ANTONIO OZAÍ DA SILVA *

O riso dos outros é o título do documentário dirigido por Pedro Arantes, financiado pela TV Câmara.[1] O documentário centra-se no Stand-up, ou seja, comediantes que se apresentam individualmente sem outros recursos e acessórios além da voz, e, geralmente, em pé, dirigem-se à platéia (daí o termo). Alyson Vilela, Ana Maria Gonçalves, Antonio Prata, Arnaldo Branco, Bem Ludmer, Danilo Gentili, Fábio Rabin, Fernando Caruso, Gabriel Grosvald, Hugo Possolo, Idelber Avelar, Jean Wyllys, Laerte Coutinho, Lola Aronovich, Marcela Leal, Mariana Armellini, Maurício Meirelles, Nanny People, Rafinha Bastos, Renata Moreno, entre outros, são os entrevistados.

Afinal, existem limites para o humor? Piadas ofendem, ferem o politicamente correto? O argumento “É só uma piada!” é válido para qualquer circunstância, ainda que expresse o racismo, o sexismo, o preconceito contra as minorias e indivíduos? Piadas preconceituosas contra negros, mulheres, gays, lésbicas, gordos, deficientes físicos, etc. são engraçadas? Por que provocam o riso? Quem ri é cúmplice ou o humorista apenas expressa os valores presentes na sociedade? Se é ofensivo não deveria ser proibido? Quem define o limite entre a liberdade de expressão e a ofensa preconceituosa? O politicamente correto? Este não é uma forma de policiamento ideológico, social e político? Então, em nome da “senhora liberdade” tudo é permitido? Até mesmo o riso profano que ridiculariza o sagrado?[2]

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O fundamento do humor

O humor, seja qual for o seu objeto, não se explica apenas pela capacidade individual de criação. Seu fundamento é os valores compartilhados socialmente. O humorista não é um indivíduo isolado, mas um ser social. A linguagem do comediante não é axiologicamente neutra. Todo discurso tem raízes na sociedade. Nem a piada nem o riso ocorrem no vácuo, seus alicerces são culturais, sociais, políticos e ideológicos. Quem fala, fala de um lugar determinado, está consciente do que pronuncia, espera um determinado efeito: provocar o riso. Quem ri também o faz conscientemente, e ao fazê-lo reforça a mensagem. Neste sentido, nem a fala nem o riso são naturais. O fundamento é social.

O preconceito, portanto, está na sociedade. O humor dialoga com o preconceito, mas este diálogo não está livre de tensões. O humor pode reforçar – ou não – os estereótipos. Ele busca o reconhecimento, o aplauso e o riso. Seu gozo advém da capacidade de conquistar. Qual é o caminho mais fácil? Para muitos, a forma mais fácil de provocar risadas é investir no preconceito, nos estereótipos. Se estes são compartilhados pela maioria, basta falar o que a maioria quer ouvir. O humorista desresponsabiliza-se com o argumento de que resgata algo já inculcado pelo ouvinte. Ou seja, ele apenas despertou algo – um valor, um sentimento – na mente de quem riu. Tá na cabeça de quem ri! E não está na cabeça de quem faz a piada? Isto significa descomprometer-se, imaginar que o discurso elaborado é neutro e/ou apenas reproduz os valores dos outros. A piada sobre a Preta Gil é um exemplo sutil de como o comediante se desresponsabiliza e transfere o ônus para o público. Ao arrancar risadas, Danilo Gentili diz que  a platéia não deveria ter rido. Mas, por que ele conta a piada? Ora, porque o público ri. Conclui, então, que o f.d.p é quem ri. “Não eu!”, afirma Gentili.

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Os preconceitos arraigados na sociedade fornecem material abundante para os piadistas. O humor é cruel, caricatural. Expõe defeitos, limitações e faz rir; mas insulta! O humor insultante, preconceituoso parece o mais fácil, o que menos criatividade exige. Basta reproduzir o conservadorismo da maioria em forma de piada! Por isso, é o humor em seu nível mais baixo. Da mesma forma que encontra platéias numerosas que riem das mesmas piadas de sempre, também encontra defensores. Argumenta-se que este tipo de humor simplesmente colhe o pensamento existente e o reproduz de uma forma “engraçada”. Convenhamos, o argumento de que o humorista não é responsável pelas mazelas da sociedade, mas apenas o expressa, é forte. Não se deve, portanto, culpabilizá-lo. Neste raciocínio, seria exagero falarmos em humor preconceituoso.

Não se trata, porém, de culpar mas sim da reflexão. “A gente ri e isso faz parte da vida. Mas a gente também pensa sobre coisas. A culpa é um sentimento castrador. Não precisa se culpar, basta refletir”, afirma Pedro Arantes.[3] O diretor do documentário se refere às situações em que rimos de uma piada que, de fato, revela-se preconceituosa. “Mais jovem, eu ria muito de piada de gay. Hoje em dia, já tendo pensado sobre isso, eu realmente não acho mais graça. Você faz essa elaboração na sua cabeça e a partir daí você passa a não achar mais engraçado”, diz ele.[4] De fato, todos estamos sujeitos a deslizes. Mas não é o caso do preconceituoso empedernido, daquele que introjetou valores conservadores. Para este tipo, as minorias sempre serão um alvo de riso. E sem culpa! Por outro lado, deve-se considerar o papel do humorista. É muito simples partir do pressuposto de que ele apenas expressa o que a maioria pensa. Primeiro, ele também é educado pela mesma sociedade que forja e cristaliza tais pensamentos. Como garantir que ele também não incorpora o discurso que pronuncia ao seu público?! Segundo, se a reflexão é necessária, é lícito indagarmos se e em que medida reprodutores de preconceitos fortalecem valores preconceituosos ou se contribuem para a indagação reflexiva sobre os mesmos. De qualquer forma, não há graça alguma para quem sofre as ofensas em forma de humor!

É bem mais difícil elaborar o humor que seja instigante. Exige criatividade, trabalho e superação dos lugares e senso comum. Será que não é possível fazer humor sem humilhar o outro? O humor também pode contribuir no sentido de levar à reflexão sobre os preconceitos e mostrar o ridículo da postura preconceituosa. Se, como afirma Danilo Gentili, “Toda piada tem um alvo”, uma vítima, qual e quem deve sê-lo? Será que o único critério válido é “se for engraçado”, como argumenta Gentili? Como este “alvo” deve ser trabalhado, tratado? Se o humor pressupõe a crítica, o que deve ser criticado? Como esta crítica deve ser elaborada? Criticar “alvos” sem condições de defesa é fácil. É mais difícil criticar a autoridade.

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O humor machista para consumo do público é reproduzido na relação interna entre os que se envolvem com esta atividade. Também neste aspecto, expressa a realidade social. Os homens predominam e, segundo o depoimento da comediante Nany People, as mulheres reproduzem os valores do universo masculino. As piadas sobre mulheres expostas no documentário mostra bem o caldo cultural sexista. Aliás, talvez seja exagero denominar tais falas como “piadas”. Não há graça, mas desrespeito. Não é preciso ser feminista para convencer-se do risível que é repetir chavões dos tataravôs, basta apenas ter senso de reflexão crítica. Há alguma graça em, por exemplo, afirmar que a mulher feia que sofreu estupro deveria agradecer pela oportunidade? Estupro é um tema para piadistas? No entanto, piadas como esta e outras pérolas humorísticas provocam risos – inclusive entre as mulheres.

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A mesma sociedade que legitima valores machistas, racistas, homofóbicos, etc., contesta-os. Os “alvos” e “vítimas” deste tipo de humor organizam-se, reagem e exigem respeito. Mas não é patrulhamento da liberdade de expressão?! Não há temas proibidos, nem se trata de proibir. A questão é a forma que assume o discurso. Se este é ofensivo e quem se ofende é capaz de reagir coletivamente, é legítimo. A liberdade de expressão não se dá no vácuo, mas em tensão com o contexto social, político, cultural, histórico. Também o comediante não é neutro, ele precisa saber de que lado está. As piadas podem, inclusive, levar a pensar sobre as minorias, o racismo, o sexismo, etc.

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O politicamente correto é chato? Quem contesta é careta? Mas é correto insistir em reproduzir os preconceitos? Quem cunhou o termo politicamente correto, a quem interessa? A questão é polêmica e aparenta ser uma forma de desviar-se do principal. O fato é que antes mesmo do surgimento e propagação do politicamente correto, as piadas racistas, preconceituosas, etc. existiam e não perderam este caráter. Em outras palavras, o racismo, sexismo, xenofobismo, homofobia, etc., são realidades no passado e no presente. A discussão sobre o politicamente correto desvia o foco. Uma piada racista permanece com o mesmo conteúdo e significado. Como afirma Mariana Armellini:“Chamar um negro de macaco não é e nunca foi engraçado”. Se palavra desqualifica, quem a utiliza tem consciência. Não é suficiente acusar quem não aceita o racismo e qualquer tipo de preconceito de expressar a ditadura do politicamente correto. Ainda que seja considerado “chato”, “careta”, etc., a reação é legítima.

A prática social questionadora do discurso racista, sexista, homofóbico, etc. não dirige-se apenas àquele que faz piadas de mal gosto, mas expressa o questionamento legítimo de setores da sociedade em relação a outras práticas sociais, culturais e classistas que legitimam o discurso hegemônico aceito pela maioria. A tensão do politicamente correto é expressão desse movimento histórico de não aceitação dessa hegemonia.

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A grita contra o politicamente correto é também uma forma de não aceitar a crítica. Isto, em nome da liberdade de expressão ilimitada. Mas a liberdade ilimitada só existe na cabeça de quem se acredita acima das leis, normas, convenções sociais, etc. Por exemplo, racismo é crime. Então, a pretensa liberdade de expressão do comediante que adota o discurso racista revela-se ilusão. A contestação do discurso e práticas preconceituosas está tão relacionada à liberdade de expressão quando a fala contestada. O comediante tem a liberdade de fazer a piada, mas deve saber que não está acima da lei, do bem e do mal, menos ainda livre da contestação. Como diz Jean Wyllys: “As liberdades têm limites”.

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Não, nem sempre “É só uma piada!”, como proclama Rafinha Bastos e outros. A piada é concebida como desprovida de conteúdo ideológico, político, social, etc. É tratada como a piada em si, neutra. “É um insulto!, responde Lola Aronovich. Sim, uma piada preconceituosa não é apenas uma piada. A manifestação do artista reforça preconceitos ou contribui para questioná-los. Não é um discurso neutro, apolítico. Quem se imagina apolítico, tem uma compreensão simplista da política, restringindo-se à esfera institucional. Como diria Brecht é um “analfabeto político”! De qualquer forma, o que chama a atenção em tudo isto é o fato de as pessoas ainda rirem deste tipo de piada! Não tem graça! No entanto, o riso da maioria inebria e parece legitimar o comediante que diz o que o povo quer ouvir. E ele ainda fica com a impressão de que faz sucesso. Mas, como alerta Hugo Possolo, “Quem se curva demais ao público fica de quatro pra ele”.


ozai* ANTONIO OZAÍ DA SILVA é professor do Departamento de Ciências Sociais – Universidade Estadual de Maringá (DCS/UEM) e Doutor em Educação (USP). Blog: http://antoniozai.wordpress.com

[2] Ver: SILVA, A. O. Entre o sagrado e o profano: o interdito ao riso. REA, nº 58, março de 2006, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/058/58ozai.htm

[3] “TÁ RINDO DE QUÊ?” (Entrevista). Revista Trip, 03/12/2012, disponível em http://revistatrip.uol.com.br/so-no-site/entrevistas/ta-rindo-de-que.html

[4] Idem.