Sobre as atuais manifestações

tonetIVO TONET*

1. O pano de fundo

Para compreender o que está acontecendo, atualmente, no Brasil, é preciso voltar um pouco na história.

Certamente, é uma situação muito complexa, mas procuraremos sinalizar, aqui, os elementos que nos parecem mais marcantes para entender o processo atual.

Em primeiro lugar, a vitória esmagadora do capital sobre o trabalho.

A eclosão da crise do capital, que começou por volta de 1970, encontrou um chão fértil para permitir que este enfrentasse esta crise com uma brutal intensificação da exploração da classe trabalhadora. A intensificação da exploração se deu, de modo prioritário, através da reestruturação produtiva, isto é, da reorganização da produção de modo a permitir a retomada dos lucros do capital. Privatização de empresas estatais, privatização de serviços públicos, aumento do desemprego e do subemprego, precarização do trabalho, intensificação da exploração dos que ainda permaneciam empregados, supressão de direitos duramente conquistados, corte dos gastos públicos e com isso, agravamento dos problemas sociais de toda ordem: saúde, educação, transporte, alimentação, moradia, saneamento, segurança, urbanização, cultura e lazer, devastação da natureza. Tudo deveria ser organizado no sentido de garantir os lucros dos capitalistas nem que, para isso, fosse preciso destruir a humanidade.

Ao mesmo tempo, o Estado foi reorganizado sempre no sentido de favorecer o capital e garantir o controle e a submissão da classe trabalhadora. Nunca, como neste momento, foi e está sendo, tão verdadeira a afirmação de Marx e Engels, no Manifesto Comunista, de que o Estado é “o comitê executivo dos negócios da burguesia”. Umas poucas grandes corporações ditam, utilizando o Estado, as regras de todas as políticas econômicas mundiais.

Em segundo lugar, a perda do horizonte revolucionário. O desmoronamento dos países ditos socialistas pareceu confirmar, empiricamente, a ideia de que o socialismo é impossível. O que se apresentou como socialismo em vez de ser uma sociedade superior ao capitalismo se manifestou, na verdade, como um precário igualitarismo e, ao mesmo tempo, como supressão das liberdades democráticas e cidadãs, como brutal ditadura, como um sistema repressivo, como um Estado todo-poderoso e como um menosprezo pela individualidade. Desde então, o horizonte mais presente é, no máximo, aquele do aperfeiçoamento da atual ordem social.

Mesmo para aqueles que ainda pretendiam construir um mundo melhor, a alternativa, tanto pela via social-democrata como pela via revolucionária resumia-se a atribuir ao Estado a tarefa de dirigir o processo de transformação social. Para isso, seria necessário conquistar o Estado e colocar todos os partidos, sindicatos e movimentos sociais sob a direção desse Estado, supostamente posto, agora, a serviço dos interesses das classes subalternas.

Tudo isso contribuiu para orientar a classe trabalhadora e todos os movimentos sociais no sentido de lutar não contra o capital e contra Estado, mas com o capital e com o Estado no o objetivo de conquistar melhorias pontuais sem nunca colocar em questão a ordem social capitalista.

As ideias de revolução, de socialismo, de superação de toda exploração e dominação do homem pelo homem, de construção de uma sociedade realmente igualitária foram substituídas pelas ideias de reforma, democracia, cidadania, universalização de direitos, melhorias gradativas.

A pressuposição era de que, não sendo o socialismo algo possível, a única alternativa razoável seria o aperfeiçoamento da atual ordem social capitalista.

A enorme maioria dos partidos que se pretendia representante dos interesses da classe trabalhadora foi assumindo esta perspectiva reformista, mesmo quando conservava o nome de comunista ou socialista, contribuindo, poderosamente, para a deseducação da classe trabalhadora e das lutas sociais.

Deste modo, os inúmeros movimentos sociais que surgiram foram vistos ora como substitutos do verdadeiro sujeito revolucionário ora como simples momentos de reivindicação de melhorias pontuais.

Este conjunto de circunstâncias gerou uma ideologia profundamente conservadora e individualista. Disseminou-se a ideia de que esta forma de sociabilidade seria a última (fim da história) e a melhor possível, apesar dos seus defeitos; que ela seria indefinidamente aperfeiçoável; que o sucesso ou insucesso dependeria apenas do esforço individual; um sentimento de impotência diante da solidez do sistema; uma perda de compreensão do processo histórico; um espírito de superficialidade, que leva a ver a história como a repetição indefinida do momento atual; uma fragmentação do conhecimento, que impede a compreensão da realidade como uma totalidade articulada.

Em resumo: as consequências mais importantes de tudo isso foram: a perda do horizonte revolucionário e sua substituição por um horizonte reformista; a descrença na possibilidade de mudar o mundo na sua totalidade e o apego a reformas pontuais; a sensação de impotência diante dos problemas sociais; a ideia de que todas as lutas deveriam confluir para o Estado, ou para tomá-lo e, supostamente, colocá-lo a serviço das classes populares ou para arrancar dele melhorias pontuais; o acento na ação individual e eleitoral em substituição à luta coletiva.

Com tudo isto, no momento de sua crise mais séria (a partir de 1970), o capital vê seu caminho inteiramente livre para enfrentar o agravamento dos seus problemas com a intensificação da exploração da classe trabalhadora de uma maneira incrivelmente brutal. Isto porque o seu adversário histórico – o proletariado – a classe que poderia liderar  a oposição mais consequente ao capital se encontrava ideológica e politicamente desnorteado e desorganizado quando não atrelado ao próprio Estado por obra e graça de partidos, centrais sindicais e sindicatos que se diziam defensores dos interesses da classe trabalhadora. Desamparadas de seu líder natural, as demais lutas sociais, justas e importantes, não conseguem ultrapassar os limites de reivindicações pontuais no interior do capitalismo, confluindo sempre para o Estado. Não há nenhum questionamento mais profundo do capital e do Estado. E já que socialismo é confundido com falta de liberdades democrático-cidadãs, com ditadura, com partido único e todo-poderoso, com supressão de toda propriedade, inclusive a individual, com menosprezo do indivíduo, então sobra apenas a busca do aperfeiçoamento da democracia e da cidadania

2. A situação atual no Brasil

No Brasil, a chegada do PT ao poder se deu em meio ao enfrentamento da crise do capital através da reestruturação produtiva e da retomada da ideologia liberal. A aparente oposição deste partido aos interesses do capital gerou uma enorme expectativa de mudanças substanciais. Apesar das alianças problemáticas, o crédito concedido pelas classes subalternas foi enorme.

Além do mais, o PT carregava consigo a confiança da maioria da classe trabalhadora, da maioria dos outros partidos ditos de esquerda (PCdoB, PDT, PSB) e da maioria dos sindicatos e Centrais Sindicais.

Uma situação internacional favorável aos países periféricos – já que o foco principal dela estava nos países centrais – permitiu ao governo enfrentar a crise mundial de modo a suavizar os seus efeitos. Contudo, as linhas mestras da política econômica não destoavam do conjunto das políticas mundiais. Todas elas estavam direcionadas no sentido de garantir os interesses do capital descarregando o peso do enfrentamento da crise sobre os ombros da classe trabalhadora e das demais classes populares.

Foi-se gerando, então, a ideia de que esse seria o caminho para a superação dos problemas sociais no Brasil: um pacto entre o capital (representado por parte da burguesia) e o trabalho (representado pela maioria da classe trabalhadora), no qual ambos sairiam ganhando e possibilitaria ao Brasil elevar-se à posição de membro dos países mais desenvolvidos!

No entanto, aos poucos, o caminho ia ficando claro: nenhuma mudança estrutural, apenas a busca de um caminho para a inserção do Brasil na economia mundial do capital em crise profunda. Para isso, continuidade das privatizações (via concessões, parcerias público-privadas, isenções fiscais, mercantilização de tudo, corte dos gastos públicos, privatização de serviços públicos, favorecimento dos interesses privados (bancos, empreiteiras, agro-negócio, montadoras…). Ao lado disso, a montagem de políticas sociais compensatórias (bolsas de diversos tipos), que permitiriam minimizar os aspectos mais gravosos dos problemas sociais.

O orçamento nacional (tomando como exemplo o de 2012 e assinalando apenas alguns elementos) mostra claramente onde estão as prioridades para a destinação dos recursos públicos: 43,98% para pagamento da dívida pública; 22,47% para previdência social; 10,21% para transferência para Estados e Municípios; 4,17% para saúde; 3,34% para educação, 2,42% para trabalho; 3,15% para assistência social; 0,39% para segurança pública; 0,70% para transporte; 0,01% para habitação; 0,06% para urbanismo; 0,02% pra desportos e lazer 0,04% para energia; 0,05% para cultura.

Na esfera política deu-se uma completa transformação do PT em um partido típico burguês: sistema de alianças com partidos e grupos sociais conservadores e mesmo reacionários, corrupção, apadrinhamentos, utilização dos bens públicos para fins privados, carreirismo, manipulação das massas com fins eleitoreiros, criminalização das lutas sociais, favorecimento dos grandes grupos empresariais. O PT, que se tinha apresentado como campeão da “ética na política” acabou chafurdando no mesmo lamaçal em que sempre se espojaram todos os partidos políticos. Todos eles utilizando a população apenas como massa de manobra em momentos eleitorais, para depois esquecê-la e buscar apenas a satisfação dos interesses da burocracia partidária e dos seus financiadores.

As consequências disto foram o agravamento dos problemas sociais com o consequente aumento da insatisfação social; o descrédito nas instituições políticas; a despolitização, a alienação e o apassivamento da maioria da população; a confusão ideológica e política; a percepção da enorme desigualdade social, pois enquanto alguns poucos (bancos, empreiteiras, montadoras, agro-negócio, etc.) enriqueciam, a maioria da população via aumentar muito pouco a sua participação na riqueza gerada. Tudo isto, ainda, agravado, nos últimos meses, pelo aumento da inflação, pela deterioração nos serviços públicos e por gastos bilionários com a construção e reforma de estádios de futebol.

Como resultado de tudo isto, a violência se tornou cada vez mais presente na vida social, atingindo, embora de modo muito diferente, todas as classes sociais. Os ricos vêem ameaçado o seu patrimônio e os pobres se sentem abandonados pelo Estado, quando não, muitas vezes, eles próprios vítimas da violência do Estado.

Por sua vez, a juventude vê estreitar-se cada vez mais o seu horizonte. Além de sofrer com a deterioração dos serviços públicos, também se vê engrossando cada vez mais um enorme exército de reserva, que dificilmente será absorvido pelo mercado de trabalho.

Ainda mais: a corrosão do nível de vida da classe média aumentou também as suas preocupações e a sua insatisfação. Insatisfação esta que, por um lado se dirige contra a relação entre o alto pagamento de impostos e o que é recebido em troca como serviço público, de péssima qualidade e, por outro lado, contra o que ela vê como favorecimento das classes populares em detrimento de si mesma, interpretando isto como uma política governamental assistencialista que privilegia os que não trabalham.

3. Desdobramentos

Embora pipocassem, aqui e ali, lutas setoriais, nada parecia indicar uma iminente explosão. Mas, a caldeira estava aumentando a sua fervura. A questão do aumento do transporte foi apenas a gota d´água que fez explodir a insatisfação que estava latente.

Surgem, então, as mais variadas reivindicações.

Como resultado de todo o processo acima descrito, não é de admirar que, neste momento, haja uma enorme confusão ideológica e política.

Também não é de admirar que não haja clareza quanto aos objetivos a médio e longo prazo.

Do mesmo modo, não é de admirar que os reacionários e conservadores procurem direcionar esse movimento para seus fins. O surgimento de movimentos fascistas, integralistas, nazistas não é algo estranho a estas situações. Isto já foi visto em outros momentos históricos.

Por sua vez, a rejeição aos partidos é compreensível, embora não justificável, porque a maioria, despolitizada, vê toda atividade partidária pela lente de um sistema político totalmente degenerado. A ampla maioria dos participantes destas manifestações não é nem de esquerda, nem de direita nem de centro. Simplesmente está reagindo motivada por uma insatisfação que, provavelmente, no fundo, tem a ver com a frustração relativa às suas perspectivas de vida. A falta de um maior esclarecimento acerca das causas mais profundas dos problemas sociais pode facilmente tornar essas massas presa de grupos reacionários e/ou de indivíduos “salvadores”.

As classes dominantes, por sua vez, diante do agravamento dos problemas, procurarão, por todos os modos, defender os seus interesses: intensificando a repressão, aumentando as políticas de austeridade, isto é, de exploração do trabalho e a criminalização das lutas sociais.

Mas, em tudo isso, há ainda um elemento profundamente preocupante. A classe operária está praticamente ausente dessas manifestações, pelo menos como classe consciente e organizada. Algumas pesquisas parecem indicar que, entre os manifestantes, encontram-se muitos, especialmente mais jovens, trabalhadores precarizados e desempregados. O fato é que o grosso da classe trabalhadora ainda não entrou em cena. E por essa ausência, como vimos acima, a esquerda (partidos e sindicatos) tem uma enorme responsabilidade.

Vê-se que, mesmo onde esta classe intervém de forma mais expressiva e organizada, como na Grécia, em Portugal, na Espanha, ela não tem um projeto próprio claramente contrário ao capital e ao Estado, projeto este que só poderia ser o resultado de um longo processo de construção. A tônica das reivindicações é, de modo geral, por reformas e por outro tipo de Estado, mais preocupado com as questões sociais.

De modo especial, aqui no Brasil, o atrelamento da classe trabalhadora ao Estado dirigido pelo PT tem um enorme impacto no sentido de enfraquecer e desnortear essas lutas que estão surgindo espontaneamente. Impediu que se formasse a convicção de que a solução dos problemas sociais passa pela superação radical do capitalismo e pela construção de uma sociedade socialista. Infelizmente, a tônica da polarização, por uma grande parte da esquerda, era colocada na contraposição entre PSDB (o caminho do mal) e PT (o caminho do bem) e não entre capital e trabalho. Acresce a isso o fato de que inclusive partidos e organizações sociais, que se pretendem de esquerda e de oposição, imprimiram ao seu trabalho um forte viés eleitoral. Embora existam, são raras e de expressão ainda bastante reduzida as organizações partidárias e movimentos sociais, que não imprimiram às suas lutas um viés eleitoral. Tudo isso contribui para iludir as massas fazendo-as acreditar que a resolução dos problemas sociais se centra em questões éticas (contra a corrupção, contra a malversação de recursos públicos), administrativas (melhor gestão dos recursos públicos, menor impostos) e/ou políticas (reforma política) passa pela conquista do Estado e por reformas realizadas por ele.

4. Nossas tarefas

Neste momento, agitação (poucas ideias para muitas pessoas) e propaganda (muitas ideias para poucas pessoas) são fundamentais para ajudar na politização, no esclarecimento e na definição dos objetivos. A esquerda terá que se reinventar, deixando de lado sectarismos e vanguardismos, para poder influenciar nos rumos das lutas atuais e futuras.

É importante mostrar às massas a relação entre os diversos problemas setoriais, a natureza do capital e a atual crise a que ele submete a humanidade.

É importante esclarecer que a solução dos problemas não pode ser encontrada dentro do capitalismo; que a resolução dos problemas, que são universais, só pode ser encontrada com a superação radical do capitalismo e a construção de uma sociedade socialista.

Para isso, é importantíssimo explicar o que é socialismo, desfazendo os equívocos em relação aos países ditos socialistas e deixando clara a sua superioridade em relação ao capitalismo.

É importante esclarecer que o problema não é a corrupção (inerente ao capitalismo), nem a “bandalheira” dos políticos (também inevitável), nem a falta de “vontade política” dos governantes, muito menos este governo – cujo núcleo é o PT – (porque todo governo cumpre a função essencial do Estado que é a defesa dos interesses das classes dominantes), mas, que as causas mais profundas se situam na lógica do capital, na exploração dos trabalhadores pelos capitalistas e na existência da propriedade privada.

Como dizia Lenin, é preciso “explicar, explicar e explicar”, sem reducionismos sem sectarismo, sem acusações, mas procurando mostrar a conexão entre as diversas reivindicações e as causas fundamentais dos problemas sociais.

Mas, a tarefa mais importante, é, sem dúvida, contribuir para que a classe trabalhadora volte a assumir o seu lugar como sujeito fundamental das transformações sociais. Ela, porém, só poderá voltar a ocupar este lugar na medida em que se organizar ideológica e politicamente contra o capital e, também, contra o Estado. Considerando o pano de fundo acima descrito e as suas consequências, essa não será uma tarefa nada fácil. No entanto, absolutamente necessária e decisiva. Os exemplos das lutas da chamada “primavera árabe”, das grandes manifestações em vários países da Europa e nos vários tipos de “Occupy” mostram, claramente, que a ausência da classe trabalhadora como sujeito fundamental deste processo, com um projeto revolucionário, impede o avanço das lutas no sentido da resolução radical dos problemas sociais.

Maceió, 24 de junho de 2013


* IVO TONET é Doutor em Educação pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho e professor de Filosofia da Universidade Federal de Alagoas

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7 comentários sobre “Sobre as atuais manifestações

  1. Grande reflexão! Com ela aprendi mais um pouco. Aprendi que a restruturação produtiva foi a principal responsável e companheira do Neoliberalismo. Pude perceber algo mais em relação aos sindicatos e ao imposto sindical. Quando a grande indústria se expandiu e consolidou por toda parte também tinham surgidos os sindicatos e os partidos de trabalhadores e a política socialdemocrata destes também tinha se afirmado por toda parte. Mas esta se dividiu entre revolucionários e reformistas, de modo que os primeiros conquistaram a efetivação da Revolução Russa que criou a URSS, enquanto os segundos permaneceram conquistadores da democracia socialdemocrata e do Estado do Bem-Estar Social. Ora, aqui, no Brasil, em 1917, eram os anarco-sindicalistas que ecoavam a Revolução Russa, mas, em 1922, no Brasil, os comunistas já eram fruto da intervenção política da III Internacional, fundada e dirigida pela URSS, que queriam sindicatos livres do sectarismo anarquista antipartido e partidos comunistas, finalmente, depois da Revolução de 30, foi introduzido o imposto sindical que expandiu um sindicato com forte conexão estatal. A reestruturação produtiva da época feita pela grande indústria expandida por todo lado foi também aquela que deu origem ao Estado do Bem-Estar Social e à URSS. A Revolução de 30 foi uma opção pelo Estado do Bem-Estar Social que buscou manter distância da URSS e do Nazifascismo que tinha se qualificado como alternativa à Socialdemocracia e ao Comunismo. De todo modo, o sindicalismo tinha se tornado um poder que, na Europa, tinha passado a participar do sistema representativo por seus reconhecidos direitos de livre organização e livre expressão, mas o risco de seu poderio viabilizar uma nova URSS em lugar duma Socialdemocracia justificava que o reconhecimento da sua representatividade fosse ao mesmo tempo um modo de controle da mesma, daí o imposto sindical. Pois bem, com a outra reestruturação produtiva que se associa ao Neoliberalismo a promoção do novo sindicalismo das negociações diretas entre trabalhadores e capitalistas sem intervenção do Estado, do predomínio dos acordos saídos de tais negociações sobre a legislação vigente, dum sindicalismo que oferece a conquista de planos de saúde como ponto programático de todas as chapas sindicais que apoia, que se diz contrário ao imposto sindical porque considera muito mais importante e fundamental a afirmação de sua independência de classe etc. É este novo sindicalismo que funda o PT, quer dizer, um partido dos trabalhadores independente do Estado mas precisamente no momento que afirmar a independência do Estado e uma minimização do Estado é afirmar a tal da redução do Estado a um “Comitê da Burguesia”. O PT cresce e se desenvolve junto com o crescimento e desenvolvimento do Neoliberalismo, quer dizer, junto com a expansão e consolidação da reestruturação produtiva e, assim, chega ao governo. As tais das ideias fora de lugar estão presentes aqui de um modo que questiona a opção revolucionária pela independência de classe num lugar, melhor, num espaço-tempo onde todas as lutas “revolucionárias” conduzem a maior representatividade do capitalismo produtivamente reestruturado. As revoluções, usuárias das redes sociais da reestruturação produtiva da tecnologia atual, tem conduzido os revolucionários das manifestações e mudanças até à revitalização do status quo (o Syriza na Grécia, a primavera árabe no Egito etc.), mas não se vê em parte alguma uma superação do capitalismo e isto não é um problema da vontade revolucionária versus a vontade reformista, mas ao contrário é um problema do poder da vontade da nova tecnologia na conjuntura capitalista. Quais as relações da vontade revolucionária com a nova tecnologia? É possível se livrar do Estado com a nova tecnologia ou, ao contrário, a nova tecnologia é portadora da característica principal da revolução burguesa: a emancipação política! Ou seja, é uma tecnologia própria e adequada ao Estado que alcançou a perfeição e está livre da Sociedade Civil e/ou das corporações e dos corporativismos característicos do Estado do Antigo Regime bem como dos sindicatos e partidos dos trabalhadores do Estado do Bem-Estar Social, portanto, é um Estado perfeito e impossibilitado por completo de ser o Estado duma “República Sindical”, por isso, para tal Estado, o imposto sindical é a sobrevivência de uma ameaça passadista à perfeição que conquistou, ainda que tal imposto sindical e o sindicalismo dele dependente em nada altere sua independência de Estado perfeito e emancipado, porém, como sobrevivência duma dependência do antigo Estado imperfeito e não-emancipado e/ou sob risco de ser aprisionado às imperfeições da Sociedade Civil e, desse modo, impedido de julgar como Estado emancipado e perfeito tais imperfeições.

    Parece que o Estado perfeito e emancipado é o Estado de Direito da Liberdade de julgar as imperfeições da Sociedade Civil de forma inteiramente livre, quer dizer, sem se sentir dependente de nenhuma das corporações e das classes da Sociedade Civil. O problema da imperfeição da Sociedade Civil para o Estado emancipado e perfeito não é um problema dele Estado perfeito e emancipado, mas sim um problema social, um problema próprio e inerente à Sociedade Civil imperfeita e não emancipada que é sim uma sociedade de classes e que precisa sim de um Estado perfeito e emancipado que possa julgar seus conflitos sociais e juridicamente estabelecer as melhores soluções para eles, caso a caso. Com isso, fica claro, por outro lado, que a sociedade de classes, que é a Sociedade Civil imperfeita e não-emancipada das diferenças sociais, precisa do Estado perfeito e emancipado, enquanto que este não precisa dela, ainda que sem ela perca sua razão de ser e se dissolva na Sociedade Civil perfeita e emancipada das diferenças sociais e/ou de classes.

    Então, dentro da luta de classes da Sociedade Civil imperfeita que conseguiu um Estado perfeito e emancipado e/ou em processo de aperfeiçoamento e emancipação política, a questão é enfrentar o problema inerente à Sociedade Imperfeita e de classes que é o problema da Servidão duma classe a outra classe (numa continuação da dialética do Senhor e do Escravo), logo, o problema na esfera do Estado do Direito da Liberdade é o combate dentro da Sociedade Civil imperfeita à Servidão imposta por uma classe sobre outra e isto corresponde na esfera Jurídica ao combate do Estado do Direito da Liberdade ao Estado do Dever da Servidão.

    Será que isto é uma contribuição para superar o eterno retorno do capitalismo?! Em todo caso, creio, que, aqui e agora, aprendi com este texto do Ivo Tonet mais do que havia aprendido sozinho, ainda que, confesso, aprendi mais sobre meus pensamentos latentes e/ou não-manifestos com este “Sobre as atuais manifestações”. Sou grato ao Ivo Tonet por me fazer avançar a minha própria reflexão.

  2. Acredito que faltou a explicação do motivo pelo qual a classe trabalhadora não estava no protesto. Não estava e nem vai estar pois o momento é da crise do trabalho produtor de valor, portanto concordo com a revisão do conceito de que a classe trabalhadora tem potencial revolucionário. Ela está enfraquecida pelas circunstâncias, potencial revolucionário é esta massa que nega o partido, não quer o que está aí mas não sabe o que vai colocar no lugar. Este é o nosso momento histórico. Vivencia-se a crise da representação burguesa, os partidos tanto de direita quanto de esquerda. Será que não podemos pensar para alem desta representação? Os jovens insinuam o caminho, a esquerda marxista presa a conceitos que não cabem mais na realidade insistem…não chegaremos a lugar nenhum, na luta contra não só o capital mas contra capital e trabalho é esta a dialética.

  3. Trata-se um esforço louvável do Marxismo tradicional. Certamente possui limitações e necessidade de uma oxigenação a partir de novas idéias e conceitos, não obstante, apresenta um elemento muito pertinente, próprio do pensamento Marxiano, que não vejo nas análises correntes na Mídia: a dimensão da totalidade, o modo como esse evento se inscreve em uma dinâmica estrutural, a forma como ele não é apenas um levante isolado nacionalmente mas se inscreve em uma dinâmica do capitalismo em sua fase neoliberal. O próprio autor já deixa algumas indicações para a renovação do próprio Marxismo atual, trata-se de reinventar a esquerda sem vanguardismo ( acrescentaria que ela urgentemente incorpora-se as pautas dos novos movimentos sociais e minorias ) e mostrar a multidão ( e aqui me oponho a massa ) a “a relação entre os diversos problemas setoriais, a natureza do capital e a atual crise a que ele submete a humanidade”.

  4. A classe operária mudou, tecnologias de informação mudaram nossa maneira de viver em sociedade etc, etc. Não seria tempo de rever o Marxismo também? De rever paradigmas como esquerda-direita, socialismo-capitalismo? Será que não devemos buscar fontes anteriores a Karl Marx e a revolução Francesa?

  5. A ANÁLISE DO PROF. IVO TONET É UM BELO CLÁSSICO DO MARXISMO E, COMO TAL, INESGOTÁVEL EM ATUALIDADE E BOAS PROVOCAÇÕES. AQUI, SISTEMATIZO AS SUAS TESES PRINCIPAIS SOBRE AS “CAUSAS MAIS PROFUNDAS DO PROCESSO HISTÓRICO”, PARA SE CRIAR UMA LENTE ESTRUTURAL PERTINENTE PARA A ANÁLISE DAS MANIFESTAÇÕES DE JUNHO DE 2013 NO BRASIL. Para compreender o que está acontecendo, atualmente, no Brasil, é preciso voltar um pouco na história. Em primeiro lugar, a vitória esmagadora do capital sobre o trabalho. A eclosão da crise do capital, que começou por volta de 1970, encontrou um chão fértil para permitir que este enfrentasse esta crise com uma brutal intensificação da exploração da classe trabalhadora. Ao mesmo tempo, o Estado foi reorganizado sempre no sentido de favorecer o capital e garantir o controle e a submissão da classe trabalhadora. Em segundo lugar, a perda do horizonte revolucionário. O desmoronamento dos países ditos socialistas pareceu confirmar, empiricamente, a ideia de que o socialismo é impossível. Desde então, o horizonte mais presente é, no máximo, aquele do aperfeiçoamento da atual ordem social. Mesmo para aqueles que ainda pretendiam construir um mundo melhor, a alternativa, tanto pela via socialdemocrata como pela via revolucionária resumia-se a atribuir ao Estado a tarefa de dirigir o processo de transformação social. Tudo isso contribuiu para orientar a classe trabalhadora e todos os movimentos sociais no sentido de lutar não contra o capital e contra Estado, mas com o capital e com o Estado no o objetivo de conquistar melhorias pontuais sem nunca colocar em questão a ordem social capitalista. A enorme maioria dos partidos que se pretendia representante dos interesses da classe trabalhadora foi assumindo esta perspectiva reformista, mesmo quando conservava o nome de comunista ou socialista, contribuindo, poderosamente, para a deseducação da classe trabalhadora e das lutas sociais. Este conjunto de circunstâncias gerou uma ideologia profundamente conservadora e individualista. Disseminou-se a ideia de que esta forma de sociabilidade seria a última (fim da história) e a melhor possível, apesar dos seus defeitos; que ela seria indefinidamente aperfeiçoável; que o sucesso ou insucesso dependeria apenas do esforço individual, havendo um sentimento de impotência diante da solidez do sistema e uma perda de compreensão do processo histórico, predominando um espírito de superficialidade que leva a ver a história como a repetição indefinida do momento atual.
    No Brasil, a chegada do PT ao poder se deu em meio ao enfrentamento da crise do capital através da reestruturação produtiva e da retomada da ideologia liberal. A aparente oposição deste partido aos interesses do capital gerou uma enorme expectativa de mudanças substanciais. Apesar das alianças problemáticas, o crédito concedido pelas classes subalternas foi enorme, mas ao preço de um pacto entre o capital (representado por parte da burguesia) e o trabalho (representado pela maioria da classe trabalhadora), no qual ambos sairiam ganhando e possibilitaria ao Brasil elevar-se à posição de membro dos países mais desenvolvidos! No entanto, aos poucos, o caminho ia ficando claro: nenhuma mudança estrutural, apenas a busca de um caminho para a inserção do Brasil na economia mundial do capital em crise profunda. Na esfera política deu-se uma completa transformação do PT em um partido típico burguês: sistema de alianças com partidos e grupos sociais conservadores e mesmo reacionários, corrupção, apadrinhamentos, utilização dos bens públicos para fins privados, carreirismo, manipulação das massas com fins eleitoreiros, criminalização das lutas sociais, favorecimento dos grandes grupos empresariais.
    As consequências disto foram o agravamento dos problemas sociais, com o consequente aumento da insatisfação social, o descrédito nas instituições políticas, a despolitização, a alienação e o apassivamento da maioria da população, a confusão ideológica e política, a percepção da enorme desigualdade social, pois enquanto alguns poucos (bancos, empreiteiras, montadoras, agro-negócio, etc.) enriqueciam, a maioria da população via aumentar muito pouco a sua participação na riqueza gerada. Tudo isto, ainda, agravado, nos últimos meses, pelo aumento da inflação, pela deterioração nos serviços públicos e por gastos bilionários com a construção e reforma de estádios de futebol. Como resultado de tudo isto, a violência se tornou cada vez mais presente na vida social, atingindo, embora de modo muito diferente, todas as classes sociais. Os ricos vêem ameaçado o seu patrimônio e os pobres se sentem abandonados pelo Estado, quando não, muitas vezes, eles próprios vítimas da violência do Estado. A corrosão do nível de vida da classe média aumentou também as suas preocupações e a sua insatisfação. Insatisfação esta que, por um lado se dirige contra a relação entre o alto pagamento de impostos e o que é recebido em troca como serviço público, de péssima qualidade e, por outro lado, contra o que ela vê como favorecimento das classes populares em detrimento de si mesma, interpretando isto como uma política governamental assistencialista que privilegia os que não trabalham.
    Nesse cenário, a rejeição aos partidos é compreensível, embora não justificável, porque a maioria, despolitizada, vê toda atividade partidária pela lente de um sistema político totalmente degenerado. A ampla maioria dos participantes destas manifestações não é nem de esquerda, nem de direita nem de centro. Simplesmente está reagindo motivada por uma insatisfação que, provavelmente, no fundo, tem a ver com a frustração relativa às suas perspectivas de vida. A falta de um maior esclarecimento acerca das causas mais profundas dos problemas sociais pode facilmente tornar essas massas presas fáceis de grupos reacionários e/ou de indivíduos “salvadores”. As classes dominantes, por sua vez, diante do agravamento dos problemas, procurarão, por todos os modos, defender os seus interesses: intensificando a repressão, aumentando as políticas de austeridade, isto é, de exploração do trabalho e a criminalização das lutas sociais. Mas, em tudo isso, há ainda um elemento profundamente preocupante. A classe operária está praticamente ausente dessas manifestações, pelo menos como classe consciente e organizada. De modo especial, aqui no Brasil, o atrelamento da classe trabalhadora ao Estado dirigido pelo PT tem um enorme impacto no sentido de enfraquecer e desnortear essas lutas que estão surgindo espontaneamente. Acresce a isso o fato de que inclusive partidos e organizações sociais, que se pretendem de esquerda e de oposição, imprimiram ao seu trabalho um forte viés eleitoral. Tudo isso contribui para iludir as massas fazendo-as acreditar que a resolução dos problemas sociais se centra em questões éticas (contra a corrupção, contra a malversação de recursos públicos), administrativas (melhor gestão dos recursos públicos, menor impostos) e/ou políticas (reforma política) passa pela conquista do Estado e por reformas realizadas por ele.
    É importante esclarecer que o problema não é a corrupção (inerente ao capitalismo), nem a “bandalheira” dos políticos (também inevitável), nem a falta de “vontade política” dos governantes, muito menos este governo – cujo núcleo é o PT – (porque todo governo cumpre a função essencial do Estado que é a defesa dos interesses das classes dominantes), mas, que as causas mais profundas se situam na lógica do capital, na exploração dos trabalhadores pelos capitalistas e na existência da propriedade privada. Mas, a tarefa mais importante, é, sem dúvida, contribuir para que a classe trabalhadora volte a assumir o seu lugar como sujeito fundamental das transformações sociais. Ela, porém, só poderá voltar a ocupar este lugar na medida em que se organizar ideológica e politicamente contra o capital e, também, contra o Estado. Os exemplos das lutas da chamada “primavera árabe”, das grandes manifestações em vários países da Europa e nos vários tipos de “Occupy” mostram, claramente, que a ausência da classe trabalhadora como sujeito fundamental deste processo, com um projeto revolucionário, impede o avanço das lutas no sentido da resolução radical dos problemas sociais.

  6. A DIALÉCTICA DO CONTRÁRIO
    Citamos:1. O pano de fundo
    “Para compreender o que está acontecendo, atualmente, no Brasil, é preciso voltar um pouco na história.”
    Contestamos:
    É preciso atualizar a História. Conhecer o Presente e Construir o Futuro. Negar a Verdade Estabalecida pelos Poderes dos Senhores do Poder. As Oligarquias e as Elites Colinizadoras. A Verdade nas Ruas e na Voz do Povo. Ouví-la!
    Francisco de Alencar
    Professor
    Fortaleza Brasil.

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