Sobre os protestos contemporâneos no Brasil

THIAGO LEIBANTE*

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1. O “povo” nas ruas

A onda de protestos que vêm ocorrendo no Brasil nas últimas semanas certamente deixou e ainda deixa muita gente perplexa e confusa tentando compreender os acontecimentos em questão. Ocorre que de fato os elementos a serem elencados para uma possível compreensão desses eventos são vários e devem ser postos com o devido cuidado, pois no calor dos acontecimentos muitas vezes as análises que se fazem acabam sendo exacerbadas, tanto do lado “otimista” quanto do “pessimista”.

A dificuldade em se compreender os protestos contemporâneos no Brasil se dá em grande parte pela crescente diversificação e complexificação dessas manifestações ao longo das semanas. Uma mobilização que começou com uma reivindicação bastante pontual de redução da tarifa do transporte coletivo, inicialmente em São Paulo, viu no decorrer dos dias se estender a dezenas de outras cidades importantes do país e passar a reclamar diversos outros direitos e possíveis conquistas, como saúde e educação de melhor qualidade, fim da corrupção, e, sobrou até mesmo para a Copa do Mundo, devido aos altos gastos públicos com o evento (lembrando que várias manifestações já tinham sido feitas anteriormente contra a remoção de populações urbanas – dentre outras – devido às construções dos estádios).

Quando dizemos que as mobilizações passaram por uma crescente diferenciação foi justamente por que o aumento das demandas colocadas pelas pessoas nas ruas trouxe consigo diferentes formas de ver os problemas do país; ideologias e correntes políticas distintas dos manifestantes acabaram gerando cisões nos protestos e em alguns casos hostilidade entre os próprios sujeitos que ali se mobilizavam.

Também a chamada “opinião pública” – conceito bastante questionável, diga-se de passagem – mudou seu posicionamento acerca das manifestações, que, se nos primeiros dias eram atos de “baderneiros” e “vândalos”, passaram, de repente, a uma amostra de mobilização civilizada e democrática da sociedade brasileira.

2. Alguns elementos para compreender os protestos

Um primeiro elemento a ser colocado se refere ao tratamento dos aparelhos repressivos do Estado nessas manifestações. É óbvio que a repressão e truculência policial mais dura teve que ceder – um pouco – em certa medida devido ao grande número de denúncias de abuso da autoridade policial ao longo dos dias, mas uma coisa é certa: não temos no Brasil uma importante cultura política de reivindicações de massa. Nosso capitalismo periférico de cunho autocrático, para lembrar Florestan Fernandes, sempre soube coibir, reprimir e impedir muito bem qualquer mobilização da sociedade vinda dos “de baixo”.

Como segundo elemento gostaria de destacar a importância do “ir às ruas”. Sem considerar aqui os avanços concretos conquistados ou não, de fato essa demonstração de mobilização popular tirou da acomodação e passividade milhares de pessoas de todo o Brasil, muitas delas que inclusive nunca haviam participado de qualquer ato reivindicatório. Não temos um grande histórico de mobilizações, como já foi dito, mas isso não significa que não se possa construir algo nesse sentido. Os últimos atos mostram que essa possibilidade existe.

Um terceiro elemento se refere à questão organizativa das manifestações. Sem dúvida, os últimos protestos vivenciados foram chamados na sua grande maioria pela internet via redes sociais. Esse é um elemento importante e novo, pois revela novas formas de organização presentes na contemporaneidade, o que não significa, contudo, que a maioria das pessoas presentes nos atos não participaria e não teriam ido às ruas se não fosse o chamamento “virtual”. Não é possível atestar tal hipótese.

Ocorre que essa não participação majoritária em organizações políticas trouxe consigo outro elemento: a rejeição aos partidos políticos. Em coro milhares de manifestantes gritavam “sem partido, sem partido”. Certamente tal postura é reflexo da falta de representatividade política e a da aversão das pessoas à chamada política institucional. Tudo que é “política” acaba sendo visto com maus olhos e “cheirando” a roubalheira e corrupção.

O problema é que tal postura – bastante política, inclusive – se refletiu em hostilidade a manifestantes que portavam bandeiras de suas organizações e partidos, grande parte deles integrantes de partidos de esquerda. Assim, as manifestações que se colocavam como apartidárias se tornaram em muitos lugares também antipartidárias, o que deve ser visto como no mínimo preocupante se lembrarmos que ao longo do século XX no Brasil a esquerda em diversos momentos foi posta na clandestinidade e proibida de se organizar e se manifestar publicamente.

Essa mudança de rota mais à direita nas manifestações pelo Brasil não ficou restrita à hostilidade aos manifestantes partidários, mas também se refletiu nas demandas colocadas e no renascimento de certo sentimento de nacionalismo, que se torna um problema na medida em que grupos de extrema-direita passam a participar dos atos de protesto como sinônimo de patriotismo.

Políticas sociais do governo – como o bolsa-família – viraram também alvo dos protestos revelando um elemento de conservadorismo próprio da classe média brasileira, aquela que vê o Estado como mero “gastador” de recursos públicos que não lhe servem, já que essa camada da sociedade não faz uso dessa assistência do Estado e assim não se “beneficia” diretamente dos programas sociais. É como se o Estado fosse sustentando apenas com os impostos dessa camada da sociedade que não vê um retorno imediato do que lhe é cobrado, como se os trabalhadores assalariados não pagassem os mesmos impostos.

3. Para pensar os acontecimentos que virão

Não é possível adivinharmos quais serão os rumos das manifestações a partir de agora. Certamente se colocam várias incógnitas: os protestos cessarão? Se continuarem, quem estará à frente? Movimentos de esquerda como o “Passe Livre” ou a tendência é que os protestos dêem uma guinada cada vez maior à direita? Como ficará a questão da participação dos partidos políticos e dos movimentos sociais? E suas bandeiras, poderão ser erguidas? Muitas são as dúvidas, poucas as certezas.

O que se coloca como de fundamental importância é que os protestos e manifestações tragam algo de progressista – ainda que nos limites de nossa restrita democracia burguesa – e não se tornem combustível de movimentos de caráter conservador e reacionário.

Todo avanço na conquista e melhoria dos direitos é fundamental principalmente para aqueles que pertencem à classe trabalhadora e dependem dos serviços sociais do Estado para sobreviver. Tais serviços públicos sem dúvida sofreram uma perda de qualidade devido às transformações resultantes das chamadas políticas neoliberais, que passaram a priorizar o capital privado em prol do bem público. Assim, uma reversão desse quadro, ou seja, uma melhor qualidade dos serviços públicos deve passar pela pauta de qualquer movimento que se queira progressista, ainda que saibamos os limites dessas lutas e reivindicações mais pontuais.

Além dessas demandas, é preciso que haja uma pauta de resistência aos abusos que o capital comete diariamente contra os trabalhadores assalariados. Demandas como aumento do salário mínimo, redução de jornada de trabalho e melhores condições de vida para a classe trabalhadora nunca devem sair de cena. São sim, lutas históricas e que permanecem atualíssimas na medida em que continuamos a viver sob a égide do capital.

Saber, contudo, que tais demandas não levam a superação do modo de produção capitalista também é fundamental. Não temos nas ruas uma revolução. Esse é um processo de tamanha complexidade que não permite ingenuidades de nossa parte.

Mas, também, de outro lado, não podemos deixar de pensar que os problemas colocados pelo capital só serão superados de fato quando o próprio sistema for suplantado, e junto com ele, todas as mazelas e desigualdades decorrentes da uma sociedade que se pauta e só pode necessariamente se pautar na exploração de uma classe social por outra, na satisfação dos anseios do capital em detrimento das aspirações e desejos do trabalho.


leibante* THIAGO LEIBANTE é Professor colaborador do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina. Contato: thiagoleibante@hotmail.com

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5 comentários sobre “Sobre os protestos contemporâneos no Brasil

  1. tenho 38anos e a cada eleição, nos cidadãos reclamamos das mentiras apresentadas pelos politicos.porem na eleição seguinte é a mesma situação.agora que nos eleitore despertamospara a realidaes governadores colocam a policia que é violenta e covarde contra os eleitores.os politicos principalmente governadores parece ter esquecido da ditatura covarde e medilcre realizada “pela policia”.hoje esses policiais parecem “ser de outro planeta” pois agridem violentamente quem esta lutando por uma causa justa .sera que estes policiais e seus familiares não participam da vida em nossa sociedade,não estudam,não compram,não precisam de serviços oferecido pelas pessoas que “ele’ agridem.Para cada “policial e governadores “,a democracia não vale nada .O BRASIL precisa ter cuidado pois a policia em aspecto geral esta pronta para um ditadura perversa e não para defender a sociedade.em plena “democracia reportes e manifestantes são agredidos com balas de borracha no rosto.podemos imaginar a real intenção. obrigado pelo espaço

  2. Ótimo artigo! Cabe observar o seguinte: as manifestações levaram a presidenta Dilma tentar dar uma resposta propondo, entre outras medidas, um plebiscito para tratar da reforma política, rapidamente os partidos da direita (PSDB, DEM e PPS) reagiram prontamente contra a proposta, provando, dessa forma, o quanto a direita detesta o povo! No Brasil, o PMDB é uma espécie de “monstro político”, no Congresso Nacional ele elimina qualquer oposição e nenhum governo consegue governar sem aliar-se a ele, o pe-emedebismo é um mal brasileiro que precisa ser curado pelos eleitores desse país.
    Valdemi Rodrigues
    Fortaleza-ce.

  3. BOA ANÁLISE DO PROF. THIAGO LEIBANTE.
    DESTACO:
    A dificuldade em se compreender os protestos contemporâneos no Brasil se dá em grande parte pela crescente diversificação e complexificação dessas manifestações ao longo das semanas. Uma mobilização que começou com uma reivindicação bastante pontual de redução da tarifa do transporte coletivo, inicialmente em São Paulo, viu no decorrer dos dias se estender a dezenas de outras cidades importantes do país e passar a reclamar diversos outros direitos e possíveis conquistas, como saúde e educação de melhor qualidade, fim da corrupção, e sobrou até mesmo para a Copa do Mundo, devido aos altos gastos públicos com o evento (lembrando que várias manifestações já tinham sido feitas anteriormente contra a remoção de populações urbanas – dentre outras – devido às construções dos estádios). Quando dizemos que as mobilizações passaram por uma crescente diferenciação foi justamente por que o aumento das demandas colocadas pelas pessoas nas ruas trouxe consigo diferentes formas de ver os problemas do país; ideologias e correntes políticas distintas dos manifestantes acabaram gerando cisões nos protestos e em alguns casos hostilidade entre os próprios sujeitos que ali se mobilizavam. Também a chamada “opinião pública” – conceito bastante questionável, diga-se de passagem – mudou seu posicionamento acerca das manifestações, que, se nos primeiros dias eram atos de “baderneiros” e “vândalos”, passaram, de repente, a uma amostra de mobilização civilizada e democrática da sociedade brasileira.
    Um primeiro elemento a ser colocado se refere ao tratamento dos aparelhos repressivos do Estado nessas manifestações. Como segundo elemento gostaria de destacar a importância do “ir às ruas”. Sem considerar aqui os avanços concretos conquistados ou não, de fato essa demonstração de mobilização popular tirou da acomodação e passividade milhares de pessoas de todo o Brasil. Um terceiro elemento se refere à questão organizativa das manifestações. Sem dúvida, os últimos protestos vivenciados foram chamados na sua grande maioria pelas redes sociais da internet.
    Esse é um elemento importante e novo, pois revela novas formas de organização presentes na contemporaneidade, o que não significa, contudo, que a maioria das pessoas presentes nos atos não participaria e não teriam ido às ruas se não fosse o chamamento “virtual”. Não é possível atestar tal hipótese. Ocorre que essa não participação majoritária em organizações políticas trouxe consigo outro elemento: a rejeição aos partidos políticos. Certamente, tal postura é reflexo da falta de representatividade política e a da aversão das pessoas à chamada política institucional. Tudo que é “política” acaba sendo visto com maus olhos e “cheirando” a roubalheira e corrupção.
    O problema é que tal postura – bastante política, inclusive – se refletiu em hostilidade a manifestantes que portavam bandeiras de suas organizações e partidos, grande parte deles integrantes de partidos de esquerda. Assim, as manifestações que se colocavam como apartidárias se tornaram em muitos lugares também antipartidárias, o que deve ser visto como no mínimo preocupante, se lembrarmos que, ao longo do século XX, no Brasil, a esquerda em diversos momentos foi posta na clandestinidade e proibida de se organizar e se manifestar publicamente. Essa mudança de rota mais à direita nas manifestações pelo Brasil não ficou restrita à hostilidade aos manifestantes partidários, mas também se refletiu nas demandas colocadas e no renascimento de certo sentimento de nacionalismo, que se torna um problema, na medida em que grupos de extrema-direita passam a participar dos atos de protesto como sinônimo de patriotismo.
    Políticas sociais do governo – como o bolsa-família – viraram também alvo dos protestos revelando um elemento de conservadorismo próprio da classe média brasileira, aquela que vê o Estado como mero “gastador” de recursos públicos que não lhe servem, já que essa camada da sociedade não faz uso dessa assistência do Estado e assim não se “beneficia” diretamente dos programas sociais. É como se o Estado fosse sustentando apenas com os impostos dessa camada da sociedade, que não vê um retorno imediato do que lhe é cobrado, como se os trabalhadores assalariados não pagassem os mesmos impostos.
    Todo avanço na conquista e melhoria dos direitos é fundamental, principalmente para aqueles que pertencem à classe trabalhadora e dependem dos serviços sociais do Estado para sobreviver. Tais serviços públicos, sem dúvida, sofreram uma perda de qualidade devido às transformações resultantes das chamadas políticas neoliberais, que passaram a priorizar o capital privado em prol do bem público. Assim, uma reversão desse quadro, ou seja, uma melhor qualidade dos serviços públicos deve passar pela pauta de qualquer movimento que se queira progressista, ainda que saibamos os limites dessas lutas e reivindicações mais pontuais. Além dessas demandas, é preciso que haja uma pauta de resistência aos abusos que o capital comete diariamente contra os trabalhadores assalariados. Demandas como aumento do salário mínimo, redução de jornada de trabalho e melhores condições de vida para a classe trabalhadora nunca devem sair de cena. São sim, lutas históricas e que permanecem atualíssimas na medida em que continuamos a viver sob a égide do capital. Saber, contudo, que tais demandas não levam a superação do modo de produção capitalista também é fundamental. Não temos nas ruas uma revolução. Esse é um processo de tamanha complexidade que não permite ingenuidades de nossa parte, mas também não podemos deixar de pensar que os problemas colocados pelo capital só serão superados de fato quando o próprio sistema for suplantado…

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