As manifestações no Brasil: balanço e perspectivas

cogaBRUNO COGA*

Nos últimos dias, o Brasil foi tomado por uma onda de protestos que chegou a reunir num único dia mais de 1 milhão de pessoas nas ruas das principais cidades do país. Até o fechamento dessa nota as lutas seguem, apesar do recuo por parte das administrações municipais e estaduais no aumento das tarifas dos transportes públicos e das medidas anunciadas pelo governo federal para tentar amenizar a situação. Nem mesmo a Copa das Confederações (ou talvez por conta dela mesma) foi capaz de segurar este “gigante”. Governismo, oposição de direita tradicional e até a esquerda foram pegos de surpresa com os atos que tomaram o país. A pergunta que todos estamos nos fazendo agora é: mas, afinal, o que aconteceu? Para responder essa pergunta, é necessário antes localizar o Brasil no cenário internacional.

Nova situação mundial

Desde 2008, o mundo capitalista vive uma nova situação mundial, caracterizada por guerras, crises e revoluções. Essa nova situação, a qual se materializou inicialmente através de uma importante crise econômica, com epicentro nos Estados Unidos e Europa, rapidamente se desenvolveu, tomando contornos de polarização social, com sua principal expressão nas revoluções do mundo árabe e Grécia, mas que atinge praticamente todos os continentes. Seja através das sucessivas greves gerais na Europa, ou pelas grandes mobilizações sociais nos EUA, ou ainda, as lutas da juventude que ocorrem em inúmeros países. Em síntese, estamos vivendo uma nova situação mundial, com as maiores transformações sociais, desde a queda do Muro de Berlim, determinada pela combinação de crises econômicas, crise dos países imperialistas e crises políticas.

Até o momento, o Brasil vinha se mantendo à margem dessa nova situação mundial. Primeiro, porque do ponto de vista da economia, em que pese o crescimento pífio no último período, o país ainda não sofreu de forma contundente os reflexos da crise econômica mundial. Segundo, pelo peso do governo de frente popular, que até o momento, contou com um enorme prestígio entre as massas e sempre esteve apoiado nas burocracias sindicais para conter greves e mobilizações.

A situação do Brasil

Embora o estopim dos protestos tenha sido o aumento das tarifas dos transportes públicos, é a política econômica do governo federal o principal motivo do povo nas ruas. O aumento nos índices de inflação e o endividamento das famílias reduzem o poder aquisitivo dos assalariados. Apesar disso, a política de desoneração fiscal e os gastos da copa, também expõem a contradição entre os recursos destinados à manutenção das taxas de lucros dos grandes capitalistas e os investimentos nas áreas sociais, cuja qualidade é cada vez mais precária. Soma-se a isso a crescente criminalização dos movimentos sociais, expressa tanto nas desocupações urbanas, das quais o Pinheirinho foi o principal exemplo, quanto na repressão policial aos protestos contra o aumento das passagens em São Paulo e o caldo de cultura para a explosão que se sucedeu está pronto. Importante salientar ainda, que embora fosse muito difícil prever a magnitude do processo, os sinais dessa explosão já vinham se propagando no horizonte há algum tempo. As greves dos operários da construção civil pesada, em especial o levante de Belo Monte, o aumento do número de greves no último ano, entre elas a greve das Universidades Federais, a dimensão que tomou o Fora Feliciano e o próprio tema das opressões na sociedade, são exemplos dessa “esquerdização”. Além disso, o processo de reorganização do movimento sindical e estudantil corrobora para o desenvolvimento desse cenário.

Quem está nas ruas?

O principal motor das mobilizações até agora tem sido a juventude e a classe média urbana, e não podia ser diferente. A juventude, porque, entre outros motivos, é do ponto de vista subjetivo mais sensível aos processos que ocorrem em nível internacional. Já a classe média assalariada, porque é o setor mais atacado pelo governo para que este possa seguir aplicando as políticas sociais compensatórias, que garantem uma base de apoio entre as camadas mais empobrecidas da população sem que isso signifique atacar os lucros dos grandes capitalistas.  Os setores organizados da classe trabalhadora ainda não entraram em cena e é isso que explica o caráter mais fluido das mobilizações. A “aparente” falta de direção e de um eixo ordenador das reivindicações, o papel das redes sociais como forma alternativa de articulação das mobilizações e também o sentimento antipartido de uma parcela significativa dos que saem às ruas. Ao passar por fora dos aparatos tradicionais da classe trabalhadora, o movimento não assimila seus métodos tradicionais de luta e sua direção. A maioria dos grandes atos no país foi organizada por simples chamados pelas redes sociais.

O choque com as instituições do regime democrático burguês e o sentimento antipartido

O processo que se abre é a primeira onda contra a frente popular e ainda que se choque de maneira mais pontual contra os governos municipais e estaduais, atinge Dilma em cheio. Há um enfrentamento direto das mobilizações contra o regime democrático burguês e a maioria de suas instituições, em especial os partidos políticos. Como a frente popular trouxe apoio aberto ao governo e integrou ao regime a maioria absoluta dos sindicatos, a CUT, a UNE e também o MST, essa onda abarca então uma contestação aberta a todas essas instituições, incluindo os partidos. Porém, este sentimento antipartido tem gerado certa confusão na vanguarda. Os gritos contra as bandeiras das organizações de esquerda que compõem os atos e os ataques de provocadores estimulados e organizados por grupos de ultradireita, têm levado a interpretações equivocadas de que o movimento como um todo é de direita. É preciso separar o joio do trigo. Esse sentimento dos manifestantes, que é fruto, por um lado, da indignação contra os partidos majoritários e políticos tradicionais e, por outro, da experiência com o PT, é legítimo e progressivo (na medida em que exprime essas experiências), porque é parte fundamental do enfrentamento com as instituições do regime democrático burguês.

Evidentemente, o termo “progressivo” é relativo. É progressivo em geral, porque como já dissemos, é parte do enfrentamento com o regime. No entanto, quando se estende contra os partidos de esquerda e as organizações da classe trabalhadora como sindicatos e outros movimentos contrários ao governo de frente popular, passa a ser regressivo. Diante disso, saber entender esse fenômeno é fundamental para disputar a consciência das massas e ajudar a superá-la.

Há o risco de um golpe militar no Brasil?

Outro debate que se instalou na esquerda e que em parte é fruto da discussão anterior, é se existe ou não risco de um golpe militar no Brasil. Nesse sentido, nossa opinião é categórica, ao contrário do que dizem o PT e PCdoB, não existe hoje no cenário nacional, o risco de um golpe militar contra o governo de frente popular. Isso porque o movimento não é dirigido pela direita, aliás, as pautas levantadas nas manifestações são progressivas e em geral se aproximam dos programas da esquerda brasileira. A presença de setores de direita e ultradireita nas mobilizações é produto do choque das mobilizações contra o governo de frente popular e da tentativa desses setores em disputar sua direção. Além disso, a burguesia como um todo teme a mobilização das massas, basta ver o tratamento que a grande imprensa tem dado ao fato, primeiro tentando desqualificar as manifestações, depois dando destaque ao caráter “pacífico” das mesmas, ao mesmo tempo em que joga com os protestos violentos, de forma a criar uma imagem que se choca com os interesses dos manifestantes. Trata-se de uma tentativa de fazer com que os que estão nas ruas voltem pra casa antes que a coisa “saia do controle”. Não duvidamos que a oposição de direita tentará capitalizar o desgaste do governo nas eleições de 2014, mas se o PT e PCdoB falam que a mobilização é de direita e que existe ameaça de golpe, é porque querem seguir defendendo o governo Dilma. O que existe sim, é o risco de uma bonapartização do governo, colocando as forças armadas nas ruas para defender o governo, o que poderia ser apoiado pela oposição de direita, também apavorada com as mobilizações.

Para onde vai o movimento?

Como evoluirá o movimento ainda é uma incógnita. Seguirá o ascenso ou haverá um refluxo das mobilizações? Terá a mesma dinâmica de atos unificados ou se fragmentará ao redor de temas definidos? Entrará ou não em cena a classe trabalhadora organizada? O que acontecerá depois da copa? Nada disso ainda está definido. Nesse sentido, o Dia Nacional de Greves e Manifestações, marcado pelas centrais sindicais para o dia 11 de julho, traz grandes expectativas. Mas uma coisa é certa, mesmo se houver um refluxo, a realidade do país não voltará a mesma situação de antes das mobilizações. Houve uma modificação brusca na relação de forças entre as classes em luta que muito provavelmente irá se expressar também em distintas conjunturas no futuro. Com toda certeza, as campanhas salariais no segundo semestre e mobilizações como a luta contra os leilões do petróleo e privatização dos aeroportos já se darão em base a essa nova realidade.


* BRUNO COGA é Servidor Técnico Administrativo da UEM e militante do PSTU.

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4 comentários sobre “As manifestações no Brasil: balanço e perspectivas

  1. ESPECIAL – PROTESTOS NO BRASIL. Desta análise de Bruno Coga, destaco:
    “…a política de desoneração fiscal e os gastos da copa…expõem a contradição entre os recursos destinados à manutenção das taxas de lucros dos grandes capitalistas e os investimentos nas áreas sociais, cuja qualidade é cada vez mais precária. Soma-se a isso: a crescente criminalização dos movimentos sociais, expressa tanto nas desocupações urbanas quanto na repressão policial aos protestos contra o aumento das passagens em São Paulo… É importante salientar ainda que, embora fosse muito difícil prever a magnitude do processo, os sinais dessa explosão já vinham se propagando no horizonte há algum tempo. As greves dos operários da construção civil pesada, em especial o levante de Belo Monte, o aumento do número de greves no último ano, entre elas, a greve das Universidades Federais, a dimensão que tomou o Fora Feliciano e o próprio tema das opressões na sociedade são exemplos dessa “esquerdização”. Além disso, o processo de reorganização do movimento sindical e estudantil corrobora para o desenvolvimento desse cenário… O principal motor das mobilizações até agora têm sido a juventude e a classe média urbana…A classe média assalariada é o setor mais atacado pelo governo para que este possa seguir aplicando as políticas sociais compensatórias, que garantem uma base de apoio entre as camadas mais empobrecidas da população, sem que isso signifique atacar os lucros dos grandes capitalistas. Os setores organizados da classe trabalhadora ainda não entraram em cena. É isso que explica o caráter mais fluido das mobilizações: a “aparente” falta de direção e de um eixo ordenador das reivindicações, o papel das redes sociais como forma alternativa de articulação das mobilizações e também o sentimento antipartido de uma parcela significativa dos que saem às ruas. Ao passar por fora dos aparatos tradicionais da classe trabalhadora, o movimento não assimila seus métodos tradicionais de luta e sua direção. A maioria dos grandes atos no país foi organizada por simples chamados pelas redes sociais…”
    Ah, sim, que haja muitas teses, artigos, dissertações, etc, mas que seus efeitos na escrita não fiquem somente nela. Que se tornem atitude no dia a dia de informar, debater e acolher os não convencidos! Que os textos, como os partidos, não se tornem autorreferidos!
    Parabéns, Bruno!

  2. Minha posição sobre as manifestações já foi dita e consta dessa já longa lista de análises…
    Mas, vejo um lado muito negativo nisso tudo, particularmente desagradável para quem trabalha numa universidade: pelos meus cálculos, essas manifestações devem render 475 teses de doutorado, 890 dissertações de mestrado, 5.450 artigos (18.870 caso sejam consideradas as co-autorias) e 638 GT’s nos próximos encontros de área.
    Socorrro!!!

  3. parece que até pode ser luta de classe, mas nestas manifestações o que está se impondo é a burguesia, assumindo “bandeiras”” sem bandeiras querendo desqualificar conquistas como a democracia.

  4. O jornalista americano que ficou célebre pela frase dirigida a George Bush – “É a economia, estúpido!” – pode ser parafraseada: “É a luta de classes, estúpido!”. As mobilizações do 19-J na Espanha (ver artigos) e as da praça Syntagma na Grécia expressam um salto nas ações e na consciência das massas. São ações diretamente políticas contra os governos que se submetem às exigências do mercado financeiro. Grécia e Espanha estão deixando de ser pequenos problemas para se tornarem os terrenos mais críticos da crise econômica mundial. A Europa é o continente mais revolucionária da história. Os trabalhadores gregos já realizaram uma revolução esmagada pela ocupação nazista, e a Espanha carrega a tradição da luta pela república. A nova consciência se movimenta em atos de rua, acampamentos, praças tomadas, marchas gigantes. Como escreveu Negri, há um novo republicanismo na Espanha, efetivo, que enxerga a incompatibilidade entre democracia e mercado financeiro.

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