Um “saco de batatas”, spray de pimenta, vinagre: a salada heterogênea e inconstante dos recentes protestos populares

RUI BRAGADO SOUSA*

“Apenas o historiador míope considera ‘cegas’ as explosões da multidão” (Edward Thompson, Costumes em Comum).

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No calor da hora toda convicção pode reduzir-se ao equivoco. Por isso este texto busca interpretar de forma parcial a recente onda de protestos que cobriu o país. Passadas as primeiras horas de empolgação e apoio irrestrito é necessária uma análise fria e racional. Talvez o método de “escovar a história a contrapelo” ou nadar contra a corrente possa chocar o leitor que se apóia nas conclusões midiáticas e do senso comum. No entanto, é preciso cautela e lembrar a “marcha da família com Deus e pela liberdade”, o ensaio geral para o golpe civil-militar de 1964, bem como a greve de caminhoneiros que desestabilizou o Chile e abriu as portas para a deposição de Allende, ou ainda os pomposos desfiles dos camisas negras de Mussolini e das S.A. de Hitler. Em todos os casos a opinião pública declarou apoio irrestrito à multidão; as conseqüências disso todos conheceram.

Essa reflexão naturalmente não invalida a legitimidade do movimento, ao menos suas motivações iniciais: o passe livre, reduzir a tarifa e melhoria do transporte coletivo. Nada mais justo. Entretanto, a história nos dá provas de que não importa a benevolência e altruísmo das ações de massa, mas sim a apropriação que se faz a posteriori das suas conseqüências, nesse sentido a multidão – sobretudo de estudantes – é constantemente manipulada como “massa de manobra”. A inconsistência e heterogeneidade do movimento corroboram com a tese de que não existe uma representação própria para seus anseios e objetivos imediatos, antes, são representados por uma elite que não anda de ônibus e, portanto, não teria motivos para protestar.

É nesse sentido que se faz conveniente lembrar a máxima de Karl Marx sobre a falta de consciência de classe dos camponeses durante as Revoluções de 1848: um saco de batatas. A classe trabalhadora lutava ainda contra os inimigos de seus inimigos, ou seja, contra os inimigos da burguesia, a nobreza. Constituía uma classe em si, mas não uma classe para si. O proletariado foi definido por Marx com o termo lumpen, literalmente “trapo” em alemão, como uma colcha de retalhos, são os trapos que sobram quando tenta-se unir o tecido principal. O lumpemproletariado deu o tom para a trágica ascensão de Luis Bonaparte em 1850, frustrando e interrompendo a luta legitima do verdadeiro proletariado por vinte anos, até a Comuna de Paris, em 1871.

As rebeliões e protestos populares durante a Revolução Industrial oferecem-nos importantes chaves comparativas com o atual movimento. Respeitadas as diferenças de tempo e espaço, algumas comparações podem auxiliar as breves conclusões esboçadas ao final. Vejamos alguns exemplos.

Em 1768, quando, entre a multidão que cercou a Câmara dos Lordes, havia pessoas que gritavam ‘que o pão e a cerveja estavam caros demais e que tanto valia morrer na forca como de fome’. É o que nos conta George Rudé (1991, p. 272) em excelente trabalho sobre a multidão na história. O autor conclui que “inconstância ou ‘imobilidade’ da multidão é, evidentemente, um mito que se santificou pela repetição. Umas das palavras inglesas para multidão, mobb, vem do latim móbile vulgus, não sendo de surpreender que as classes ricas, sempre que foram impotentes para controlar as energias da multidão, a tivessem considerado um monstro inconstante, ao qual faltava qualquer lógica. “De fato, o estudo da multidão pré-industrial sugere que ela se amotinou visando a objetivos preciosos e raramente empenhou-se em ataques indiscriminados a propriedades ou pessoas”.

Thompson (1998, pp. 152 e 155) veria o século XVIII como um período de crescente confrontação entre a economia de mercado inovadora, baseada no laissez-faire e uma economia moral das plebes, fundamentada na tradição paternalista e no direito consuetudinário. “O modelo paternalista existia no corpo da lei estatuária, bem como no direito consuetudinário e no costume”. “É possível detectar em quase toda ação popular do século XVIII uma noção legitimadora (…) defendendo direitos tradicionais; e de que, em geral tinham o apoio e o consenso mais amplo da comunidade. De vez em quando esse consenso era endossado por alguma autorização concedida pela comunidade”.

Esses motins ou rebeliões não tinham como objetivo a destruição de bens materiais (como ocorre posteriormente com o Ludismo), era um movimento coletivo, pouco organizado, onde a ação principal não era o saque de celeiros nem o furto de grãos de farinha, mas fixar o preço. Esse processo estava enraizado na mentalidade das massas graças a uma construção história de longa duração (no sentido de Fernand Braudel), baseada no Book of Orders que, desde o reinado de Elizabeth, garantia o abastecimento mínimo de cereais à população através de magistrados que regulavam a distribuição, os estoques e até o preço dos grãos. Era, de fato, a intervenção e o controle do abastecimento por parte do Estado. Em suma, o poder de fixar o preço dos grãos e de farinha ficava, numa emergência, a meio caminho entre a imposição e a persuasão.

Fixar o preço do alimento e até do dizimo: “Em muitas paróquias, o primeiro lugar visitado foi a casa do pároco, onde o ocupante era solicitado com cortesia, mas com firmeza, a reduzir os dízimos”. Em Sussex os dízimos foram baixados de 1400 libras para 400 libras. “Párocos da Igreja Anglicana foram advertidos para que abrissem mão de seus dízimos” (RUDÉ, 1991, p. 174).

No entanto, esse modelo econômico baseado na regulamentação e no abastecimento direto do produtor ao consumidor, sem a presença do intermediário ou do atravessador, foi paulatinamente suprimido no decorrer da segunda metade do século XVIII. O modelo paternalista estava se rompendo em muitos pontos e a legislação contra a compra de mercadorias antecipadas fora revogada em 1772. Nesse período o modelo paternalista tinha “uma experiência real fragmentaria. Nos anos de boa colheita e preços moderados, as autoridades caiam no esquecimento. Mas se os preços subiam e os pobres se tornavam turbulentos, o modelo era ressuscitado, pelo menos para produzir um efeito simbólico” (THOMPSON, 1998, p. 160).

Esse debate que culminou com a revogação da legislação contra as compras antecipadas, assinalou uma vitória do laissez-faire, a liberdade ilimitada e irrestrita do comércio dos cereais era também o que Adam Smith pleiteava. Para Thompson (1998, p. 161), esse novo modelo econômico trazia consigo uma desmoralização da teoria do comercio e do consumo.

Em artigo debatendo as obras e os críticos da obra de Thompson, Sidnei Munhoz (1993, pág. 163) acredita que sua tese principal é que o processo de constituição de classe se dá “em decorrência do fato de as pessoas estabelecerem, em seu cotidiano, identidades e diferenças, sentindo-se como integrantes de um mesmo grupo ou de grupos antagônicos”. Em suma, a consciência que se produz no desenrolar da ação humana, em suas lutas e batalhas, propicia a formação da classe, dotando-a de uma consciência, mesmo que embrionária como sentimento de “pertencimento” a uma determinada classe distinta e antagônica daquela dominante.

A obra de Eric Hobsbawm está relacionada à tentativa de apreensão de como ocorreu o progresso político da consciência de classe. Nesse aspecto, “Os Trabalhadores” e, especificamente o capítulo intitulado “Os destruidores de máquinas” é de vital pertinência. Nesse estudo, o autor rechaça a ortodoxia marxista que insistia em ver nos protestos de enfrentamento e quebra de máquinas uma rebelião desorganizada, sem liderança e que refletia a ignorância da multidão frente à mecanização inevitável. Hobsbawm (1981, pp. 21 e 22) demonstra que, inversamente à opinião convencional, “é evidente que a luta deles não foi uma simples luta contra o progresso técnico com tal”, mas sim uma tentativa coletiva de fazer pressão aos empregadores, trabalhadores extras e furadores de greve, além de garantir a solidariedade essencial entre os trabalhares.

A crença quase mitológica na “mão invisível” do mercado que se auto-regula, num período em que as profecias mais apressadas chegaram a prever o “fim da História”, como em Fukuyama, caíram por terra logo após o colapso do bloco soviético. A ilusão de que tudo adiante seria liberal e livre mercado foi logo desmistificado com as guerras, políticas protecionistas e organização de blocos econômicos locais. Para Hobsbawm, enquanto houve uma alternativa ao capitalismo liberal, as classes trabalhadoras conquistaram direitos como nunca antes, o famoso estado de bem-estar social e as políticas keynesianas. Como afirma Martins (2010, p. 84), por mais que o modelo de socialismo real não tenha sido o ideal, ele teve o efeito de “corrigir os excessos do capitalismo”.

A concepção dos historiadores marxistas britânicos de uma História social (econômica e cultural), tal como descrito por Harvey Kaye, resgatando a memória dos chamados vencidos numa perspectiva “de baixo para cima”, é de vital importância para a compreensão de que os grandes protagonistas da História são as classes trabalhadoras, num sentido etimológico da palavra “classes”, enquanto coletividade, como relações e processos históricos. Nesse sentido, as classes baixas tornam-se ativas na formação da História, mais que meras vitimas passivas no sentido de “fazer-se” de Thompson.

Conclusões:

“Às reivindicações sociais do proletariado limou-se-lhes a ponta revolucionaria e deu-se-lhes uma volta democrática; às exigências democráticas da pequena burguesia retirou-se a sua forma meramente política e afiou-se a sua ponta socialista”. Assim nasceu a social-democracia, escreveu Marx no 18 brumário. O caráter da social-democracia consiste em converter trabalho assalariado e capital em harmonia, retirando-lhe seu tempero conflituoso das contradições. Mais de vinte anos de social-democracia no Brasil nos deram mostras desse processo. A doce ilusão da classe trabalhadora de aburguesar-se, no sonho da ascensão social. O que a social-democracia tem de mais eficaz é seu poder persuasivo que causa embriaguez e miopia avançada quanto à realidade social. A transformação da sociedade através de reformas por vias democráticas – o programa do PSDB e PT – limita-se ao quadro da pequena burguesia, ao consumo, portanto.

A “besta”, a multidão sem programa político e sem representatividade, ainda que domesticada, só beneficia a classe dominante. E aí está o porquê do apoio tácito e oportunista da mídia! A frase clássica de Thompson, de que “a cultura popular é rebelde, mas o é em defesa dos costumes” pode ter seu equivalente equiparado ao Brasil contemporâneo: “a cultura popular é rebelde, mas o é em defesa do consumo”. Como descrito por um colega com audácia anacrônica sobre a adesão de jovens aos protestos, assemelha-se as “cruzada das crianças”. Torceremos para que o desfecho não seja tão trágico quanto no medievo, onde as crianças coagidas a aderir uma guerra que não era sua, acabaram sendo vendidos como escravos ou mortos.

Há, no entanto um ponto positivo dos protestos: mobilizar para a r(evolução) as energias da embriaguez. Resta-nos torcer para que essa energia não seja canalizada para uma revolução de caranguejo, como nos vinte anos de ditadura, ou seja, uma contra-revolução, ou uma revolução que anda para trás. A classe trabalhadora não pode limitar-se a “revolução dos I’pods e I’phones”.

 

Referências:

HOBSBAWM, Eric. Os trabalhadores: estudo sobre a história do operariado. Tradução Mariana Leão Teixeira Viriato de Medeiros. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.

__________. Sobre História. Tradução Cid Knipel Moreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

KAYE, Harvey J. Los historiadores marxistas británicos: un análisis introductorio. Zaragoza: Univerdidad, Prensas Universitarias, 1989.   

MARX, Karl. 18 brumário de Luis Bonaparte, vol. II. São Paulo: Expressão Popular, 2006.

MUNHOZ, Sidnei. Fragmentos de um possível diálogo com Edward Palmer Thompson e com alguns de seus críticos. Revista de História Regional, Ponta Grossa, v.2, n.2, p. 153-158, 1997.  

RUDÉ, George. A multidão na história: estudo dos movimentos populares na França e Inglaterra, 1730-1848. Rio de Janeiro: Campus, 1991.

THOMPSON, Edward P. Costumes em Comum. Revisão técnica Antonio Negro, Cristina Meneguello, Paulo Fontes. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.


* sousa-ruiRUI BRAGADO SOUSA é graduado e mestrando em História pela UEM.

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5 comentários sobre “Um “saco de batatas”, spray de pimenta, vinagre: a salada heterogênea e inconstante dos recentes protestos populares

  1. Aos leitores, antes de tudo meu obrigado. Apenas uns rápidos cometários:

    A Alexandre Martins Viana: sua leitura e crítica atenta foi esclarecedora. Também li o seu texto e de fato temos mais aproximações que distanciamentos na análise, contudo, meu texto escrito com enfoque mais polêmico e o seu com maior rigor acadêmico e experiência no tema. Portanto, são válidas as ponderações e eu novamente agradeço. Como diria Marx, a importância de um interlocutor crítico é enorme, antes assim que “a crítica roedora dos ratos”.

    À Vera Linden: permaneço convicto da abordagem e das conclusões e sem mais respostas para recalque de classe média. (Naturalmente um recalque inconsciente, ou não…). Vale ainda a máxima sobre os protestos e revoltas: um saco de batatas, mas um graaande saco de batatas.

    À Antonio Ozaí, parabéns pela compilação de excelentes artigos no calor da hora dos acontecimentos, o blog e sua disposição são um orgulho para nossa universidade.

  2. Caro Rui Bragado Sousa,
    Saudações cordiais!
    Como escrevemos a partir de pontos de partidas semelhantes, mas tiramos conclusões distintas, achei importante valorizar o seu texto com algumas ponderações.
    DESTACO:
    “…este texto busca interpretar de forma parcial a recente onda de protestos que cobriu o país. Passadas as primeiras horas de empolgação e apoio irrestrito, é necessária uma análise fria e racional. Talvez o método de “escovar a história a contrapelo”, ou nadar contra a corrente, possa chocar o leitor que se apoia nas conclusões midiáticas e do senso comum… Essa reflexão naturalmente não invalida a legitimidade do movimento, ao menos suas motivações iniciais: o passe livre, reduzir a tarifa e melhoria do transporte coletivo. Nada mais justo. Entretanto, a história nos dá provas de que não importa a benevolência e altruísmo das ações de massa, mas sim a apropriação que se faz a posteriori das suas consequências. Nesse sentido, a multidão – sobretudo de estudantes – é constantemente manipulada como ‘massa de manobra’. A inconsistência e heterogeneidade do movimento corroboram com a tese de que não existe uma representação própria para seus anseios e objetivos imediatos, antes, são representados por uma elite que não anda de ônibus e, portanto, não teria motivos para protestar”.
    PONDERO:
    Como assim? Se vejo o sofrimento alheio, isso não me atinge? Não devo protestar por que ando de carro? O protesto deve ter um foco apenas de ganho material? Pelo viés que vc propõe em seu argumento, como isso explicaria que as manifestações de junho – e seus focos – tenham também uma natureza que envolve um desejo por dignidade e representatividade, o que são focos que não estão apenas relacionados a uma frustrada “cidadania do consumo”? Sem as manifestações não haveria, como vc notou, um esforço de apropriação de sua energia reivindicativa a posteriori. Portanto, sem um ponto de partida não há pontos de chegada. Tudo isso convida os órgãos representativos e os movimentos sociais de base a se revisarem para se tornarem representativos de fato. Eu não reduziria este fenômeno complexo de negociação social coletiva por direitos à mera ‘massa de manobra’.
    A questão é de outra ordem: Por que tais instituições deixaram de ser representativas do anseio da maioria? Por que algumas de suas lideranças são objetos de piadas? Por que há o cansaço ou descrença em relação a tais canais representativos? Isso deveria ser objeto de melhor avaliação. No caso da representação estudantil, parece haver uma crise de referências: Não é sintomática que a única memória evocada e carismática de “passado de mobilizações estudantis” seja aquela do período da ditadura e que o “movimento caras-pintadas” seja já tratado como filho bastardo e somente fruto da manipulação da mídia? Some a isso o peso combinado de uma escolarização precária e despolitizante para a maioria e a despolitização dos próprios professores da era da “meta-Capes” e “meta-Qualis” nas universidades. Ao final, o que temos? Apatia, mobilizações apartidárias multifocais ou uma politização estudantil passadista, que só convence uma minoria já convencida dos jargões antineoliberais. Mas não creio que as mobilizações se reduzam a isso. Vejo o quanto elas causam desconforto em meus pares, já acomodados à apatia e a serem yuppies de “meta-Capes” e “meta-Qualis”. Manifestação e estar a par das maquinações do governo tomam tempo deles para seus artigos que poucos lêem. Então, fico surpreendido quando o mesmo tipo de preconceito simplificador vem de aluno.
    Em minha universidade, a reforma do estatuto aumentou a presença da representação estudantil em vários setores, mas poucos conseguem manter uma rotina equilibrada entre ocupar tais posições, serem bons alunos e conseguirem se tornar representativos de suas “bases”, particularmente os alunos do curso noturno. É uma rotina claramente difícil para eles, particularmente para universitários afastados dos grandes centros urbanos e vindos de famílias pobres, cuja renda familiar vem do setor de serviços. E, no entanto, essas categorias estiveram nas ruas em junho, surpreendendo os docentes e suas acomodações yuppies de “meta-Capes” e “meta-Qualis”. Então, creio que não devemos simplificar o que é rotineiro na vida desses estudantes e de suas famílias e, de um tacão, definir uma natureza global para seus comportamentos, como se fossem simplesmente alienados, consumistas e manipuláveis, senão o cenário fica simplificado a um prejulgamento pessoal excessivamente normatizador.
    A representação estudantil sofre um problema estrutural de descontinuação, inerente à própria condição de estudante como parte de um rito social de passagem para a vida social adulta. O “estudante”, enquanto categoria social e política, é algo passageiro, pois logo o indivíduo estudante será algo mais permanente na vida social: trabalhador. Por isso, a sua representatividade efetiva demanda um “processo de liderança”, cuja rotinização é difícil, particularmente quando não há um “inimigo objetivo” ao modo daquele da ditadura. Digo “processo de liderança” porque a representação estudantil se fragiliza quando fica centrada em ocasionais figuras carismáticas mais atuantes, pois acaba havendo descontinuação nas ações quando tais lideranças saem deste papel, ou apenas atuam para catalisar a posição para um voo solo posterior na carreira política, pretendendo, direta ou indiretamente, excluir colegas com outras orientações políticas para manter a sua estrela brilhando na ágora estudantil, tal como aconteceu no RJ com Lindberg Farias. Isso eu chamaria de “uso estalinista” da ideia de vanguarda, pois perde a adesão dialeticamente orgânica com os representados e, assim, algo que deveria ser temporário não cumpre o seu papel: conscientizar o maior número possível de pessoas para que haja um efetivo “processo de liderança”, até que a vanguarda não seja mais necessária. Até onde sei, as figuras carismáticas mais atuantes em representação estudantil não conseguiram cumprir o “salto dialético” que tornaria a própria vanguarda desnecessária.
    Num processo de liderança estudantil, só um coisa deve brilhar: A própria representação estudantil e as suas demandas específicas. Tal desafio é difícil e complexo para os representantes estudantis, pois, além de tudo que gera emperramento estrutural e comportamental para as suas atividades, devem não se perder de sua “base” e serem bons estudantes, segundo as exigências formais de seus cursos. Afinal, não entraram na universidade para serem “estudantes profissionais”, mas para serem trabalhadores qualificados e cidadãos mais conscientes. Se a mobilização estudantil não construir um processo dialeticamente orgânico de liderança, ou se focar em lideranças carismáticas ocasionais, o risco é sempre de descontinuação, de desmobilização ou de mobilização espontânea apartidária, mas não necessariamente antipartidária (isso é coisa de uma minoria neonazista). Até o momento, o que vejo como imperante é um desejo de reforma nos manifestantes, de que a representação política seja representativa, pois há um certo cansaço com lideranças carismáticas que se afastam das “bases” quando entram na ciranda política viciada da situação, que parece ser o grande foco dos descontentamentos depois da questão do passe-livre, pois é visto como algo que impede o acesso qualificado à educação e saúde públicas.
    A energia difusa dos focos das mobilizações de junho de 2013 pode também ser entendida como o resultado indireto de uma dinâmica estrutural de vida que é, em si mesma, desmobilizante para a maioria das pessoas numa sociedade de desregulamentação pós-industrial, em que o próprio ócio deve ser produtivo. A dificuldade de acompanhar o processo político em todas as suas nuanças tem como contrapartida um anseio igualmente válido de que a representação política seja honesta, representativa e competente, mesmo que as pessoas não tenham uma visão clara da máquina administrativa. Quando tal anseio é periodicamente frustrado, vemos o aumento de votos em branco ou “votos de protesto”, em que um candidato, sem tradição política, sem plano de governo consistente e sem qualquer engajamento nas bases de partidos ou movimentos sociais, é mero fenômeno de mídia eleito para agredir simbolicamente um regime que não se faz representativo para promover a educação política e o orgulho da população. Um país que tem apenas o futebol como fator de orgulho é, para mim, uma piada macabra.
    A “pessoa comum” quer que o seu voto valha algo, que corruptos sejam presos, que haja redução nas distorções salariais entre as categorias profissionais. Por que as domésticas são trabalhadoras não plenamente abarcadas pela CLT? Quando uma empregada doméstica com pouca escolarização diz nas manifestações que “Quero que melhore tudo que tá ruim!”, isso não é uma reposta de quem não sabe o que quer, mas de alguém que espera que algo seja feito em seu nome, a cidadã, a representada. Ela não precisa fazer parte de partido ou movimentos sociais para saber do que precisa – e do quanto o seu voto não tem significado nada ultimamente, mas ela apela que signifique algo, que ela sinta em seu cotidiano tal significado. Sem as mobilizações de junho, ela não se sentiria parte de algo maior.
    Obviamente, se ela pudesse trabalhar, acompanhar os sites de governo, ler informativos de partidos e sindicatos e, ao mesmo tempo, fazer parte de movimentos sociais seria ótimo. No entanto, nem profissionais liberais de classe média (professores universitários, por exemplo) conseguem ter fôlego para tanto. Assim, as demandas pragmáticas do trabalho cotidiano que afastam a maioria de “engajamento” pelas vias tradicionais precisam da contrapartida de uma representação política honesta, competente, transparente e responsável – e de uma vigília coletiva difusa que denuncie distorções e fraldes, tal como tem funcionado as redes sociais (e os estudantes nessas redes sociais). Enfim, a doméstica que quer que “melhore tudo que tá ruim!” está nas mobilizações… Isso não é pouca coisa… Ela não está fazendo marcha católica contra Jango, como fizeram as equivalentes sociais no passado de suas “patroas” do presente. Ela está ao lado dos equivalentes sociais das netas e bisnetas dessas “patroas”. Isso não é pouca coisa…
    AGORA, DESTACO:
    “…As rebeliões e protestos populares durante a Revolução Industrial oferecem-nos importantes chaves comparativas com o atual movimento…”.
    PONDERO:
    Concordo, pois os protestos sempre têm focos, não são erráticos ou sem razão, mas creio que vc acionou exemplos que corroboram apenas uma possibilidade de aplicação para a discussão. É difícil generalizar algo que ainda está pulsante. Creio que o melhor método ainda seja o estudo focal, e não esquecermos que o indivíduo na multidão segue um ethos específico, mas continua sendo um indivíduo na multidão. O fato de nem todos se enquadrarem numa expectativa normativa de análise histórica, política ou sociológica não invalida o fenômeno. Quando Thompson e Rudé fizeram as suas ponderações, não podemos esquecer que elaboraram uma tipologia classificatória que tacitamente tem como princípio que a “boa revolta” é aquela que demonstra “consciência de classe” e aponta para mudanças estruturais.
    Ora, o fato de as manifestações de junho não demonstrarem esta natureza ou “sentido histórico” não esvazia o seu valor social. Elas fazem parte do mundo pós-industrial e digital. Elas oferecem a chance para as esquerdas se avaliarem segundo esta realidade estrutural. Gosto da forma como Thompson e Rudé nos convidam para análises focais, particularmente Thompson, que dialoga com a antropologia cultural, para entendermos as manifestações também como ritos sociais abertos. No entanto, não adianta pensar tais ritos a partir do horizonte de “classe trabalhadora” da era do “pleno emprego” das décadas de 1950 e 1960, que é o que ainda forma as expectativas de análises de Thompson e Rudé quando olham para o século XVIII. Tais autores estudavam as revoltas do passado para inventariar aquelas que teriam, segundo a sua visão, um aporte revolucionário real. Particularmente Thompson queria entender por que a “classe operária” do seu presente (affluence society) deixou de ser revolucionária quando, nos termos de Marx, teria justamente alcançado o seu “amadurecimento histórico” para superar o capitalismo.
    Em “18 Brumário”, Marx focalizava o campo como um lugar de atraso social e cultural que criaria margem para (1) a emergência de líderes carismáticos, como Luís Napoleão, e para (2) o atraso do processo histórico, que deveria ter a “classe operária” e a sua luta contra a “burguesia” como catalizadores das transformações estruturais da sociedade. A decepção de Marx com o que seria o significado social da ascensão de Luís Napoleão foi a base de suas reflexões autocríticas (em relação ao “Manifesto Comunista”), que redundaram na formulação da questão de “classe em si” e “classe para si”. Marx operava com uma expectativa normativa de etapas a serem cumpridas para se chegar ao comunismo: a fase da geração da abundância no capitalismo, a sua crise estrutural e a ditadura do proletariado (para Marx, todo Estado tem uma natureza de classe, então, a ditadura do proletariado defenderia os interesses dos operários contra a burguesia), para se chegar então ao comunismo, em que o Estado não seria mais necessário, pois não haveria mais classes sociais.
    Para Marx, portanto, não poderia haver consciência de classe operária sem o pleno amadurecimento da sociedade industrial, pressupondo os efeitos de aumento da abundância, da integração, da interdependência e da especialização da vida na sociedade industrial como condições estruturais para a emergência de uma consciência mundial de pertencimento à classe trabalhadora, que seria, então, conhecedora de seu “papel histórico” de transformação da sociedade. Trata-se, portanto, de um constructo sedutor, mas a vida social é mais complexa que os constructos de Marx, ou de qualquer outro teórico, marxista ou não.
    Num mundo pós-industrial e não mais do “pleno emprego”, a “classe operária” se tornou minoria como força social. Geralmente, a força na negociação coletiva por direitos está nos setores que afetam a circulação de pessoas, bens e meios financeiros, ou numa mobilização popular que gere emperramentos nos interesses do capital pelo simples fato de alterar a rotina das grandes cidades. Nesse sentido, mesmo sem sindicatos, mesmo sem partidos, as mobilizações de junho emperraram o giro do capital, reduziram ganhos e, portanto, a arrecadação dos estados. Como configuração social, a manifestação coletiva pode ter múltiplos focos, ou um foco unificado (como foi a greve dos professores federais em 2012, que teve apoio massivo dos estudantes, malgrado as mídias focarem muito os “pobres alunos sem aula”), mas o fato é que a manifestação coletiva, em si mesma, tem um efeito/poder igualmente desarticulador da rotina de ganhos do capital; se não fosse isso, o congresso não se mexeria para desengavetar, sem sucesso, pontos de pauta, que não têm uma natureza necessariamente econômica, para evitar que as mobilizações criem problemas econômicos às cidades (e, portanto, ao capital) durante a Copa das Confederações.
    Devemos também ponderar que os meios digitais de comunicação e as novas tecnologias de transporte encurtaram espaços e aumentaram a integração e interdependência estrutural das pessoas, ou seja, independentemente de suas vontades pessoais, os indivíduos estão recíproca e hierarquicamente implicados pela própria forma como o capitalismo se configura hoje. Nesse sentido, alguns elementos da análise estrutural-dialética de Marx em “O Manifesto Comunista” continuam válidos e, não por acaso, foram oportunamente apropriados pelo geógrafo David Harvey em “Condição Pós-Moderna”. Nas dinâmicas estruturais-dialéticas do capitalismo pós-fordista da era da comunicação e do dinheiro digitais, há uma provocação incessante para uma multiplicidade de identidades e papéis, que são processos abertos e dinâmicos que se configuram num infindo jogo de aproximação, distanciamento, difusão e desaparecimento. O fato de não haver uma consciência de classe unificada nessa rede não implica que as pessoas sejam incapazes de se sensibilizarem e se solidarizarem com aquilo que transcende a sua “classe em si”, mesmo que elas não tenham claro uma “classe para si”. Portanto, não estamos necessariamente condenados a um novo “18 Brumário” ou a golpes nazistas à ordem democrática.

  3. Ao jovem historiador Rui Bragado Sousa, minha admiração. Uma das mais lúcidas análises que li nas últimas semanas!!!!

  4. Imagino que o nobre professor não esteve em nenhum protesto, em nenhuma manifestação. Vai ao supermercado? Compra frutas,verduras, legumes e carne ??? Se comprar a bovina,, por favor não compre friboi (acho que esse é o nome) da qual o ator global Tony Ramos é garoto propaganda, é dos muitos negócios lucrativos do filho do ex-presidente lula (é minúsculo mesmo). estamos nas ruas para recuperarmos a nossa autoestima, para que os estrangeiros não pensem, que não somos um povo sério.Fui metalúrgica por 20 anos, trabalhava mais de oito horas por dia e à noite lecionava pelo SENAI em centros de treinamentos de empresas ou nos sindicatos. Era o trabalho de uma colega incentivando outros colegas a crescerem. Tive o prazer de ver um jovem problemático fazer os cursos que lecionava, concluir o ensino médio e fazer vestibular para engenharia. Hoje ele é um eficiente engenheiro mecânico.também alfabetizei adultos.Fui de aluna a instrutora do SENAI. Os cursos técnicos serão foram menosprezados pelos intelectuais e burocratas, mas afirmo-lhe que já garantiu o futuro de muita gente, inclusive o meu e de dois filhos.Não aguento mais, com todo o respeito as teorias intelectualoides, as intermináveis citações de séculos passados e nem de ouvir falar em Marx.Tenham piedade da gente. Não aguentamos mais pagar tantos impostos. Esta falada e proclamada democracia é um terrível cupim, que nos esmaga impiedosamente. Enquanto economizamos desde água, luz, telefone, sabão de lavar roupa, contamos as batatas, os tomates (que virou coisa de rico) os nababos da “casa do povo” esbanjam, têm um monte de privilégios, nem telefone ou correio pagam. Sabe quanto pagamos de impostos no nosso leite, na farinha para fazer o pão, no feijão ??
    Acho que não. Enquanto isso, a nossa presidente – em quem confiamos e depositamos as nossas esperanças, gasta com hot[éis luxuosos, caros alugados, etc.etc. E a lei 12663 ? Já leu toda ela ? Bem no finzinho, escamoteado está o golpe do prêmio para os campeões do futebol…Nada tenho contra quem joga futebol, mas conceder aposentadoria no teto máximo para os ex-campeões, axharia ótimo, se o mesmo acontecesse para todos os trabalhadores que por 25/30 anos pagaram regiamente a Previdência social. Um dos presidentes, o que criou o maldito FATOR PREVIDENCIÁRIO, nos chamou até de preguiçosos. Pesquise o que é tudo isso. Faz parte de nossa história atual. Não vi nenhum burguês nas ruas, mas estudantes que lutam e querem um país mais justo, sem tanto roubo, superfaturamentos, corruptos gastadores e nossos hospitais e escolas merecem o padrão FIFA de qualidade. O senhor como intelectual acha que o povo é gado burro, massa de manobra. Na verdade, tem um pouco de razão. Nunca acreditei no lula, pois acredito em mim, no meu marido, nos meus filhos, em gente como o senhor que está estudando, logo será mestre. Com vagabundo que se escora em sindicato, não estudou e pouco trabalhou na vida, não acredito de jeito nenhum. Na dona Dilma votei com emoção, pensei ela sofreu, lutou pela liberdade, estudou, foi a lciuta. É uma administradora. Vai botar ordem no Planalto. A primeira coisa que fará, será diminuir o número de ministros.Me decepcionei totalmente. Caí do cavalo de cara no chão. Até hoje tenho vontade de me dar um tabefe na cara por ter votado na dona Dilam e no Tarso Genro. Não sou uma cientista política, nem intelectual, apenas uma mulher simples do povo, que nunca teve medo de lutar, mas vejo muita garra, muita emoção positiva neste povo que está nas ruas. Lamento pelos vândalos, alguns são os “ladrões e drogados” que há no meio urbano, gente que vemos nas esquinas e bares, conhecida da polícia. Parece que estão ganhando dinheiro para desmoralizar o povo. quem está pagando esta corja?? Antes eles matavam e lógico ficavam impunes, como em Santo André. Mas, é preciso arranjar um matador para matar o que matou a vítima e, isto fica muito caro. Desmoralizar, desmotivar sai bem mais em conta. Afinal o mar não está para peixe, vai ficar mais difícil colocar dólares na cueca e os mensaleiros foram descobertos, só faltam ocuparem seus tronos nas masmorras. Não subestime tanto o povo, professor.
    estamos muito longe do Chile ou da Alemanha nazista. Cansamos de ideias velhas e ultrapassadas. A ditadura de 64 acabou com nossos verdadeiros líderes, muitos foram mortos em “acidentes” ou desmoralizados. Entretanto, uma nova brisa sopra no nosso país continente e os líderes virão do seio do povo.Recomendo-lhe que leia o texto de MARLENE NOVAES, é excelente e esclarecedor.

    MARLENE NOVAES é antropóloga, Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e docente do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Maringá.

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