Às Ruas! Às Praças! Aos Protestos!

vanzinfilhoPEDRO VANZIN FILHO*

 

Um sonho sonhado sozinho é um sonho. Um sonho sonhado junto é realidade.
Raul Seixas

 

Estou entre aqueles, talvez dois ou três, que pretendem ver os acontecimentos em curso – junho de 2013 – em todo o Brasil e fora dele também em sinal de solidariedade e inconformismo com o status quo vigentes, como resultado de uma série de micro movimentos precursores realizados e organizados ao longo de vários anos.

Os Protestos no Brasil não são de hoje, mas uma constante em todos os lugares, campo e cidade e temporadas. Na área rural temos os sem-terra, no meio urbano os sem-teto, sem-trabalho, outros. Na defesa do ambiente sustentável temos centenas de pessoas lutando cotidianamente, quer nas Organizações Não Governamentais, quer individualmente. Os Povos da Floresta, os Povos Paleoameríndios, os Quilombolas resistem e lutam não há dias ou meses, mas a dezenas de anos por seus direitos.

O número de movimentos e demandas além de históricos é de toda a ordem, o que atesta a constante e crescente omissão do Estado em fazer frente às demandas sociais pré-existentes. A adoção do modelo de economia neoliberal, sobremodo a partir de 1990, agudizou ainda mais a distância entre Estado, governantes de plantão, e a sociedade civil independentemente de sua suposta matriz ideológica.

As conquistas populares obtidas na Constituição Federal de 1988, por mais tímidas e claudicantes que sejam, passados 25 anos, paradoxalmente, ainda não saíram do papel. Só para ficarmos num exemplo simplório disso, citamos o caso dos direitos trabalhistas, os quais contam com vários estatutos impressos na Constituição Federal, diferenciando os trabalhadores em várias categorias e restringindo, com isso, direitos.

Os direitos e deveres no mundo do trabalho têm que ser os mesmos, seja para a trabalhadora doméstica, para o/a Servidor/a Público/a e para o/a Operário/a da iniciativa privada, do contrário ficamos sem isonomia, o que possibilita a construção de diferenças salariais abissais como as que temos presentemente.

Por outro lado, temos ainda nos quadros dos três poderes constituídos agentes públicos com vantagens financeiras em cascata e elevados salários, que não se coadunam com o que ganha miseravelmente à maioria da população. Essa longa trajetória de penúrias do povo, obviamente teria que em algum momento se aglutinar como ocorre atualmente, sem descaracterizar as lutas específicas já travadas ao longo dos tempos, mas unificadas na ação de ir às ruas, às praças e aos protestos, num mesmo período e propósito de dizer um basta à omissão social dos governantes e de seus partidos com suas ações perdulárias com os dinheiros públicos.

Os cidadãos/contribuintes que vão as ruas pedem muito pouco em troca dos governantes momentaneamente no poder, só querem respeito, dignidade, cidadania, fim da malversação dos recursos públicos, observância as leis e equidade e celeridade na justiça. Coisa que em muitos lugares já é centenário, aqui ainda é demanda.

O bom dos movimentos que estão acontecendo é que estão rompendo com os modelos bolchevistas e monocráticos de concentração e fragilização das demandas sociais; É seu caráter difuso nas demandas, mas agregador nas ruas e ações concretas que lhe dá vida e que talvez assegure o diferencial com 1984 e 1992. Realiza-se no micro com piqueniques, periferias e centros se organizando, bloqueando viadutos, pontes estações, mas sabiamente no macro têm suas aglomerações nas ruas, praças, avenidas desaguando diante dos palácios.

Outro fato empolgante é que o movimento acentua seu caráter horizontal, sem os chamados e preclaros lideres de outrora, que preconizavam por organizações verticais e burocráticas que só fizeram frear os movimentos sociais, levando milhões as ilusões macabras dos gulags e da democracia representativa. Felizmente no “vir prá rua”, não há chefes, líderes ungidos, partidos bolchevistas, comissários do povo, polícia política, há sim fraternidade, ação direta e sobremodo insatisfação. Fica presente a demanda de manter a luta, seguir nos mobilizando de forma livre no agir e no pensar, cada um com suas demandas individuais e coletivas que nos protestos se amalgamam, rumo à possibilidade concreta e objetiva da conquista de mudanças.

Nós seguiremos participando e atuando para que o movimento se mantenha difuso, sem guias ou pastores e de forma permanente. O governo por seu lado sabe muito bem o que demandamos, o que queremos, já chegamos até a desenhar, que não se faça de logrado é o que pedimos, não precisa convidar ou nomear interlocutores é só ouvir, se for capaz, os brados das ruas.


* PEDRO VANZIN FILHO é Servidor Público Municipal, Caxias do Sul – RS, Graduado em Filosofia, Direito e História.

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3 comentários sobre “Às Ruas! Às Praças! Aos Protestos!

  1. Bela contribuição para o blog da REA. Destaco: “O número de movimentos e demandas além de históricos é de toda a ordem, o que atesta a constante e crescente omissão do Estado em fazer frente às demandas sociais pré-existentes. Os Protestos no Brasil não são de hoje, mas uma constante em todos os lugares, campo e cidade e temporadas. Na área rural temos os sem-terra, no meio urbano os sem-teto, sem-trabalho, outros. Na defesa do ambiente sustentável temos centenas de pessoas lutando cotidianamente, quer nas Organizações Não Governamentais, quer individualmente. Os Povos da Floresta, os Povos Paleoameríndios, os Quilombolas resistem e lutam não há dias ou meses, mas a dezenas de anos por seus direitos. A adoção do modelo de economia neoliberal, sobremodo a partir de 1990, agudizou ainda mais a distância entre Estado, governantes de plantão, e a sociedade civil independentemente de sua suposta matriz ideológica. As conquistas populares obtidas na Constituição Federal de 1988, por mais tímidas e claudicantes que sejam, passados 25 anos, paradoxalmente, ainda não saíram do papel. Só para ficarmos num exemplo simplório disso, citamos o caso dos direitos trabalhistas, os quais contam com vários estatutos impressos na Constituição Federal, diferenciando os trabalhadores em várias categorias e restringindo, com isso, direitos. Os direitos e deveres no mundo do trabalho têm que ser os mesmos, seja para a trabalhadora doméstica, para o/a Servidor/a Público/a e para o/a Operário/a da iniciativa privada, do contrário ficamos sem isonomia, o que possibilita a construção de diferenças salariais abissais como as que temos presentemente… Essa longa trajetória de penúrias do povo, obviamente teria que em algum momento se aglutinar como ocorre atualmente, sem descaracterizar as lutas específicas já travadas ao longo dos tempos…Os cidadãos/contribuintes que vão as ruas pedem muito pouco em troca dos governantes momentaneamente no poder, só querem respeito, dignidade, cidadania, fim da malversação dos recursos públicos, observância as leis e equidade e celeridade na justiça. Coisa que em muitos lugares já é centenário, aqui ainda é demanda… O bom dos movimentos que estão acontecendo é que estão rompendo com os modelos bolchevistas e monocráticos de concentração e fragilização das demandas sociais… Outro fato empolgante é que o movimento acentua seu caráter horizontal, sem os chamados e preclaros líderes de outrora, que preconizavam por organizações verticais e burocráticas…”
    Parabéns, Pedro Vazin Filho!

  2. Caríssimo PEDRO,

    O seu texto bem escrito, elegante, coerente e repleto de verdade é como uma água transparente e linda, que nasce em uma em uma montanha maravilhosa onde só há tudo de bom.

    Gosto muito de Caxias do Sul, do vinho, da comida melhor do Brasil, do povo alegre e acolhedor e também posso dizer de pessoas inteligentes e esclarecidas.

    Abraço de fé, esperança e paz.

    Vera Linden ( com a sua licença, vou repassar o seu texto)

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