A lula e a baleia: sobre separações humanas e distanciamento social

wellen-herickaHÉRICKA WELLEN*

 

“Mamãe e eu contra você e papai”. Diz Frank já abertura do filme. Essa frase, proferida num jogo de tênis entre pais e filhos, serve, em grande parte, para caracterizar as relações familiares no filme A Lula e a Baleia (The Squid and the Whale, 2005), de Noah Baumbach. Em um lado da quadra está Bernard Berkman (Jeff Daniels) e seu filho mais velho, o adolescente Walt (Jesse Eisenberg); do outro, a esposa e mãe Joan (Laura Linney) e o filho mais novo Frank (Owen Kline).

O pai encara o jogo com uma seriedade não condizente com uma atividade familiar. Joga com violência e aconselha seu filho mais velho a agir da mesma forma, revelando, inclusive, os pontos fracos da mãe no esporte. O jogo termina com uma briga do casal e revela o desgaste da relação. É com essa abertura que Baumbach apresenta a família nova-iorquina Berkman. A história se passa na segunda metade da década de 1980 e trata de questões vividas pelo próprio Baumbach na sua adolescência.

Bernard é um professor de literatura que outrora fora um romancista de sucesso. Seu momento de declínio na carreira, comprovada pelas sucessivas negações de editoras em lançar seu novo romance, coincide com a ascensão profissional de Joan, que passa a despontar como uma escritora promissora. O sucesso de Joan, especialmente sendo na área de fracasso de Bernard, serve como a última pá de terra num casamento em crise e já marcado pelos casos extraconjugais da esposa, que são conhecidos do marido.

Já nos primeiros minutos de filme, Joan e Bernard se separam. Essa decisão é tomada mais objetivamente pela esposa, embora a briga que culmina com o pedido de separação tenha se iniciado com a discussão sobre os casos extraconjugais de Joan. Fica claro que Bernard não deseja deixar a mulher, mas também não é capaz de externar esse sentimento. Como em todos os momentos de sua vida, ele encara a situação com arrogância e, ao invés de expressar seus sentimentos, trata o momento com sua corriqueira racionalização intelectual.

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Bernard aluga uma casa e exige de Joan que seus filhos fiquem com ele em dias alternados, ou seja, Frank e Walt devem ficar um dia na casa do pai e outro na casa da mãe. Esse tipo de organização confunde os filhos, que não conseguem se estabelecer em nenhuma das casas. Frank, que tem uma ligação afetiva mais forte com sua mãe, reluta em dormir na casa do pai, chegando mesmo a fugir de lá algumas noites; Walt, por sua vez, revoltado ao saber das infidelidades de sua mãe, recusa-se a frequentar sua casa e mora exclusivamente com Bernard.

Além do pai e seus filhos, a nova casa de Bernard tem mais uma moradora: Lili (Anna Paquin). Estudante de literatura, Lili muda-se para a casa de seu professor e passa a ser desejada por pai e filho, embora eles não percebam o interesse do outro. Esse conhecimento só vem à tona quando Joan critica Bernard por estar tendo um caso com Lili, que tem apenas 20 anos, e avisa que Walt gosta dela. Walt, por sua vez, descobre o caso do pai com a aluna quando flagra os dois no quarto de Lili.

Essa é uma das razões de ruptura entre Walt e Bernard. Antes dessa ruptura, porém, é necessário entender a relação entre os dois. A primeira cena de jantar em família, quando todos ainda vivem na mesma casa, assim como o jogo de tênis supracitado, já antecipa uma questão que será central na narrativa: a relação entre o pai e o filho mais velho, que, se a princípio aparenta ser uma relação de cumplicidade, de aprovação e de admiração do filho em relação ao pai; aos poucos se revela uma relação de dependência do pai à atenção de seu filho, que passa a ser sua única plateia.

Nesse jantar, Walt relata que lerá “Um conto de duas cidades”, de Charles Dickens na escola e pergunta a opinião de seu pai sobre a obra. Diante do pouco entusiasmo do pai, Walt decide não “perder tempo” lendo esse clássico da literatura inglesa, mesmo sua mãe tendo argumentado que é necessário que ele leia e tire suas próprias conclusões.

Em diversos outros momentos, Walt exterioriza comentários sobre livros e filmes que se baseiam no que ouviu seu pai dizer, embora não tenha reais conhecimentos sobre os mesmos. Sua imitação do pai não se resume a comentários pseudo intelectualizados, mas também em relação aos seus relacionamentos afetivos.

Walt conhece e passa a se relacionar com Sophie (Halley Feiffer), sua colega de escola. O relacionamento entre os dois deixa clara a imaturidade do menino. Uma imaturidade sexual, haja vista sua ejaculação imediata após um rápido toque íntimo de sua namorada, e, principalmente, uma imaturidade emocional, visto que Walt fica todo o tempo em dúvida se deve continuar com Sophie, mesmo gostando dela, porque acha que “pode conseguir coisa melhor”. Essa sua imaturidade, fomentada pela prepotência e arrogância que copia do comportamento de seu pai, acaba por magoar Sophie e causa o fim do relacionamento.

O tratamento do pai em relação ao namoro do filho pode explicar, em parte, a impossibilidade de relacionamento entre Bernard e Joan. Ao conversar com o filho sobre o relacionamento com Sophie, o pai sempre deixa claro que ele é superior a ela, que a mulher pode ser um obstáculo na vida de um homem genial (como ele se considera) e que é preciso cautela ao assumir o compromisso com alguém.

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Numa tentativa de aprovação do pai, Walt o leva a um jantar com Sophie. Nessa cena, fica explícita que a admiração pelo pai não é tão real quanto o próprio menino pensa. Dois momentos do jantar explicitam isso. Um deles é a indicação que o pai faz para que Sophie leia os contos de sua aluna Lili, especialmente um em que a autora escreve sobre a vagina. A forma com o que o pai fala sobre o tema do conto – de uma forma falsamente natural – atordoa Walt, que ensaia um protesto, embora não o leve adiante.

Bem menos do que encarar o sexo de uma maneira tão natural a ponto de poder discuti-lo com uma adolescente namorada de seu filho, essa atitude de Bernard, que é comum no seu comportamento, está mais relacionada com sua prepotência. Ele é arrogante ao ponto de intelectualizar qualquer relação pessoal. Ele, no alto de sua genialidade, coloca-se acima de qualquer convenção. Essa postura leva ao outro momento mencionado que também choca Walt e que diz respeito ao fato de seu pai aceitar o dinheiro da menina na hora de pagar a conta.

Em sua ânsia de ser igual ao pai, que ele considera genial, Walt chega ao ponto de cantar no festival da escola a música “Hey You”, de Pink Floyd, como se fosse sua. Ele ganha o festival. No entanto, quando a verdade é descoberta, é obrigado a devolver o prêmio e seus pais são chamados à escola.

A atitude do pai, diante dessa descoberta, é mais uma vez uma prova de sua soberba e arrogância. Ele não critica o menino, pois, como já foi dito, Bernard se considera e também a seu filho, acima de qualquer regra e convenção social. A lei e a verdade se aplicam aos outros, meros mortais, não a eles. O único problema que o pai aponta para o filho é o fato de que, por norma da escola, Walt terá de frequentar um terapeuta. Já de início, Bernard afirma para o filho que provavelmente ele será atendido por alguém sem qualificação.

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No entanto, é nessa consulta que se inicia a virada do personagem de Walt. Quando o terapeuta pede que ele fale de lembranças alegres de sua vida, ele só consegue se lembrar de momentos felizes com sua mãe, na infância. Entre esses momentos, Walt relembra com saudade de passeios ao cinema e ao Museu de História Natural, onde se defrontava com a assustadora imagem da luta entre uma lula gigante e uma baleia. Diante dessas memórias, o terapeuta pergunta onde estava o pai de Walt nesse período, e ele responde: “Não sei. Devia estar no andar de baixo.”

A revelação dessas memórias, juntamente com o sofrimento pelo rompimento com Sophie e, ainda, pela descoberta do caso entre o pai e Lili, levam Walt a destituir o pai do altar em que o havia posto. A cena do flagrante é talvez a mais constrangedora, pois é clara a recusa da moça e ridícula a insistência de Bernard em tirar sua roupa. Ao perceber a presença do filho, ele não aparenta nenhum constrangimento e, mais uma vez, age com a pseudo naturalidade que lhe é peculiar, sem modificar sequer seu olhar, quase sempre vazio de sentimento em relação ao que está ao seu redor.

O ápice do filme se dá numa das cenas finais quando Bernard vai à procura de Walt na casa de Joan. Desesperado diante da possibilidade de perder a única pessoa a quem ainda inspira admiração, Bernard esquece seu ar de cansaço em relação ao mundo e tenta reaver toda sua família. A cena se dá na porta da casa de Joan e tem o gato da família como um dos principais protagonistas.

O gato é a única lembrança afetiva que a família tem em relação a Bernard, haja vista que, numa viagem familiar, no passado, ele salvou o animal que estava preso num cano de escape de um carro. Nesse momento final do filme, enquanto Joan e Bernard brigam na porta, o gato foge e Bernard tenta salvá-lo mais uma vez, numa tentativa claramente irracional de tentar salvar seu casamento. Seu estado emocional está, então, de tal forma alterado, que ele passa mal, cai na rua e precisa ser levado ao hospital. Antes de entrar na ambulância, ele ainda tenta comover Joan com uma lembrança de um filme que ambos assistiram no passado, mas a tentativa não obtém êxito.

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No hospital, Walt, que acompanhara seu pai na ambulância, estabelece sua libertação frente aquela relação de poder e dependência com o pai. Ele o deixa só no leito e vai para a casa de Joan, onde revela para sua mãe estar sofrendo por ter se separado de Sophie. Muito além de um sofrimento comum por um fim de um relacionamento afetivo, trata-se da negação de um comportamento que vinha cultivando até então; trata-se do reconhecimento de sua fraqueza, de sua vulnerabilidade, de suas emoções, ou seja, do reconhecimento de sua humanidade, que não se dobra a qualquer pseudo intelectualidade.

Em meio ao amadurecimento de Walt, encontra-se seu irmão mais novo Frank. Completamente desligado da figura paterna, Frank busca uma identificação com seu professor de tênis Ivan (William Baldwin), que está namorando com sua mãe. Frank busca, a todo custo, um desligamento total de seu pai, seja afirmando que seus traços físicos são os mesmos de sua mãe, seja se autoproclamando um “filisteu”, que é a expressão que seu pai usa contra Ivan, para acusá-lo por não se interessar por livros e filmes. Ser um filisteu significa, para Frank, ser diferente de seu pai e é isso que ele almeja.

A separação dos pais e a obrigação de ficar um dia em cada casa trazem consequências graves para o menino, que passa a beber cerveja e outras bebidas alcoólicas em casa, sem que os pais percebam, e a se masturbar em locais públicos e espalhar o sêmen pela escola. A cena em que os pais são chamados na escola mostra o descaso destes em relação a Frank. Eles não fazem ideia do que está acontecendo com a criança e já chegaram ao ponto de deixá-lo só em casa por várias horas, enquanto a mãe viajava com o namorado e o pai estava no jantar com Walt e Sophie.

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Sem se identificar com o pai e sem encontrar na mãe a força e a presença que necessita no momento, Frank segue sozinho na trama, protagonizando cenas solitárias e recebendo alguma atenção apenas de seu irmão.

A Lula e a Baleia é um filme marcante, sensível, humano e provocativo. As atuações são brilhantes. Difícil não se exasperar com o olhar de desdém de Jeff Daniels; não se comover com a expressão de tristeza e de cansaço da excelente Laura Linney; não se identificar com a dor dos filhos que buscam uma referência para “ser” no mundo. Trata-se de um filme que, apesar de nos provocar e mexer profundamente com nossas emoções, nos presenteia com a sublime arte da interpretação, sem afetação, sem modismos ou grandes efeitos.

Por fim, é marcante a escolha da música “Hey You” na trilha sonora e mesmo no enredo da narrativa. O filme pode ser visto como um grito de alerta aos que vivem sem se enredar na realidade; sem sentir os que os outros sentem; sem estabelecer os vínculos afetivos que nos unem incondicionalmente. Walt escapa dessa armadilha em que seu pai caiu, encarando seus medos e sentimentos, sem se esconder atrás de uma falsa superioridade que supostamente o separaria da vida; abrindo os olhos frente à maravilhosa e perturbadora luta entre a lula e a baleia.

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Ficha Técnica

Título: A lula e a baleia
Título original: The Squid and the Whale
País: EUA
Ano: 2011
Duração: 81 minutos
Direção: Noah Baumbach


* HÉRICKA WELLEN é Professora de Filosofia da Educação da UNIRIO; Doutora em Educação pela USP.

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2 comentários sobre “A lula e a baleia: sobre separações humanas e distanciamento social

  1. Cara Héricka,

    boa noite.
    Mais um excelente texto publicado neste espaço. Não conhecia o filme, mas a leitura das suas palavras despertou o meu interesse. Assisti hoje, é uma lição de vida.

    Muito obrigado e sinceros PARABÉNS!
    Abraços e tudo de bom

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