A função crítica do drama burguês e da tópica das vidas paralelas no filme “O Menino do Pijama Listrado”

ALEXANDER MARTINS VIANNA*

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Baseado na novela do escritor irlandês John Boyne, dirigido e roteirizado por Mark Herman e produzido por David Heyman (o mesmo produtor que enriqueceu com a franquia da produção da série de filmes sobre a saga de Harry Potter), o filme “O Menino do Pijama Listrado”(2008) é uma produção britânica que aborda o espinhoso tema da Solução Final do regime nazista alemão; espinhoso porque é sempre grande o risco de banalização deste assunto, dependendo da linguagem dramática e recursos trópicos acionados num filme desta natureza. No entanto, afortunadamente, o filme de Mark Herman utiliza o regime de verossimilhança do drama burguês e do recurso trópico das vidas paralelas para compor um efeito eficaz de ‘filme de lágrimas’ para o tipo de revisão crítica que propõe para o tema.

Se comparado a outros filmes produzidos desde a década de 1990 sobre o tema, o filme “O Menino do Pijama Listrado” segue a tendência crítica de evitar maniqueísmos e explora a imensa zona cinza formada por aquelas pessoas comuns que aderiram ao regime nazista, mas não necessariamente à sua lógica exterminista. Por isso mesmo, a linguagem do drama burguês é uma escolha estética eficaz: em vez de estereotipicamente tratar dos “grandes homens de Estado”, o filme aborda o regime por meio de seu impacto na vida da família burguesa de um oficial SS, Ralf, que fora transferida da cidade – onde os efeitos exterministas ou concentracionistas do regime não se fazem tão visíveis – para uma propriedade no campo, mantida pelo regime nazista, onde Ralf se torna o oficial responsável pela gestão de um campo de concentração/extermínio, que seu filho Bruno pensava ser uma fazenda de camponeses tolos que usavam “pijamas” o tempo todo.

Várias novelas de ficção histórica de autores irlandeses contemporâneos exploram recorrentemente protagonistas liminares, que servem para romper com percepções simplificadas, estereotípicas ou maniqueístas de experiências históricas de relações assimétricas de poder e domínio, colonial ou de outra natureza. O texto original de John Boyne não foge a esta regra ao conceber o núcleo familiar do oficial Ralf, a que o filme de Mark Herman dá inteligente e sensível expressão dramática:

  1. Elsa, esposa de Ralf, acredita que o regime nazista melhorou a vida dos alemães e promete um bom futuro, mas não aceita que o preço de um futuro melhor seja o extermínio de judeus – quando descobre e existência dos campos de extermínio e que seu marido dirige um, vai perdendo o viço, deprime-se e rejeita o marido, mas, diante da possibilidade de se mudar do campo, recupera o viço e aceita a possibilidade de simplesmente esquecer a questão, se puder viver longe daquilo que a lembre.
  2. A mãe de Ralf é totalmente contrária ao regime, mas silencia para sobreviver, mas não é capaz de esquecer, diferentemente de Elsa, mesmo se está longe das consequências mortais do regime. Assim, transfere para o filho a sua repulsa ao regime, pois o vê como alguém que efetivamente adere aos seus ideais e consequências práticas. Embora não seja mostrado, o filme sugere que a mãe de Ralf definha de tristeza e frustração – tal como Elsa, inicialmente – e acaba por morrer, sem querer ver o filho, que, pragmaticamente, promove um sepultamento com “honras nazistas” para sua mãe, chocando a sensibilidade volátil de Elsa.
  3. O pai de Ralf sempre o apoia e fica orgulhoso com os progressos e promoções que seu filho teve por meio da nova ordem nazista, tentando contrabalançar afetivamente a rejeição que Ralf sofre de sua mãe.
  4. Gretel, filha mais velha de Ralf e Elsa, está no início da puberdade. Depois da mudança para o campo, flerta com o tenente Kurt Kotler e, enquanto por meio dele conhece e aceita, sem culpa, o sistema concentracionista contra os “inimigos da nação ariana”, é escolarizada pelo professor Liszt, junto com seu irmão Bruno, nos termos da educação curricular promovida pelo regime nazista, o que provoca grande incômodo à sua mãe.
  5. Por fim, Bruno, diferentemente de sua irmã Gretel, tem a chance de conhecer Shmuel, um menino estigmatizado como “inimigo judeu” pelo regime nazista. Tal como Bruno, Shmuel tem oito anos. Bruno e Shmuel estabelecerão um laço de amizade e, por meio disso, Bruno desenvolverá resistência afetiva ao processo de escolarização nazista do professor Liszt.

A caracterização dramática dos mundos assimétricos e paralelos de Bruno e Shmuel – crianças na pré-puberdade e, como tais, alheias aos fatos políticos maiores do regime exterminista nazista – cria o contraste tipológico em relação ao mundo dos adultos (ou daqueles que caminham para ele, como Gretel), mas não se trata de um drama sobre o crescimento, pois Bruno e Shmuel morrerão, juntos, numa câmera de gás, sem nada entenderem das razões do regime de brutalidades que fez com que suas infâncias se tornassem paralelas e assimétricas desde o nascimento – e convergidas e equalizadas somente na morte. A Solução Final (Endlösung) foi iniciada pelo regime nazista em janeiro de 1942.

O fato de Bruno e Shmuel terem oito anos significa que nasceram quando o regime nazista se instaurou, ou seja, desde o nascimento as suas vidas se tornaram paralelas e assimétricas. Além disso, Bruno foi mantido na redoma protetiva da mãe e da avó – e não viverá tempo suficiente para fazer a passagem para a esfera de influência afetiva e ideológica do pai. Isso confere consistência dramática ao fato de Bruno nunca ter convivido com judeus até se mudar para o campo e ao fato de sentir estranhamento em relação ao nome ‘diferente’ de Shmuel.

Considerando isso, a figuração de ‘solução final’ ao final do filme compõe uma ironia trágica magistral, pois provoca convergência extrema e rompe com os mundos paralelos ao fazer a violência do regime, devido à inocência infantil e à força da amizade entre Bruno e Shmuel, voltar-se contra a única descendência masculina do oficial Ralf. A morte conjunta de Bruno e Shmuel cria o elo trágico com o que já sabemos: o regime não terá futuro, mas produzirá fraturas nas memórias.

O filme de Mark Herman é emocionalmente avassalador, contaminando, crítica e afetivamente, a mente e o coração da audiência. Tratar seu tema por meio do regime de verossimilhança do drama burguês e do recurso trópico das vidas paralelas de duas crianças de oito anos possibilita uma atenção afetivo-cognitiva mais intensa para todas as partes da trama, tornando o filme bastante eficaz para sensibilizar jovens entre 12 e 14 anos sobre o tema do nazismo, evitando que seja banalizado. Por isso, penso que pode funcionar como um bom recurso didático de sensibilização temática para o tema do nazismo em aulas de História do Ensino Básico. Afinal, uma coisa é sabermos, hoje, que o regime nazista exterminou milhões de minorias em seu projeto estético racista de Estado e de futuro imperial, outra coisa é observar e sentir como tudo isso se traduziu, filigranaticamente, na vida de pessoas comuns, indivíduos que têm rosto, que não se diluem numa massa de dados, substantivos abstratos e adjetivos pátrios. Além disso, há uma força melodramática especial no fato de os protagonistas das vidas paralelas serem crianças.

No regime de verossimilhança dramática do filme, todos os personagens adultos – de forma obviamente desigual num regime que promove sistematicamente assimetria – sofrem algum tipo de punição, ônus ou abalo por colaborarem, ativa ou passivamente, direta ou indiretamente, para a (sobre)vivência do/no regime. Por isso, tudo no regime dramático do filme é feito para evitar, na audiência, reações simplificadas maniqueístas. Aliás, a trilha sonora do filme, feita por James Horner, endossa perfeitamente as suas teses críticas por meio do tipo de pathos dramático que provoca nas suas cenas e situações mais emblemáticas, pois humaniza dialeticamente o complexo emocional, as ações, as escolhas e os silêncios mais vis e covardes dos personagens adultos.

Nesse sentido, o filme complexifica o debate sobre os temas da Solução Final e da adesão ao regime nazista, mostrando: que nem todos que viveram e sobreviveram ao regime nazista aderiram de fato às suas consequências exterministas; que alguns não as quiseram ver; que outros as quiseram esquecer, contanto que suas vidas não fossem afetadas; que muitos judeus, no jogo cruel de poder assimétrico do regime nazista – traduzido nas relações interpessoais racialmente hierárquicas e institucionalizadas nos campos de extermínio e concentração – foram forçados pelos soldados nazistas a colaborarem como guardas (e, algumas vezes, escolherem quem iria morrer). O filme mostra esta situação tangencialmente, sem grande foco dramático – um tema espinhoso que ainda é uma ferida aberta –, na cena em que Shmuel e Bruno, sem o saber, são conduzidos para a câmera de gás.

Por fim, vale ressaltar que o filme propõe que não é possível escapar das consequências do que não se quer ver ou daquilo que se quer esquecer sobre o passado nazista, e intensifica tal tese por meio da figuração dramática das vidas paralelas de Bruno e Shmuel, que são indivíduos adversos do ponto de vista do regime, mas convergentes do ponto de vista da inocência da infância tragicamente interrompida – a mesma que fez com que um enxergasse o outro de forma alheia ao mundo violento de discriminação racial dos adultos. Deste modo, o filme lembra que ninguém nasce nazista, que ódio racial e demais padrões de ódio contra minorias são aprendidos. Daí, emblematicamente, Bruno morre sem aprender a ser nazista, o que é uma punição trágica impactante às escolhas pragmáticas, cínicas e adversas de seus pais.

IMAGEM 02 capa de filme

Ficha Técnica
Título: O Menino do Pijama Listrado
Título original: The Boy in the Striped Pyjamas
Ano de Produção: 2008
Diretor e Roteiro: Mark Herman
Produção: David Heyman
País: Reino Unido da Grã-Bretanha
Atores principais: Asa Butterfield, Jack Scanlon, David Thewlis, Vera Farmiga, Amber Beattie e Rupert Friend.
Duração: 94 minutos


*viannaALEXANDER MARTINS VIANNA é Mestre e Doutor em História Social pelo PPGHIS-UFRJ. Professor Adjunto II de História Moderna do Departamento de História da UFRRJ (Campus de Seropédica).

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10 comentários sobre “A função crítica do drama burguês e da tópica das vidas paralelas no filme “O Menino do Pijama Listrado”

  1. Eu já utilizei e estou novamente utilizando este filme em sala de aula. Acredito que sirva para apresentar a segunda guerra e os campos de concentração de uma forma que não banalize tais questões, auxilia também na desconstrução da “história dos grande personagens”, tendo em vista a história das crianças. Parabéns pela análise Vianna, contribuiu para o enriquecimento das possibilidades de se trabalhar o filme.

  2. PARABENS PELA ANÁLISE DA TEMATICA DO FILME ;REFORÇOU A MINHA ADMIRAÇAO PELA OBRA E COMO SE DEVERIA HAVER ESPAÇO PARA DIVULGAÇAO DESSE FILME PARA ADOLESCENTES E PARA ADULTOS A FIM DE ESCLARECIMENTO E ALTERAÇAO DO TIPO DE RELACIONAMENTO VIGENTE EM NOSSA SOCIEDADE-DISTANCIAMENTO INTERPESSOAL E EGOÍSMO.ATENCIOSAMENTE JOSE OCTAVIO

  3. Eu passei o filme para meus alunos do Ensino Fundamental, e é isso mesmo que ocorre, segundo a análise do professor Alexandre Martins Viana. Os alunos prenderam atenção para o que estava por vir, por causa da amizade entre os dois meninos. E assim desmistificando alguns conceitos que haviam criado sobre o período nazista. Conceitos que os faziam admirar Hitler e o extermínio dos inimigos da pátria. A ideia entre o bem e o mal. Nossas crianças constroem uma ideia sobre a guerra como algo natura, ou seja, um mal necessário. Esse filme nos leva a pensar como as crianças são vítimas da violência protagonizada e endossada pelos adultos. Adorei a analise que me deu bases para elaborar melhor as ideias sobre o filme.

  4. (Caro Ozaí, por favor, suprimir o comentário anterior e manter esta versão).

    Este filme é um bom ponto de partida para discussões que, certamente, ultrapassam a sala de aula. Ao focar especificamente em sala de aula, penso no quanto o seu regime de verossimilhança dramática é eficaz em mobilizar atenção afetivo-cognitiva de um público entre 12 e 14 anos. Em muitos livros didáticos que abordam o assunto, o aluno é bombardeado por imagens que não são trabalhadas como fontes, mas ilustrações desconectadas dos textos, que falam de causas políticas e econômicas de um modo que acaba não mobilizando muita atenção de nossos alunos, cada vez mais dispersos no consumo de imagens. E, de tanto serem veiculadas, estas imagens acabaram criando o efeito oposto do pretendido: a sua banalização e, por conta disso, insensibilização. Considerando isso, o filme surpreende logo no início, ao propor o ponto de vista de uma criança de 8 anos de família burguesa, para quem a guerra, longe do front, parece uma aventura e, aos poucos, esta dimensão vai se perdendo para o expectador, mas não exatamente para as crianças, que ainda não entendem o que se passa a seu redor.
    Nesse sentido, o filme traz um jogo interessante: o expectador tem uma onisciência do que está acontecendo que os dois personagens de oito anos não têm, o que exatamente cria o jogo de empatia pelo que sabemos que está acontecendo em face ao que eles ainda não percebem. O filme não explora imagens já canônicas da violência do regime nazista sobre judeus e outros, preferindo alegorias e metonímias por meio de sons e alusões a cheiros, para evitar a sua banalização imagética, o que intensifica a percepção ao tornar sempre presente o que não se mostra diretamente. Sobre isso, um foco emblemático é a pilha de bonecas nuas na casa de ferramentas e a violência contra o médico judeu reduzido a serviçal enfermiço na casa de Ralf, que é brutalmente espancado na cozinha pelo tenente, o que não é mostrado, mas sonorizado e criticado por meio do olhar de medo/horror de Bruno. Há ainda a cena final, que focaliza a porta da câmara de gás e as roupas dos detentos.
    Este filme, para alguns, é fantasioso demais. No entanto, este filme é um drama, não é um documentário (embora documentários também se valham de regimes dramáticos de verossimilhança para provocarem emoções em torno de teses e abordagens). Como o assunto é amplamente conhecido pelo público britânico, o filme segue outro ponto de partida, menos canônico, para desenvolver a sua crítica – e consegue desenvolver uma boa crítica fazendo um bom drama, adensando a discussão não apenas por meio do texto (mérito de Boyne), mas pela forma como associa caracterização de personagens, música, dramatização, enquadramento, fotografia e sequência imagética (mérito de Herman) para emocionar para um tema tão difícil de abordar sem provocar a banalização.
    Então, partindo do pressuposto de que o assunto é amplamente conhecido pelo seu público-alvo, a questão que se coloca é a escolha de abordagem do filme, que sensibiliza para o tema usando um regime de verossimilhança eficaz, pois mobiliza perfeitamente a atenção emocional de um público de 12 a 14 anos, o que possibilita usar o filme como ponto de partida para discussões temática em sala de aula. A relação entre os personagens, incluindo a relação entre Bruno e Shmuel, tem uma singularidade de abordagem que confere mérito dramático, literário e histórico à ficção histórica proposta por Boyne/Herman.
    Abraços e obrigado pela leitura atenta de vocês.

  5. Excelente comentário. Muito lúcido e enriquecedor. Li o livro e não vi o filme, mas agora pretendo ver. Não trabalho com educação, mas creio que o assunto transcende o âmbito da sala de aula, principalmente se considerarmos que, diante do mundo canibal em que estamos vivendo e o ressurgimento de tantos partidos e posições conservadoras, quem tem alguma sensibilidade precisa compreender que todas as nossas ações hoje em dia devem ser educativas. Mesmo que aparentemente minúsculas, qualquer atitude que tenda a desconstruir a ignorância e a incompreensão, a violência e a intolerância é bem vinda. Muito obrigada pelo texto!

  6. Brilhante análise do filme. Destaca a situação da relação das pessoas “comuns” com o regime nazista. Afinal, como Hitler não poderia estar em todos os lugares, os corações e mentes dos alemães tiveram de ser conquistados pelo regime e postos à sua disposição.

  7. Análise excelente! Gostei da sugestão para as aulas de história no ensino básico. Espero com ansiedade por novas análises de outros filmes que tocam em temas históricos fundamentais. obrigada.

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