A revolução não paga passagem, pula a catraca

ferreira-johnJOHN KENNEDY FERREIRA*

A crise sistêmica está desembarcando no Brasil, os primeiros sinais são os recuos nos índices econômicos e o aumento do custo de vida que passou a deteriorar o sonho de consumo infinito das classes médias e dos setores proletários remediados ou não.

As opções diante da crise são várias e o debate em torno do rumo a tomar pelo governo Dilma e os governantes locais são intensos e revelam o grau de alianças políticas firmadas ou a se firmar.

A opção neodesenvolvimentista desenhada durante o segundo governo Lula parece que vem perdendo espaço dentro do governo central para abordagens mais ortodoxas e para o receituário liberal. Creio que o incremento de capitais estrangeiros, em virtude da Copa e das Olimpíadas, deslocaram setores nacionais para alianças mais profundas com o capital financeiro-rentista, o que esta empurrando o governo Dilma para políticas mais próximas ao receituário neoliberal, vide política privatista em relação aos portos e ao petróleo. Como igualmente pode ser visto na aproximação que fez o prefeito Fernando Haddad da base de sustentação do governo Alckmin (o capital estrangeiro associado) e conseqüentemente do próprio tucanato, bastando ver a forma austera e intransigente como tratou o movimento grevista dos professores municipais e depois a criminalização “de vândalos” destinada a jovens pacíficos do MPL e o pedido, prontamente aceito pelo governo federal, de investigar  os manifestantes.

A mistura da plataforma (e dos acordos) político, a sua condução à sociedade e a recepção dessas práticas ao longo dos anos, fez nascer um momento explosivo que se materializou na tomada das ruas contra o aumento das passagens, mas que rapidamente, se dinamizou e ampliou como nos mostra cartazes expressando a pressão e as demandas de diversos grupos políticos à direita ou a esquerda

O cenário político geral traz a questão eleitoral de 2014 e o rearranjo de forças para a construção da disputa. A presidente Dilma Roussef e o PT têm sofrido bastante para manter a base aliada nos eixos, o custo é alto em especial a Eduardo Campos e a setores do PSB e PMDB que tem exigido muito mais.

Enquanto este cenário ia se desenhando, o “maio” tardio brasileiro explodiu. Primeiro foram manifestações pelo passe livre que ganharam notoriedade em várias cidades e capitais. Desencadeando uma onda de protestos simbolizando um basta a toda relação social política e econômica estabelecida nos últimos anos.

Ou seja, mesmo a sociedade brasileira vivendo um movimento de crescimento e aceleração econômica burguesa com a redução da mortalidade, aumento real do salário mínimo, vagas a todos que querem cursar um curso universitário, redução da miséria, baixo desemprego, tímida distribuição de renda, expressão internacional com a copa e olimpíadas, tudo isso com o crescimento de setores de classes médias modernizada (em especial de sua juventude estudantil, que tem sido, como lembrou Hobsbawm, o protagonista em diversas revoltas sociais nessa década).

Durante esses 10 anos o Brasil tem vivido um cenário político econômico e social conduzido por governos de centro-esquerda. Estes produziram um clima de euforia em vários setores da sociedade, mas ao mesmo tempo um pesado ônus aos que trabalham e precisam levantar muito cedo para sobreviver.

Parte significativa da juventude que participa ou apóia as manifestações, só tem como referência os governos de centro-esquerda de Lula e Dilma, não conheceram o neoliberalismo de Collor, Itamar ou FHC.

Este governo, apesar de representar paradoxalmente um crescimento social e econômico significativo, tem tido como preço desse crescimento um massacrante cotidiano, onde a rotina alienada e reificada são centradas no consumo desenfreado, na desumanização das relações sociais, no autoritarismo e violência estatal e numa super exploração e controle do trabalho e dos corpos e mentes que produzem o valor e a riqueza social do trabalho. Onde até o ócio tem que ser produtivo, tornando-se como diria Hannah Arentd, “escravos da necessidade”. Penso que esta é umas das peças centrais na crítica dos jovens: o cotidiano produzido pelas políticas econômicas neoliberais e a constante alienação e coisificação da vida, ou seja, luta de classes franca e aberta entre quem gera a riqueza e quem a apropria.

Afinal o que querem os jovens (e a sociedade brasileira)?

A juventude tomou as ruas e parece que destas não sairão tão cedo. Este cenário político parece mais semelhante, guardadas as óbvias distâncias e dimensões, com a realidade (e desarranjos) vivida pelos jovens de Paris em Maio de 1968, do que com as manifestações recentes em Londres, Paris ou Madri, ou mesmo (como diz cartazes), com Istambul e Atenas. Pois vivemos um momento de crescimento e de fartura consumista, onde a grande pergunta é: a vida é apenas isso?

Os cartazes, postagens no facebook e nas listas de movimentos dos participantes nos dão a pista para entendermos o que está sendo exigido. Em tons criativos e bem humorados vem nos revelando o intenso debate entre as correntes políticas e a angústia social brasileira.

Os protestos nos falam de polêmicas como PEC 37, a farra de gastos do erário público com a Copa, a Cura gay, a corrupção (estrutural) brasileira, a vida privilegiada e irresponsável da maioria dos políticos brasileiros e das classes dominantes, do fim dos partidos e o fim dos políticos, do impeachment de Dilma, Haddad e Alckmin, do fim da rede globo e das mídias tradicionais, do descaso com a saúde, educação, do preço do “Litrão”, da venda do Paulinho (jogador do Corinthians), da falta de liberdade, da estatização da vale e dos ônibus, da vida triste periférica, da repressão e opressão (permanente) da polícia militar brasileira, da privatização dos portos, do preço do feijão, tomate, da falta de lazer e é claro do preço do “busão”.

Cada uma das manifestações de protestos pode ser analisada individualmente e nos revelar as preocupações com “desnacionalização” a preço de “banana” do futebol brasileiro, a privatização geral de áreas de lazer, o aumento de custo de vida e segue passando pelo questionamento sobre quais seriam as prioridades nacionais: copa ou hospitais? Chegando às escandalosas diferenças salariais de políticos, técnicos de futebol, jogadores, com o mirrado salário de profissionais da educação e saúde…

Rosa de Luxemburgo e Leon Trotsky nos chamam atenção para a espontaneidade dos movimentos sociais e a articulação subjetiva que estes fazem com a objetividade política, portanto não se trata da manifestação de senso comum, respondendo a determinado chamado, mas sim da compreensão e interação política realizada entre o ser e a realidade dada. Caso contrário, o efeito inicial que levou o movimento a crescer embaixo de muita repressão não teria se dado.

Indo além desse fator, há uma imensa crise de confiança nas relações institucionais em especial na polícia e nas estruturas de poder. A primeira é vista como órgão repressor que protege toda a bandalheira e falcatrua realizada pelos de cima contra os de baixo, os segundos: são os agentes promotores da bandalheira. Os jovens sabem direitinho as diferenças entre parlamento e executivo, mas não vêem diferença prática nas intenções e nas ações de um e de outro. Há, nessa simbiose, um sentimento de que existe um conluio entre os grupos que mandam e os que batem, contra aqueles que são forçados a obedecer.

O resultado preliminar das manifestações políticas

Em várias cidades houve um recuo do aumento do transporte. No plano político geral, forçou o PT a se afastar (ao menos momentaneamente) dos setores ligados aos capitais estrangeiros, como ficou bem claro no recuo de Haddad, na sua relação com o tucano Alckmin e in démarche na mudança de postura das frações das classes dominantes mais conservadoras. Estas passaram, pela mídia conservadora, a apoiar, mobilizar e disputar as manifestações de massa. Em especial, os grupos mais conservadores e mesmo os de extrema-direita, como ficou patente em São Paulo no apoio ao antipartidarismo, na ocultação de confrontos (policiais e paramilitares) contra as esquerdas e movimentos sociais de gêneros e de periferia, na responsabilização dos governos petistas pelos problemas estruturais paulistas e brasileiros, no apoio tácito a um Golpe de Estado, exigindo que a esquerda, setores de centro esquerda e democráticos –corretamente – realizassem uma composição em defesa do Estado de direito e o anti-fascismo.

Talvez o mais importante resultado de todo o processo em curso foi mostrar a uma nova geração (policlassista) a possibilidade de mudar a história através de sua mobilização e união. Com isso foi arquivado – ao menos momentaneamente – a representação tradicional dos partidos políticos, dos sindicatos, dos governos, das entidades estudantis. Os jovens vão às ruas sob uma nova liderança horizontal e democrática que vai se revezando rapidamente na tomada de decisões e na condução das políticas. Este é um cenário aberto, onde, todas as correntes de opinião e políticas têm vez e voz.

O que está em disputa?

As mobilizações de massa apontaram para um questionamento de todas as relações políticas estabelecidas e através de seus questionamentos querem algo que vá além das relações em vigência.

Exigem mudanças reais, isso aproxima a juventude do ideário revolucionário e do sentimento de mudança. Essa vontade pode apontar para três cenários distintos

No primeiro cenário, o fortalecimento do Estado como tem sido expresso por setores de centro-esquerda e esquerdas, que exigem o fortalecimento do governo e de fomentos públicos realizados pelo Estado. E, dessa visão, a crença que tais avanços podem significar o fortalecimento da distribuição de renda, de reformas políticas e sociais e melhorias de condições, tanto para a dinamização do mercado interno como para a disputa do mercado externo, se firmando como potencia emergente.

O segundo cenário aponta para a descentralização do poder e fortalecimento do mercado, realizado através de um Estado mínimo e um governo forte, que teria um caráter de combate as demandas populares e sociais e o fortalecimento das ações individualistas dos agentes econômicos. Aqui se encontra os setores de centro-direita, direita e extrema-direita.

O terceiro cenário, a ruptura sistêmica e o socialismo, por mais remota que possa parecer, o sentimento de mudança traz ao cenário a questão da mudança e, portanto do socialismo. O questionamento realizado pela juventude e pela sociedade do modo de vida pode ganhar a condição de política e expressar novas formas de organização social, novas formas de mobilizações, de frentes políticas e, portanto ir além do momento. Se o movimento da juventude se articular com os setores proletários através de exigências como o congelamento de gêneros de primeira necessidade, redução da jornada de trabalho, reforma agrária, reforma política, estatização das áreas econômicas estratégicas, abre um dialogo hoje ausente com os setores proletários, o que ao menos em tese, fortaleceria a crítica ao Estado e as políticas neoliberais. Igualmente nos possibilita, tal qual pensava Lenin, novos meios de organização e democracia à altura das exigências dos nossos tempos.

Perspectivas e cenários

Há um crescimento do voto nulo nas últimas eleições. A expectativa da coalizão conservadora é fortalecer essa tendência eleitoral, tirando assim votos da centro-esquerda, potencializando uma vitória dos setores conservadores, como ocorreu recentemente no Egito, Grécia e Espanha.

Há uma perspectiva da centro-esquerda em  apaziguar os ânimos o mais rápido possível, ceder alguns aumentos para manter os dedos, propor algumas reformas para manter o controle da gestão.

E há a perspectiva da esquerda que deve pensar além do cenário eleitoral, deve imaginar o momento como apoiador e organizador dos movimentos, em particular os da periferias. Disputar a política das ruas aproveitando e casando reformas imediatas e propostas – e lutas – estratégicas. Dessa forma, ajudar a superar os atuais modelos organizativos que se encontram carcomidos pela burocracia estatal ou para-estatal através de ONGs, convênios e meios de incorporar e apaziguar as demandas sociais e seus movimentos.


* JOHN KENNEDY FERREIRA é Professor de Sociologia e História do IFSP, PMSP e Faculdades Sumaré, Mestre em Ciência Política PUC-SP, Doutorando em História Econômica – USP, Pesquisador do Neils (PUC-SP) e do Instituto Lyndolpho Silva.

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2 comentários sobre “A revolução não paga passagem, pula a catraca

  1. Leiam a contribuição crítica de análise de conjuntura de JOHN KENNEDY FERREIRA para o blog da REA. Destaco:
    “…A crise sistêmica está desembarcando no Brasil, os primeiros sinais são os recuos nos índices econômicos e o aumento do custo de vida que passou a deteriorar o sonho de consumo infinito das classes médias e dos setores proletários remediados ou não. As opções diante da crise são várias e o debate em torno do rumo a tomar pelo governo Dilma e os governantes locais são intensos e revelam o grau de alianças políticas firmadas ou a se firmar. A opção neodesenvolvimentista desenhada durante o segundo governo Lula parece que vem perdendo espaço dentro do governo central para abordagens mais ortodoxas e para o receituário liberal. Creio que o incremento de capitais estrangeiros, em virtude da Copa e das Olimpíadas, deslocaram setores nacionais para alianças mais profundas com o capital financeiro-rentista, o que esta empurrando o governo Dilma para políticas mais próximas ao receituário neoliberal, vide política privatista em relação aos portos e ao petróleo. Como igualmente pode ser visto na aproximação que fez o prefeito Fernando Haddad da base de sustentação do governo Alckmin (o capital estrangeiro associado) e consequentemente do próprio tucanato, bastando ver a forma austera e intransigente como tratou o movimento grevista dos professores municipais e depois a criminalização “de vândalos” destinada a jovens pacíficos do MPL e o pedido, prontamente aceito pelo governo federal, de investigar os manifestantes. A mistura da plataforma (e dos acordos) político, a sua condução à sociedade e a recepção dessas práticas ao longo dos anos fizeram nascer um momento explosivo que se materializou na tomada das ruas contra o aumento das passagens, mas que rapidamente, dinamizou-se e ampliou, como nos mostra cartazes expressando a pressão e as demandas de diversos grupos políticos à direita ou a esquerda. O cenário político geral traz a questão eleitoral de 2014 e o rearranjo de forças para a construção da disputa. A presidente Dilma Roussef e o PT têm sofrido bastante para manter a base aliada nos eixos. O custo é alto, em especial a Eduardo Campos e a setores do PSB e PMDB, que tem exigido muito mais. Enquanto este cenário ia se desenhando, o “maio” tardio brasileiro explodiu: primeiro foram manifestações pelo passe livre, que ganharam notoriedade em várias cidades e capitais, desencadeando uma onda de protestos e simbolizando um basta a toda relação social política e econômica estabelecida nos últimos anos, mesmo com a sociedade brasileira vivendo um movimento de crescimento econômico decorrente da redução da mortalidade, do aumento real do salário mínimo, das vagas a todos que querem cursar um curso universitário, da redução da miséria, do baixo desemprego, da tímida distribuição de renda, da expressão internacional com a copa e olimpíadas e do crescimento de setores de classes médias modernizada…”, ou talvez por tudo isso, o que demonstraria uma dialética histórica bastante seminal. O governo de Lula a Dilma, “…apesar de representar paradoxalmente um crescimento social e econômico significativo, tem tido como preço desse crescimento um massacrante cotidiano, onde a rotina alienada e reificada são centradas no consumo desenfreado, na desumanização das relações sociais, no autoritarismo e violência estatal e numa superexploração e controle do trabalho e dos corpos e mentes que produzem o valor e a riqueza social do trabalho. Onde até o ócio tem que ser produtivo… Penso que esta é umas das peças centrais na crítica dos jovens: o cotidiano produzido pelas políticas econômicas neoliberais e a constante alienação e coisificação da vida, ou seja, luta de classes franca e aberta entre quem gera a riqueza e quem a apropria…”.

  2. “a espontaneidade dos movimentos sociais e a articulação subjetiva que estes fazem com a objetividade política, portanto não se trata da manifestação de senso comum, respondendo a determinado chamado, mas sim da compreensão e interação política realizada entre o ser e a realidade dada”

    Há tempos não lia uma frase tão enigmática!

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