O povo voltou às ruas, Lamu!

pomarWLADIMIR POMAR*

Lamu é o nome que estou dando à uma cambada da cientistas políticos e associados que saíram à liça para criticar, por todos os lados, o retorno das manifestações populares. Para Lamu, essas manifestações seriam obra de grupos radicais de esquerda, de fora e de dentro do PT. E não seriam compatíveis com a democracia, por ficarem protestando difusa e romanticamente por questões econômicas, quando haveria outros assuntos mais importantes a tratar. Os reajustes dos ônibus teriam sido inferiores à inflação e, se houvesse insatisfação com os governos, os líderes das manifestações deveriam ter convocado a população para reclamar, em Brasília, dos preços dos alimentos.

Não contente em desqualificar as manifestações por supostos assuntos menores, Lamu se esforçou por desmerecer os próprios manifestantes. Seriam pessoas irritadas, procurando extravasar suas frustrações. Seriam baderneiros, prontos para depredar, espancar e realizar enfrentamentos. E seriam os quase invisíveis radicais de esquerda, sempre prontos a colocar gasolina, ou vinagre, no fogo, sem qualquer pauta sensata de reivindicações. Portanto, não passariam de pequenos grupos, cuja ação de quebra-quebra os levaria rapidamente ao fim, não só pela firme e correta ação policial, mas também pela falta de apoio popular.

Pobre Lamu, que viu ruir todas as suas análises científicas no dia 17 de junho, quando as manifestações em quase todo o país reuniram dezenas de milhares de manifestantes, demonstrando sua insatisfação. O povo voltou às ruas, Lamu, ao chamado do Movimento Passe Livre – MPL, não só para apoiar a reivindicação de revogação dos reajustes das tarifas de transportes urbanos, mas também para expressar sua oposição ao custo de vida, às prioridades dos investimentos, e ao autoritarismo dos governos que querem impor travas às reivindicações e manifestações populares.

Manifestações populares, em ruas e praças, são um direito reconquistado especialmente nas lutas contra a ditadura militar, no movimento das Diretas Já!, nas greves operárias do ABC, e nas passeatas pela anistia política e contra o custo de vida, nos anos 1970 e 1980. São conquistas democráticas, totalmente compatíveis com a democracia. Como compatível com a democracia é o direito de grupos, de esquerda, radicais ou não, de convocarem tais manifestações. Incompatível com a democracia, embora faça parte do aprendizado popular para saber tratar com esses fatos, é a ação secreta de policiais e provocadores, para promover quebra-quebras, e das tropas de choque, para realizar confrontos e reprimir violentamente os manifestantes, como aconteceu em várias capitais.

Insatisfações populares, Lamu, sempre se materializam, incialmente, em pequenas manifestações, tomando como ponto de partida um ou alguns aspectos da vida popular que mais incomodam. Conservadores e reacionários, como você, acham um absurdo essa espontaneidade popular que, no mais das vezes, tem a juventude, em especial a estudantil, como porta-bandeira. Como expressam, também em geral, a insatisfação de grandes massas da população, têm a capacidade de superar as repressões e provocações que procuram criminalizar as manifestações, e mobilizar grandes multidões não só pelos aspectos inicialmente apresentados, mas também pelo conjunto dos problemas que afligem as outras camadas populares.

Ao contrário do que proclamam os governos, os reajustes dos preços dos transportes são uma herança indexada dos anos 1990, cujo acumulado nos últimos anos é muito superior à inflação. É, portanto, uma aberração que sufoca tanto aos estudantes, que reivindicam passe livre, quanto a milhões de trabalhadores, para os quais um aumento de 20 centavos pode representar a gota d’água que arromba seus parcos rendimentos. Mas você, Lamu, que só anda em carro próprio e não conhece o sacrifício de viajar em transportes lotados e pouco seguros, não pode entender isso. Acha-a difusa e romântica, e é incapaz de enxergá-la como a ponta do iceberg do custo de vida.

Custo de vida que não se prende aos aumentos sazonais dos alimentos agrícolas e industriais, em parte causados pela crescente falta de apoio à agricultura familiar, responsável por mais de 80% de todos os alimentos que o povo consome. Num enorme descompasso com o financiamento do agronegócio, a agricultura familiar vem definhando e sendo expropriada  pelas grandes lavouras de commodities, o que se reflete em preços altos nas feiras e supermercados. Custo de vida que se reflete também nos preços de monopólio praticados pelas corporações industriais que produzem bens de consumo corrente. Na falta de concorrência, essas corporações tornaram os preços brasileiros um dos mais altos do mundo. Se se agregar os juros praticados no mercado, pode-se ter uma ideia do tamanho do bode que a maior parte das famílias brasileiras tem em sua sala.

Esses milhões de famílias, muitas das quais se beneficiaram com as políticas de elevação do salário mínimo, de crescimento do emprego e de transferência de renda para propiciar educação e saúde, também começaram a se dar conta das disparidades existentes nos investimentos. A rapidez dos investimentos em praças esportivas, para atender aos compromissos com as Copas de Futebol e as Olimpíadas, é flagrante. Como flagrante é a lerdeza dos investimentos em saneamento básico, na construção de moradias, na reforma e construção de ferrovias, portos e aeroportos, na melhoria dos transportes urbanos, na instalação de novas plantas fabris que mantenham o ritmo de criação de empregos, e na reestruturação da educação e da saúde.

Os governos podem até alegar que os novos estádios e instalações esportivas geraram emprego e renda para boa parte da população, como até Lamu reconhece. Mas cada um dos demais investimentos necessários para o Brasil sair da quebradeira herdada dos governos neoliberais também pode gerar o mesmo volume de emprego e renda, com a vantagem de que seus benefícios à população serão superiores. Em outras palavras, as manifestações estão chamando a atenção dos governos para o fato de que querem discutir as prioridades dos investimentos, o que Lamu considera um absurdo, incompatível com sua noção de democracia, segundo a qual essa é uma missão delegada pelas eleições, e não um direito romântico.

Nessas condições, se o governo federal se ressentia da falta de uma mobilização social massiva para avançar mais rapidamente nos planos de desenvolvimento, agora tem o dever não só de reconhecer como democráticas e legitimas as manifestações e as reivindicações populares. Ele precisará tomá-las como ponto de partida, e apelar a seu apoio, para desindexar a economia, tomar a sério o apoio estratégico à agricultura familiar, redirecionar investimentos para reestruturar a indústria de bens de consumo corrente, e agilizar os investimentos em infraestrutura. Ou seja, agir prioritariamente naqueles setores capazes de reduzir o custo de vida, e criar novos mecanismos de diálogo com a população em luta.

Ao voltar às ruas, o povo está criando uma nova conjuntura social e política, favorável à democracia e ao desenvolvimento econômico, social e ambiental. Para desespero de Lamu e de todos os que não suportam cheiro de povo.


* WLADIMIR POMAR é escritor e analista político. Publicado no Correio da Cidadania em 19/06/2013 e aqui sob autorização do autor.

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11 comentários sobre “O povo voltou às ruas, Lamu!

  1. Bem, caro WLADIMIR POMAR, há muito não lia um texto tão delicioso, esclarecedor, claro, verdadeiro e com o legitimo, digno e encantador humor brasileiro. Isto que é não ter medo de realmente SER FELIZ.
    Vou tirar quarenta anos da minha idade e dizer com paixão e jovialidade: Eu amei a sua reflexão correta, sem ambiguidades bestas, sem necessidade de agradar A ou B.
    O Lamu quer dizer lamurientos ? Os e as loucos(as) de medo de perder suas boquinhas de mestres e doutores disso e daquilo, Tendo que aplaudir e escrever textos confusos sobre o petezão, o partido do eterno patrão deles. “Lamutados” também ficaria bem: lamurientos e pobres coitados.
    Não há nada a temer com as manifestações de jovens de 18 e até os de quase 90 anos. Tenho a maior crença nelas e neles. São gente de verdade. Lógico que causam medo, espanto e apreensão nos medíocres, pobres infelizes que viveram em uma bolha de plástico e nem souberam o que foi a ditadura militar, os anos de chumbo. Seres de estufa, que nunca foram à luta por nada. Suas famílias já lhe deram uma vida pronta.
    Estes jovens que hoje estão nas ruas, são filhos e netos de brasileiros de verdade, militantes da liberdade. A garra e o exemplo de seus ascendentes, seus exemplos de vida, tornaram essas e esses meninos, gente forte, generosa, participativa.Temos um exemplo de quem viveu e lutou, no comentário do Sr.ANTÔNIO CLÁUDIO LEME.
    Sociopoliticodemagógicas – é muito boa a palavra, Sr. Cláudio, Tem tudo a ver com essa tropa suicida. precisam sempre de um líder, por mais ignorante e fajuto que seja. De preferência um ícone, que acham que representa o povo. Como iriam entender a autenticidade e a expontaneidade dos jovens que corajosamente foram às ruas??
    Os filhos, se bem criados e educados,naturalmente tornam-se melhores ainda que nós.Eles evoluem através de nossos bons exemplos de vida. Não adianta dar sermão e castigo, se não dermos bons exemplos. Portanto, parabéns aos pais e familiares desta juventude surpreendente e querida. Obrigada, vocês colocaram a minha esperança e meus sonhos de juventude no máximo. Sinto-me restaurada.Da mesma forma,sou muito grata ao escritor e grande analista político WLADIMIR POMAR.
    Abraços de fé, esperança e fraternidade.
    Vera Linden – São Leopoldo (RS) e também de Vila Velha(ES)

  2. Seria possivel ao colega fazer a mesma analise sem baixar o nivel e chamar aqueles de quem ele discorda de nomes ofensivos? Era absolutamente necessario se referir aos cientistas politicos como uma ” cambada”.? Seu interesse e’ discutir ou simplesmente agredir?

  3. Concordo com a Patrícia, pelo menos por enquanto. Seria uma manifestação no estilo pós-moderno? No sentido de vale-tudo, vale-todos: sejam bem vindos todos, até os reacionários tradicionais inconformados com o governo Lula-Dilma, e os esquerdistas infantis, que odeiam democracia (pq é burguesa), até mesmo os niilistas e demais ‘istas’. Até mesmos aqueles que puderam recentemente comprar seu carro, ter seus filhos na faculdade, comer em restaurantes ou comer muito biscoito e carne, tornando assim o país com maior número de criancinhas obesas do mundo…Até mesmo a UNE que passou a ter dinheirinho garantido pelo governo [A UNE participou das manifestações???]
    Achei também boa a análise do Wladimir Pomar, acima, e também a do Wellinton Fontes Menezes, aqui no mesmo blog:
    https://espacoacademico.wordpress.com/2013/06/18/a-caixa-de-pandora-para-alem-das-tarifas-e-dos-atos-apoliticos/

    Mas prefiro sustentar meu ceticismo. Lamento, Lamu e Wladimir.
    Raymundo.

  4. Concordo com você Patrícia, também gostaria de ter a certeza que a população brasileira realmente acordou para as expressões da questão social que vivenciamos atualmente. A manifestação que ocorreu aqui em João Pessoa também caminhou nessa perspectiva: “um movimento com diferentes grupos, com causas muito diferentes e até o momento, sem rumo”. Tenho a certeza de que a primeira iniciativa foi, e é, valida, mas precisamos reaprender o conceito de classe, de luta de classe. O sistema capitalista tem fragmentado tanto a sociedade (trabalhadores) que isso vem se expressando inclusive nessas mobilizações. É lamentável. Acredito que uma saída para encontrarmos o “rumo certo” é nos juntarmos e refletirmos um pouco mais sobre o que queremos e como queremos. Esse é um movimento contínuo, não pode se resumir a alguns eventos. O brasileiro precisa tomar posse daquilo que lhe pertence. E para chegarmos a isso, teremos que fazer um percurso muito longo (mas não impossível), um processo de desconstrução e construção de uma nova HISTÓRIA.

  5. Num País democrático o Povo tem direito à manifestação. Os governantes devem saber para que efeito foram eleitos, e qual o tamanho da responsabilidade que lhes cabe dentro da esfera governativa. Não adianta querer governar um País com mais de 200 milhões de habitantes se não nos importarmos com as condições de vida do Povo. Gostei da reflexão do Sr Wladimir Pomar e nós do Terceiro Mundo onde a democracia ainda não se faz sentir, concordamos plenamente com a sua análise.

  6. Grande WLADIMIR POMAR! Participei do Movimento Estudantil na década de 70 em Londrina e no Brasil. Tenho orgulho da minha luta na época pela Anistia ampla, geral e irrestrita, pela convocação da Assembléia Nacional Constituinte e pela reconstrução da UNE. Atualmente andava bem desanimado com a atitude de ex-companheiros incendiários na juventude e hoje voluntários do corpo de bombeiros, pendurados em cargos executivos ou legislativos e participando ativamente das maracutaias brasileiras. Fiquei indignado com o congresso da UNE sendo patrocinado pela PETROBRAS!
    Mas, minha chama se reacendeu. Eu acredito! O Brasil é nosso. É lindo ver gente na rua com bandeiras e cartazes. Concordo com você. O povo sabe muito bem o que quer e não precisa dos “LAMUS” e das suas teorias sociopoliticodemagógicas formuladas para garantir que o povo diga só sim ou sim senhor para os nossos salvadores e lideres aboletados no poder em todos os cantos do Brasil. Um abraço fraterno.

  7. Todavia meu caro Pomar, é dos Cientistas políticos ficarem apenas nos planos das análises esdruxulas, e em cima do muro, e quando sempre, faz parte destes grupos tipos Ronaldo infenômeno, e O tal rei que não tem coroa, preocupa com apenas os próprio buxo! Lembra-me neste momento uma colocação que Marx fez a Sigfried Meyer: ´´ Se se quer ser um boi, naturalmente se pode dar as costas aos tormentos da humanidade e cuidar somente da própria pele“.

  8. não sei,acabei de chegar da manifestação aqui em Londrina, queria tanto concordar WLADIMIR POMAR, mas acho que não consigo. È mesmo um movimento com a força e a presença de jovens, mas tão pouco ou com nenhuma solidariedade, eles não se reconhecem.é um movimento com diferentes grupos com causas muito diferentes e até o momento sem rumo. espero que o rumo seja qual for se coloque.

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