expressões, gestos, tom de cada fala, jeito de se comportar, etc. Recentemente usei este filme como contribuição para a formação continuada de diretores de escolas públicas de Maringá, sobretudo é útil para analisar: nosso estilo de reunir com colegas, ou seja, a relação professor – professor (quantas farpas irônicas e sarcasmos!!!), entre professor e alunos, e até contribui para colocar a relação “fato” e “impressão”: se houve ou não violência sexual.

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